16 dezembro 2008

Pesquisa avalia uso do pequi na cura de doenças


Bioprospecção Molecular

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Além de gerar emprego e renda no Cariri, o pequi também pode ter aplicação antiinflamatória, cicatrizante e gastroprotetora no organismo (Foto: ELIZÂNGELA SANTOS)

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Com sabor e aromas incomparáveis, o pequi é uma fruta nativa do cerrado brasileiro, muito utilizada na cozinha nordestina, do Centro-Oeste e norte de Minas Gerais

Pesquisa inédita realizada por dois estudiosos na Urca avaliam as propriedades terapêuticas do pequi

Juazeiro do Norte. Dados preliminares de estudos científicos, para o uso terapêutico do pequi, apontam resultados significativos da ação antiinflamatória, cicatrizante e gastroprotetora do óleo extraído do fruto. O trabalho vem sendo comprovado em animais por meio do trabalho realizado pelos pesquisadores, o enfermeiro Glauberto da Silva Quirino, e o biólogo Rogério de Aquino Saraiva, mestrandos na área de Bioprospecção Molecular, primeiro mestrado do gênero no Brasil, oferecido pela Universidade Regional do Cariri (URCA).

Os primeiros resultados estão sendo testados em ratos, no laboratório da própria universidade. Os pesquisadores avaliam de forma animadora os trabalhos, para que mais tarde os testes possam ser feitos em serem humanos. Mas a inspiração mesmo veio do próprio caririense, do senso comum.

O óleo sempre é produzido e comercializado por suas propriedades terapêuticas, mas nada comprovado do valor científico do fruto.

Forma de sobrevivência
Na Serra do Araripe, nesta época do ano, o pequi passa a ser para muitos produtores rurais uma forma de sobrevivência, e também um alimento nutritivo. Rico em vitamina E, desperta para o poder até afrodisíaco do fruto. Esse detalhe é abordado pelo professor Glauberto como resultado desta propriedade. O seu trabalho tem como ponto de partida a aplicação terapêutica, no estudo “Ação Cicatrizante e Gastroprotetora do Óleo”.

Mesmo sendo já bastante comercializado na região, o pequi neste período, em sua grande parte, provém de cidades do interior de Goiás. Mas os pesquisadores destacam o diferencial apresentado pelo fruto da Chapada do Araripe, pelas suas propriedades terapêuticas. Mesmo sem ter idéia desses resultados, famílias fazem a festa nesta época do ano, ao começarem a se preparar para morar em cima da serra, durante praticamente um semestre.

A colheita começa e um grande acampamento se forma entre as cidades de Barbalha e Jardim, na beira da CE-060, o óleo pode ser visto e comercializado em poucos dias. É preparado pelos próprios catadores. No próprio local, eles também comercializam o fruto. A culinária para adultos e crianças é bem à base do que é colhido.

A conhecida “pequisada” é um prato tradicional. Um período de fartura para os agricultores. Mas em outras partes da Chapada, à beira das rodovias, é comum se ver moradores montarem barraquinhas de palha para venda do fruto, utilizado como tempero para o baião de dois com feijão verde, bem a cara da fase invernosa na região caririense.

O biólogo Rogério de Aquino Saraiva desenvolve sua pesquisa ressaltando o “Estudo da Atividade Antiinflamatória Tópica do Óleo de Pequi”, denominado cientificamente por Caryoca coriáceun. Ele destaca o ineditismo da pesquisa no Ceará. “Não conheço nem um trabalho do gênero, destacando um pequi, fruto da região da Chapada”, diz.

Esses primeiros resultados já estão sendo apresentados pelos pesquisadores da Urca, em eventos como o Congresso da Federação Brasileira de Biologia Experimental, e como trabalho precursor em congresso em João Pessoa, na Paraíba. Segundo Glauberto, foi feita um avaliação da propriedade de gastroproteção, com o óleo ou polpa, em modelo de úlcera induzida por etanol e aspirina.

Para os pesquisadores, os primeiros resultados foram positivos. “A gente estendeu esses trabalhos, testando quatro mecanismos de gastroproteção, incluindo prostraglandina, óxido nítrico e canal de potássio dependente”, explica ele. Para desenvolver a pesquisa, Glauberto afirma que o seu trabalho partiu do conhecimento já da própria população e a partir desse dado fez um levantamento bibliográfico. A literatura aponta, além da ação antiinflamatória, aplicação contra problemas respiratórios.

Composição química
Glauberto destaca estudos que já foram realizados quanto a composição química do produto. A do óleo é bem definida com a presença de vários ácidos graxos, essenciais ao funcionamento orgânico, vitaminas A, E, C . “São vitaminas que participam do processo antioxidação, renovando as células”, explica. No caso do risco de aumento de colesterol, Glauberto destaca que pode ser improvável, já que os ácidos graxos são benéficos ao bom funcionamento do organismo.

Glauberto destaca trabalhos já produzidos, mas voltados para o pequi da região centro-oeste, o Caryoca brasiliense, diferente do da região do Araripe. “São propriedades singulares, mas com variações de percentuais dos componentes”, explica o estudioso.

Os próximos passos do pesquisador é poder desenvolver uma forma farmacêutica para o produto tipicamente regional, que poderá sair da cozinha para os balcões das farmácias.


ELIZÂNGELA SANTOS
Repórter

Fonte: Jornal Diário do Nordeste

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