16 junho 2009

Origens da rivalidade entre Crato e Juazeiro (I)

O processo de emancipação de Juazeiro

Em 1834, o México entrou em guerra contra os EUA. Foi, assim, a primeira vítima do militarismo norte-americano, perdendo o território que hoje compreende os estados do Texas, Novo México e Califórnia. Surgiu, neste contexto, a famosa frase coitado do México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos.

Faço alusão a esta frase para, guardada as devidas proporções, analisar a relação conflituosa que o Crato mantém com o Juazeiro do Norte, e vice-versa, já há bastante tempo e que ainda persiste, apenas com a renovação de contornos. Neste caso, gostaria de parafrasear o caso mexicano ao qual, de acordo com uma análise qualitativa, pode ser diametralmente oposto: (coitado ou feliz?) do Crato, tão longe de Deus e tão perto do Juazeiro...

O antagonismo entre as duas principais cidades caririenses parece que tem uma origem mais forte no processo de emancipação política de Juazeiro, o que levou a um renhido e tenso embate entre as elites políticas das duas localidades. Igualmente, a posição explicitamente contrária do clero cratense com respeito aos supostos milagres de Juazeiro, é um antecedente que veio a fermentar inicialmente esta rivalidade. Da mesma forma, deve-se considerar, como um importante fator desse processo, a ascensão econômica de Juazeiro, já no início do Século XX. Este acelerado desenvolvimento, fruto das crescentes romarias, foi o argumento utilizado pelo movimento encetado pelas lideranças juazeirense em favor da autonomia do então distrito do Crato. No entanto, o motivo central do desejo emancipacionista era muito mais a exação fiscal em benefício do Crato sobre as receitas geradas no comércio de Juazeiro.

Se já havia toda uma base fermentada para o crescimento do confronto, faltava, pois, quem se dispusesse a amassar a massa e, ao mesmo tempo, instigar as massas para a causa emancipacionista. Esse papel foi exercido pelos editores do jornal O Rebate[1], hebdomadário que circulou entre julho de 1909 e agosto de 1911. Segundo Rosilene Alves de Melo, “o objetivo principal do jornal era propagar a defesa levada a efeito pela elite política de Juazeiro contra as acusações que partiam da imprensa do Crato, que qualificava aquele lugar como antro de fanatismo e de banditismo"[2]. Como resultado da propaganda anticratense, a população, mobilizada, decidiu boicotar o pagamento de impostos municipais recolhidos ao Crato.

Ainda é Rosilene Alves de Melo quem nos dá a seguinte informação: “o artigo publicado no dia 04 de abril de 1910 informa aos leitores que o coronel Antonio Luiz Alves Pequeno, principal chefe político do Crato, estaria preparando uma ofensiva armada contra Juazeiro; na oportunidade, os moradores do povoado são convocados para reagir energicamente:

“Chegou a notícia de que o Sr. Antonio Luiz está preparado para amanhã mandar uma força armada vos espingardiar, vos matar, por que não quereis pagar impostos municipaes na feira.
“Cada joazeirense deve estar prevenido com suas armas de promptidão para morrer ou matar em defesa de seus direitos. Às armas povo! Quem não é por nós é contra nós!"
[3]

Além da campanha veiculada em editoriais e artigos, O Rebate reservava um espaço, o Boletim Cariricata, onde eram veiculados gravuras, versos e trovas ridicularizando as autoridades do Crato. Um verso de um poema, intitulado Antonio Luiz Canella Preta trinchado pelo público, dizia:

Quem diz verdade, não mente...
O homem perdeu a fama,
Cahiu em cheio na lama
Não tem galho em que s’aguente...
Quem provoca a muita gente,
Quando cahe quebra o nariz...
A força toda perdeu...
É coqueiro sem raiz
O pobre Tonho Luiz
."[4]

Para encerrar esta primeira parte, abro um parêntesis para esclarecer que não pretendo, nesta análise sobre as origens da rivalidade Crato-Juazeiro, parecer tendencioso, como pode está parecendo por somente citar as fontes referentes aos métodos, às vezes questionáveis, da campanha anticratense. Mesmo não tendo as fontes que revelem como se deu a campanha movida contra Juazeiro pelas lideranças cratenses, creio que a tônica não foi muito diferente.

Notas
[1] Os o núcleo principal do periódico era formado pelo padre Joaquim Alencar Peixoto, o escritor José Marrocos e o caudilho Floro Bartolomeu.
[2] Arcanos do Verso; trajetórias da Tipografia São Francisco em Juazeiro do Norte (1926-1982). Fortaleza, Universidade Federal do Ceará, 2003, p.37.
[3] Idem ibidem.
[4] Idem ibidem, p. 40.

2 comentários:

  1. Olá.

    Como
    diz um velho refrão:
    " Cada coisa em seu Lugar ".
    Considero que que tanto o Crato como o Juázeiro tem as sua
    peculiaridades.
    Nosso Crato é considerado o (Berço da Cultura)na nossa região, alem do
    mais,temos o privilégio de existir em nosso municipio as famosas
    nascentes d´água que tanto chamam a atenção do nosso pôvo e seus
    visitantes..
    O Juázeiro é considerado uma cidade por demais religiosa,com o seu pôvo
    dedicado a tais práticas,como tambem o seu comércio com grande impacto
    no Cariri.
    Não esqueçamos a famosa Barbalha,terra dos verdes canaviais,e produtora
    do famoso mel de engenho, e as rapaduras da nossa região.
    Sendo assim,devemos cada um trabalhar e procurar engrandecer a sua
    terra livres de ideias contrárias.
    Tenho Dito...

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  2. Prezado Mário,

    Concordo com tudo o que você disse. A priori, não existiria razão para ainda alimentar esse anacrônico bairrismo. Mas, ele persiste e resta-nos, de forma desapaixonada, analisar suas raízes para podermos superá-lo definitivamente.

    Grande abraço.

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