10 março 2009

O Professorado das Chuvas - Por: Cleirson Ribeiro



As chuvas deixavam um rastro
Sob a pele das palavras,
Em cujo dorso, um presságio
Em prece se desatava,
Igual um rio, ferido
Por lambidas de parábolas
Na carne da terra quente
(que é carne, extraviada:
fuligem de passarinho
de ossadura menstruada).

As chuvas, bordavam as horas
na medula das cigarras,
de noite, longe das rezas
enquanto o vento cantava
desfolhavam-se em metáforas
de cinzas coaguladas
nos olhos magros das reses
pela fome, adulteradas
que dormitavam à sombra
da casa (com seus fantasmas!).

Ouço ainda seus estrondos
na paisagem lacerada
com seus rabiscos agudos,
suas sombras enrugadas
na alma dos candeeiros
já velha, como cansada
carpidas, sob a salmoura
da memória expatriada
com seu rastro de remorso
de cantiga estorricada

As chuvas com seus punhais
de espessura enferrujada
debulhavam cadafalsos
na escuridão das latadas
puídas, como as fuligens
das roçadeiras lanhadas
que acorreram nos ventos
sua sina transformada
lágrima de chuva doída
lira de alma penada.

Não há mais chuvas que dancem
Nesse chão, como arqueadas
Cobras-d’agua, dançarinas
Em cuja pele, as arcadas
Dos trovões, vinham brincar
De cacimba, assoletrada,
Nos beiços duros da terra
Sílaba de dor, semeada,
Com seu canto agricultor
De lembranças, emplumadas.

As chuvas, de tão insones
Tem as carnes caleijadas,
Em seus nomes uma fome
Reza uma culpa rasgada
Fio a fio, se destecem
Descem do céu, invultadas
Passarinas violeiras,
No chão com suas pisadas,
Gritam carminas buranas,
Nas roças encoivaradas.

nas chuvas com seus soluços
Ferve uma raiz ancorada
Como um colostro que ardesse
No gosto da voz cansada
Do rosto de cada homem
Sofrido pelas pancadas,
Das chuvas que já não caem,
Como estivessem afincadas
No coração das esperas,
no ferrão das invernadas.

Por: Cleirson Ribeiro

Um comentário:

  1. Esse poema muito interessante, tem um sabor também do nosso querido Wilson Bernardo.

    Parabéns!

    Dihelson Mendonça

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