22 maio 2008

O PECADO DE CLARA MENINA
Comédia de Cacá Araújo
"ESTE CONTO FOI CONTADO
SEM MENTIR, SEM INVENTAR
O PECADO DA MENINA
FEZ O REINO REVIRAR..."






DIAS 24 E 25 DE MAIO DE 2008
(SÁBADO E DOMINGO)
20 HORAS - 14 ANOS
Inteira: R$ 6,00 - Meia: R$ 3,00
Teatro Rachel de Queiroz
Rua Dom Quintino, 913
Crato - Ceará
Tel: (88) 3523.2168

O FENÔMENO DA COMPRA DE VOTOS


Como os eleitores escolhem os seus candidatos em eleições? Esta pergunta intriga cientistas políticos há meio século (Campbell, 1960) e desafia, em tempos de eleição, os consultores das campanhas eleitorais. Os profissionais da área tendem a concordar que o eleitorado segue um conjunto de motivações na escolha da preferência política. Existem diferentes tipos de votos, como o voto ideológico, o voto pessoal ou o voto circunstancial (Grandi, 1992, p.29). Dentro deste raciocínio, somente uma pequena parcela do eleitorado seguiria convicções políticas na escolha do candidato. Uma grande parte dos eleitores apoiaria candidatos que possuem sua confiança pessoal, principalmente em eleições locais. Ao contrário destes compromissos de longo prazo, denominados votos ideológicos e votos pessoais, um terceiro grupo estaria disposto a decidir seu voto espontaneamente, em função de diversos motivos ligados à forma como candidatos e programas são apresentados. Sobre esta parcela do eleitorado, indeciso e volátil, a arte de apresentar conteúdos e pessoas na mídia, o marketing político, teria um grande impacto.
O fenômeno da compra de votos é um assunto relevante na política contemporânea? A própria legislação eleitoral reconhece a existência do problema proibindo explicitamente a compra de votos. A questão da administração imparcial do processo eleitoral diz respeito à clareza e à transparência das regras, bem como à sua implementação neutra na competição eleitoral. Para este objetivo a independência da instância que organiza o processo eleitoral pode ser crucial. Como mostra o estudo de Sadek (1995), o Brasil avançou bastante no século XX em relação às questões da lisura do processo de administração das eleições. Duas etapas decisivas foram à criação da Justiça Eleitoral em 1932 e a introdução do voto eletrônico entre 1996 e 2000.

Outro grande tema vinculado à questão da lisura eleitoral diz respeito ao papel dos recursos financeiros no processo da competição eleitoral. Na teoria da democracia representativa, as eleições restringem-se à competição pelos votos dos eleitores. Na prática, o processo de comunicação entre candidatos e eleitores envolve recursos consideráveis e a competição eleitoral passa a ser também uma competição pelo apoio material à campanha para suprir esta demanda. A lisura do processo eleitoral em relação ao financiamento das campanhas é um tema recorrente em todas as democracias modernas.

A compra de voto ainda é uma realidade nas eleições brasileiras. A observação empírica confirma que as eleições são caracterizadas por uma intensa negociação de bens materiais, favores administrativos, e promessa de cargos. Sendo uma prática antiga, ela ocorre dentro de determinados padrões recorrentes.
Pode ser organizada por integrantes da própria máquina de campanha do candidato (distribuição de cestas e bens pelo candidato), por correligionários independentes que, com recursos próprios ou de terceiros, conseguem comprar votos para um candidato (por exemplo médicos que dão atendimento gratuito) ou por cabos eleitorais, que profissionalizaram a negociação dos votos. Estes últimos estão geralmente ligados a um representante político municipal, e atuam como uma espécie de intermediário permanente de serviços públicos e outros favores. A dificuldade da interface entre a administração e o cidadão e o caráter opaco dos órgãos públicos são a base para este facilitador que, ao contrário dos outros agentes, atua não só no período eleitoral, mas de forma permanente, mesmo em anos em que não há eleições.
A primeira conclusão talvez seja reconhecer que a aplicação de pesquisas de opinião para aferir a incidência de crimes é um instrumento válido também para o fenômeno da corrupção eleitoral. A lisura do processo eleitoral merece a mesma atenção que outros dados estruturais da cultura política, mensurados através de pesquisas deste tipo. Outros levantamentos mais abrangentes são necessários para proporcionar uma noção mais completa das suas várias modalidades e para monitorar o fenômeno eleitoral.
A segunda conclusão diz respeito à dimensão quantitativa do fenômeno. A compra de votos, uma modalidade da corrupção eleitoral freqüentemente comentada na mídia, questiona a legitimidade do sistema representativo. A quantificação, até agora negligenciada, é uma ferramenta indispensável para dar a este problema a devida importância.
Uma terceira observação refere-se ao potencial e aos limites de levantamentos deste tipo. Sendo um instrumento importante para o mapeamento dos grupos mais visados e das regiões mais atingidas pela corrupção eleitoral, a pesquisa fornece subsídios para orientar tanto o trabalho da justiça eleitoral, como também as iniciativas preventivas de organizações da sociedade civil. Porém, revelam-se também os limites deste tipo de mapeamento da vulnerabilidade na orientação de políticas concretas contra a corrupção eleitoral. Parece existir um círculo vicioso entre uma administração pública opaca, os serviços de intermediação oferecidos pelo cabo eleitoral profissional e o legislativo municipal, eleito na base destes favores administrativos. Para identificar os nexos causais nas relações sociais que caracterizam a corrupção eleitoral, bem como para identificar pontos de apoio e de resistência para a reforma, a realização de estudos complementares sobre a corrupção eleitoral é de suma importância. Políticas dirigidas ao controle da corrupção necessitam da identificação dos possíveis aliados e adversários na implementação de projetos de reforma.


Francisco Leopoldo Martins Filho
Pós Graduado em Direito Penal
Especialista em Danos Morais
E-mail: leopoldo.advogado@ig.com.br



Indiana Jones e tua caveira perdida

José do Vale Pinheiro Feitosa

Liguem máquinas de pipoca, armem-se de abridores de garrafas, ajustem canudinhos: uma nova aventura neocolonialista está em cartaz. Spielberg nas telas mundiais dos distribuidores do império. Mais uma aventura do Indiana Jones: e o "Reino da Caveira de Cristal". Sempre em busca de peças míticas e lendárias como a Arca da Aliança, Santo Graal, pedras e caveiras. Uma arma de fogo na mão direita e um chicote na esquerda, o herói "arqueólogo", vai pelo terceiro mundo saqueando suas relíquias. Após a tomada, sempre violenta, o herói pega uma máquina mítica do mundo industrial (como um hidroavião) e retorna para os salões neoclássicos de sua vetusta universidade.

Figurino readaptado ao contemporâneo, mantendo o estilo dos anos 30, o Indiana é uma réplica marota do velho cinema colonialista inglês daqueles idos. Talvez quando o jovem Spielberg ia às sessões vesperais de sua cidade natal. Como um Jim das Selvas ou um Tarzan de John Weissmuller, os exploradores do império inglês em busca do marfim dos elefantes, do ouro e diamante da África. Hoje ao abrirem os jornais e lerem sobre 45 mortos pela violência na África do Sul, a respeito das guerras tribais e subnacionais eis os "diamantes de sangue" que o colonialismo europeu lançou no terceiro mundo. Agora o comando imperial sobre a cultura de teus filhos e netos, sobre a tua própria: com DVDs, shopping centers, vitrines em "off", "for sale", conforto mesmerista das luzes que tonteiam.

Vai oh espectro. Vai ser capacho na vida.

Não é global. Apenas clarabóias da realidade

Caetano Velloso, quando era jovem e antenado e não este burguês contra cotas raciais, assim cantou: O sol nas bancas de revista./ Me enche de alegria e preguiça./ Quem tanta notícia/.Eu vou/ Por entre fotos e nomes. O sol, um jornal da época, que na letra de Alegria, Alegria, se reparte em crimes, espaçonaves, guerrilhas, Cardinales bonita..., é a referência perfeita das clarabóias da realidade que apenas compreendem instantaneamente a realidade da civilização por seus discursos escapistas, dissimuladores e psicologicamente atuando para se fazer implante de "verdades". Clarabóias de um fragmento, mas com a prática corriqueira de se apostar filtros que levam a se ver a realidade com os olhos de terceiros.

Por isso esta maçaroca de informações diárias (e noturnas ou madrigais) precisam de um grande esforço que os ruminantes possuem. Remastigar os fragmentos para que se tornem uma pasta mais compreensível. Uma pasta que se amoldou aos sucos digestivos de nossa verdadeira vida, difícil, insegura, frágil, manipulada externamente, mas nossa e por isso mesmo reflexiva sobre o que é e como é.

Não se espere do exterior informações globais. Elas são clarabóias com muita freqüência ajustada por filtros estranhos. Mas por sermos matéria do tempo e do espaço, o debate e confronto de verdades são bons caminhos.

Sobre a Sabedoria, a Ciência e a Educação

"As pessoas ainda não foram terminadas..."
Porque nosso DNA é incompleto, inventamos poesia, culinária...

As diferenças entre um sábio e um cientista? São muitas e não posso dizer todas. Só algumas.

O sábio conhece com a boca, o cientista, com a cabeça. Aquilo que o sábio conhece tem sabor, é comida, conhecimento corporal. O corpo gosta. A palavra "sapio", em latim, quer dizer "eu degusto"... O sábio é um cozinheiro que faz pratos saborosos com o que a vida oferece. O saber do sábio dá alegria, razões para viver. Já o que o cientista oferece não tem gosto, não mexe com o corpo, não dá razões para viver. O cientista retruca: "Não tem gosto, mas tem poder"... É verdade. O sábio ensina coisas do amor. O cientista, do poder.

Para o cientista, o silêncio é o espaço da ignorância. Nele não mora saber algum; é um vazio que nada diz. Para o sábio o silêncio é o tempo da escuta, quando se ouve uma melodia que faz chorar, como disse Fernando Pessoa num dos seus poemas. Roland Barthes, já velho, confessou que abandonara os saberes faláveis e se dedicava, no seu momento crepuscular, aos sabores inefáveis.

Outra diferença é que para ser cientista há de se estudar muito, enquanto para ser sábio não é preciso estudar. Um dos aforismos do Tao-Te-Ching diz o seguinte: "Na busca dos saberes, cada dia alguma coisa é acrescentada. Na busca da sabedoria, cada dia alguma coisa é abandonada". O cientista soma. O sábio subtrai.

Riobaldo, ao que me consta, não tinha diploma. E, não obstante, era sábio. Vejam só o que ele disse: "O senhor mire e veja: o mais importante e bonito do mun­do é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando..."

É só por causa dessa sabedoria que há educadores. A educação acontece enquanto as pessoas vão mudando, para que não deixem de mudar. Se as pessoas estivessem prontas não haveria lugar para a educação. O educador ajuda os outros a irem mudando no tempo.

Eu mesmo já mudei nem sei quantas vezes. As pessoas da minha geração são as que viveram mais tempo, não pelo número de anos contados pelos relógios e calendários, mas pela infinidade de mundos por que passamos num tempo tão curto. Nos meus 74 anos, meu corpo e minha cabeça viajaram do mundo da pedra lascada e da madeira - monjolo, pi­lão, lamparina - até o mundo dos computadores e da internet.

Os animais e plantas também mudam, mas tão devagar que não percebemos. Estão prontos. Abelhas, vespas, cobras, formigas, pássaros, aranhas são o que são e fazem o que fazem há milhões de anos. Porque estão prontos, não precisam pensar e não podem ser educados. Sua programação, o tal de DNA, já nasce pronta. Seus corpos já nascem sabendo o que precisam saber para viver.

Conosco aconteceu diferente. Parece que, ao nos criar, o Criador cometeu um erro (ou nos pregou uma peça!): deu-nos um DNA incompleto. E porque nosso DNA é incompleto somos condenados a pensar. Pensar para quê? Para inventar a vida! É por isso, porque nosso DNA é incompleto, que inventamos poesia, culinária, música, ciência, arquitetura, jardins, religiões, esses mundos a que se dá o nome de cultura.

Pra isso existem os educadores: para cumprir o dito do Riobaldo... Uma escola é um caldeirão de bruxas que o educador vai mexendo para "desigualizar" as pessoas e fazer outros mundos nascerem...

Rubem Alves - Educador e escritor
rubem_alves@uol.com.br

MADEIREIROS VERSUS MARINA SILVA

Emerson Monteiro

Quem descrê dos temas apocalípticos não perde por esperar, porquanto a fome da madeira ronda os mercados mundiais com um apetite jamais imaginado, sobretudo nos países ditos ricos, os que têm a goela dilatada pela ganância imperialista e dormem debaixo dos escombros do que eles mesmos destruiriam; acumularam capitais dos botins das vitórias nos séculos sem fim da vileza.

Falo isto quando sai a ministra Marina Silva do governo Luiz Inácio da Silva, logo eu que achava a máquina nacional conivente e as políticas governamentais pálidas para conter a destruição do pouco que resta das florestas, considerando a realidade do que, há poucos anos, presenciei das agressões no serrado maranhense, no Tocantins e no Pará, diante da febre da soja e do nelore.

Sempre reclamei de que uma administração progressista deveria um tanto na contenção dos desmandos ecológicos, nesta era de pouco respeito ao assunto, quando inúmeros aventureiros se lançam de bandeiras em punho, nos bares e nas praças, a pedir justiça verde, inconformados pelo pouco ou nenhum resultado das campanhas editoriais encetadas nos gabinetes de Brasília e nos quadros das televisões, nos programas matinais dos fins de semana. Esse alarido postiço nos murais das escolas precisa de autenticidade, revirar de mesas nos salões das festas. Menos teoria e melhores práticas.

E a Ministra. que vencera algumas batalhas, reduzira em alguns dez por cento a eliminação da natureza, a troco de seis anos de aborrecimentos e perseguição, sinais de pouca preocupação objetiva daquilo que se pretende como um todo generalizado. Uma voz perdida na multidão (?) dos interesses economicistas dos planos nacionais e das expectativas de vencer as demandas. Porém os empresários da madeira não dormem. Os tratores não silenciam. Os rebanhos comem a soja para alimentar a morneira dos brancos ocidentais, herméticos e silenciosos em seus duplexes calafetados e sua dureza de coração.

Desconheço a alegação dos motivos que justificaram a saída de Marina Silva. Largou o barco e se ruim com ela, pior sem...

O palco perdeu alguém que dispunha da coragem de segurar a barra, disto sei. Do tipo de que sei quão mudada se reverterá a superfície do Planeta, no Brasil, após a eliminação das últimas espécies de árvores no intestino daqueles que adoram o deus da ilusão e agridem a natureza em face do sentimento esquisito de impotência por conta da ignorância da coletividade comum.

A geração de hoje haverá de plantar os pomares de dois séculos adiante, caso pretenda preservar a existência da vida na Terra, quero assim concluir. Mãos à obra, pois! Hora boa de, ao menos, falar, quando larga o trem um dos seus fieis passageiros, que lutou a fim de contar os desmandos da farra madeireira que ronda o resto de vegetação nas periferias adormecidas.