15 agosto 2008



Os Cabinha
Uma banda inteira


Qualquer tese de mestrado ou qualquer digressão doutorável se perde diante da grandeza cultural que é essa pequena banda de lata formada por meninos da Fundação Casa Grande, organização não governamental de gestão cultural de Nova Olinda. Os Cabinha é irreverência pura. É o princípio desorganizador da compartimentação cultural. É a sopa dividida ao meio pela mosca matuta, conduzindo o povo criativo em um êxodo de fuga da seca musical que se abate por essas plagas seminais.

Rodrigo Alves, Renê Nascimento, José Wilson, Arthur Diniz e Iêdo Lopes têm entre 9 e 11 anos e 330 mil anos à frente de muita porcaria circundante, oficializada pelo cânone das emissoras-pinico caririenses. Eles não tocam nenhum instrumento de verdade, são todos instrumentos de lata e papelão. Eles não têm afetação nenhuma de grandes estrelas, mas tornaram-se a grande sensação musical do momento, apresentando o delicioso show “Música in banda de lata”, título tão criativo quanto o repertório de músicas próprias, apresentado em 45 minutos de pura diversão.

Essa meninada esperta dá suporte tecnológico para todas as etapas de suas produções musicais. Eles construíram seus próprios instrumentos, gravaram suas próprias músicas, pilotaram todos os equipamentos digitais e fizeram, eles mesmos, a mixagem do primeiro cd da banda. O show deles é mais do que mimésis. Eles podem fingir que estão tocando, mas nenhum público que os assista pode fingir que isso é cultura. Esse é o purgante que a arte contabilizada precisa para pensar melhor.

Eles foram mais longe ainda não só em palcos distantes, se apresentando em várias capitais e gravando com gente importante, como o novo cd que marca a volta do Aquarela Carioca, mas também na maneira de veicularem a sua arte. É possível baixar músicas deles no overmundo, no trama e no myspace. Além disso o cd da banda será vendido, com tecnologia SMD, a R$ 5 reais em máquinas da ONG Eletrocooperativa, instaladas em pontos estratégicos do país, dentro do projeto “Música livre e comércio justo”.

Isso é definitivamente mandar as lombrigas setoriais que invadem as instituições culturais pra casa do cassete. Isso é cultura viva, desempalhada, desprotocolada, desarquivada, desproporcionada, desempossada, destituída da imortalidade infértil dos vampiros culturais. Os hematomas criados nas partes periféricas e íntimas e escusas do corpo cultural caririense podem ser curados pelo despudoramento de ser autêntico desses garotos.

O ludismo de todo esse processo de assimilação cultural desses cabinha é vermelho, da cor do sangue da educação via cultura. Esse é o encantamento tão decantado pelo filósofo alemão Walter Benjamim, provando que não é preciso ser desprovido de intelectualidade para ser artista popular. Essa é a verdadeira reificação de que artista da terra é minhoca. Para os broncos restam os enlatados, os frios e os congelados, dispostos organizadamente em presépios, sem blasfêmias, dentro da data prevista de consumo pelo fabricante, em desfile solene na esteira fria dos caixas de supermercados.

Os Cabinha é riso puro, desdentado ou com dentes entramelados. Mas é boca aberta, com fome de saber. Não existe visão mais libertária do que ver a baba escorrendo dos lados dessa bocarra cultural. Serve para mim, serve para você e para aquele outro ali, com firma reconhecida e cadastro desempedido, serve para todos nós sabermos que arte não é questão de posse, é questão de vontade.

Os Cabinha on line: www.myspace.com/oscabinha - www.tramavirtual.com