16 junho 2009

A VIDA NÃO ESQUECE - por José do vale Pinheiro Feitosa

Somos uma caixa de ressonância? Espaço em que as coisas se repercutem muito depois de acontecidas? Não somos, mas parecemos tal, assim como uma metáfora de mariposas ao derredor da luz. A luz, os acontecimentos que nem sempre brilharam na primeira impressão, no exato instante da ocorrência. Mas depois se mostraram como tais e se movem na mente com toda a realidade de então.

Iguais aqueles janelões da sala da frente da casa da Batateira. Uma luz matizada, totalmente cor e forma. Muito de cheiros, sutilezas de ouças e um tato de brisa fria das manhãs de junho. Mais de uma dezena de quilômetros de canavial se estendendo à frente na planície do vale do rio Batateira. Na margem esquerda a planície do arisco que recebe o riacho dos cochos e ali toma o sentido do rio na linha do alto do Urubu. Na margem direita a planície que termina no alto do Seminário. Lá no fundo os morros de Juazeiro, inclusive o horto de onde um dia surgiu a estátua branca do padre Cícero.

Feito a bodega de Joquinha. Um somatório de odores, tão intensos e inebriantes que impressionam por ondas: azedo do fumo de rolo, solvente do sabão em barra, sufocante como o pó dos legumes, fibroso como da corda nova. E somando-se ao todo o cheiro de couro, o incômodo da cola, a poeira das prateleiras, o cheiro da penumbra e até cheiro de prego caibral. E dela a imagem mais permanente que a visão guardou: os grandes tijolos do breu, amarelo como as águas paradas, sobre o balcão desgastado de tantos anos de atendimento.

Os slides, uns após outros, de uma totalidade que agora guarda um sentido que antes a mente não juntava. Assim como a doçaria de Sr. Augusto no cimo da rua dos Cariris; a serralheria da qual um dia se criou um carro, movido a motor de casa de farinha, com suas engrenagens de roldanas articuladas por correias comuns e o mais de tudo, até um helicóptero o dono fez, que subiu sozinho, pois o motor não suportaria o peso de uma pessoa. Um posto de gasolina à beira canal e nas vizinhanças, em frente ao Hotel Tabajara uma borracharia na qual se costumava ver o Luiz Lua Gonzaga no seu ostracismo exuniano dos anos 60.

Um microfone próximo à voz anunciando as ofertas das lojas de tecido na plenitude da segunda feira. As ruas entulhadas de gente e mercadoria, os corpos esgueirando-se entre si e através das bancas. A cidade juntava em 48 horas os extremos de sua urbanidade. Logo após o vazio comercial do domingo, descia a enxurrada da feira com suas mercadorias em caminhões e animais. Uma casa da rua João Pessoa, a de número 114, muito especial na minha infância, tinha um terreno enorme com fundo corresponde para a Santo do Dumont e nele um portão pelo qual entrava e se guardavam dezenas de cavalos e burros.

Por forma da vida, a segunda feira, intensa, comercial, com o lixo nas ruas, era um dia muito especial. Nestas fugia para o cine Moderno e assistia ao filme que o domingo não pudera. Cinema para criança era modulado por notas no colégio, disciplina na sala de aula e bobagens do arranjo doméstico. No azáfama da feira o controle paterno se perdia e fugia com os sons, cores e movimentos de Hollywood.

José do Vale Pinheiro Feitosa

7 comentários:

  1. Nem tão pouco quem a viveu ...

    Domingo passado minha madrinha de batismo faleceu aos 86 anos.(Eurídice Alves)
    Ela foi noiva ,na mocidade, de Vicente do Vale Feitosa , que era também meu padrinho.
    O nr. 114 da Rua Dr. João Pessoa é inesquecível. Visitei esse endereço , a primeira vez ,antes das primeiras passadas. Ele me sentava em cima do balcão...Acredita que ainda lembro o seu sorriso ?
    Durante minha infância , visitei Dona Leonarda , na Batateira , em companhia da minha madrinha.Tenho o cheiro daquela casa em mim.
    As coisas não passam quando deixam na memória lembranças felizes.
    Essas lembranças nos pertencem.Podemos compartilhá-las , e soltar o lado mais bonito do nosso universo afetivo.

    José do vale, seus textos nos comovem !
    O Senhor é muito amado pelos seus conterrâneos.

    ResponderExcluir
  2. Prezado José do Vale

    Gostei do seu relato sobre o Crato do passado. Relembrei muito bem o movimento e barulho da feira, pois morei num casarão da rua João Pessoa, perto da Igreja de São Vicente, no local onde hoje fica a Loja Zenir. O seu texto me fez recordar bons momentos da minha infância e adolescência.
    Parabéns

    ResponderExcluir
  3. Josá do Vale,

    Esses cheiros todos do passado não são mais acres nem mais nos repugam ou afetam nosso olfato exigente.

    Hoje o tempo se encarregou de recobrir essas tantas lembranças de pura doçura, mas também com a aguda certeza de que vivemos numa época em que os produtos industriais ainda não infernizavam nem impregnavam nosso organismo de plásticos e toxinas de forma tão alarmante...

    Hoje também, os olores de outrora dão brilho à poesia. São puro encantamento. Libertam saudades e eternizam os cenários de nossa história.
    Perfeito, per-feito, perfeitamente!

    Abraço,

    Claude

    P.S. Liguei pra você para convidá-lo para meu aniversário em Crato. Embora chamasse não houve resposta.
    Mas, fica aqui meu convite!!

    ResponderExcluir
  4. José do Vale

    Já faz um tempo que leio seus escritos por meio dos amigos e do Blog do Crato, mas não me sentia com direitos de mencionar minha opinião. Me aproximei dos escritores quando participei do cursso, OFICINA DA ESCRITA, ministrado por Claude Bloc na Urca, e agora recebi um convite de Dihelson para me juntar aos companheiros do Blog. Mais àvontade, lhe confesso que sinto-me viver nos seus versos e os seus escritos faz qualquer um de nós cratenses, fechar os olhos e voltar ao tempo. Sou mais uma admiradora oculta das muitas existentes nas noites a navegar, E como disse nossa amiga, Socorro Moreira . O Senhor é muito amado pelos seus conterrâneos.

    Com admiração
    Edilma Rocha

    ResponderExcluir
  5. Edilma, você agora é membro permanente do Blog do Crato. Use o seu Login e Senha de acesso para não precisar eu liberar seus comentários...

    Abraços,

    Dihelson Mendonça

    ResponderExcluir
  6. Ser lembrado,
    ser amado
    é tão bom
    como o é ser bom.

    Desmereço tanto amor?
    Jamais e por ele lutarei,
    golpes no ar,
    mergulho de solidão,
    deitar no chão como neve a derreter.

    E rubro como pimenta,
    envergonhar-me do insuficiente,
    não poder gerar mais futuro,
    além do último suspiro.

    É tão bom ser amado,
    por ser de um ninho amado,
    a seriema da chapada,
    pondo seus ovos de canavial.

    ResponderExcluir
  7. Ser lembrado,
    ser amado
    é tão bom
    como o é ser bom.

    -Bom mesmo é ser lembrado
    -Em cada curva da história
    -Na boca da madrugada
    -Na tês da manhã desfraldada.

    Desmereço tanto amor?
    Jamais e por ele lutarei,
    golpes no ar,
    mergulho de solidão,
    deitar no chão como neve a derreter.

    -A neve, por que a neve,
    -Deveria derreter?
    -Se lá de cima da serra
    -O Vale a gente vê?
    -Com o calor da saudade
    -Que se tem de você?

    E rubro como pimenta,
    envergonhar-me do insuficiente,
    não poder gerar mais futuro,
    além do último suspiro.

    -Por que um menino grande
    -Deveria enrubescer-se
    -Mergulhando no espaço
    -Dando golpes onde não vê...??

    É tão bom ser amado,
    por ser de um ninho amado,
    a seriema da chapada,
    pondo seus ovos de canavial.

    -Pois de cima da chapada
    -A gente chama você
    -Para a tal festa da Claude
    -(depois do anoitecer)
    -Mesmo sabendo que nela
    -Não vai mesmo aparecer...

    ResponderExcluir

Visite a página oficial do Blog do Crato - www.blogdocrato.com - Há 10 Anos, o Crato na Internet.