24 junho 2009

Forró Eletrônico: A Apologia ao Alcoolismo - O Retrato de uma Sociedade Decadente

Nota do Editor:

cachacadivininha


Prezados leitores do “Jornal Chapada do Araripe” e "Blog do Crato". Trago esse importante artigo escrito pelo Robson Fernando, postado no site “Melhores Artigos” e que retrata muito bem a situação de decadência cultural em que se encontra a nossa sociedade, com os valores sendo invertidos com a proliferação das chamadas bandas de forró eletrônico, que dentre outras mazelas, promove o alcoolismo e a vulgarização do ser humano. Leiam com muita atenção o retrato de uma sociedade decadente.

Título Original: “Forró” estilizado e seus inconvenientes

O chamado “forró” estilizado (entre aspas por vários motivos que o tornam um não-forró) divide opiniões em todo o Nordeste. Tendo seu auge na segunda metade da década de 2000, esse ritmo ora é apreciado por jovens como um incentivo à curtição oba-oba, desregrada e desinibida da juventude ora é pesadamente criticado por incentivo à promiscuidade e perversão sexuais, banalização da traição, apologia do alcoolismo, coisificação feminina e louvor a um hedonismo irresponsável.

Cabe mostrar aqui por que tanta gente reclama do estilo e de sua popularidade e deseja tanto o fim de sua hegemonia na música nordestina. Esse que, por conveniência, chamarei aqui de FF – Falso Forró – merece muito mais debate do que há hoje e necessita de abordagens éticas, educacionais, sociológicas e antropológicas. Textos como este contribuem para a incitação dessa discussão entre a sociedade.

Os ouvidos dos nordestinos, ao longo dos últimos anos, vêm sendo sacudidos, desejada ou indesejadamente, por versos de efeito-chiclete como “Chupa, chupa, chupa que é de uva”, “Abre, abre, abre-abre-abre”, “Piri-piri, piri-piri, vamo beber, vamo beber”. Muitos adoram e celebram os prazeres sexuais da juventude que por tanto tempo foram reprimidos pela tradição católica nordestina e liberados pela superação das velhas normas sociais repressivas.

Por outro lado, tantos odeiam o ritmo, por uma série de motivos que fazem dele um veículo de comportamentos libertinos e até nocivos. Vale descrever os pontos mais criticados do FF:

a) Apelo sexual e apologia ao sexo irresponsável


Seja pelas letras de pornografia implícita ou escancarada – em que são exaltadas as delícias do sexo e posições sexuais como sexo oral, abertura de pernas e até a penetração –, pelo figurino sumário das dançarinas, vestidas com “pedaços de pano” que por pouco não deixam de cobrir suas partes íntimas, ou mesmo pelo comportamento dos cantores no palco, o tema pornográfico é muito frequente. É, aliás, um dos pilares temáticos do FF. São corriqueiras também as danças sensuais e os gemidos eróticos de vocalistas femininas.

Também destaca-se a irresponsabilidade da forma como o sexo é abordado no FF, com a falta de dedicação à segurança da camisinha e a cativação de um público adolescente que ainda está aprendendo suas primeiras noções sexuais. Os efeitos esperados da pornografia musical do ritmo são uma maior ferveção juvenil por sexo e um grande aumento da suscetibilidade de adolescentes à maternidade/paternidade indesejada e à transmissão de doenças sexualmente transmissíveis.

A sexualidade do FF não seria um problema preocupante se o estilo não tivesse grande parte de uma geração adolescente como público-alvo e não induzisse tantos jovens na flor da idade (entre 13 e 24 anos) ao sexo irresponsável e inconsequente que gera filhos(as) indesejados(as) e propaga patologias.

b) Exaltação à prostituição


Os cabarés “pegam fogo” e jovens homens dirigem caminhonetes cheias de prostitutas – essa é a segunda parte da temática relativa ao erotismo no FF. Não seria intrinsecamente um mal se não incomodasse tantas pessoas que, adotando determinados valores culturais de moral e decência, acabam “obrigadas” a ouvir o que não gostam – apologias ao sexo pago – por causa do alto volume dos carros dos curtidores do estilo, se não cantasse a prostituição de forma a induzir à libertinagem e à irresponsabilidade sexual como é feito na maioria das músicas com esse tema e se não se concentrasse na prostituição feminina.

É, aliás, o fato de haver apenas prostitutas mulheres nas músicas um dos ingredientes da misoginia moral característica do ritmo, a qual transforma moças em brinquedos sexuais, como exposto no próximo ponto.

c) Misoginia moral e machismo


Há uma relação de dominação sexual do homem sobre a mulher em muitas canções do FF: as mulheres são cantadas como nada mais que brinquedinhos de sexo usados pelos “safados”, “gostosões” e “garanhões” nas horas “quentes”. Elas, sendo ou não prostitutas segundo as letras, são concubinas de sexo e eles, seus parceiros, são os comandantes da cama. Tem destaque a música “Lapada na Rachada”, que fez sucesso em 2006, em que a vocalista, entre gemidos, diz “Sou sua cachorrinha”.

Em tempos de avanços na diminuição da desigualdade de gêneros e do regime social do machismo, a reanimação desse comportamento não poderia ser pior e mais interferente, uma vez que atrapalha muito a afirmação da mulher como pessoa independente, sexualmente assertiva, senhora de si mesma e ávida por respeito e reconhecimento de sua dignidade perante os homens.

O machismo do FF também é uma investida contra a dignificação feminina porque ajuda a manter uma cultura discriminatória, em que o homem que “pega” muitas mulheres é o “garanhão”, o “gostosão” e a mulher que se relaciona com muitos rapazes é vista como “cachorra”, “vagabunda” e outras desqualidades mais, e fomenta o desejo sociocultural do homem de se afirmar como dominante sexual, deixando em última análise uma situação macrossocial mais suscetível à ocorrência de estupros.

d) Incentivo à infidelidade, banalização da traição conjugal, desvalorização do amor


Muitas bandas descrevem como fundamentos temáticos do ritmo “cachaça, mulher e gaia”. A última nada menos é do que o “chifre”, a traição conjugal. O amor fiel, o romance e o namoro respeitoso foram escanteados na cultura juvenil que o FF ajudou a erguer no Nordeste.

As letras que falam como é “bom” trair o(a) parceiro(a) vêm influenciando significativamente o comportamento amoroso dos jovens. Não há pesquisas sociais largamente disponíveis sobre o assunto, mas alguém que convive com admiradores desse estilo musical constatará que é quase generalizado que o curtidor de FF tenha tido uma ou mais relações amorosas paralelas ao seu namoro, ainda que breves.

Poderia ser apenas uma mudança inofensiva de costume social em que a dedicação a uma única pessoa fosse substituída pela divisão consentida do indivíduo entre o namoro principal e relações conjugais efêmeras paralelas. Mas isso não parece ter acontecido, uma vez que muitos dos relacionamentos em que traições foram descobertas desintegram-se em conflitos, na degradação dos sentimentos mútuos e no rompimento definitivo entre os companheiros.

e) Apologia ao alcoolismo


O alcoolismo social tornou-se ainda mais forte entre a juventude nordestina com a ascensão do FF nas rádios e palcos da região. A própria embriaguez é cantada como algo “bacana”, como sendo “o máximo”. Beber cerveja ou cachaça até cair é praticamente uma ordem dada por muitas canções, com destaque para as músicas “Piri-piri, vamo beber, vamo beber” e “Beber, cair e levantar”, que fizeram sucesso em 2007 e 2008.

As consequências esperadas para a exaltação do consumo imoderado e irresponsável de bebidas alcoólicas são as piores possíveis, incluindo-se o estímulo ao aumento dos acidentes de trânsito envolvendo motoristas bêbados e da violência doméstica cometida por homens ou mulheres nessa condição.

f) Parceria com vaquejadas


Canções exaltando a cultura das vaquejadas, eventos ditos “esportivos” que lançam mão da crueldade contra animais (bois e cavalos) para acontecer, são mais raras no FF, mas há uma parceria fiel entre bandas desse estilo e tais atividades. Atualmente, no cronograma de qualquer vaquejada, há shows com a presença desse ritmo. É uma aliança em que os ataques à moralidade somam-se às agressões contra bichos.

***

Saem ganhando as bandas (e seus empresários), que obtêm muito dinheiro no faturamento dos shows e nos patrocínios; as indústrias de bebidas alcoólicas; os donos de bares e os organizadores de vaquejadas. Saem perdendo os namoros, noivados e casamentos; as famílias que sofrem – muitas vezes com perda de vidas – com acidentes de trânsito ou violências domésticas; os valores do amor, do respeito conjugal e da fidelidade; as mulheres e sua dignidade; e os animais.

Pergunta-se muito: o que se pode fazer para parar as consequências do avanço do Falso Forró sobre a juventude nordestina? Como será possível curar as feridas socioculturais infligidas? Como se conseguirá implementar, depois de anos de domínio desse ritmo nos rádios e na cabeça dos jovens, uma cultura de respeito, responsabilidade e consciência? O tempo vai dizer como essas perguntas serão respondidas.

Por enquanto, muito pouco ainda vem sendo feito para coibir os abusos do FF, destacando-se a iniciativa da Prefeitura de Caruaru de proibi-lo nas festas juninas de 2009 e liberar apenas forró pé-de-serra e o forró estilizado mais tradicional, com letras moderadas. A discussão de novas ações de hoje em diante é muito necessária entre sociólogos, educadores, músicos, jovens e outras categorias interessadas na correção dos problemas que o ritmo aqui abordado vem causando.

Sobre o Autor

É escritor independente de artigos, apaixonado por sociologia e dono do blog Consciência Efervescente. Escreve artigos desde setembro de 2007.

Por: Robson Fernando

5 comentários:

  1. Prezado Robson,

    Este seu artigo é um dos melhores TRATADOS já escritos sobre essa grande deturpação que temos presenciado aqui no Nordeste. Quero lhe parabenizar por dizer tão bem o que já falo em minhas campanhas contra o Falso Forró pelo Brasil afora.

    Descreve a realidade absurda em que vivemos aqui. Sou músico profissional, trabalho há 28 anos como pianista, e tem sido para mim uma luta incrível combater de todas as formas esse maldito Forró Eletrônico ( como é conhecido aqui no Ceará, de onde essa desgraça saiu ), e que mancha a história e a cultura verdadeira do povo nordestino.

    Esses Cabeças de Macaco, como eu costumo dizer, vieram para destruir a já desgastada e sucateada música do nordeste, de tantos talentos. Os grandes artistas não tem mais vez, e eu te digo que aqui na região sul do Ceará, chamada região do Cariri, existe uma espécie de Cartel das estações de Rádio, onde NADA do que vem de fora toca por aqui. Apenas o subproduto desse lixo musical que os grandes grupos econômicos do Forró Ruim quer.

    Temos lutado muito, reunido outras pessoas, e queremos até fazer um documentário sobre esse crime organizado, e muito bem organizado, que está assim como o CRACK, destruindo a mente das pessoas, idiotizando-as, e levando-as ao alcoolismo, à degradação do papel da mulher, e da banalização do Ser Humano.

    Tenho escrito inúmeras crônicas sobre o assunto, e isto é até artigo de tese de doutorado em uma universidade local.

    Há de lembrar que tudo isso é uma indústria, e que é cuidadosamente orquestrada por uns poucos que comandam toda a máquina, e reúne-se em uma triângulação do Mal, que reúne:

    - As Bandas de Forró
    - As Estações de Rádio
    - Os Proprietários de Eventos e Casas de Shows

    Eles se juntam para fazer essa lavagem cerebral nas pessoas e impedir que qualquer outro estilo musical ou padrão de comportamento chegue até a população.

    É uma das coisas mais "escrotas" já inventadas para perverter a mente dos nossos jovens!

    Parabéns pelo artigo tão verdadeiro e contundente!

    Dihelson Mendonça

    Editor do Jornal Chapada do Araripe e do Blog do Crato.

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  2. Prezado Dielson, sobre o assunto destapostagem quero te dizer que, há 5 anos quando montei a RPS -Radiodifusora Ponta da Serra, por sugestão do nosso saudoso Zé Cirilo, algumas pessoas chegavam para mim e diziam que eu tinha que tocar músicas para os jovens e eu sempre respondia: sim, vou tocar, mas música de qualidade. Toco uma média de 70% de MPB, 15% internacional, 10% Romântico e Brega e 5% Forró (menos o apelativo).
    Sim, quero também te dizer, que demos entrada na Sec. de Serviços de Comunicação Eletrônica, em Brasília, neste dia 09.06,do Requerimento de Demonstração de Ineteresse para Execução de uma Ra´dio Comunitária em Ponta da Serra. Abraços

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  3. Muito Bem, Toinho!

    Tem muita gente Imbecil nesse mundo que quer sustentar a tese de que o Rádio é o reflexo do Povo.

    É justamente o Contrário!

    Como é que você vai um dia gostar de uma Goiaba se nunca provou o sabor? O povo não está tendo acesso à música de qualidade.

    O povo não está tendo acesso a músicas de Gilberto Gil, nem Caetano Veloso, nem Chico Buarque, nem a NADA, meu amigo!

    Aqui neste buraco chamado Ceará, tá tudo dominado por essa esculhambação do Forró Eletrônico, e não é outra coisa não, É JABÁ mesmo, que esses "Filhos da Pauta" pagam às estações de Rádio. 95 por cento dos locutores de Rádio são descerebrados. São pessoas contratadas apenas por ter uma voz "bonita" e saber falar Carioquês, com sotaque de Cearense, mas culturalmente, é massa falida.

    Procure debater com um Locutor do Cariri pra ver...

    Quase nenhum locutor de Rádio daqui sabe a mínima história da Música Popular Brasileira.

    Quase nenhum locutor de Rádio sabe debater sobre Música Clássica, seus diversos estilos.

    Quase nenhum locutor de Rádio tem cultura que vá além da cultura da cabeça de um Moto-Táxi. Aliás, tem muito Moto-Táxi que tem mais cultura do que os radialistas.

    Então, se o Povo não escuta música boa no Rádio, se não toca no rádio, não toca na TV, não toca nos discos, não toca em lugar nenhum...Poxa!

    Como é que esse povo um dia vai conhecer alguma coisa além das MERDAS que os locutores têm na cabeça e que jogam para o Povo ?

    Olha, é preciso uma revolução muito grande nesse país, para trazer de volta a Educação, a valorização das Artes e da Cultura, e tirar esses "cabeças de Macaco" da frente de um microfone de rádio.

    50 por cento da culpa disso tudo são dos locutores e proprietários de estações. Os outros 50 por cento, são dos produtores das bandas de Forró e dos produtores de eventos.

    Olha a EXPOBOSTA ( ExpoCrato ) chegando aí de novo, trazendo as mesmas coisas DE SEMPRE! Economicamente, ótima. Culturalmente, uma LÁSTIMA.

    Agora, olha a programação de Garanhuns que diferença! O ceará nunca teve cultura musical que prestasse, e agora destila merda sonora para o resto do Brasil absorver.

    Abraços,
    Siga em frente nessa luta. Estarei do seu lado.

    Alemberg Quindins é que tá certo quando foi questionado quantos ouvintes de Jazz ele tinha em Nova Olinda. Ele disse:

    "Temos 100 por cento a mais do que numa cidade que não tem programa nenhum".

    Uma das respostas mais sábias que já ouvi alguém falar.

    Dihelson Mendonça

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  4. Essa luta que o Dihelson vem há tempos debatendo, tem que dar frutos.
    Não se pode de maneira alguma, aceitar essa postura marginal de algumas pessoas com apoio de autoridades, a impor um lixo musical, que nada traz para o engrandecimento cultural de uma sociedade.
    O Crato sempre teve uma posição de vanguarda em defesa das tradições do seu povo, e é o dever de cada um de nós, dar a sua contribuição para a reversâo desse quadro desolador.
    Selecionando o repertório de um compositor cratense Josilson Lobo, para um trabalho que será produzido por alguns intérpretes, é que descobri como nós temos acervos inéditos pelo Cariri, de bons trabalhos que precisam ser divulgados.
    O Trio Araçá, Myrlla Muniz, e outros intérpretes, já vinham garimpando trabalhos, tendo em vista a necessidade de novas fontes, daí terem chegado ao Josemar Sidrim, de Jardim, e Josilson Lobo, de Crato.
    Cabe portanto a cada um que tem essa consciência musical, olhar com mais carinho para o que temos ao lado, e lutar por nossos valores regionais, dando uma oportunidade merecida que tanto necessitam.

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