26 fevereiro 2009

Por que Rua Coronel Teófilo Siqueira? – Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Aos oito anos de idade, eu passei a residir numa rua de calçamento novo, construído com muito esmero em pedras de paralelepípedos rejuntadas com uma argamassa gorda de cimento e areia, recoberta com uma espessa camada da mesma argamassa. O calçamento, bem trabalhado, dava a todos a impressão de ladrilhos de concreto. A rua resumia-se apenas a um quarteirão no prolongamento da Rua das Laranjeiras, como se chamava antes a Rua José Carvalho. Mas naquele trecho situado a partir de onde hoje se localiza o final da Rua Pedro II ou Beco dos Calangos, a rua em que eu morava recebia o nome de Rua Coronel Teófilo Siqueira. Por que esse nome tão esquisito para uma rua? Eu não sabia quem teria sido esse tal Teófilo Siqueira e acredito que a maioria dos moradores daquela rua também não sabia. O meu pai me disse que Teófilo Siqueira era um farmacêutico antigo do Crato. Somente depois de adulto é que fiquei sabendo que seu Teófilo era um autêntico humorista que viveu no Crato no final do século XIX e metade do século passado. Aos poucos fui tomando conhecimento das muitas anedotas por ele protagonizadas. Segundo Lindemberg de Aquino, seu Teófilo nasceu em Palmares - Pernambuco e passou a residir no Crato aos quatro anos de idade, ai pelos idos de 1873, quando seu pai fora nomeado juiz da nossa cidade. Aqui ele cresceu, estudou e estabeleceu-se como farmacêutico licenciado. A extraordinária memória do professor José Alves de Figueiredo Filho, posta à prova em seu excelente livro “Meu mundo é uma Farmácia” nos deu a conhecer muito da personalidade do seu colega de profissão. Com muito entusiasmo e uma profunda admiração, Figueiredo Filho revela que o Coronel Teófilo foi um homem dedicado ao trabalho e com elevada preocupação com os mais humildes, a quem tratava com muita consideração, sem nada lhes cobrar. Daí ser merecedor da homenagem que os cratenses lhe dedicaram, com o nome em uma rua. Mas seu Teófilo era também um humorista de alta qualidade, contador de anedotas e a quem muitos simulavam alguns casos encenados pela sua inteligência impar. Além de farmacêutico, Teófilo Siqueira era profundo conhecedor do código civil e por isso, exercia também a profissão de advogado provisionado. Certa vez foi advogar num júri na cidade de Quixará, hoje Farias Brito. A viagem naqueles anos era algo imaginável nos dias atuais. Durava um dia inteiro em lombo de cavalo. Em Quixará, Teófilo foi acolhido pelo chefe político local, o Coronel Pimentel que lhe hospedou em sua casa. Na noite da chegada, o jantar servido tinha galinha e uma deliciosa paçoca. Seu Teófilo fartou-se daquela iguaria e passou a elogiar a cozinheira: “Se o presidente da República souber de uma comida dessas, manda buscar a senhora para cozinhar pra ele no Rio de Janeiro”. Com esse elogio, a mesa do visitante nos dias que se seguiram foi a mais caprichada possível, não faltando a deliciosa paçoca. Encerrada a temporada de júri que durou uma semana, o Coronel Teófilo partiu cedinho para o Crato, em seu cavalo. Ao meio-dia estava em Dom Quintino, indo almoçar na casa do chefe político local. Ao bater à porta deste, disse: “Me acuda Coronel Raimundo Chicô, que estou morrendo de fome. Passei uma semana na casa do Coronel Pimentel lá no Quixará, só comendo paçoca. Estou com paçoca saindo até pelos ouvidos.” O dono da casa prontamente mandou matar um capão gordo e depois do almoço, oferceu-lhe rede limpa para o descanso, enquanto o sol declinava um pouco. Continuou sua viagem lá pelas duas e meia da tarde, chegando ao Crato já à noite. Dois ou três dias depois, recebeu a visita de um jovem furioso, armado até os dentes. Era o filho do Coronel Pimentel do Quixará, que veio cobrar satisfação pelo que dissera do tratamento recebido na sua casa, quando de passagem por Dom Quintino. “Como é que o senhor disse umas inverdades dessas? Foi muito bem acolhido na nossa casa e é assim que paga o tratamento que teve?” “Calma rapaz!” Respondeu-lhe seu Teófilo. “Você acha que se eu não tivesse inventado uma mentirinha daquelas, o Raimundo Chicô, miserável como ele é, iria me dar um prato de comida?” Essa extraordinária presença de espírito do seu Teófilo, salvou-o do aperto e o filho do Coronel Pimentel soltou uma sonora gargalhada. Deste dia em diante, os dois ficaram muito amigos.
Segundo o primo Huberto Cabral me assegurou, numa segunda-feira, uma senhora da zona rural levou a filha ao Doutor Teófilo. “Doutor, essa menina está muito indisposta, todo bocado que põe na boca, depressa ela bota pra fora. Queria que o senhor tratasse dela.” Seu Teófilo olhou rapidamente para moça e tascou o diagnóstico: “Minha senhora, sua filha está grávida.” “Num pode ser, seu doutor, ela é moça de famia.” E saiu furiosa, descompondo o nosso farmacêutico. Na segunda-feira seguinte, a aflita mãe voltou ao doutor Teófilo: “Doutor, é verdade, ela confessou o que fez com o namorado, mas disse que foi por riba do lençol. Será que num tem um jeito?” “O único jeito que tem é que a senhora vai ter um neto coado!”

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

3 comentários:

  1. Carlos Esmeraldo.
    Um metido a engraçado chegou na Farmacia do Teofilo Siqueira e tirando uma onda disse que estava com um problema danada e para tanto precisava de um remedio urgente. Disse: perdi o paladar e esqueço tudo com grande facilidade, estou muito esquecido. O Dr. Teofilo falou: não tenho o remedio desponivel passe depois. Num intervalo Teofilo Siqueira pegou um pouco de fese fez uma bolinha e cobriu com papel aluminho. Quando o rapaz chegou vinha todo risonho recebeu a pilula, colocou na boca e falou: parece que é merda? Teofilo respondeu: já recuperou o paladar e tem uma coisa meu chapa: nunca mais voce vai esquecer que comeu merda!

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  2. Carlos ,

    Achei curiosa a matéria. Agora sei quem foi Teófilo Siqueira !

    Morais ,

    Quero arquivar teu humor , pra me livrar das tristezas.

    (morrendo de rir )

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  3. Aos amigos Morais e Socorro Moreira

    Muito obrigado pelas palavras de incentivo. É bom saber que gostarm.
    Um abraço.

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