14 janeiro 2009

Insensíveis ao terror - Por Denísia de Oliveira

Antes de qualquer coisa aprendemos que notícia é produto. Produto deve ser comercializado, deve gerar lucros e cair no gosto popular. O jornalismo seguiu a fórmula, assim como manda a regra das relações comerciais e os interesses dos donos das grandes mídias. Não importa o meio midiático. Seja pelo rádio, TV jornal ou internet, a mensagem está lá do jeitinho que o povo gosta de ver. E o povo gosta de ver as mazelas do mundo, gosta de tocar na ferida, descobrir o que está além dos sacos pretos, gosta de ver sangue, de sentir o terror.

A repugnância da cena noticiada é proporcional ao público de espectadores. Passivos diante da desgraça alheia pouco se surpreendem com aquilo que vêem, e quando isso raramente acontece, logo é esquecido no intervalo entre uma notícia e outra. De quem é a culpa? Dos meios ou da sociedade? Em parte dos dois, em parte de ninguém. É preciso esclarecer que a grande influenciadora desse gosto popular é a cultura, ou melhor, a falta dela. O pouco conhecimento, a falha educacional, a estrutura familiar, as condições econômicas são alguns dos aspectos que tornam esse tipo de notícia tão atraente aos olhos do grande público.

Além disso, torna-se necessário entender que os veículos de comunicação precisam vender para continuar no mercado, e a lei da oferta e da procura vigora de maneira a não deixar outra saída a não ser a espetacularização. Enquanto anônimas vítimas participam de um show na mídia por um fato qualquer, a banalização do sofrimento alheio torna-se freqüente. Não há mais um despertar de consciência ou comoção. O sentimento que nasce é o mesmo das novelas, apenas expectativa pelo próximo capítulo ou pela próxima “produção”. Essa falta de sensibilidade agrada e preocupa ao mesmo tempo. Agrada aqueles, que na manutenção do poder, conseguem controlar a massa devido ao baixo conteúdo que oferecem, e preocupa aqueles que sabem que uma sociedade sem conhecimento é dominada de maneira assustadoramente fácil. São inadmissíveis esses jogos de sentimentos humanos, de linguagens sutis, de detalhes que parecem coincidências e que na verdade não são. A mídia é uma mestra na arte da interpretação e para ela, nada é por acaso. Nada está solto ou é apresentado de maneira aleatória porque o investimento é alto e não pode ser desperdiçado com riscos. O talento dos profissionais da área poderia ser empregado em disseminação de conhecimento para que a sociedade possa reconhecer na cultura uma fonte de poder. Ao estimular o povo a crescer, a participar, a ser crítico e construtor de sua realidade estariam exercendo sua função social. É uma pena que o choque de interesses seja inevitável e que a corda arrebente sempre do lado mais fraco.

Por: Denísia de Oliveira
Foto:
http://joaon.weblogs.us

3 comentários:

  1. Prezada Denísia
    Posso afirmar que esta sua crônica sobre os nossos meios de comunicação social foi uma das análises mais completas e bem elaborada que já tomei conhecimento. Não é somente privilégio do Brasil ocorrerem tais fatos por você mencionados, mas de todos os países capitalistas onde impera o poder de compra e o lucro. O rádio e a televisão que no Brasil são conceções distribuidas sem nenhum critério deveeriam ser voltados para educação do nosso povo. Em vez de novelas no horário nobre, o poder concedente deveria obrigar a exibição no horário nobre de programas educativos e de formação. Meus parabéns!

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  2. Correção: Onde inadvertidamente escrevi que o rádio e a televisão são conceções, peço corrigir para concessões. Desculpem-me a errta.

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  3. Olá Carlos,
    Agradeço seu comentário e concordo com suas palavras quanto a questão educacional. O Povo merece que esse direito saia do papel e torne-se prática. (não essa prática enganosa que vemos todos os dias, onde a quantidade prevalece sobre a qualidade) mas uma prática consciente onde o povo possa "andar com suas próprias pernas".

    Um abraço e Obrigada!

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