27 junho 2009

Sobre Futebol - Por: José Nilton Mariano Saraiva

Às vésperas da Seleção Brasileira de Futebol “faturar” mais um título internacional (Copa das Confederações), mais pela fragilidade dos adversários do que propriamente por merecimento, pedimos a compreensão dos amantes do futebol, aqui do blog, para algumas reminiscências (particulares), a respeito do futebol.
Quando o futebol era algo sério, os jogadores considerados titulares levavam às costas a numeração de 1 a 11 e os chamados “reservas” (que ficavam “todos” no banco), a numeração de 12 a 22 (hoje, o perna-de-pau é que escolhe o número que mais lhe aprouver, que tanto pode significar o milhar com o qual foi sorteado no jogo-do-bicho, no dia anterior, como uma tal raiz quadrada de um número imaginário, mesmo que ele são saiba o que isso venha a significar);
Quando o futebol era algo sério, todos os jogadores entravam em campo com um uniforme padrão: mangas curtas ou longas, impecavelmente iguais (hoje, se algum perna-de-pau quer aparecer na TV, ser notado ou “diferente”, entra em campo com uma camisa de mangas curtas (se as dos demais colegas forem de mangas longas), ou com mangas longas (se as dos demais colegas forem de mangas curtas); inclusive em jogos da seleção brasileira, numa total falta de respeito à torcida e à própria pátria);
Quando o futebol era algo sério, os jogadores (todos eles) calçavam “chuteiras pretas”, rigorosamente pretas, se possível engraxadas antes do jogo (hoje, qualquer time que adentre o gramado, mas parece uma escola de samba com suas diversas alas multicores, aqui estampadas nas chuteiras do perna-de-pau posudo);
Quando o futebol era algo sério, não tinha essa de as “maria-chuteiras” da vida serem convocadas à noite e às pressas, à concentração do selecionado nacional, visando consolar o perna-de-pau depressivo ou tremendo de medo do adversário do dia seguinte e, ao sair, após uma noite de sexo, ser tratada pela imprensa como uma heroína nacional (como aconteceu com os “pombinhos” Ronaldo/Suzana Werner, em uma das Copas do Mundo da qual participou);
Quando o futebol era algo sério, os salários eram aceitáveis e situados dentro de um limite razoável em confronto com outras profissões (hoje, o salário mensal de qualquer jogador mediano se situa na estratosfera, permitindo-lhe o luxo de substituir, através de um tal de “aplique”, o cabelo “pixaim” original por volumosa e esvoaçante cabeleira (aqui, o argentino Tevez é o exemplo mais emblemático), enquanto que a remuneração paga ao “astro” principal lhe permite adquirir, se assim o quiser, um big apartamento-cobertura a cada mês ou, ainda, simplesmente fazer algum programa diferente e exótico com travestis anônimos).
Em homenagem ao tempo em que o futebol era algo sério, tomamos a liberdade transcrever a crônica abaixo, de 2006.

José Nilton Mariano Saraiva
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A “CHUTEIRA PRETA”
A chuteira preta não melhora o esquema tático de time algum. Feia e fora de moda, sozinha ela não sabe o caminho das redes nem o da sexta estrela no céu dos comerciais. Mas faltou ela, digna e cheia de lama, amaciada com jornal de ontem, para contar aos jogadores do Parreira as lições de história e civismo dos que vieram antes e colocaram essa pátria mixuruca literalmente em pé nos estádios de todo o mundo. Daria moral.
A chuteira preta, se é que eu me faço claro na vontade de entender a escuridão futebolística em que nos metemos, não ficaria ajeitando as meias na entrada da área enquanto o francês enfia a bola para dentro das nossas redes. Ela vai na bola de qualquer jeito, não está preocupada em mandar mensagens ao pessoal do marketing da Nike.
A chuteira preta, coisa de museu do Maracanã, é prima pobre da chuteira amarela, azul, vermelha, prata, lilás, etc - mas tem vergonha na cara. Não compactuaria com os comerciais da Skol, em que os brasileiros ganham dos argentinos porque a trave se mexe a nosso favor.
A chuteira preta é senhora obsoleta na terra dos bandidos espertos. Ela devia ter feito pelo menos uma preleção aos jogadores-modelo do Armani e acertado, se não o passo, o caráter dessa gente antes bronzeada e agora só patrocinada. Ela estava nos pés do Barbosa contra o Uruguai, no do Toninho Cerezo no Sarriá. Ela sabe tudo dos grandes heróis nacionais que perderam com a cabeça erguida, e ao mesmo tempo calçava também Romário para ele dar o biquinho genial contra Camarões em 94. Viu de tudo e sabe. Faltou tesão. Para falar a língua que os novos jogadores entendem, faltou patrocínio do Viagra na chuteira dourada desses chupadores de sorvete verde da Kibon. Está visto pelos que sofreram com o Brasil e França de anteontem, está definitivamente confirmado pela nossa mais profunda decepção com a apatia brocha desses patetas, que só os tolos acham o futebol um jogo a ser resolvido na bola.
Faltou o “humildificador-macho” da chuteira preta com a inscrição de todas aquelas partidas inesquecíveis que tiraram o Brasil do canil dos vira latas e reinventaram, para proveito de todo mundo, o brinquedo do futebol. Ela não arredondaria o quarteto mágico, não tiraria cinco anos do Cafu ou vinte quilos do Ronaldo. Não é disso que se está sofrendo. A chuteira preta é uma postura de vida. Não canta de galo, não afronta, pois aprendeu ouvindo Noel que o revólver entrou em cena para acabar com a valentia. Sabe, de tanto ver futebol na televisão, que todos os times do mundo jogam a mesma bolinha - e a diferença está no talento e na dedicação ao jogo. O talento brasileiro - viu-se por todo o mês de junho - é exclusivo do Gatorade e da Brahma. A dedicação vai junta no pacote - só serve às bandeiras dos novos donos.
Na simplicidade cromática que a chuteira preta carregava não vinha escrito "nascido para jogar futebol", como na camiseta Nike-Seleção. Vinham inscritos o vigor do Dunga e a folha-seca do Didi, todos do meio do campo, todos começados por “D”, todos certos de que para cada tempo se vai na bola de um jeito - mas sempre com “Dignidade”. Vontade, hombridade, seriedade, essas caretices que não avançam um passo no que interessa ao jogo de hoje: comer todas as louras, encher todas as burras de euro e ganhar a bola de ouro daquela revista francesa.
A chuteira preta está por fora e isto aqui é só um necrológio a essa dama linda que já se foi faz tempo. Ela não imprime bem no vídeo de plasma ou LCD, fica chapada no gramado verde, não salta aos olhos a marca do patrocinador - mas quanta sabedoria moral ela carrega em cada trava, quanta lição de postura viril em cada costura de seus cadarços.
A chuteira dourada, o laço de fita nos cabelos, os relógios-apartamento no pulso do Roberto Carlos. Esse foi o Brasil na Copa. Acreditamos, Parreira dizia toda noite, que com a Golden Cross ao nosso lado ficaria mais fácil. Tudo mentira. Se Ronaldinho fosse na bola com a fúria que ele passou esses meses todos correndo atrás do desodorante Rexona roubado no vestiário, estaríamos na semifinal contra os portugueses.
Faltou chuteira preta, séria, cívica, nos pés e no lombo deles também. Esse passadismo, só superado pela geladeira branca, está impregnado de Gerson, Brito e Tostão suficientes para ser calçado nos pés das focas do Santander e dar força brasileira, injetar uma overdose de Almir Pernambucano dos mercenários. Daria vergonha na cara dos apátridas. Faria como nos velhos tempos, antes do futebol virar um show de rock globalizado, quando os filhos teus não fugiam à luta nem ficavam olhando como o telão no alto do estádio está divulgando sua imagem para os futuros patrocinadores.
Foi uma tragédia. Trocou-se o quadrado mágico pelo Juninho Pernambucano, o Cafu pelo Cicinho. Não eram esses, vêem-se agora, os problemas. Robinho é da Vivo, Ronaldinho da Oi. Evidentemente não se telefonavam para organizar o movimento, orientar o carnaval e inaugurar um novo monumento em honra ao futebol no planalto central do país. Nada deu certo.
A chuteira preta da humildade, com suas mil e uma utilidades, teria colocado a bola no chão, a cabeça no foco e o coração em jogo. O Ronaldo toma Brahma e a propaganda mostra. Não dá a primeira para o santo. Não dá para ninguém. Nunca fomos tão individualistas, sem sentido de equipe. A pátria da chuteira preta era o contrário e o “sobrenatural de Almeida” do Nelson Rodrigues, que Deus nos tenha a todos, devia atirar um par delas - acordem, muquiranas! - no quengo desses Ronaldo’s de anteontem.
Que pesadelo!
Autoria: Joaquim Ferreira dos Santos (O Globo, 03/07/2006)
Postagem: José Nilton Mariano Saraiva
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