E vinha todo mundo numa avenida, acostumados ao estilo musical, baseados nos engenhos, vacarias e fábricas de algodão; algum comerciante fazendo apenas o mesmo, o modo de namorar, as orquestras de baile e os carros com um apito no cano de escapamento só para dizer que era carnaval. Isso sem contar uma amplificadora na sacada do Clube da Rapadura tocando a Ângela Maria com seu “e todos eles,/ estão errados,/ a lua é,/ é dos namorados”. Uma referência indireta ao início das viagens espaciais. Era a senha para o tombo, as rotas saíram da avenida principal e adquiririam ruelas, vilas, ruas alternativas como trilha de escolha.
Daí vem Jorge Ben e um Simonal com aqueles swings inovadores e uma letra de música muito doida: Chove Chuva /Chove sem parar...(2x) / Sacundim, sacundém /Imboró, congá /Dombim, dombém / Agouê, obá / Sacundim, sacundém /Imboró, congá/ O assunto é o Spunik, a Brasília de Juscelino, a indústria de automóveis e a bossa nova. A calça farwest chega para ficar. Para as mulheres também. Nascem os clubes no pé da serra e as Exposições viram um evento de classe média. Então o motor da luz era insuficiente para aquele mundo em progresso. Começa a campanha pela energia de Paulo Afonso e ela chega ampliando ainda mais as rotas de trânsito na média cidade interiorana.
Daí outra revolução. A cidade se enche de estrangeiros. Aviões fazendo levantamento topográfico. Especialistas nunca vistos na região: antropólogos, sociólogos, psicólogos, professores de línguas, engenheiros, arquitetos, economistas e assim uma rede de alunos da Califórnia em demanda de um projeto de industrialização para o Cariri. Os Brazilianist aportaram na região, lembro muito bem dos papos com Ralph della Cava na Siqueira Campos e aquele bigodão com as pontas esticadas. Havia um viajante alemão, um sujeito altíssimo, não sei o que representava, mas tinha um ódio político intenso contra os americanos. Adorávamos aquele papo, afinal éramos nacionalistas. Nem por isso deixávamos de debater como um fla x flu, as vantagens relativas da União Soviética e dos EUA na guerra fria.
A televisão aportara em Fortaleza e suas repercussões já ecoavam na Siqueira Campos. Alguns sucessos já eram comentados, como a série do Dr. Kildare. Tinha uma outra que fazia muito sucesso, na mesma linha com um médico de herói, só que descobriram que o tal ator era um americano com sobre nome Cavalcanti e como o Crato era o centro do universo mesmo, a matriz de todas as coisas, logo encontraram a árvore genealógica com os Cavalcantis da cidade. Sim um dia passou um mágico e fez espetaculares exibições de hipnotismo na quadra bicentenário. O assunto virou moda, pois o mágico permaneceu dando curso de hipnotismo para interessados. Era no Palace. Isso foi tão intenso que um dia durante a profundidade do debate hipnótico, o Cascatinha ficou em transe e tiveram que correr para chamar Antônio (?) o projetista do cine moderno para acordar o nosso amigo.
Pois foi nesta construção cultural que o ápice da era se deu. Um ápice fajuto, vá lá, mas ocorreu. Mobilizou a cidade. Todas as rodas falavam no assunto. Era a superação definitiva do isolamento da civilização. Significava a transformação industrial, tecnológica e científica do Crato. Tudo isso daria novo sentido às famílias tradicionais. Atrairia as mais altas autoridades nacionais para a cidade. Colégios seriam mobilizados para acenar bandeirinhas e marchar. As margens da estrada até o Aeroporto seriam completamente arrumadas, acabando com os buracos na via. A cidade se preparava para receber o Rei Balduíno da Bélgica. Viria com a rainha. E uma pequena corte.
Quem chegaria mais próximo ao rei? Era a primeira vez em carne e osso que todos veriam um rei. Agora imaginem a inveja que causaria em Juazeiro e o destaque que Crato teria no noticiário. Roupas, onde hospedar, e os banquetes? Quem prepararia as guloseimas, os doces e compotas? O banho, toalhas, tudo era pensado na perspectiva da inteira novidade, ninguém nunca hospedara um rei. E os discursos? Os convites para as cerimônias, onde levar o rei? Eram tantos os detalhes que no auge, tudo se frustra.
O rei Balduíno da Bélgica nunca esteve no Crato em carne e osso, mas que já esteve em preparo, lá isso esteve.
Por José do Vale Pinheiro Feitosa
Daí vem Jorge Ben e um Simonal com aqueles swings inovadores e uma letra de música muito doida: Chove Chuva /Chove sem parar...(2x) / Sacundim, sacundém /Imboró, congá /Dombim, dombém / Agouê, obá / Sacundim, sacundém /Imboró, congá/ O assunto é o Spunik, a Brasília de Juscelino, a indústria de automóveis e a bossa nova. A calça farwest chega para ficar. Para as mulheres também. Nascem os clubes no pé da serra e as Exposições viram um evento de classe média. Então o motor da luz era insuficiente para aquele mundo em progresso. Começa a campanha pela energia de Paulo Afonso e ela chega ampliando ainda mais as rotas de trânsito na média cidade interiorana.
Daí outra revolução. A cidade se enche de estrangeiros. Aviões fazendo levantamento topográfico. Especialistas nunca vistos na região: antropólogos, sociólogos, psicólogos, professores de línguas, engenheiros, arquitetos, economistas e assim uma rede de alunos da Califórnia em demanda de um projeto de industrialização para o Cariri. Os Brazilianist aportaram na região, lembro muito bem dos papos com Ralph della Cava na Siqueira Campos e aquele bigodão com as pontas esticadas. Havia um viajante alemão, um sujeito altíssimo, não sei o que representava, mas tinha um ódio político intenso contra os americanos. Adorávamos aquele papo, afinal éramos nacionalistas. Nem por isso deixávamos de debater como um fla x flu, as vantagens relativas da União Soviética e dos EUA na guerra fria.
A televisão aportara em Fortaleza e suas repercussões já ecoavam na Siqueira Campos. Alguns sucessos já eram comentados, como a série do Dr. Kildare. Tinha uma outra que fazia muito sucesso, na mesma linha com um médico de herói, só que descobriram que o tal ator era um americano com sobre nome Cavalcanti e como o Crato era o centro do universo mesmo, a matriz de todas as coisas, logo encontraram a árvore genealógica com os Cavalcantis da cidade. Sim um dia passou um mágico e fez espetaculares exibições de hipnotismo na quadra bicentenário. O assunto virou moda, pois o mágico permaneceu dando curso de hipnotismo para interessados. Era no Palace. Isso foi tão intenso que um dia durante a profundidade do debate hipnótico, o Cascatinha ficou em transe e tiveram que correr para chamar Antônio (?) o projetista do cine moderno para acordar o nosso amigo.
Pois foi nesta construção cultural que o ápice da era se deu. Um ápice fajuto, vá lá, mas ocorreu. Mobilizou a cidade. Todas as rodas falavam no assunto. Era a superação definitiva do isolamento da civilização. Significava a transformação industrial, tecnológica e científica do Crato. Tudo isso daria novo sentido às famílias tradicionais. Atrairia as mais altas autoridades nacionais para a cidade. Colégios seriam mobilizados para acenar bandeirinhas e marchar. As margens da estrada até o Aeroporto seriam completamente arrumadas, acabando com os buracos na via. A cidade se preparava para receber o Rei Balduíno da Bélgica. Viria com a rainha. E uma pequena corte.
Quem chegaria mais próximo ao rei? Era a primeira vez em carne e osso que todos veriam um rei. Agora imaginem a inveja que causaria em Juazeiro e o destaque que Crato teria no noticiário. Roupas, onde hospedar, e os banquetes? Quem prepararia as guloseimas, os doces e compotas? O banho, toalhas, tudo era pensado na perspectiva da inteira novidade, ninguém nunca hospedara um rei. E os discursos? Os convites para as cerimônias, onde levar o rei? Eram tantos os detalhes que no auge, tudo se frustra.
O rei Balduíno da Bélgica nunca esteve no Crato em carne e osso, mas que já esteve em preparo, lá isso esteve.
Por José do Vale Pinheiro Feitosa






3 comentários:
José do Vale,
Vai ver o Rei errou o caminho e voltou pra Pasárgada, cantando amor febril:
"Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive".
E do Crato passou pela tangente...
Abraço,
Claude
Zé do Vale,
Com esse seu depoimento, recordamos desse fato; da efervescência que provocou na cidade; da expectativa de recebermos um rei, em carne e osso; bem como da frustração generalizada por sua não efetivação.
Mas...por qual razão mesmo o rei não pintou no pedaço ???
Nilton: vamos colocar na conta de que afinal o Crato não precisava mesmo de Rei. Já tínhamos os nossos e bem nossos, Incha Tetê, Antoin Cornin, Pedro Cabeção, Tandô, era uma corte de monarcas insuperáveis.
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