20 novembro 2008

OS GURIS DA RUA CORONEL SECUNDO

Didaticamente, a vida pode ser dividida em três fases: o passado - que já acabou; o presente - em extinção; e o futuro - mera expectativa. Sempre que a vida nos aborrece quando estamos já adultos, sentimos uma necessidade urgente de sorrir e aí recorremos ao passado, se tiver sido bom. Felizmente, todos nós, da rua Coronel Secundo, nos anos cinqüenta, dourados, mesmo os de poucos recursos, gozamos de uma infância feliz, pois tivemos o básico para acharmos a vida prazerosa: um teto, uma família, alimentação suficiente, ótimo ensino público e uma rua, berço e palco do talento de cada um. Acordávamos cedo e nos recolhíamos pouco depois do anoitecer. Nada havia de mais interessante a fazer do que dormir e sonhar. Quanto verde havia: o bosque (hoje a Praça Alexandre Arrais), as matas ciliares do rio Granjeiro (das piabas), a mata de Seu Jéferson e o Sítio Lameiro. Sob essas árvores, sombras queridas se foram e vozes se calaram. A beleza simples, suprema benção das coisas e das criaturas, encontramo-la na memória da infância, no areal do bosque e da nossa rua mais bonita, ainda descalça feito nós, local de matanças hoje inconcebíveis, de borboletas, com nossas camisas, e aos gritos de " alô boy, matalê um"!... Que falta faz a lama e o cheiro desses lugares que pisamos e que nos inundaram até o espírito, a ponto de nenhum banho, ainda hoje, ser capaz de nos lavar. Vejo, admirado, que muitos meninos de agora não mancham as suas roupas com nódoas de caju... que vida sem graça! Nos reencontros dos amigos da rua não catamos os sinais de decadência do outro, mas procuramos amavelmente as marcas dos nossos pequenos pés na areia... Usamos a imaginação e viajamos ao tempo em que as águas do rio eram claras, onde lavamos nossas almas sujas e voltamos alegres e felizes pela rua da qual fizemos estribo para a vida Hoje as pessoas têm pressa. Não param mais para conversar, como fazem as formigas... mas nós da rua Coronel Secundo, não; pois sempre valorizamos o toque interpessoal, antenados que somos com base nos pilares da formação humana, quais sejam: o amor, o respeito e humildade, da grande família parquense pelo bom Deus. O escritor João do Rio, em sua obra "A alma encantadora das ruas", faz uma citação belíssima: "...Eu amo a rua; e esse amor assim absoluto e assim exagerado é partilhado por todos nós. Nós somos irmãos, nos sentimos parecidos e iguais porque nos une, nivela e agremia o amor da rua. É este sentimento imperturbável e indissolúvel, o único que , como a própria vida, resiste às idades e às épocas".Assim somos os filhos da Coronel Secundo: Os Bantim, Correia, Figueiredo, Lóssio, Dantas, Siebra, Martins, Paletó, Chagas, Alencar, Barbosa, Matos, Policarpo, Abath, Pinheiro, Jamacaru...

Crato/CE, 12.11.2008.
João Marni de Figueiredo

7 comentários:

  1. Que texto mais lindo ...poético !
    "Na rua uma poça d'água , espelho da minha mágoa , transporta o céu para o chão"...
    Senti vontade de cantar todas as músicas , que contam histórias da rua.

    Parabéns !

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  2. Caro João Marni, fiquei muito feliz quando encontrei um dos seus belos textos postado aqui no nosso Blog. Isso nos engrandece. Peço-lhe que poste outros tantos seus que já li e os considero verdadeiras obras poéticas. Um forte abraço. Valdetário.

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  3. Válida a inserção desta colaboração do Dr. João Marni. E a crônica escolhida não poderia ser melhor. Tema atual, construção literária perfeita. Valeu!

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  4. Meu grande amigo JOÃO MARNI,

    A que devo a honra dessa visita tão ilustre no nosso Blog do Crato ? Seja Bem-vindo! e parabéns pelo excelente texto, meu amigo!

    É como a gente sempre fala:
    "- Nesse Crato só tem Artista!"

    Quem menos tem talento por aqui, tem muito mais do que os "grandes" de outros centros. E praticamente ninguém da geração de Marni, Zé Flávio, a turma do Diocesano ficou desprovida desses talentos que tão bem residem na alma e no coração de cada um...

    Um grande abraço,

    Seu amigo:
    Dihelson Mendonça

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  5. Dr. João,
    Lendo seu texto, imaginei como seria aquela rua, aquela vida, no Crato dos anos 50 e 60, com uma pitada de inveja, tão perfeita era a descrição. Os ricos e poéticos detalhes demonstram a infância feliz que deve ter desfrutado com seus vizinhos(amigos). Sem ter vivido o Crato de outrora, tenho saudade também das belezas naturais e arquitetônicas testemunhadas e desfrutadas por ilustres Cratenses(ou não) que ali viveram...
    Parabéns pelo belo filme que deve ter passado na cabeça de muitos e que sirva de crítica(construtiva, é lógico) a preservação do bom e do belo! Abraços

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  6. Há uma semana quando recebi essa maravilhosa crônica do meu sobrinho afim, João Marni, fiquei com vontade de postá-la no Blog do Crato. Mas como não tinha autorização dele para tal, não o fiz. Fiquei muito feliz quando ontem recebi um e-mail de minha sobrinha, sua mulher, pedindo para postar essa beleza de texto no Blog do Crato, o que fiz prazerosamente. Vejo que os médicos, em geral, são exelentes escritores. Aqui no nosso Crato temos grandes exemplos; João Marni, Zé Flavio, Valdetário, Zé do Vale e tantos outros. Parece que os médicos de tanto abrirem o corpo humano conseguem melhor vislumbrar a alma que há invisível em seu inteiror. E João Marni que além de mádico é psicólogo, com mais razão ainda. Parabéns1

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  7. Bom demais!Tantos elogios fazendo cafuné no ego deste égua...
    Obrigado a todos.
    abraços

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