24 agosto 2008

Notícias da Semana - Coluna Tarso Araújo - Jornal "O Povo"




ANOTE: ZOOM CULTURAL
Circulando em todo o Cariri a revista Zoom Cultural, com apurados textos jornalísticos e imagens de ótima qualidade. Um dos destaques da revista, sem desmerecer os demais textos, é a reportagem "A poética da xilogravura" assinada por Hosana Régia Quinderé, com fotos de Diego Sidrim. A matéria fala de trabalho de Maércio Lopes, um dos maiores talentos da xilogravura do Cariri nos dias atuais. A Zoom Cultural tem como proposta mostrar o que o Cariri tem de melhor, e está conseguindo. De quebra, revela bons talentos do jornalismo cultural caririense.

INFÂNCIA
Nesses tempos em que agredir crianças e adolescentes é quase uma moda, fruto de mentes sem brilho, moral ou respeito por seres humanos, recebo o informativo Sintonia Infância, da ONG Catavento. Para quem quer ficar informado sobre o tema, direitos da criança, nada melhor. De quebra, eles produzem um programa de rádio com temas variados, falando de cidadania, com boas músicas e textos legais.

CICLISMO
O Cariri acolhe todos os anos, três eventos interessantes. As provas MTB 6 horas, o MTB 12 horas Nordeste e o Cariri Montain Bike, mostrando que a região tem uma certa força no ciclismo. Aqui, é destaque Alziane Diógenes, uma fera das pedaladas. É comum, na Chapada, a gente ver esses ciclistas nos finais de semana.

LULA NO CARIRI
O presidente Luís Inácio Lula da Silva esteve em Juazeiro esta semana. Inaugurou a primeira etapa do Campus da Universidade Federal do Ceará (UFC). Cerca de 10 mil pessoas fincaram pé, e mesmo com três horas de atraso, esperaram o presidente da República, que gastou quase uma hora para falar aos presentes. Deu ênfase à sua história de vida.

PADROEIRA
Foi aberta na última sexta-feira as festividades em homenagem à padroeira do Crato, Nossa Senhora da Penha. Serão mais de 10 dias de orações e ao final, a procissão do dia 1º de setembro.

INVESTIMENTOS
O que mais impressiona no governo Lula são os números do Banco do Nordeste. Instituição financeira federal, tem um papel importante no desenvolvimento de políticas pública sociais, principalmente ligadas ao desenvolvimento de pequenas e micro-empresas. Pois bem, no governo Lula, o Crediamigo, principal projeto social do BNB, emprestou, apenas no Ceará em 2008 R$ 1 bilhão. Um volume de recurso invejável e nunca alcançado pelos governos anteriores, nem o de Fernando Henrique Cardoso.

FÓSSIL
O achado raro de macrofóssil em 'folhelo piro betuminozo', ou seja, petróleo petrificado, há cerca de dois meses no sítio Conceição, no entorno de Santana do Cariri, está sendo descrito pela pesquisadora da área, Juliana Sayão. Trata-se de parte dos ossos da perna de um dinossauro. Os primeiros indícios levavam a crer que fossem ossos fossilizados de um pterossauro. A importância da nova descoberta se dá pelo tipo de material em que foi encontrado o fóssil, dando maior representatividade para o mundo científico. Além dele, também foi encontrada uma pedra de peixe com vários filhotes, na mesma formação fossilífera.

TURISMO COMUNITÁRIO
A Fundação Casa Grande e a Universidade Patativa do Assaré, ambas do Cariri cearense, foram duas das 50 instituições selecionadas pelo edital de Turismo de Base Comunitária, do Ministério do Turismo. O projeto aprovado contempla três etapas de promoção da Casa Grande no Brasil e no Exterior como destino de turismo cultural. Fazem parte desta estratégia a elaboração de produtos turísticos (como exposição fotográfica, vídeos, cartazes e espetáculos), o fortalecimento da Rede de Turismo Solidário, a Turisol, divulgando as experiências da Casa Grande em eventos da rede, e ainda a realização do Seminário Brasileiro de Turismo Social e Cultural de Base Comunitária, na sede da instituição, em Nova Olinda, Ceará. Todas as ações serão promovidas em 2009.

ELEIÇÕES
Ciro Gomes esteve no Crato participando de comício de Walter Peixoto (PMDB). Já o senador Tasso Jereissati (PSDB) veio ao Crato para o palanque de Samuel Araripe. Na última sexta-feira, conversou com Araripe e prometeu três visitas ao Crato para reforçar a reeleição de Samuel, que é do PSDB. Jereissati também foi a Barbalha ajudar Rommel Feijó a se reeleger.

Coluna Cariri escrita por Tarso Araújo e publicada na edição de hoje do jornal O Povo.

Pensamento do dia!



O que nos díferencia são nossos sonhos

e o que fazemos para que eles se realizem

Joseph Epstein

Ótimo domingo!!!


As visões de Veja

A revista Veja publicou recentemente uma extensa matéria sobre o ensino brasileiro, fundamentada em uma pesquisa que ela encomendou ao CNT/Sensus. Nessa matéria de capa a revista endemoniza o sistema educacional brasileiro e aponta o fracasso do ensino a partir de uma colocação dos nossos melhores alunos em um “ranking” mundial de 57 países, com um posto abaixo da qüinquagésima posição. Como sempre, em todas as matérias espetaculosas da revista, existem mais conotações do que denotações.

A revista Veja tem se notabilizado pela linha editorial investigativa, o tanto quanto pela sua irresponsabilidade em apontar o seu dedo sujo para alvos diversos. Por diversas vezes a sua falácia já foi comprovada. Em muitas matérias que visam o estardalhaço, o discurso de veja não passa de uma flatulência sorrateira de uma quiromante absorta em embaralhar suas cartas. Realmente os sistemas educacionais brasileiro e mundial tendem ao fracasso, mas não pelas razões apontadas pejorativamente pela revista, que se auto-intitula como a pitonisa educacional, baseada em estatísticas bastardas e ilhadas constatações de campo.

A conotação da matéria é que o fato de 90% de professores se acharem preparados para darem aula e 89% de pais com filhos em escolas particulares se darem por satisfeitos com o serviço prestado, constitui uma cegueira nacional, uma histeria abobalhada de despreparados, tanto professores como pais. Mas de parvo mesmo o que existe em demasia é a argumentação da revista, que atribui a culpa do fracasso dos alunos brasileiros em “competições” internacionais à doutrinação de esquerda a que eles estão submetidos feita por um batalhão de professores admiradores de Karl Marx. Mais hilariante do que isso é a própria “vidente profissional” achar que essa matéria irá suscitar uma lúcida e ampla discussão sobre o assunto.

O discurso mascarado da Veja, antes de tudo é mambembe, sem embasamento científico nenhum, muito menos coerente com o verdadeiro cerne da questão. Munidos de dados e jogadas ao acaso, os paladinos jornalistas autores da matéria, desfilam um batalhão de bizarrices fantasiosas, muito mais para o baile do vermelho e preto do Flamengo, com seus travestis tresloucados, do que para uma tentativa de texto jornalístico real. Verdadeiros disparates porcos foram jogados às pérolas.

A revista reivindica o tempo e a urgência da tecnologia globalizada como fatores preponderantes para um ajuste radical no compêndio pedagógico brasileiro, e no entanto não toca no assunto da grade curricular; no modelo arcaico de universidade; na metodologia de ensino, que beira o Iluminismo; e nem na dicotomia secular entre profissionalização e formação acadêmica de pesquisa, duas vertentes paralelas do conhecimento no processo de formação do aluno. Em detrimento a tudo isso e mais uma outra gama de implicações associadas, a revista preferiu dar ênfase a um fenômeno transversal, que nem desvenda e nem cega o caminho da aprendizagem: “o perigo da doutrinação de esquerda dentro das salas de aula brasileiras”.

“Muitos professores e seus compêndios enxergam o mundo de hoje como ele era no tempo dos tílburis. Com a justificativa de ‘incentivar a cidadania’ incutem ideologias anacrônicase preconceitos esquerdistas nos alunos”, afirmam os autores da matéria, em tom panfletário, muito mais protéticos do que patéticos, conotando como solução para as cáries do ensino brasileiro, uma dentadura postiça produzida em série, esculpida com a velocidade da luz pelo mais científico de todos os lasers do american way of life.


É claro que existe um anacronismo gritante na postura de esquerda de muitos educadores, que se valem de axiomas marxistas ultrapassados. No entanto, mais do que anacrônica é a postura macarthista utilizada pelos autores da matéria para deslegitimar uma doutrina e legitimar uma outra, embutida na ideologia capitalista de readaptação constante do indivíduo ao meio para não se tornar fraco, sem competitividade, que é a teoria da evolução das espécies, de Darwin. Vale salientar aqui que a campanha histérica empreendida pelo bufão senador Joseph MacCarthy, contra o pensamento de esquerda nos Estados Unidos, deu-se na década de 50, do século XX.

De lá para cá os Estados Unidos, educadamente munidos de alta tecnologia e armas, com seus alunos altamente preparados para o ingresso na economia de mercado, de monstruosa competitividade, construíram uma história alarmante de extermínio da natureza e de crimes hediondos em larga escala contra sociedades do mundo todo, em sua ensandecida cruzada política de “preservação” dos “princípios democráticos”. Nesse sentido a colocação de dados na matéria sobre citações de personalidades socialistas nas salas de aula, tais como “o guerrilheiro argentino Che Guevara, aparece com 86% de citações positivas, 14% de neutras e zero, nenhum ponto negativo”, é digna de um araponga da Agência Brasileira de Inteligência, infiltrado atrás das linhas “inimigas”, mas atrapalhado em seus conceitos na sua tentativa rabelaisiana de derrubar o “contra-sistema”.

Praticamente todas as universidades européias estão impregnadas com o pensamento marxista, bem como uma parcela significativa de doutores e docentes livres que ministram aulas nas universidades americanas. Da mesma forma essas mesmas universidades estão impregnadas com o cartesianismo reducionista e todas as velharias teóricas ultrapassadas do conhecimento ocidental, que tanto têm servido à concepção desenvolvimentista do capitalismo. Não existe nada de novo no ensino mundial que seja capaz de projetar o aluno para um futuro promissor no convívio social. O modelo continua o mesmo, com o agravante da transformação das escolas em empresas, e por contigüidade, a adoção da produção em série.

Há muito que não se educa. Isso vem desde o modelo enciclopedista de Diderot e D’alambert e o cientificismo positivista, em que a independência crítica foi substituída pelo chamado “pensamento lógico”, reivindicado pela pastelança da matéria. Esse modelo adestra, desenvolve habilidades emparedadas pelo cânone acadêmico. Quanto mais o aluno avança nos estudos, mais ele se torna especialista em diluir o pensamento alheio em suas menores partes. Enquanto isso ele perde a visão do conhecimento como um todo, sem nem chegar a um senso crítico. O que nada mais é do que a reificação do individualismo e a legitimação da competitividade. Essa é a exigência da cultura de massas, de quem esses jornalistas são filhotes, devidamente raciados por alguma pós-graduação. A cultura de massas não acolhe divisores, mas sim reprodutores.

Portanto, a dadivosa indignação dos autores da matéria sobre o ensino brasileiro é um embuste, não passa de uma cena de histerismo escatológico de uma prostituta traída por seu cafetão com uma prostituta bem mais velha. Os próprios jornalistas servem como exemplos do fracasso escolar e completa falta de perspectivas de solução. A Veja continua com seu encantamento de espia, mas só para broncos.

SOFIA É

Sofia é igual. Tem quatro membros, cabeça e o tronco. Cada movimento que realiza se compara ao realizado ou em realização por outra pessoa. Sua respiração, a apreensão de objetos pelas mãos, a boca como o centro do reconhecimento, os olhos atentos ao que suas mãos tateiam e a enorme variedade como que algo novo passa a ser um foco de atenção. Por isso os adultos dizem: as crianças cegam, quando menos se espera elas estão mexendo em coisas perigosas.

Sofia aos nove meses é muito diferente de tudo o que conheci. Como o filhote de pingüim no coletivo da geleira é reconhecido pela mãe. Como alguém na multidão. Feito um indivíduo ao longo de milhares de gerações. Olhando para Sofia imaginaria que a singularidade poderia ser o átimo de tempo que é dela. Que o espaço em que se realiza seja o diferencial por trás de sua individualidade. Sofia apenas como ser do tempo e do espaço, no entanto, não explica toda esta diferença que percebo nela.

Antes de ir adiante, não encontro razão no seu patrimônio genético. Eis outro mito da modernidade sobre a individualidade de Sofia. Ela não é um pré-projeto, inscrito na mistura de seus pais. Nem lembro as mutações que continuamente ocorrem, isso não é o grande diferencial. Apenas que o código genético é insuficiente (ou a escala boçal do hiposuficiente) para explicar Sofia. Assim como a adição de tempo e espaço (fenotípica), história e cultura.

Sofia é diferente pois parte do movimento, mas não apenas por isso. Por exagerado que possa parecer, tão logo que Sofia pegou num penduricalho da bolsa da avó e toda a sua concentração se voltou para pendular os tais, revelou-se a parte do movimento que não explica Sofia. Pois Sofia é quem explica o movimento. Estava claro que Sofia é um dos seres que, por iniciativas próprias, promovem o movimento do mundo. Tal qual como é hoje e como poderá ser amanhã. E certamente será diferente como Sofia é.

Sim, não caia no mito que o mundo é feito por vencedores e vencidos. Isso é categoria de investimento financeiro. De aplicação de capitais. Do mesmo modo o mundo não é uma corrida para um ponto de chegada. Isso é categoria de projeto. Nem tampouco uma disputa entre partes. Isso é categoria de jogo. O mundo se move ora por diferenças com tendências a se concentrar numa trajetória ou a se dispersar por iniciativas que acentuam as diferenças. Assim Sofia é uma diferença notável na iniciativa e na natureza do movimento.

Sofia como parte do conhecimento tem outra natureza pois poderá se traduzir ou não em outras pessoas. Isso é uma categoria de sucesso social e histórico, mas tampouco é uma necessidade em si do mundo. Poderia até ser uma necessidade das pessoas, mas desde que reconhecida por tal. Se ninguém a reconhecer, se não se reproduzir em outras pessoas, inclusive em Sofia, o fenômeno traduzido em conhecimento mesmo assim existe, se encontra no mundo, apenas não experimentado em conhecimento.