30 agosto 2008

Cariri - CE-386 aguarda recuperação

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Buracos, cortes e quebra de bueiros em cinco pontos ainda comprometem o tráfego na CE-386, destruída pelas chuvas no primeiro semestre (Foto: Antônio Vicelmo)

A via de acesso ao distrito de Arajara, no Crato, continua oferecendo perigo a pedestres e motoristas

Crato. A CE-386, que liga Crato a Barbalha, via Arajara, interrompida no mês de março em conseqüência das fortes chuvas que caíram no Cariri, apresenta buracos, abatimentos de aterro, cortes e quebra de bueiros em cinco pontos. Em alguns trechos, os veículos estão passando pela metade da pista.

A residência regional do Departamento de Edificações e Rodovias (DER), com sede em Crato, informa que “está fazendo o que é possível” para não interromper o trânsito de veículos. No entanto, para resolver o problema é necessário um investimento superior a R$ 500 mil, o que exige licitação.

O gerente regional, Luiz Salviano de Matos, informou que já foi elaborado o projeto para recuperação da estrada. Na próxima semana, será aberta a licitação. A previsão, segundo Salviano, é de que os trabalhos sejam iniciados em outubro, antes, portanto, do início do inverno. Além da recuperação dos aterros e dos buracos, será construída uma ponte na CE-293, que liga o município de Barbalha a Arajara. Nesse trecho também há um intenso fluxo de veículos, o que merece atenção especial por parte das autoridades estaduais.

A rodovia dá acesso ao distrito de Arajara, uma das regiões mais produtivas do Cariri. A localidade abastece de hortifrutigranjeiros os mercados de Crato e Juazeiro do Norte. A estrada dá acesso ao Arajara Park, principal clube social do Cariri que recebe semanalmente sócios e visitantes.

A motorista Ivonete Fernandes Costa, proprietária de uma D-20, que faz linha Crato-Arajara, adverte que, em conseqüência dos buracos, já houve vários acidentes ao longo da estrada. Alguns veículos desceram os aterros. “Felizmente, não ocorreu nenhuma morte”, afirma a moradora.

Todo dia, a motorista faz 12 viagens, entre idas e voltas, em um percurso de 12km, entre Crato e Arajara. Seu sofrimento é evidente, bem como os prejuízos financeiros.

Risco de morte

Outro motorista que também reclama do péssimo estado de conservação da rodovia é Cícero Patrício, que também mantém uma D-20 na linha Crato-Arajara. Patrício diz que a buraqueira, além de ser um risco para motoristas e passageiros, acaba com os veículos. “Todo dia tem carro quebrado na estrada”, lamenta. Cícero adverte que os acidentes só não são mais freqüentes porque os motoristas conhecem a estrada e são prudentes.

O passageiro Zé Mulato, que mora entre Arajara e o Crato, afirma que sair de casa num destes transportes é um risco de morte. “A estrada é estreita e esburacada. A gente chega à rua, no Centro da Cidade, todo quebrado,” afirma o morador.

O comerciante José de Sales Evangelista, conhecido por “Deda”, proprietário de uma bodega na Vila Lobo, não entende o motivo pelo qual o trecho não foi asfaltado.

“Trata-se de uma avenida com cerca de um quilômetro de extensão com casas e estabelecimentos comerciais dos dois lados e que precisa de melhoramento urgente no trecho”, afirma ele. A reclamação é geral entre a população.

FIQUE POR DENTRO

Chuvas danificaram outras vias no Cariri

De um modo geral, as principais rodovias do Cariri estão em boas condições de tráfego. Os trechos mais danificados são ligações interdistritais como a rodovia estadual que liga a sede do município de Missão Velha ao distrito de Jamacaru. A residência do Departamento de Edificações e Rodovias (DER) acaba de fazer uma operação tapa-buraco na estrada Crato-Nova Olinda, que cruza a Chapada do Araripe. O trecho também foi danificado pelas chuvas registradas no primeiro semestre. O mesmo trabalho foi feito na ligação entre Barbalha e Jardim. O gerente regional do DER, engenheiro Luiz Salviano, adverte, no entanto, que a rodovia precisa de um recapeamento total. Para isso, será aberta uma licitação, tendo em vista o reasfaltamento. Sobre a CE-386, vale destacar que a mesma foi construída em 2002, no final do governo de Tasso Jereissati. A primeira reclamação foi pelo fato do asfalto não ter chegado à Avenida Duque de Caxias, no Crato. A pista asfáltica terminou na Vila Lobo, a quase um quilômetro de distância. O restante da via até a sede do Crato, foi construído em pedra tosca. Em conseqüência das chuvas, o calçamento foi destruído em vários trechos, ficando intransitável.

ANTÔNIO VICELMO
Repórter


Mais informações:
Departamento de Edificações e Rodovias (DER)
Rua Rodolfo Teófilo, 10
Município do Crato
(88) 3102.1224

Reportagem de Antonio Vicelmo para o Jornal Diário do Nordeste
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A Lenda do Pita - Por: Nijair Pinto.



A lenda do Pita

Por que será que todos os que se prestam ao trato com as crônicas vivem revirando as páginas do passado e, de quando em vez, são flagrados em momentos da infância recontando fatos dessa época da existência? Será o mundo adulto assim tão enfadonho e insidioso que somente da infância é que ainda guardamos momentos puros e de real beleza pueril?... Quando leio os mestres dessa arte literária ao rés-do-chão, lá estão as reminiscências de um passado distante, da infância sempre inusitada e pitoresca de cada um: adoro ler a infância drummondiana contada em crônicas; Os Teixeiras de Rubem Braga, então, espetáculo!... e por que não falar da infância do avô de um homem que brinca de ser cronista? Quando criança, lá pelos meus oito ou nove anos, adorava ouvir as histórias contadas pelo meu avô Vicente – hoje com noventa e cinco anos de idade. Eram histórias engraçadas no mais autêntico estilo Viriato Corrêa na obra Cazuza. Ainda hoje, não tive a disposição de perguntar se eram historinhas apenas recontadas por meio de um atavismo anônimo ou obras nascidas da veia poeta de um homem fadado ao anonimato existencial, embora digno de uma notoriedade universal – afinal, é meu avô!

Uma dessas historinhas, apesar de já passados mais de vinte anos desde que a ouvi pela derradeira vez, ainda persiste na minha retina. As imagens criadas quando da última audição da obra solta ao vento por palavras certeiras do meu progenitor ainda mexem, altaneiras, dentro de mim, implorando que as ponha num sólido local, eternizando-as ou repetindo-as de modo furtivo se forem réplicas indevidas de um outrora criador. Apesar do medo, de me consideram um plagiador das palavras, do mundo literário; arriscarei, colocando-as num papel ao meu estilo. Havia num reino mundo distante, além-mar, uma princesa que sonhava casar. Muitos eram os pretendentes, mas aquele que seria o homem digno de desposá-la deveria contar-lhe uma história cujo enigma a bela princesa não soubesse revelar.

Numa casinha, situada à beira de um lago, morava uma família numerosa, era uma prole de onze filhos, todos homens. Um mercador, numa de suas andanças, revelou a todos os moradores do vilarejo onde morava essa feliz família a existência do reino distante e a pretensão da princesa. Os dez irmãos mais velhos foram, um a um, seguindo rumo ao sonho, mas encontraram a morte. O mercador, orientado pela família real, omitia que se o enigma da história fosse descoberto pela bela princesa o contador da história seria guilhotinado para deleite da princesa. E, assim, em cada nova andança, um dos filhos da mãe entristecida seguia rumo ao fim da existência. Findos todos os mais velhos, apenas o caçula ainda permanecia junto à mãe que já conhecia o fim de cada um dos outros dez filhos. Chega-se uma nova embarcação. O filho resolve partir. A mãe, num desespero materno, quer dar-lhe outro destino:

– Se tem que morrer, que morra por minhas mãos! Não suporto mais perder meus filhos sem o direito de sepultá-los!

Prepara-lhe uma alimentação e o orienta:

– Quando sentir fome coma esse alimento. Não faça o mesmo que todos os seus outros irmãos que morreram por má alimentação.

E entrega ao filho uma provisão venenosa que o mataria após a primeira refeição. Chora. Abraça o derradeiro filho e o deixa partir... O menino resolve seguir rumo ao reino por terra. Adorava andar e resolvera criar a história que revelaria à princesa durante o percurso da sua trajetória... Caminha. Caminha. Caminha. Sempre seguido do fiel escudeiro, o cachorrinho de estimação que atendia pelo nome de Pita. Sente fome. Senta-se para comer, mas ao abrir o bornal e segurar a refeição tem o alimento subtraído pelo cachorrinho que salta vorazmente, tomando-lhe o único alimento disponível. O animal, logo após devorar a alimentação, cai desfalecido. O garoto chora e, somente depois, percebe a ação criminosa do amigo que queria apenas salvar-lhe da morte certa. Não tendo coragem de deixá-lo no caminho, resolve levá-lo como a uma caça abatida, preso às costas. E começa a história:

– ‘Pão matou Pita...’

Após horas de caminhada é interpelado por sete caçadores famintos que observam o animal abatido. Obrigam-no a deixá-los com a caça. Ele diz que é o seu cachorro que havia morrido, mas os caçadores ignoram a história. Tomam-lhe o animalzinho. Fazem uma refeição e, após comerem o alimento, caem mortos deixando com o garoto os sete rifles que conduziam. O garoto verifica cada um dos armamentos e escolhe o melhor deles para conduzir no restante da caminhada. E a história prossegue:

– ‘Pão matou Pita. Pita matou sete e dos sete, escolhi o melhor...’

Agora, com munição e armamento, inicia uma caçada a fim de conseguir a alimentação. Observa um pássaro num galho, atirando em seguida na intenção de abatê-lo. Erra o tiro, mas acerta um outro que estava noutro galho, distante da sua linha de visão. E continua:

– ‘Pão matou Pita. Pita matou sete e dos sete, escolhi o melhor. Atirei no que vi e acertei no que não vi...’

Corre. Alcança o pássaro abatido e procura um espeto para cozê-lo. Como não tem faca, resolve espetá-lo numa estaca que obtém ao quebrar uma cruz deixada na floresta, revelando que ali havia um corpo desfalecido e que fora enterrado num ritual comum aos povos civilizados. Faz um fogo. Alimenta-se. E prossegue:

– ‘Pão matou Pita. Pita matou sete e dos sete, escolhi o melhor. Atirei no que vi e acertei no que não vi. Assei carne com pau santo...’

Agora farto do alimento que a sorte colocara em suas mãos, tem sede. A floresta seca não permite que as fontes límpidas de águas brotem naquela região inóspita. A sede o consome. Nenhuma fonte há para saciá-lo. Quando já se dava por vencido, observa um animal distante. Vai ao encontro dele. O animal, suado, emana sinais de cansaço e de sede... Aproxima-se do animal e, numa atitude de subsistência, sorve-lhe o suor que é retirado com os dedos e, dessa forma, sacia a sede já quase insuportável! Passado o asco da superação humana, conclui por fim a história uma vez que o palácio descrito é vislumbrado por ele, embora ainda longínquo:

– ‘Pão matou Pita. Pita matou sete e dos sete, escolhi o melhor. Atirei no que vi e acertei no que não vi. Assei carne com pau santo. Bebi água que não era nem do céu nem da terra...’ Pronto. Essa será a história que contarei a princesa tão logo tenha oportunidade.

Chega ao palácio e revela o desejo de ser um dos pretendentes ao trono. Dias depois, é levado ao encontro da princesa que o interpela, friamente:

– Qual sua história, plebeu!?
– Minha história, princesa, é a seguinte: ‘Pão matou Pita. Pita matou sete e dos sete, escolhi o melhor.

Atirei no que vi e acertei no que não vi. Assei carne com pau santo. Bebi água que não era nem do céu nem da terra. E após isso, estou aqui.’ Do que trata essa história, princesa? A princesa, enrubescida, chamou seus asseclas e os mentores da corte. Nada. Não tinham uma explicação para o enredo. Por fim, sentencia:

– Peço um tempo para responder!
– Até o amanhecer, princesa, intervém o jovem plebeu, decididamente.
– Até o amanhecer, concorda a princesa. Se ao amanhecer não tiver a resposta, casarei com você!

Amanhece. O jovem plebeu é levado à presença da princesa. Ela o observa e, sem pormenores, revela:

– Não fui capaz de descobrir do que trata a história e, conforme o prometido por meu pai, casar-me-ei com você. Antes, porém, preciso conhecer a verdade uma vez que se for uma história inconsistente, morrerá como um vilão mentiroso e torpe!

– Que seja assim, princesa. Essa é a história da minha peregrinação desde que saí de minha casa até chegar aqui.

E prossegue:

– Todos os meus outros dez irmãos desfaleceram na esperança de desposar a mais bela princesa anunciada pelos andarilhos errantes. Eu, último de uma descendência, também vim em busca disso e trazia comigo um cão que morreu após comer o alimento preparado por minha mãe que talvez não me quisesse como mais uma das vítimas. Com a morte do cão, iniciei a história: ‘Pão matou Pita...’ A carne do meu animal serviu de alimento a sete caçadores famintos que morreram ao fim da refeição. Dos rifles que traziam consigo apanhei o que me pareceu o melhor. E a história prosseguiu: ‘Pão matou Pita. Pita matou sete e dos sete, escolhi o melhor.’

A princesa e todo o seu corpo de júri assistiam ao relato silenciosamente. O jovem plebeu, alheio a tudo, prosseguia, agora mais convicto de si:

– Com o rifle, tentei abater um pássaro que observei numa árvore, mas errei o tiro, atingindo um outro que não vi. Disso veio mais um trecho da história: ‘Pão matou Pita. Pita matou sete e dos sete, escolhi o melhor. Atirei no que vi e acertei no que não vi.’ Por fim, após depenar a caçar e de não ter com o que espetá-la, fiz um espeto improvisado com os restos de uma cruz que havia no caminho. Após a alimentação senti sede e fui saciado bebendo o suor de um cavalo que surgiu, não sei como, diante de mim. Após isso, vislumbrei o palácio onde agora estou contando toda e história que se resume no que relatei ontem: ‘Pão matou Pita. Pita matou sete e dos sete, escolhi o melhor. Atirei no que vi e acertei no que não vi. Assei carne com pau santo. Bebi água que não era nem do céu nem da terra.’

Os conselheiros formaram um cerco junto à princesa e sentenciaram:

– Vivas, ao futuro rei!

Será preciso concluir dizendo em tom solene que foram felizes para sempre? Tudo bem. Eles se casaram e foram felizes para sempre.

Fim.

Por: Nijair Pinto














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Engenho de Rapadura - Dr. Heládio

Dr. Heládio nos envia hoje fotos de um dos últimos engenhos de Rapadura da Região do Cariri:




Fotos: Heládio Duarte
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