26 fevereiro 2009

Show do gênio da Música Toots Thielemans fecha o festival em Guaramiranga


Nota:
A Arte e a Cultura serão sempre grandes temas do Blog do Crato. E quando se fala em Arte e Cultura, não faço restrições ao universal nem ao regional. Estive na cidade de Guaramiranga-CE, onde na época do carnaval, acontece há 10 anos o Festival de Jazz e Blues de Guaramiranga, promovido pela empresa Via de Comunicação. Na última terça-feira tive o imenso prazer de assistir ao show de um dos maiores ícones do Jazz de todos os tempos: O gaitista belga Toots Thielemans, nome que qualquer conhecedor do gênero, há de louvar como um verdadeiro DEUS da música. Estive no Teatro e inclusive fiz um ensaio fotográfico com o grande "Toots", que publicarei posteriormente aqui no Blog do Crato. No ensaio aberto ocorrido na parte da tarde, encontramos diversos jornalistas, inclusive o Dalwton Moura, que assim escreveu sobre Toots Thielemans para o jornal "Diário do Nordeste":

Dihelson Mendonça

Jazz & Blues

Improvisação e elegância

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Com um repertório bastante acessível, Toots Thielemans fez questão de celebrar a música brasileira com familiaridade (Foto: SILVANA TARELHO)

Toots Thielemans fez um show antológico fechando o Festival Jazz & Blues. Hoje ele sobe ao palco do TJA

Não era apenas a consciência de se ter presenciado uma apresentação de um dos maiores nomes da história do jazz que movia os aplausos acalorados, por volta da meia-noite da terça-feira de Carnaval, no Teatro Rachel de Queiroz, em Guaramiranga. Não era somente a noção da importância do belga Jean Baptiste Frederic ´Toots´ Thielemans, para a gaita como instrumento bem além da restritiva classificação de ´miscelânea´, à qual foi confinado pelos norte-americanos, para se tornar um veículo de várias outras possibilidades sonoras. Nem a celebração dos 10 anos do festival que inseriu Guaramiranga no mapa da música brasileira e cresceu a ponto de comemorar seu aniversário trazendo a uma cidade de cinco mil habitantes do interior do Ceará um músico reverenciado internacionalmente.

A música, acima de tudo, é que cativou o público e justificou todo o entusiasmo. Aos 87 anos por completar em abril próximo, Toots Thielemans mostrou-se literalmente em grande forma, esbanjando criatividade e elegância nos improvisos, ansioso para criar em cima de cada tema, arriscando muito, atirando-se com disposição à tarefa de revelar novos caminhos melódicos, mas sempre mostrando uma impressionante consciência, calcada na harmonia. Claro que as boas doses de simpatia, humildade e reverência à música brasileira ajudaram a estabelecer, desde o Ensaio Aberto na tarde de terça-feira, uma intensa empatia com o público. Mas nem por todos esses elementos favoráveis o autor de ´Bluesette´ deixou de justificar a ansiedade em torno de sua apresentação. Um show de um notável harmonicista, mas, principalmente, de um grande músico.

Fazendo a cama harmônica para os solos do veterano gaitista e também mostrando muitas virtudes próprias, músicos como o baterista Bruno Castelucci, brilhando tanto no jazz quanto na bossa, garantiram que Toots se sentisse à vontade para percorrer os temas e neles compor, de momento, outras melodias. A escolha de notas surpreendentes, a desenvoltura nos ´bends´ e fraseados e a disposição constante para improvisar arrancaram aplausos de gaitistas e aficionados, mas também da platéia ´não iniciada´. Com um repertório acessível servindo de base para as interpretações, o show agradou a ambos os públicos.

Aberto em clima bem jazzy, ressaltando a banda afiadíssima, com os músicos bem próximos entre si, o show entra na balada de improvisos, com a elegante gaita de Toots puxando os aplausos do público. Passando por temas como ´The days of wine and roses´ e ´Summertime´ e brincando com quem escolheria para solar na seqüência, o gaitista também sensibiliza o público ao levantar, ele mesmo, para apanhar os óculos que caíram ao chão. Mais um motivo de brincadeira para o músico, que segue batendo no peito, ressaltando a emoção do momento e o amor à música brasileira.

Paixão exemplificada pelo ´Samba de uma nota só´, que ganhou, além de uma bela releitura completa, outras menções ao longo do show. Sempre simpático, Toots pediu para ao público cantar junto. Em ´Wave´, nem precisou; a platéia se encarregou de providenciar o coro, sensibilizando o gaitista que, em entrevista ao longo da tarde, chegou a chorar ao falar de sua arte ´entre o sorriso e a lágrima´ e de sua identificação com a personalidade emotiva dos brasileiros. No palco, a ´grande revolução da Bossa Nova´ também mereceu comentários de Toots, que lembrou as gravações feitas com músicos como Chico Buarque, Djavan, Caetano Veloso e Ivan Lins, de quem interpretou ´Velas´, mais uma vez com notável entrega na improvisação, além de citações de ´Dindi´ e do ´One note samba´.

Hora dos standards americanos, com ´Stella by starlight´ - segundo o gaitista, uma sugestão do baterista Bruno Castelucci. ´Está quente aqui´, comentou Toots, que várias vezes recorreu a um lenço contra o suor na testa. Como antes de lembrar o pianista brasileiro Luizinho Eça, com uma bela versão para ´The dolphin´, e de pontuar meio de passagem seu ´Bluesette´, precedendo uma bela rendição ao clássico maior do belga Jacques Brel: aplausos incontidos para ´Ne me quitte pas´.

Em um momento solo, o clássico escolhido é de Thelonius Monk. ´Round midnight´ mantém a platéia silenciosamente atenta. Ao final, Toots brinca que vai jogar a gaita para o público. ´Que pena que ele não jogou!´, comentou o gaitista brasiliense Pablo Fagundes, que abriu o festival no sábado e continuou com presença constante em todas as atividades do evento - no show do colega belga, era só entusiasmo.

O trio volta ao palco para Thielemans, depois de homenagear a África como a grande matriz do blues e do jazz, emprestar sua gaita a ´What a wonderful world´, celebrando Louis Armstrong. ´Foi dele o primeiro disco que comprei´, destacou. No bis, já na madrugada de quarta-feira de cinzas, ´Garota de Ipanema´ fechou a apresentação, com o público de pé. O Brasil deu o tom.

DALWTON MOURA
Enviado a Guaramiranga

“Muito obrigado, Brasil”

Sem cerimônia e com muita simpatia. Foi assim que Toots Thielemans, principal atração internacional do Festival Jazz & Blues, conquistou o público em Guaramiranga. A produção não dispensou os cuidados compreensíveis diante de um músico de sua idade, mas Thielemans fez questão de se colocar em diálogo com o público. Como no Ensaio Aberto, realizado com atraso na tarde de terça-feira, quando o harmonicista conversou sobre as especificidades de seu instrumento e, principalmente, sobre sua paixão pela música brasileira.

Dando ´canjas´ de músicas como ´O futebol´, de Chico Buarque (infelizmente, não tocada no show), o gaitista estava no palco quando o público foi autorizado a entrar no Teatro Rachel de Queiroz para conferir a passagem de som. Arriscando algumas palavras em português e mostrando muito carisma, Toots evidenciou mais uma vez essa enorme influência. ´Não sou brasileiro, mas toco música brasileira, com meu sotaque de jazz e da Bélgica´, destacou, ressaltando a chance de tocar pela primeira vez no Nordeste. ´É a primeira vez que eu toco não em São Paulo, não no Rio. Vocês sabem o que eu quero dizer´.

Em outros momentos, Toots, que teve no acordeom seu primeiro instrumento, também citou Sivuca como um instrumentista brasileiro cujo trabalho admira. Lembrou a primeira gaita, comprada há 60 anos, na Bélgica. ´Por dois dólares´, acrescentou, falando sobre a escolha da harmônica cromática e beijando a querida gaita. ´Além de tudo, também é uma ótima companhia. Ontem à noite, estava tão cansado que não conseguia dormir, e ela estava no meu quarto, comecei a tocar. Com um trombone, seria impossível´.

Thielemans ainda traçou um paralelo entre a história da música popular no Brasil e nos EUA. ´O jazz é a linguagem que surgiu da vinda dos escravos para a América. Parecido com a música brasileira. Sem a África, não haveria Gilberto Gil, nem Louis Armstrong, nem Billie Holiday´. Citando os discos ´Brasil Project´, fez questão de entregar o porquê de sua paixão pela música brasileira. ´Os compositores brasileiros são fantásticos, dão aos músicos caminhos para procurar e encontrar improvisações interessantes´. E concluiu: ´Muito obrigado, Brasil´.

Mais informações:
Show de Toots Thielemans e banda. Hoje, 21h, no Theatro José de Alencar. Ingressos: R$70,00/ R$35,00 (meia). Sábado, às 14h30, o músico belga volta ao TJA para uma apresentação somente para alunos e professores da rede municipal de ensino (mediante apresentação de documento). Contato: 3262-7230.

Fonte: Jornal Diário do Nordeste

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