01 agosto 2008

Programação desta Sexta-feira no III Festival da Música Instrumental no Centro Cultural Banco do Nordeste.

Duo Pianíssimo

Foto Duo Pianíssimo

Formado pelos pianistas Isaura Rute e Tiago Callou, ambos da região do Cariri cearense, o Duo Pianíssimo se dedica a executar e divulgar a música erudita de qualidade. Isaura iniciou seus estudos de piano muito jovem, com a professora americana Jean Howorth. Sob a orientação da mestra Nelma Dahas Muniz, formou-se bacharel em piano pela Universidade Estadual do Ceará e foi premiada no Concurso de Piano Paurillo Barroso, da Secretaria de Cultura do Ceará. Atualmente rege o Coral Schoenberg e dedica boa parte do seu tempo à formação de novos pianistas. Tiago, por sua vez, foi aluno da própria Isaura, atual parceira, e tornou-se um pianista maduro, interpretando peças de grandes mestres, como Chopin, seu compositor preferido. Atualmente leciona piano no Complexo Cultural Schoenberg. Em sua atual apresentação, o Duo Pianíssimo interpreta, de Peter Tchaikovsky, o Concerto-Suíte do Ballet Quebra-Nozes, terceiro e último concerto escrito pelo compositor, além de peças de Mozart e Bizet.

Cássio Nobre

Foto Cássio Nobre

Multiinstrumentista, compositor e produtor musical, Cássio Nobre segue divulgando seu primeiro disco solo – “Última Pele” –, lançado em 2007, pelo selo Tantas Coisas, com distribuição nacional pela Tratore. O álbum foi selecionado pelo Programa BNB de Cultura 2006 e pelo Edital de Programação Cultural dos Centros Culturais do BNB no Ceará e na Paraíba em 2008. Um disco de música brasileira, com fortes influências africanas, latinas e experimentais. Segundo Cássio Nobre, a principal característica desse trabalho é o ecletismo, refletindo a busca por uma linguagem musical universal. Um mosaico de sonoridades, células rítmicas, linhas melódicas e estilos musicais, com instrumentos que vão de viola, guitarra e baixo fretless a alaúde árabe, atabaques, zabumba, pandeiro e berimbau de arco. No palco com Cássio Nobre, o guitarrista e baixista Júlio Caldas, o baterista Emanuel Venâncio, e o pianista e acordeonista Saulo Gama.

Fonte: Website do Centro Cultural Banco do Nordeste
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Registrando Evento - Show dos contrabaixistas Sérgio Groove e Júnior Primata no BNB - Um verdadeiro Arraso !

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Groove & Primata

Aconteceu ontem, dia 31 de julho, o show de dois dos grandes contrabaixistas do Brasil no Centro ultural Banco do Nordeste - Cariri. O show, marcado por muito virtuosismo aos instrumentos, fêz parte também do III Festival da Música Instrumental, que acontece no Centro Cultural desde a semana passada, e se encerrará neste sábado, com o show do pianista Dihelson Mendonça e Trio.

Sobre os Músicos:

Podem dois contrabaixos ocupar todas as sessões de uma banda? Sim! Essa é a proposta do duo Groove Primata, duo formado pelos baixistas potiguares Sérgio Groove e Júnior Primata, músicos reconhecidos na região Nordeste, reunidos em um projeto que vem sendo considerado, nos últimos dois anos, a maior novidade no cenário dos festivais promovidos pela revista especializada Cover Baixo por todo o Brasil. Formado no início de 2006, o duo leva o contrabaixo ao centro do palco, assumindo o papel de todos os instrumentos de uma banda, preenchendo as funções melódicas, rítmicas e harmônicas, em um show que trafega pelos ritmos nordestinos para demonstrar as diversas técnicas do baixo. “Tapping, slap”, “double thumb”, entre outros recursos instrumentais, são apresentados em arranjos de músicas próprias e outras consagradas. Tudo executado exclusivamente com os dois contrabaixos, em um trabalho surpreendente e capaz de cativar a atenção do ouvinte.


Fonte: Website do Centro Cultural Banco do Nordeste
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Combate às drogas no Cariri - Projeto Desafio Jovem pode fechar - Por: Antonio Vicelmo.

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O Desafio Jovem funciona em uma chácara, no Sítio Teotônio, ao lado da Vila São Bento, a 4 quilômetros do Centro do Crato, porém o trabalho da entidade está ameaçado por falta de apoio financeiro (Foto: Antônio Vicelmo)

Por falta de recursos financeiros, a entidade que ajuda dependentes a deixarem o vício está prestes a fechar as portas

Crato. O Desafio Jovem do Cariri, uma Organização Não Governamental (ONG) que já recuperou vários dependentes de drogas na região, está na iminência de fechar. Dos 20 jovens internos que eram atendidos, restam somente dois. Um deles é o lavador de carros Francisco Rodrigues David, que se apresentou voluntariamente para se livrar da dependência química.

A falta de apoio financeiro das empresas que contribuíam para sua manutenção está levando a entidade à falência. A advertência é do coordenador administrativo, Danisio Feitosa, que agora enfrenta um novo desafio: manter uma organização filantrópica, sem fins lucrativos, que vem prestando relevantes serviços à comunidade do Cariri.

O Desafio Jovem funciona numa chácara, no Sítio Teotônio, ao lado da Vila São Bento, a 4 quilômetros do Centro do Crato. “O contrato de aluguel da casa se vence no próximo mês. Nós não temos condições de pagar os R$ 450,00 cobrados pelo aluguel”.

Danisio lembra que mais de 300 dependentes, entre os quais, médicos, advogados, artistas, professores, passaram pelo Desafio Jovem Cariri, nestes 8 anos de atividades. Ele esclarece que não são só os jovens de classe baixa que se tornam dependentes de drogas. Os maiores usuários, pelo menos, no Cariri, são jovens de famílias ricas.

“Todos nós somos afetados com o que acontece na sociedade e não podemos ignorar que temos uma parcela de responsabilidade sobre os acontecimentos e conseqüências, especialmente, os vividos em nossa comunidade”. Esta é a voz da experiência e do sofrimento. Danisio é uma das vítimas das drogas. Começou a usar com 11 anos. Só parou com 20, quando conheceu o Desafio Jovem.

A entidade, segundo ele, é uma comunidade terapêutica com características muito especiais, cujo segredo está na atuação junto às áreas física, mental e espiritual, baseando-se nos ensinamentos da Palavra de Deus e não em uma religião.

“O objetivo maior é o de oferecer ao dependente e aos familiares elementos básicos de uma reformulação de vida, calcados nos ensinamentos da palavra de Deus nas áreas física, mental, social e principalmente espiritual”, comentou.

O trabalho é fundamentado na auto-estima e terapia ocupacional. Para isso são realizadas palestras e oferecidas oficinas de artesanato, música, cinema, leituras bíblicas e pintura. Um dos casos mais curiosos de cura foi de um jovem pernambucano que, depois de recuperado, trouxe o pai para se livrar da dependência das drogas.

A mais envolvente forma de terapia são os depoimentos. “No início era tudo legal, eu sonhava acordado, tinha uma paz, mas passageira, uma alegria, mas momentânea, o vazio e a depressão aumentavam, não conseguia compreender. Mudei meu caráter, as amizades, tornei-me um anarquista, um vândalo”. Depoimentos como estes terminavam, quase sempre, de forma trágica. As drogas roubaram os sonhos, o futuro bonito. Os amigos se afastaram. Alguns dos companheiros foram assinados. Outros se suicidaram.

Monitores

Outro detalhe importante. Todos os monitores e diretores do Desafio Jovem são ex-dependente. Um deles é Gilberto Macedo dos Santos que vivia, segundo confessa, totalmente entregue à bebida. Deixou de beber, casou-se e agora paga o benefício que recebeu ajudando outros dependentes. O uso indevido de substâncias químicas tem sido o responsável pela desestruturação do ser humano e suas relações, provocando prejuízos de natureza bio-psico-social em grande escala.

O município do Crato está inserido na problemática do uso e dependência química que assola a sociedade brasileira, pois a disponibilidade e facilidade de tais substâncias se renovam freqüentemente neste mercado clandestino.

De acordo com levantamento feito pelo soldado Aurélio Duarte, da Polícia Militar, as maiores consumidoras de álcool são as mulheres jovens adolescentes. Ele é um dos palestrantes do Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência (Proerd), que consiste em um esforço cooperativo da Polícia Militar, escola e família para oferecer atividades educacionais em sala de aula, a fim de prevenir ou reduzir o uso de drogas e à violência entre as crianças e adolescentes.

Auxílio

A ênfase deste programa está em auxiliar os estudantes a reconhecerem e também resistirem às pressões diretas ou indiretas que os influenciarão a experimentar álcool, cigarro e outras drogas, ou mesmo, adotarem comportamentos violentos.

Antônio Vicelmo
Repórter

Mais informações:
Desafio Jovem Cariri
Sítio Teotônio, Vila São Bento, 133, município do Crato
(88) 3521.0273
(88) 9209.7859

Opinião do Especialista

Os efeitos das drogas são ilusão

Droga é uma substância que, introduzida em um organismo vivo, pode modificar uma ou mais de suas funções relacionadas com a percepção e a emoção. À medida que o usuário fuma, tem a sensação de euforia seguida de relaxamento e sonolência. Os efeitos continuam até algumas horas depois. Os olhos ficam avermelhados, por causa da dilatação dos vasos que irrigam a parte branca do globo ocular, a boca fica seca, em virtude da constrição da gândula salivar e o coração acelera em até 120 batimentos cardíacos por minutos.

Uma dessas drogas, a maconha. A existência dela é muito antiga na história humana, provavelmente, cerca de 12 mil anos. Originária da Ásia espalhou-se pelo mundo todo, sendo introduzida no Ocidente, no século XIV, por navegantes espanhóis, como fonte de fibra. Como efeito medicina, a maconha é usada desde o século XIX. Foi no século passado que começou a ser usada como recreação e desde 1930 apareceram leis, controlando seu consumo. Estudo britânico diz que fumar três “baseados” faz tão mal para os pulmões quanto 20 cigarros. A maconha de hoje é mais perigosa que a dos anos 60, alertam tais pesquisadores. Um novo estudo surpreendente realizado em 2004, pela Fundação Pulmonar Britânica (BLF), afirmou que o alcatrão do cigarro de maconha contém 50% a mais de cancinógenos.

JOÃO CÉSAR MOUSINHO QUEIROZ *
pscicocesarmousinho@hotmail.com
*Terapeuta familiar

Fonte: Antonio Vicelmo - jornalista do Diário do Nordeste
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Uma Relíquia - Poema sobre o Crato, escrito em 1953 por Alves de oliveira.

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CRATO.

Tanto me afiz bela urbe, à tua natureza
Pelos meus respirada, exuberante e pura.
Que, ausente dos teus ceus, nas horas de ternura.
Afloras-me ao cismar, bemfadada princesa!

Venho as auras haurir-te. E ao ver-te, que leveza
Blandiciosa me invade, e se aviva, e perdura.
Sentindo-me ingressar na região da Fartura,
Sentindo-me extasiar na zona da beleza!

E o Cristo Redentor, e as torres, e a serena
Verdura a emoldurar-te... Em fim, para que a pena
Deslize no papel, feliz, agil, fagueira.

Basta-me a aparição, na tarde que se encerra.
De uma casa a alvejar num côncavo da serra,
Ou o simples flabelar de um leque de palmeira.


Alves de Oliveira - 04.09.1953.
Texto enviado ao Blog do crato por Antonio Alves de Morais.
Foto ilustrativa - Seminário São José - Dihelson Mendonça


Resposta a Dr. Valdetário - Por: Amadeu de Freitas.

- Direito de Resposta -
O Blog do crato, em seu dever democrático, assim como publicou a crítica de Dr. valdetário ao PT, concede também, da mesma forma, direito de manifestação da parte criticada.

Tenho dificuldade de debater politicamente com alguém que baixa o nível da discussão e resvala para acusações rasteiras e utiliza chavões despropositados. Teria eu o perfil do ditador terrorista? Teria eu o caráter de um lambe botas para rastejar por um emprego? Essa é a dificuldade de dialogar com uma mente dessa. Mas vamos lá. Apesar de não citar meu nome em artigo publicado neste blog, datado de 23 de julho de 2008, Dr. Valdetário seguramente se refere a mim quando faz menção a um militante do PT do Crato que tem um cargo no INCRA.
Imagino que as pessoas de bom senso são capazes de entender que se Lula não vier ao Crato não é pela coligação que o PT fez neste município, e sim pelo mesmo motivo que ele não vai a muitas outras cidades em que o PT tem candidato próprio. Qual seja, não foi definido como prioridade pela Direção Nacional do partido para Lula fazer campanha. Por que Lula não veio ao Crato em 2004, ano em que Dr. Valdetário foi candidato a Prefeito? Não basta ser candidato do PT.
Dr. Valdetário menospreza a decisão do PT adotada em encontro de seus filiados em que ele teve as mesmas oportunidades de defender suas posições. Então ele queria que sua proposta fosse aprovada pela minoria? Isso sim seria ditadura. Comparar-me a um ditador e chamar a companheira Mara de “Amélia”, em um frontal desrespeito à presidente do Diretório Municipal do PT do Crato, e ainda afirmar que só pensamos e trabalhamos em proveito próprio é no mínimo absurdo. Todos conhecem a nossa dedicação ao longo de muitos anos à construção do PT e à defesa dos interesses dos trabalhadores.

Quando o nosso acusador tenta apontar os motivos que nos levaram a defender no Crato uma aliança com o PV entra em franca contradição. Nas acusações anteriores, ele dizia que eu defendia a aliança com o PV porque teria negociado cargos no futuro governo municipal. Agora, “foi um acordo entre a corrente política (DS) da prefeita de Fortaleza e o Diretório Estadual do PV” para o Partido Verde apoiar a reeleição de Luizianne e o PT apoiar candidatos do PV no interior do Estado. Novamente eu apelo para o bom senso do leitor para entender o absurdo da imaginação do Doutor. Por que esse acordo não ocorreu com o PMDB quando negociou o apoio a Luizianne? Por que esse acordo não foi com o PSB do Governador? Quantas alianças foram realizadas no suposto acordo com o PV? O PV participa da gestão de Fortaleza desde 2005. A aliança para apoiar a reeleição da prefeita de Fortaleza em 2008 é a continuidade de uma relação política já existente.

O comportamento de Dr. Valdetário é incompatível com a posição que ocupa de membro do Diretório Municipal do PT. É obrigação de todo dirigente partidário defender seu partido e não atacá-lo como tem feito o Doutor. Quando não ataca o partido, agride moralmente seus dirigentes e pessoas que têm honra. Quanta falta de respeito comigo ao acusar que aceitei a aliança com o PV em troca da permanência no cargo que atualmente ocupo no Governo Federal! Quanta falta de respeito com minha família ao questionar a minha capacidade de pagar a prestação de um carro, caso não permaneça no referido cargo! Isso é ridículo!

Quero fazer um convite ao Dr. Valdetário para ocuparmos os espaços dos jornais com discussões que ajudem os eleitores, nesse momento de campanha eleitoral, a refletir sobre propostas para resolver os principais problemas do Crato. Considero imprescindível cobrar dos candidatos a prefeito do Crato compromisso com o saneamento ambiental da nossa cidade. O Crato é o único município do seu porte no Estado do Ceará que não dispõe de sistema de coleta e tratamento de esgotos. Penso ser importante saber o que propõem os candidatos para o destino do lixo. E as propostas para gerar emprego e renda? Quantas casas populares pretendem construir? O que pensam os candidatos a prefeito sobre a adoção do Orçamento Participativo?

Que mecanismos propõem para dotar a gestão municipal de maior transparência e controle social? Prefiro o debate racional e ético à luta rasteira da insanidade.

Por: Amadeu de Freitas
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Mateus.


Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.
Martha Medeiros

Cangaceiros Alados



Leitores, vou terminar
Tratando de Lampião
Muito embora que não posso
Vos dar a resolução

No inferno não ficou
No céu também não chegou
Por certo está no sertão

José Pacheco da Rocha (1890-1954)

Finalzinho dos anos 50. Instituto Médico Legal Nina Rodrigues em Salvador, na Bahia. Um menino peralta, indomável no alto de seus seis anos, manquitolando, com uma longa bota ortopédica atada ao pé direito, aproxima-se destemidamente da vitrine. À sua frente uma imagem inesquecível e bárbara: as cabeças degoladas de Lampião, Maria Bonita e dos cangaceiros : Quinta-feira, Luiz Pedro, Mergulhão, Elétrico, Enedina, Cajarana, Tem

pestade e Marcela. O meninozinho caririense, em tratamento ortopédico na capital baiana, não titubeou. Como havia prometido ao pai, antes da viagem, postou-se diante dos guerreiros decapitados e bateu continência.

Já lá se vão setenta anos da queda definitiva do Capitão Virgulino e seu bando e exatamente meio século do gesto de reverência militar do menino ruivo e meio saci que hoje escreve estas linhas. Após o fogo de 28 de Julho de 1938, em Angicos, os onze guerreiros que fizeram parte do mais arrojado bando guerrilheiro nordestino, que varreu os sertões por quase vinte anos, abatidos, terminaram todos sendo decapitados. Suas cabeças passaram a ser expostas sob o pretexto que serviriam de cobaias científicas , se estudando possíveis degenerescências lombrosianas. E assim permaneceram até 1969, quando sob pressão do Dr. Sylvio Hermano de Bulhões, filho de Corisco e Dadá, este mobilizou a opinião pública para que pusessem fim à exposição bárbara dos restos mortais dos principais

expoentes do ciclo épico do cangaço no século 20. Os aniversários são sempre propícios à reflexão, hoje, sentada a poeira dos eventos épicos dos anos 30, há condições de se enxergar melhor.

A primeira questão diz respeito à exposição indigna dos restos mortais dos cangaceiros por mais de trinta anos. A justificativa científica rapidamente cai por terra à medida que as teorias criminalísticas de Cesare Lombroso começaram a cair por terra após os anos 50. A exposição bárbara das cabeças demonstrou, claramente, ser apenas um ato vingativo dos vencedores, no sentido de mostrarem a todos as suas presas. Não diferente do que se viu no esforcamento-esquartejamento de Tiradentes , nos jogos de futebol com a cabeça dos vencidos perpretados pelo romanos e pelos bárbaros e, mais recentemente, na exposição pela mídia colombiana do corpo ensangüentado do guerrilheiro Raul Reyes. Expõem-se , indignamente, os corpos dos abatidos, como um caçador apõe a cabeça empalhada do tigre,caçado no safári, na sua sala de jantar.

Lampião, com o tempo, foi se travestindo numa figura mitológica: meio herói, meio bandido, meio anjo meio belzebu. Idolatrado por alguns, execrado por tantos outros, tem se mantido nesta dubiedade mítica intimamente imersa na alma do povo brasileiro. Essa presença tão forte talvez advenha da impossibilidade de alguém se manter neutro ao ouvir sua história, ao ver cantados seus feitos. O escultor Zé do Carmo , de Goiana em Pernambuco, intuitivamente percebeu o anverso-reverso da medalha e esculpiu em barro um sem número de cangaceiros alados. Como julgar uma pessoa que pelas vicissitudes da vida viu-se , de repente, jogado na caatinga, lutando por uma causa que ele próprio já ignorava e acossado dia e noite, por quase vinte anos, pelas patrulhas de macacos ? Como sobreviver na selva sem aprender as astúcias da raposa e a selvageria das aves de rapina ?

A saga do Capitão Virgulino Ferreira na sua multiplicidade interpretativa, demonstra uma outra duplicidade de origem. Como em Canudos e no Caldeirão, a nação demonstrou, claramente , as duas arestas de que é composta. Um país que poderia se chamar de Holandesh : de um lado um povo rico, próspero e desfrutando de um paraíso terrestre, uma espécie de Holanda; do outro 80% de uma população que sobrevive de bicos e que não tem garantido o almoço de cada dia, morando numa espécie de Blangadesh. Como lembrou o nosso Machado de Assis e reafirma a cada dia o gênio da raça Ariano Suassuna, há estes dois Brasis um real e outro oficial. De vez em quando, na nossa história, a Holanda busca dizimar , com vergonha, a Blangadesh. Com Lampião foi assim , mais uma vez tentaram cortar a cabeça da serpente, sem entender que se tratava de uma Medusa. Hoje o cangaço deixou a caatinga e está nas ruas, nos morros, nas favelas. Os novos Virgulinos se multiplicaram e respondem pelo nome de Fernandinho Beira-Mar, Lulu da Rocinha, Cecelo,Coelho, Marcelo PQD. A aresta holandesa deste país continua mantendo seu paraíso a custa de escândalos e falcatruas: mensalões, sanguessugas, Satiagahas. Em meio ao tiroteio, padecem culpados e inocentes. Muitas e muitas cabeças ainda serão cortadas e expostas ,Brasil afora, para dar uma sensação de falsa tranqüilidade. Angicos, a queda do Arraial de Canudos, as chacinas da Candelária, do Caldeirão e do Carandiru são medidas inócuas. Enquanto o Brasil carregar a Holanda e Blangadesh tão próximos, o cangaço não terá sido extinto.

A imagem de tantas cabeças sem o corpo terminaram por fazer a cabeça do meninozinho ruivo. E , por isto mesmo, hoje, cinqüenta anos depois , ele aqui está novamente batendo continência para o Capitão Virgulino Ferreira da Silva.

J. Flávio Vieira