15 dezembro 2008

Jangada ao mar


.:.
Ao irromper de cada aurora.
Velas outrora fechadas em si.
No porto, cais vivo às margens mornas,
aguardam o grito: – Hora de ir!
Ao toque gentil do artífice,
cuja vida está no mar,
a brisa – nobre frescor, alento,
cumprimenta-os, doce, à superfície.:
Ah, jangada ao vento!
Que nos trarás do mar?

– Hora de ir!
Grita, por fim, o mestre d’água,
liberando as toras do chão.
Altivo, fala – sonora expressão.
À mercê da mãe infinda, agora está.
Coteja horizontes: ora o cais, ora o mar.
E aos poucos, devagarzinho, vai sumindo,
deixando saudades aqui.
Ah, jangada ao vento!
Que nos trarás do mar?

Ilha viva de madeira, lona e suor,
circundada pela imensidão.
Quantas trevas, à noitinha,
suportaste na solidão?
É hora de parar!
É a risca – ilusão navegante.
– Âncora ao mar! – esta voz eu conheço.
É do mestre por quem tenho apreço.
Ah, jangada ao vento.
Que nos trarás do mar?

Inicia-se a pescaria
sob os arrufos do mar.
E o vento, em ventania,
Faz a jangada bailar.
Redes, efêmeros grilhões,
são puxadas a passo lento,
trazendo, ainda arredios, relutantes,
os frutos do “passatempo”.
Ah, jangada ao vento!
Que nos trarás do mar?

E o vento, em ventania,
aos poucos bravio fica.
– Mestre! – grita o tripulante.
(Está rezando, agarrado a uma fita.)
– Calma!
São caprichos do mar.
Mas não percamos tempo
e vamos a âncora içar.
Ah, jangada ao vento!
Que nos trarás do mar?

Pequenina, dócil e frágil,
fica à deriva a embarcação.
E o mestre, prevendo o futuro,
improvisa manobras em vão.
E as ondas se avolumam,
causando espanto aos olhos pagãos.
– E agora Deus?
Acode-nos! Não vem, não!?
Ah, jangada ao vento!
Por que ainda estás no mar?

De repente a calmaria...
Veio suave, de mansinho.
E as gaivotas, agora tristonhas,
Sumiram – eram tão medonhas!
Sorri, qual menino, a tripulação.
E o mestre agradece a bênção.
Chorando – voz fraca, contrita.
Esboça um ritual e desfaz-se da fita.
Ah, jangada ao vento!
Por que ainda estás no mar?

Empós dias mar adentro
no tenebroso e místico azul,
Vira-se a direção das velas,
das novas terras do sul.
À tardinha, quando a brisa
em direção a terra sopra,
voltam os jangadeiros (dentes à mostra)
juntos à popa que desliza.
Ah, Jangada ao vento!
Nunca deixes de ir ao mar.


Nijair Araújo Pinto

Do meu livro 'Anversos de um versador'

Fortaleza-Ce, 13 de setembro de 1999.
00h13min

3 comentários:

  1. Olha, sem mentira alguma, esse talvez seja seu melhor texto até agora, Nijair! E engraçado que ele é de 1999 ?? Tem um misto assim de Fagundes Varela com Gonçalves Dias, que torna esse poema muito expressivo.

    Parabéns, amigo!
    Vou postar eu mesmo lá no CaririCult.

    Abraços,

    Dihelson Mendonça

    ResponderExcluir
  2. Valeu pela força. Dihelson!

    Abraço!

    P.S.:
    Tente ver com os amigos do CaririCult por que o convite que me enviaram não está dando certo, pode ser?

    ResponderExcluir
  3. Nijair,
    O Convite é do mesmo tipo em qualquer Blog, vc sabe disso. Ao receber o convite, vc deve seguir o LINK que se encontra no texto, clique lá e ACEITE o convite. Depois siga os passos de login e Senha.

    Se vc quiser uma conta á parte, e quiser me fornecer o seu login e Senha ( por e-mail, claro ), eu posso ver o que está acontecendo. Porque na verdade, é pra ser muito simples, principalmente se sua conta for do GMAIL.

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    Agora mesmo.

    Abraços,

    Dihelson Mendonça

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