27 novembro 2008

A INJUSTIÇA SOCIAL por Magali de Figueiredo Esmeraldo

Os autores do Blog do Crato, nas últimas semanas, têm nos presenteado com artigos sobre o Crato de antigamente. Mais recentemente Socorro Moreira, Claude e Carlos lembraram as ruas e o nomes das pessoas do Crato de suas infâncias. Tudo isto me motivou a buscar no baú das minhas recordações a minha infância feliz. Meus pais construíram uma família alicerçada no amor, onde os valores transmitidos para nós, seus filhos, eram a honestidade, a caridade e o respeito ao ser humano, principalmente aos mais pobres. Morávamos na Rua Dr. João Pessoa, onde hoje funciona as Lojas Zenir. Na calçada existia um enorme pé de fícus a sombrear e refrescar nossa residência, um casarão alugado. Por ser grande, abrigava também o consultório odontológico do meu pai, Aníbal Figueiredo. Com a profissão de dentista ele pode criar e educar os filhos em bons colégios. Eu e meus irmãos tivemos, na medida do possível, conforto, boa alimentação e tudo que toda família deveria ter para viver com dignidade. Quando eu tinha mais ou menos uns quatro anos de idade, tomei consciência da injustiça social do mundo em que vivemos. A rua Dr. João Pessoa era uma rua tranqüila, passava poucos carros e eu gostava muito de brincar na calçada e observar o movimento, sempre com a vigilância do meu pai que olhava pela janela do seu consultório, nos intervalos de trabalho. Ele se preocupava que eu atravessasse a rua para ir ao Bar Caíru do meu avô, de frente de nossa casa. Nas noites de domingo a nossa rua ficava mais animada com os feirantes empilhando sacos de feijão na nossa calçada, para a feira do dia seguinte. O dia da feira era para mim um dia de muita animação. E eu ficava na janela a observar todo o movimento. No final do dia, os feirantes recolhiam os sacos de feijão não vendidos e eu ficava olhando algumas mulheres idosas, de cócoras, com uma vassourinha varrendo a rua para juntar alguns caroços de feijão que caiam no chão para colocarem em suas panelas. Se é que iriam conseguir pelo menos um punhado de feijão para uma refeição. No meu entendimento de criança ficava a me perguntar por que elas não tinham o que comer e eu tinha. Na minha pouca idade não dava para compreender que eu vivia numa estrutura injusta e opressora que é o capitalismo. A partir do momento em que o homem iniciou um processo de acumulação de riquezas, instalou-se a injustiça social no mundo. Na Bíblia, o Livro de Rute relata que as viúvas desamparadas apanhavam os restolhos das espigas de trigo para não morrerem de fome. (Rt, 2,3), Essa citação bíblica lembra a situação das mulheres da feira da Rua João Pessoa. Felizmente, observamos que o atual governo brasileiro está olhando para os pobres. O presidente Lula, por ter sido pobre, e ter passado fome, tem uma sensibilidade maior de que os governantes anteriores para ampliar cada vez mais os programas sociais. Esperamos que esse atual governo e os próximos continuem trabalhando para que no Brasil desapareçam as injustiças sociais.

11 comentários:

  1. Magali,

    Você fotografou o tempo. A feira era uma atração à parte e a mim faz falta, assim como fazem falta os personagens da época. Não podemos fazer o tempo voltar, mas podemos preservá-lo em nossas lembranças, através desses nossos escritos. Estava pensando em juntar tudo isso que escrevemos e publicar uma antologia sobre a história do Crato de todos nós.

    Abraço... Adorei te ler

    ResponderExcluir
  2. É a Magali chegando, em um texto que mistura Saudade, Religião e Política. Passado, presente e futuro em poucas linhas. Quando ela começa falando da Rua Dr. João Pessoa, e nos traz um relato sublime de como era a vida naquela rua, hoje transformada em avenida...depois cita o livro de Rute, e termina desejando dias melhores para nosso povo.

    Parabéns, Magali.
    P.S - Ainda preciso te enviar o convite de membro/autora permanente. Estarei providenciando, ok?. Nos vemos mais tarde...

    Abraços,

    Dihelson Mendonça

    ResponderExcluir
  3. Oi Carlos.
    Não nega ser uma Figueiredo. Aí está o sangue do J. de Figueiredo Filho e do Jose Alves de Figueiredo. Parabens.
    Infelizmente são muitos os males que nos aflingem, a maldição das dragas, a frieza dos assaltantes, a traição do colesterol, e a pior de todas a injustiça social que como voce fala tão bem se arrasta há anos sem que ninguem tome as medidas capazes de eliminar esse mal.

    ResponderExcluir
  4. Querida Maga
    Seu texto reflete muito bem a sua preocupação com o outro que você trás do berço, como herança do seu avô e transmitida pelo seu saudoso pai. Confesso que recebi muita influência dessa mulher tão forte que você é. E se algum machista disser que tal declaração é ser "barriga branca", então tá bom. Sou com orgulho. Beijos

    ResponderExcluir
  5. Magali, tive o prazer de te conhecer pessoalmente no Rotary, essa da Rua Dr. João Pessoa foi arretada. Meu pai era feirante, vendia seu feijão mais precisamente em frente ao Esplanada, me lembro bem. Valeu essas suas recordações. Sim eu sou o dono da Santos Dumont( rsrsrsrsr) pois nasci lá onde funcionou a mercearia de britinho( meu padrinho).
    Sim, fui colega de sua irmã( Emilia) no Alexandra Arraes, tenho uma foto de 1966 na nossa formatura do ABC.
    Nosso querido Carlos tinha que falar aos rotarianos pq ele é o dono da rua D. Quintino.
    Valeu Magali

    ResponderExcluir
  6. Realmente a feira do Crato nos tras muitas lembrancas boas, e nao tao boas. Uma reportagem da BBC sobre os saques em Santa Catarina me lembrou da feira do Crato. Quando crianca no armazem do meu pai, me lembrei dos chamados 'flagelados' da seca, que viam a feira do Crato, famintos e desesperados; e muitas vezes chegavam a saquear os armazens. Nunca esqueci dos seu semblantes e do desespero que levam pessoas simples e honestas a tal comportamento.

    Abracos

    George

    ResponderExcluir
  7. Mais lembranças que afloram ...De retalho em retalho o muito da nossa vida vem sendo reconstituído.

    Dr Anibal era um cidadão politicamente correto. Tomava sempre o partido dos fracos e oprimidos.Tinha inclusive a coragem de não pertencer nem à U.D.N , nem ao P.S.D . Lembro que entre os conflitos na escola , em épocas acaloradas , você sabiamente se colocava : Gosto do P.T.B. Partido das minorias, e nem porisso menos consciente e justo...Muito pelo contrário !
    Em posterior coligação foi Vice-Prefeito da nossa cidade , nos tempos de Pedro Felício.
    Seu pai era assinante da revista "O Cruzeiro" . Era justamente por lá , que eu folheava todas as edições , e ficava por dentro do que acontecia no Brasil.
    Sou testemunha viva do seu "Sanctum Sagrado".


    Um abraço , minha amiga !

    ResponderExcluir
  8. Agradeço de coração aos amigos: Claude; Dihelson; Morais; Luis Wellintton; Socorro e Carlos pelo incentivo e apoio recebido nesses dois primeiros textos que lancei no Blog do Crato. Abraços a todos.

    ResponderExcluir
  9. Caros amigos do Blog do Crato,

    diante do "loteamento virtual"
    por sinal muito saudável e inteligente que está sendo feito
    nas ruas do nosso Crato; Graças à Deus ainda possuo um pedacinho lá
    na rua da Pedra Lavrada,onde nasci
    me criei, me danei com os amigos:
    Zé muniz, Sandérson, Airton e Geraldo Pirão e muitos outros, onde casei e nasceu meu primeiro filho. Caros conterrâneos, creio com esses argumentos; A Rua da Pedra Lavrada continua também dentro de mim.

    abraços a todos.

    ResponderExcluir
  10. Magali, seu texto trouxe muitas recordações da nossa infancia na Rua Dr. João Pessoa.

    ResponderExcluir
  11. Zilberto ,
    Tmho muito respeito pelos teus familiares ... E um carinho enorme pela Pedra Lavrada.

    ResponderExcluir

Visite a página oficial do Blog do Crato - www.blogdocrato.com - Há 10 Anos, o Crato na Internet.