29 janeiro 2009

Boff e a Divisão da Igreja - Por: José Nilton Mariano Saraiva

O progressivo e inquestionável processo de esvaziamento da Igreja Católica tem tudo a ver com sua siderúrgica resistência em acompanhar os ventos da mudança, em acolher o novo, em adaptar-se ao curso da história recente. Insistir, persistir e nunca desistir do emprego de conceitos anacrônicos, de posições claramente ultrapassadas, de retóricas e práticas já desgastadas pela voragem do tempo, inexoravelmente teria que levar a isso, mais cedo ou mais tarde: o fortalecimento de seitas alternativas já existentes (Universal do Reino de Deus) ou mesmo ao exponencial surgimento de novas seitas (Mundial do Reino de Deus, por exemplo), indistintamente estruturadas por antigos católicos e muito bem freqüentadas por uma legião de insatisfeitos com o imobilismo e conservadorismo da Igreja e com o exacerbado poder do Papa. São milhares de desiludidos ex-fiéis que, indo de encontro ao ultrapassado e irremovível celibato, desestimulador e principal barreira ao ingresso de possíveis vocacionados, optaram por constituir família, por colocar em prática a determinação divina do “crescei e multiplicai-vos”, por, enfim, libertar-se das garras do dragão.
O próprio Papa, na medida em que peremptoriamente afirma que igreja mesmo é só a Católica, que as demais igrejas não são igrejas e que as demais religiões necessitam de salvação, acentua e realça de tal maneira a própria doutrina, a inflexibilidade dos fundamentos da Igreja Católica, o radicalismo vigorante no seu seio, que finda por excluir as demais e, isso, no entender de Boff, não parece ser a perspectiva do cristianismo originário, nem a perspectiva bíblica.
Alfim, e no nosso modesto entendimento, a hermética “blindagem” levada a efeito pela cúpula da Igreja Católica não vingou, funcionou às avessas, constituiu-se um malogro de dimensões oceânicas, porquanto responsável pela descrença, pela desconfiança, pela fuga de antigos seguidores.

José Nilton Mariano Saraiva

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“A Igreja hoje é uma Igreja partida, dividida, e há dois modelos em conflito, que é o da Igreja-instituição, da Igreja-hierarquia, da Igreja-poder, que se estrutura em papa, cardeais, bispos, dioceses, paróquias e se reproduz com muita dificuldade, porque há cada vez menos padres para manter a reprodução dessa Igreja. E junto dela está surgindo um novo tipo de Igreja, que eu chamaria Igreja-rede-de-comunidades, que está assentada não no poder, mas na vida. Isto é, no diálogo fé-vida. Nas comunidades, nas associações de moradores, grupos que vivem a fé nos seus encontros e que têm sua força no arquétipo cristão, não na instituição, nas suas tradições, mas o cristianismo como uma instância de esperança, tendo como referência comum a Bíblia, e aberta para a sociedade. Mas não a sociedade portadora de poder de decisão, o pacto velho, quer dizer, a Igreja poder religioso se associa com o poder civil. Não. É a Igreja com as classes emergentes, com os destituídos, pobres, marginalizados, excluídos, que são a grande maioria. Então, para mim, está se dando aí um novo pacto do cristianismo, no sentido dos primórdios, que era feito de escravos, de portuários, de destituídos, de soldados, e estamos vivendo esse tipo de cristianismo, que tem hoje uma dimensão mundial. Muito forte na África, na Ásia, muito forte no Primeiro Mundo: você vai à Alemanha, Itália, Estados Unidos, está cheio de grupos e comunidades do Terceiro Mundo que têm como referência a perspectiva libertária do cristianismo. A outra é o cristianismo da reprodução e é ocidental. É produto da cultura ocidental, de tal forma que não dá pra fazer a história do poder do Ocidente, reis e príncipes, sem fazer simultaneamente a história da Igreja”.

Autor: Leonardo Boff
Postado por: José Nilton Mariano Saraiva

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