12 novembro 2008

A JANELA AINDA É A MESMA


Tudo aponta para frente. Desde pelo menos o desenvolvimento da agricultura. Abate a mata, cova a terra, sementa a cova, limpa a raiz, estoca a colheita. E como meu amigo João de Barros, exaurido de tanto trabalho desmonta o morro de arroz e feijão. Pega a colher igual uma pá, com a mão toda, nada desta refinada ponta de dedos. Começa pelas bases do morro numa seqüência de salivação, empurra a colher na massa comestível e vem do prato a cima em busca da boca como se faz na carga de um caminhão. Uma vez despejado na cavidade oral, a imensa energia de uma mandíbula mastigatória que se decompõe igual o arco íris em forma de fomes, sabores e satisfação. Eis o rito mais metafísico da vida quando nada leva a crer que o seja.

Mas não é sobre a metafísica que gostaria de abrir a conversa. Para não complicar apenas explico a frase dita. É que o ser humano é tão intrinsecamente ligado ao mundo que por apenas alguns minutos pode deixar de respirar, ou algumas horas sem beber ou comer. Aqui paro. O assunto era outro: tudo aponta para frente. Nem era a morro do almoço do João de Barros. É que tudo acontecerá ou já iniciou a acontecer. Não é outro o sentido do que nos falta, em frente para conquistá-lo. Seja o amor, o desejo, a sede, a fome, o sonho, a esperança e tantas coisas mais que vocês poderiam ajudar-me na lista.

E tudo aponta para frente como macroestrutura do capitalismo. A vida será melhor, o progresso material acontecerá, a necessidade do trabalho, do salário, a honestidade, os filhos e até a morte como sugestão para o depois. Aqueles que sofregamente acumulam como num jogo de um cassino o fazem para frente, para depois, tentam alugar a primeira fila para as necessidades do futuro. Mas quando revisaram o pensamento analítico desta realidade, a verdade é que Hegel, apesar de tão passado e Marx, de tão combatido, ambos tinham a chave do movimento geral.

É que pela mão direita a impulsão para frente se dar e pela esquerda percebemos, horrorizados, como o delírio de um pesadelo, uma retaguarda que nos persegue. E não é esta que nos impulsiona para frente, pelo contrário seu movimento não tem uma direção ou um sentido, não existe um vetor principal. Igual todo pesadelo, o que aponta para trás vem com a subtração de meios, com a exclusão da fila de benefícios, banalizando o assassinato, afogando o juízo em álcool, nas cidades incompletas, nos campos esterilizados.

Hoje queria repetir o que disse longe de vocês. Quando me vi na capital, aprofundando o conhecimento filosófico, político e o exercício da realidade, neguei meu interior anacrônico, falsamente orgulhoso, apenas torcedor da realidade externa. Dizia então, agora temos a possibilidade de compreender a mente humana, a sociologia que explica o conjunto, a história que racionaliza a atualidade e a política que disciplina a crítica e o mais completo, a autocrítica que se volta sobre o próprio crítico. Estava errado. Tínhamos e temos, mas efetivamente a dinâmica humana continua muito abaixo da janela em que então me encontrava. Os anos 80, 90 e o novo milênio foram pródigos em mesmices e institutos do anacronismo.

A janela ainda se encontra aberta. Agora é compreender esta dialética dos termos que aponta para frente e para trás.

Por: José do Vale
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Um comentário:

  1. "Como tal tudo Dantes no quartel de Abrantes!"

    A janela é indiscreta não porque quer ser, mas pela ignorância inerente ao próprio homem!

    Abraços,

    DM

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