11 abril 2009

Cristo vem ? - Por: Dr. José Flávio Vieira


Tenho um dileto amigo muito religioso. Ele não é um católico praticante, desses que fazem da atividade religiosa uma missão e, às vezes, mesmo uma obsessão. No entanto, traz consigo uma fé sedimentada, dessas que reluzem , iluminam e tranqüilizam aqueles que dele se aproximam. Nesta Semana Santa me faz ele uma revelação e me deixa atônito. Os católicos todos esperam a volta do Cristo, os evangélicos o aguardam a qualquer momento, têm até o slogan: “Cristo Vem!” e os judeus estão certos de que o Messias ainda não veio, que Cristo foi apenas um profeta , como Isaias, e imaginam que em breve Ele aqui estará entre nós. Em outras palavras: todos os Cristãos O esperam ansiosamente, uns o retorno, outros a vinda.
Pois bem, meu amigo, do alto da sua espiritualização, em plena Páscoa, mal disfarçando a tristeza, me revela: “Cristo não vem mais à Terra”, é triste mais cheguei a esta drástica conclusão. Absorto, ouço sua argumentação que, segundo ele, foi germinando pouco a pouco no seu coração e, quando menos esperava, brotou como rosa feita, imutável , uma dura constatação.
Há 2000 anos cá Ele esteve entre nós. Sua mensagem sempre foi de paz, de harmonia e de amor entre os homens e seus semelhantes. Revelou um Deus novo que parecia ser à nossa imagem e semelhança. Aquele Deus do Velho Testamento que nos foi apresentado como um Senhor de longas barbas brancas, mais para o temor que para o amor, aquele que pedia a Abraão para sacrificar o filho, que secou o braço de Oza e transformou uma mulher em estátua de sal , de repente, quando se fez homem, foi substituído por um Deus compreensivo, dado à piedade e com todas as características de um pai verdadeiro --- mais afeito ao perdão que à punição.
Ora, me diz o amigo, pois esse Deus, mal conseguiu viver 33 anos e foi levado torturado e sacrificado junto com míseros ladrões comuns. Se Ele retornasse agora, teria destino diferente? Me pergunta ele. Imagine o Sermão da Montanha, teria que ser feito com toda a mídia apoiando e com a turba cantando: “Erguei as mãos e dai glória a Deus!” E já pensou- me retruca ele- o trabalho que teria para expulsar os vendilhões do templo ? Esses mercadores, hoje ,proliferaram de tal maneira, construíram templos próprios e adoram novos e disfarçados bois de ouro, que expulsá-los seria uma hercúlea tarefa. Milagres como o dos peixes, dos pães, de Lázaro, seriam expostos ao ridículo e , certamente, nos domingos, Mister M aparecerá no “Fantástico” , tentando mostrar que foram farsas e simples trucagens. Aquele período da vida do redentor da humanidade, entre os 8 e 30 anos , que os evangelhos nada contam, será apresentado, agora, em versão modernizante, escrita por um jornalista sensacionalista qualquer, como uma “Biografia não autorizada de Cristo” e é fácil se concluir as aterrorizantes revelações que poderão ser inventadas. Meu religioso amigo ainda estende suas preocupações: E a Ceia Larga, já imaginou a quantidade de paparazzi presente? A passagem de São Pedro decepando a orelha do soldado, certamente será apresentada no “Ratinho”. Cristo, certamente, já deve ter chegado à conclusão de que na sua primeira estada na Terra, teve apenas um alcagüete : “Judas”. Já nos seus novos discípulos, seria tão fácil encontrar pessoas em busca de um objetivo comunitário, quando hoje, todos fazem Programação Neuro-Lingüística , com fins de esmagar todos concorrentes e se tornarem os únicos vencedores ? O Julgamento, me diz ele, então ,seria uma barbada, novamente Barrabás iria para o trono com determinação direta do juiz, uma vez que já não há Pilatos para lavar as mãos.
Meu sacro amigo, com ar triste, mas resignado, conclui: E já imaginou a cobertura da tortura e do Gólgota? Seria feita possivelmente por Galvão Bueno, em rede mundial, com a entonação de quem relata o piripaque do Ronaldinho! Cristo não volta, pode ficar certo, afirma o amigo, além do mais, naquele tempo Ele foi crucificado entre dois ladrões e um era bom; imagine hoje onde colocar os ladrões todos crucificados, era preciso destruir a floresta Amazônia para se fazer cruz e crucificá-los no Everest, única montanha capaz de abrigar tantos larápios: do orçamento, da câmara de São Paulo, do INPS, dos Bancos, das privatizações etc.
Digo a meu amigo que talvez ele esteja certo, mas fiquei meditando se na realidade Ele tinha um dia nos deixado. Em apenas alguns anos Cristo modificou todos os rumos da humanidade e continua vivo , como nunca. O Cristianismo instituído é um mero arremedo do que pregou, mas sua palavra é que determina a maior parte das ações críticas do homem neste planeta. O ato da sua ressurreição nos fez ver que todos temos o poder de reviver a cada momento. Nossos crepúsculos não determinam o fim do dia, mas a perspectiva da aurora vindoura. A cada instante podemos ressuscitar na esperança e construir um mundo melhor , mais harmônico e mais justo.

J. Flávio Vieira

5 comentários:

  1. Zé Flávio,

    Uma abordagem leve, inteligente, inovadora, e de fácil absorção, mesmo para aqueles tidos como
    "caxias" do cristianismo.
    Afinal, revela-se coerente e sensato esse seu amigo ao afirmar que, se fôssemos crucificar todos os larápios em atividade, haja floresta amazônica a fornecer madeira prá tantas cruzes.
    O ambiente, por sua vez, não se prestaria à pregação e catequese de possíveis fiéis, sem que se caisse em armadilhas mil por parte de uma concorrência desvairada.
    Só quem lucraria - para infortúnio de todos nós - seria o Galvão Bueno, que encontraria campo propício às suas estripulias neoro-linguísticas.
    Assim, a constatação lógica e plausível é que, definitivamente, Cristo não vem mais à Terra, por absoluta falta de condição.
    Só nos resta, pois, essa verdadeira lição de sensatez e humildade:
    "...nossos crepúsculos não determinam o fim do dia, mas a perspectiva da aurora vindoura. A cada instante podemos ressuscitar na esperança e construir um mundo melhor , mais harmônico e mais justo".

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  2. Um grande abraço ao Mariano e a suas considerações tão bem pontudas. Acho que o hoemem não volta mais!
    Abraço,

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  3. Prezado Zé Flávio

    Meus cumprimentos por tão bela crônica, recheada com o mais fino humor, mas bem próximo da nossa realidade atual. Conforme nos informam as escrituras, Jesus Cristo veio ao mundo para salvação da humanidade. É verdade que naquela época, possivelmente uma humanidade que não somava nem hum milhão de habitantes e que não seria tão desumana como é a atual. Alguns estudiosos da Bíblia e do Novo Testamteno acreditam que Jesus imaginava que sua volta se daria para breve. Eu acredito que agora ela esteja breve, mas não para esta atual humanidade, mas para uma outra transformada, quando o universo que hoje conhecemos não mais exista. E o breve no relógio do tempo poderá durar bilhões e bilhões de anos. Mais uma vez receba o meu abraço. Um escrito de puro mestre da literatura, que você é com toda certeza. Uma Feliz Páscoa!

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  4. Abraço ao Eduardo pelos comentários e por ter apreciado o texto. Ótima páscoa para vc e para os seus.

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