23 junho 2009

O Irã não pode ser examinado com imbecilidades - por José do Vale Pinheiro Feitosa


Não por acaso lembrei-me do substantivo “maniqueísmo”. Um dualismo religioso, citando a luta cósmica entre o bem e o mal. Nasceu na Pérsia e se espalhou pelo Império Romano entre os séculos III e IV DC. O Irã atual é descendente do fabuloso império Persa, bem que igual se diz que a Itália descende de Roma, mas guardada a diferença história estamos falando do possível. E o maniqueísmo é como a imprensa ou a mídia Ocidental trata os valores dos quais, em parte, é responsável e que depois se espalhou pelo mundo.

Esta mídia que aparenta um zelo pelos fatos, mas escorrega no próprio umbigo quando tenta olhar seus valores transpostos para outros povos. Mas não apenas escorrega, levanta um olhar maniqueísta em que o bem é sempre o ocidente e o mal os outros. De fato a ética ocidental nunca superou o problema da alteridade e procura transpor “cirurgicamente” suas instituições para terceiros.

Neste dias as lágrimas de crocodilo se derramaram a sorrelfa pelos monitores de televisão. O filho do antigo Xá do Irã expôs copiosas lágrimas nas páginas chorosas do Ocidente. Ontem mesmo no Jornal Nacional, tão neutro que transmite as notícias de Israel como se sabe inimigo do Irã, entrevistava um Israelita de origem Iraniana e este chorava lágrimas “amargas” pelo povo do Irã. Parece ironia, mas não é, pois os Palestinos são vítimas de Israel e lágrimas pelo vizinho não existem.

A Inglaterra que não tem nenhum perdão da história pelo massacre de culturas pelo mundo todo, que mandou soldados destruir o Iraque recentemente, é o núcleo de tenebrosas visões. Deseja o domínio do Islã, melhor dizendo dos lagos subterrâneo daquele líquido preto e viscoso que se formam em imensa região. Ninguém efetivamente pensa no povo do Irã, apenas nas vantagens do seu território, por isso mesmo o corpo ensangüentado da jovem baleada é o símbolo do sacrifício tão útil para justificar ações que mutilam.

Será que alguém em sã consciência imagina que o discurso inusitado do Presidente Francês no Parlamento, condenando a burca e levantando a liberdade das mulheres não tem nada com esta jovem iraniana? É a mesma coisa, a velha propaganda maniqueísta ocidental, que se constitui numa peça única em todas as agências de notícias do mundo e por isso mesmo uma peça urdida e aplicada em benefício da surrada democracia européia.

Mesmo quem nasceu após a segunda guerra mundial desconfia que os Europeus pouco tenham a ensinar de globalização ou sistema mundial de paz e democracia. Destruíram suas florestas, arrasaram seus ecossistemas, esgotaram seus recursos, se expandiram agressivamente por todos os continentes e realizaram as guerras mais terríveis que resultaram em carnificinas sem igual em qualquer continente. Os norte-americanos apenas acrescentaram a eficácia da tecnologia e a eficiência de suas instituições a este mesmo modelo.

Sem dúvida que o Irã passa por grandes transformações. Que ela nasceu seguramente da revolução que derrubou o Xá. Ou nos tornamos todos imbecis ao não observar que os bons níveis de educação alcançados naquele país foi justamente uma política deliberada de anos e anos da revolução? Apenas a título de exemplificação, hoje mesmo a Miriam Leitão no Bom Dia Brasil, falava na conquista da mulher iraniana. Claro que o resultado de apenas 4% de mulheres analfabetas naquele país, em que 55% das vagas universitárias sejam ocupadas por elas faz parte de uma política de anos de incentivo à educação feminina. Ou estamos obnubilados e imaginamos que a morte daquela jovem significa que o regime persegue as mulheres. Entendemos o maniqueísmo?

É importante que se entenda o seguinte: o Irã há anos tem um projeto de nação. Já foi agredido pelo Iraque por financiamento do EUA, é ameaçado pela potência nuclear de Israel e desde alguns anos para cá é ameaçado pela Europa e os EUA por desenvolver energia nuclear. E sabem o motivo? É que tudo no Irã tem projeto de longo prazo, para cinqüenta anos adiante. Conheci quadros dos organismos internacionais que se admiravam da visão estratégica de todas as instituições iranianas.

Mais ainda, o Irã tem milionários (Rafsajani, aquele que já mandou por lá é um burguesão clássico e se opõe ao atual presidente), tem um capitalismo em ebulição e tem pobres e trabalhadores explorados. Nada diferente do resto do mundo “globalizado”. Mas o Irã tem plano estratégico e tem muitos viés que unem seu projeto, inclusive atraindo esta classe média que aparentemente se rebela. Um outro fato inegável é que o Ocidente em crise pouco oferece a quem tem problema. O Irã já se junta ao esquema de aliança da Ásia, se aproximará dos BRICs e portanto da América Latina e da África.

Por José do Vale Pinheiro Feitosa
Ilustrações: Dihelson Mendonça - Site: blog.estadao.com.br



4 comentários:

  1. Dihelson: ao não comentar com texto, usou a máxima de uma foto vale por muitas palavras. Nem sei se o enforcamento é de fato no Irã, mas sem dúvida eu não postaria tais fotos neste texto, assim como não o fiz. Do mesmo modo não postaria uma foto do presidente do Irã. O texto procura levantar muito mais o modo como o Ocidente, através da sua mídia e amídia brasileira não foge ao padrão, tem interpretado o regime do Irã e demonizado os seus resultados. Não teria sido melhor ao invés de editar o espaço com as fotos, se você tivesse comentado? Afinal de quem é o espaço do membro do blog ou do seu editor? Preciso saber para não ser pego com novas surpresas.

    abraços

    José do Vale

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  2. Prezado José do vale,

    Na pressa de ilustrar seu artigo, coloquei algumas fotos que mais representam as notícias que nos vem do Irã. Mas depois que li que seu texto era exatamente ao contrário, agora ilustrei com uma foto mais de acordo.

    Abraços,

    Dihelson Mendonça

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  3. Dihelson: você já me chamou de Zé do Contra, mas sabe que me posiciono em defesa da nossa humanidade. Na última vez em que debatemos aqui nos comentários sei que você me compreendeu como um irmão mais velho que, apesar de uma certa dureza, pretendia mesmo era protegê-lo.


    Obrigado,

    José do Vale

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  4. Zé do Vale, seu texto é por demais esclarecedor e nos traz uma reflexão importante.

    É claro o jogo de interesses e da ingerência do Ocidente na região.

    Engraçado, o Irã é muito mais democrático que a Arábia Saudita e que os Emirados Árabes mas ninguém reclama.Deve ser porque a Arábia Saudita é aliada dos americanos. Ahmadinejad faz um governo para os iranianos menos abastados e por isso foi eleito, democraticamente e não como foi aquela eleição, nos EUA em um estado chamado Flórida, de um certo Bush sobre um tal de Al Gore.”

    Saudações Geográficas!
    João Ludgero

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