27 junho 2009

Desastre de um transgênico ou um crime ambiental? - por José do Vale Pinheiro Feitosa

O mundo, seja no reino mineral, animal ou vegetal, é um dispersor de diversidades. Especialmente nos reinos animal e vegetal. O papel do homo sapiens sobre a natureza é inquestionável pela global capacidade de modificação que teve e mantém. Uma das mais evidentes é a agricultura e a pecuária.

Ao se tornar sedentário, aquele homem de caça e colheita, foi de encontro à natureza: funcionou como um redutor de diversidades. A monocultura, como a soja, a cana, a laranja, a uva entre tantas, é o exemplo mais acabado e que se encontra na raiz da extinção de espécies e, portanto, da diversidade na terra.

Não é por acaso que os estudos se voltaram para um elo perdido da humanidade, para a pré-história, quando outros alimentos, mais ricos que os atuais, eram utilizados. Um caso clássico é o do Amaranto a grãos.

O Amaranto a grãos foi cultivado há cinco mil anos pelos povos primitivos do México, junto com a abóbora e a pimenta. Na cultura Asteca o Amaranto se destaca como uma grande fonte de nutrientes, de qualidade terapêutica e ritualística. Eram aproveitados os grãos até como farinha para diversos alimentos como os tamales e das folhas se faziam molhos deliciosos.

Como rito a farinha do Amaranto era oferecida no panteão dos deuses astecas e simultaneamente comidas pelos fiéis como se faz com o pão na comunhão com o cristo. Desta mesma farinha se fazia uma pasta com qual se elaboravam artesanatos para as crianças recém-nascidas, com motivos de flechas, arcos etc.

Segundo pesquisadores, o rito com o Amaranto e o abandono do seu cultivo decorreu da perseguição cristã e da imposição seletiva pelas escolhas dos conquistadores europeus. O Amaranto virou uma erva daninha da monocultura do século XX em todas as Américas, especialmente nas grandes extensões de soja.

Mais do que uma vingança vinda da pré-história o que passo a relatar é uma comprovação daquilo que a soberba e a ganância monopolista do capital faz. Falo da questão da agricultura e da criação de animais geneticamente modificados (TRANSGÊNICOS). Como sabemos objeto de grandes discussões científicas, por vezes até mesmo extremadas.

Qual o núcleo duro e racional da cautela com a manipulação e dispersão destes organismos geneticamente modificados? A primeira delas era o monopólio que as empresas de manipulação genética passariam a ter na produção dos alimentos da humanidade. Com isso tornando a iniciativa privada o cárcere dos países e dos povos. Tudo pelo lucro e a humanidade como suserana.

A segunda tinha por base a possível hibridização entre os seres geneticamente modificados e os demais. Em outras palavras, genes modificados poderiam migrar para outros seres vivos, inclusive de espécie diferente. Os grandes manipuladores negaram isso e “compraram consciências”, pois este era, inegavelmente, um fenômeno evidente na natureza: a transferência contínua de genes intra e entre espécies.

A terceira era a seleção natural. Desde muitos séculos (não apenas com Darwin que sistematizou o conceito) que se conhece o poder da seleção natural. Como também se conhece o poder ainda maior num território de monocultura, já que a seleção além de ocorrer velozmente, termina por ser substituída por uma ou poucas espécies.

Mesmo assim grandes Multinacionais como a MONSANTO, velha conhecida das lutas pelo Meio Ambiente, foi em frente e as plantas geneticamente modificadas se espalham pelo mundo todo. No Brasil a estratégia destas empresas foi corroendo por dentro das instituições e dos plantadores até que por força violenta do fato consumado, se estabeleceu.

Agora nos EUA se comprovou a migração de um gene da soja geneticamente modificada, chamada Roundup Ready para o Amaranto. Aquele mesmo que alimentava os Astecas e se tornaram a erva daninha incontrolável da cultura de soja. Como funciona a estratégia da Monsanto?

A Monsanto descobriu e produziu o Roundup, um herbicida que destrói qualquer erva daninha, inclusive a soja. É o que se chama um herbicida total. Num segundo passo a Monsanto manipula geneticamente a soja, introduzindo um gene que resiste ao Roundup. Um negócio das arábias: ganha no grão para plantio e torna cativo o plantador ao seu herbicida.

Aí aconteceu o que negavam, agora se pode afirmar e a Monsanto tem de responder por isso nos tribunais: houve hibridação entre a soja e o Amaranto. Agora só dar Amaranto, muito mais “competente” que a soja no processo de seleção natural. Os campos que antes eram de soja, agora são de Amaranto. Já se identificaram nos EUA cinco mil hectares e outros cinqüenta mil estão sob ameaça.

Tem uma saída. Sem a Monsanto por ganância, a civilização que renegou o Amaranto nos seus primórdios, agora o terá no prato. Modificado geneticamente, mas certamente livre do herbicida e da concorrência com outras espécies.

Por José do Vale Pinheiro Feitosa

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