17 novembro 2008

Mostra Sesc - a visão de um artista

Pela tela quadrada da janela da van, após desembarcar no aeroporto de Juazeiro do Norte, o que se vê no percurso de 30 minutos até a cidade do Crato é uma paisagem bem diferente de filmes como Cinema, aspirinas e urubus ou Deus e o diabo na terra do sol. No sertão do Cariri(sul do Ceará), a paisagem é verdinha e na Chapada do Araripe, que faz divisa com Pernambuco, Paraíba e Piauí, existem até espécies da mata atlântica. Quando o ator João Miguel voltou de lá em 2002 e me disse que existia em pleno Sertão Brasileiro uma mega Mostra de Artes abrangendo teatro, música, artes plásticas, audiovisual, fotografia e literatura, confesso que não duvidei. Afinal de contas não se deve duvidar da palavra de um cumpadre. Mas é compreensível o meu espanto e o de todos com quem conversei aqui em relação ao tamanho do evento. Esse ano foram 1.500 artistas provenientes de 17 estados Brasileiros e 4 países(Espanha, França, Portugal e Argentina), apresentando seus trabalhos em 43 espaços espalhados por 12 cidades, sendo que o grosso da programação se concentra nas cidades de Juazeiro do Norte, Crato e Nova Olinda. A atriz espanhola Nereida Baros do grupo Nutteatro diz estar impresionada com o acolhimento para vários tipos de propostas artísticas diferentes. O Diretor Carlos Neira da companhia da Galícia completa: “ Na Espanha não há nada parecido em termos de estrutura e diversidade” A programação diária começa de manhã com diversas oficinas e workshops que se estendem até as 17 horas, a partir de então começam diversos espetáculos em teatros, galpões, clubes e praças públicas da cidade. É impossível acompanhar tudo ao mesmo tempo, por isso, recomenda-se a leitura da programação impressa e do jornal diário da mostra,o Flor de Piqui, para que cada um possa fazer o seu itinenário cultural. Se não faltam atrações, tampouco falta público, mesmo as peças que são apresentadas a meia-noite durante a semana ficam lotadas, e é preciso garantir o ingresso com antecedência para não voltar da porta. A primeira coisa que salta aos olhos aqui é o caráter popular da Mostra. Não se trata de um festival para “entendidos”, onde a “nata” da “classe” celebra o seu encontro. É claramente perceptível uma vocação da população para Arte. Não importa se é o teatro de mímica do grupo francês Dos a Deux ou o som sourround do ritual dos índios Karajá na praça central, todos querem ver, ouvir e ter aquela vivência. Os filhos do taxista que te pega no hotel na véspera, você encontra na adaptação de Dom Quixote feita pelo grupo Teatro que roda de Goiânia no dia seguinte. Dane de Jade, Gerente de cultura do Sesc Ceará e criadora, há 10 anos atrás, da Mostra Sesc Cariri de Cultura, diz não ver sentido na vida se não for através da arte, mas explica o caminho das pedras: “Num pais onde a constituição foi regulamentada, em termos de cultura, em 1998, com certeza há uma longa estrada pela frente para formar o hábito de pensar cultura como um direito social.“ De fato se formos analisar a Mostra Cariri do ponto de vista da economia da cultura após esses 10 anos, tomamos conhecimento, através de dados da Prefeitura, que o comércio, a hotelaria e os vínculos empregatícios sobem 70% nesse período. Contribuem também para isso vários atrativos da região, alguns naturais, como a cachoeira de Missão Velha, as caldas naturais da cidade de Barbalha, o Geopark do Araripe (patrocinado pelas Nações Unidas) e fósseis de Pterossauros do período Cretáceo (cerca de 110 milhões de anos) em Santana do Cariri, e outros culturais. O Cariri é um pólo de Mestres de Reisados, bandas de pífano (Cabaçais), Maneiro Pau, Bacamarteiros e artesões. Durante a Mostra é impensável não participar das suas Terreiradas, quando abrem o quintal de suas casas e com suas lindas cantigas e indumentárias celebram tradições orais seculares passadas de pais para filhos. Durante o folguedo do Mestre Aldenir foi servido para todos os presentes um delicioso mugunzá. Após um dia inteiro de acontecimentos paralelos, todos os caminhos levam ao Crato Tênis Clube, onde todos os artistas que se apresentam se misturam com a população local para curtir baladas dionisíacas. Por lá esse ano passaram shows de bandas brasileiras que não vêmos juntas nem em mega festivais de música: Mundo Livre S.A, Cidadão Instigado, Cordel do fogo encantado, Lucas Santtana e Seleção Natural, Curumin, Buguinha Dub, Totonho e os Cabras, etc. Ao final dos shows as discotecagens do DJ Guga de Castro iam até as 5 da manhã. Na vitrola rolava de tudo, de Luiz Gonzaga a Justice, passando pelo que você imaginar. Outra característica marcante para quem passou esses 8 dias aqui foi a sensação de encontro e celebração da humanidade. O intercâmbio de línguas, idéias, pessoas e culturas é diário e intenso. É comum, por exemplo, encontrar numa van que leva ao lançamento literário do livro Gabinete de Curiosidades do naturalista Domenico Vandelli, o educador Pablo Cunha , que é professor de uma escola de 2º grau no Rio de Janeiro, onde os alunos tem no currículo escolar aulas de robótica e videogame. Dane de Jade diz que faz questão que os grupos permaneçam durante toda a semana justamente para intensificar a rede de relações aqui formadas. E de fato, seja na piscina do hotel pela manhã, nas workshops a tarde, no Crato tênis clube a noite, ou em qualquer um desses deslocamentos entre uma coisa e outra, todos querem conversar, perguntar, entender, dançar, beber e rir juntos. Como dizem os cearenses com seu humor particular e sotaque característicos: “Tem coisa melhor?, pense....”

Autor: Lucas Santtana (http://www.diginois.com.br/)
(Texto de autoria do artista Lucas Santtana, publicado no jornal Folha de São Paulo)


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5 comentários:

  1. Pense mesmo, quando o poder público, em todas as esferas, compreender que em cultura não se gasta, mas se investe, isso aqui vai se tornar um fenômeno mundial. Cultura, essa é a razão de existir dessa terra e dessa gente. Mais cedo ou mais tarde o caldeirão explodirá e ninguém vai impedir isso. O pavio já está chiando. Aguardemos.

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  2. Sr.Lucas, como é gratificante ler uma matéria dessa, a cada dia procuramos oferecer melhores espaços para não só na mostra, mais para que o Crato tenha sempre movimento artisticos, tipo: como festival da canção, escola de circo e varios outros movimentos e é maravilhoso ouvir opiniões para cada vez mais melhorar o que temos de melhor. Deixo aqui meu e-mail caso queira entrar em contato. monicararipe@globo.com
    Abraços,
    Mônica Araripe.

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  3. Este artigo nos deixa cheios de orgulhos pelo nosso Cariri. Há dezoito anos que resido em Fortaleza e não vejo por aqui, nenhuma manifestação de cultura popular com tradições folclóricas tão fortes, quanto as existentes na nossa terra. Creio que isso se deve ao fato da nossa cultura ter conseguido preservar todas as raízes e tradições locais, enriquecidas pelos costumes dos colonizadores baianos, sergipanos e pernambucanos, juntados aos romeiros das mais diferentes regiões do interior nordestino, ainda hoje contínuos desbravadores desse rincão.

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  4. Amigos,
    logo após a apresentação do Lucas Santtana na Mostra Sesc, no Crato Tênis Clube, fui cumprimentá-lo pelo seu belo trabalho como músico e pelo magnífico show que ele nos apresentou. Na oportunidade externei a ele o meu desejo em produzir uma outra apresentação sua aqui no nosso Crato. Ele ficou muito grato e falou que soube da produção que eu tinha feito com "As Chicas".Ficamos de nos comunicar via e-mail e foi assim que descobri o seu blog, onde estava postado o texto que aqui no blogdocrato coloquei.
    O Lucas Santtana é um grande artista. Desses que existem e a gente pouco conhece, mas o cara tem uma bagagem impressionante. No seu blog tem o seu riquíssimo histórico musical, além de, muito sutilmente nos informar que ele é sobrinho do grande Tom Zé. Então a sua veia artística não é por acaso, um baiano que faz do seu trabalho um verdadeiro caldeirão de ritmos e sons impressionantes. E mais, lá no seu blog você consegue baixar por inteiro o seu novo CD, coisas de quem acredita que o artista tem que estar antenado com o formato atual de mídia e de proximidade com o seu público.
    Salve Lucas Santtana.

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  5. Ótimo a gente perceber que não só os cratenses se deliciam com a X Mostra , faltava-nos o olhar do viajante, do artista que vem de fora para participar da Mostra. Salve Lucas ! Dizem que quem bebe das águas cratenses sempre retorna...

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