23 junho 2009

Tipos populares do Crato (5)

Capela

Por Carlos Rafael Dias

O Crato sempre foi uma terra de contrastes. A elite convive (até certo ponto) com os seus subprodutos: bêbados, homossexuais, prostitutas, mendigos e loucos.

Dentre esses subprodutos, um homossexual impôs respeito tanto pela dignidade como pela valentia. Era Capela, um espécime alto, corpulento e de cor branca. Não tenho certeza, mas parece que ele trabalhava nos inúmeros cabarés existentes além da linha férrea, que era um verdadeiro divisor entre a boa sociedade cratense e a aquela que era taxada como a pior das escórias.

Em 1983, estávamos eu, Jackson Bola Bantim e Leonel Araripe, fazendo a pré-produção de um filme que pretendíamos realizar na bitola super-8. O filme já tinha um roteiro escrito (de autoria de Leonel Araripe) e até um título, que fazia jus ao seu enredo vanguardista: Um lance de dados, numa alusão ao poema de Mallarmé. O filme só não foi concluído por falta de verba.

Mas, num dos estudos de iluminação e locação, feito ao amanhecer, nos trilhos próximos da Estação da Rffsa, encontramos Capela, que não sabíamos se vinha chegando ou se ia indo embora, pois havia cabarés nas duas direções. Mas, fizemos algo temerário: pedimos para Capela posar para uma fotografia.

Ele, amavelmente, consentiu e até fez pose.

2 comentários:

  1. Carlos Rafael
    Você tem nos presenteado, com o que de mais belo se pode escrever: a alma do povo.
    Tenho acompanhado com carinho essas crônicas, e tenho certeza que sairão belas páginas para um livro memorável, que resgatará nossos tipos prediletos, que marcaram com louvor belos momentos das nossas lembranças.

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  2. Carlos,

    Veja o olhar do tempo. O Capela que poderia ser igualado em histórias e fama ao Zé Tatá de Fortaleza (o primeiro viaduto de Fortaleza era chamado pela cidade de Tatazão), era no meu tempo um homem alto e muito magro. Como acabo de saber engordou com o tempo. Isso é o que tempo faz com o nosso corpo. E para lembrar, daquele tempo, não sei se alguém recorda, existia o Zé Francisco que fazia faxina como diarista nas casas da cidade.

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