02 novembro 2008

A ferramenta do futuro


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Um amigo do quartel, recém-bacharelado em Matemática, foi convidado para fazer o mestrado no Estado do Rio de Janeiro. Advindo de uma família humilde e egresso da escola pública, o convite significava a possibilidade de uma rápida ascensão profissional e a perspectiva de realizar o sonho de lecionar na própria universidade, após o regresso do mestrado.

Arrumou as malas e se preparou para o percurso de quase três mil quilômetros que faria, de ônibus, entre Fortaleza e o Rio. Seria mais um filho dos “lábios de mel” de Iracema que conheceria de perto os encantos da “Cidade Maravilhosa”.

No dia da viagem, foi uma festa geral no bairro e nas adjacências. A família inteira acordou mais cedo naquele dia. A avó, de um desvelo incomum, matou uma galinha caipira, a melhor que havia. Não deixaria o netinho passar privações alimentares durante a viagem nem o deixaria exposto às comidas sem procedência – como dizia – das estradas e, mesmo contra a vontade do neto, preparou-lhe a tradicional farofada cujo cheiro característico empesta os ônibus durante os horários das refeições, denunciando nordestino a bordo. Das imediações, surgia um turbilhão de pessoas, gente de todo tipo, não importando o grau de parentesco com o neomestrando. Vieram amigos, primos, o dono do mercadinho, gente que ele nunca tinha visto na vida. Apesar do nível cultural do retirante, o calor humano tão bem amado do Henfil ainda existe em demasia entre o povo nordestino e é uma esperança viva contra a frieza mórbida e o claustro onipotente que a selva de pedra infelizmente impõe à maioria dos habitantes do sul.

A viagem foi um misto de medo e fascínio. Na fronteira entre os estados de Pernambuco e Bahia uma forte escolta policial acompanhou os ônibus – eram muitos – que seguiram algumas horas em comboio. Motivo: temia-se a ação de uma quadrilha especializada no saque a ônibus de viagem que atuava naquela região fronteiriça.

A partir do estado da Bahia a paisagem foi, gradativamente, modificando-se: de um tom amarelo-alaranjado para um quase verde-oliva. As nuanças visuais da paisagem refletiam em seu íntimo, mudando-o de um tom triste e melancólico para uma esperança pujante de um regressar vencedor. Sabia que deixara para trás a seca Nordestina, a dureza de uma vida áspera. Esperava encontrar no sul a altivez de uma vida repleta de possibilidades verdejantes de júbilos e de prosperidade.

O curso teve início sem maiores inovações. Números e mais números. Cálculos e mais cálculos. Entre um cálculo e outro, um tempinho para ver o mar gelado carioca e a preferência cada vez mais nacional que desfilava a rodo, fazendo-o parecer um espectador de jogo de tênis: “– olha aquela ali, rapaz!... e aquela... Meus Deus!” – dizia num monólogo angustiante. Toda vez que se aventurava em sair para ver o desfile das cariocas na orla ou no calçadão das praias, voltava com o pescoço doendo de tanto que o movimentava na tentativa de visualizar a beleza da mulher carioca que salta aos olhos. Não sabia para que lado olhasse. O que, porém, não mudava era o ângulo de visada que se mantinha sempre a altura da cintura.

Foi a diversas praias, de vários pontos do estado: Ipanema, Leblon, Copacabana, Botafogo, Barra, Itacoatiara. A essa praia ia para surfar, embora lá desfilassem as mais lindas beldades de Niterói, São Conrado e Itaipuaçu. Aonde ia era o mesmo sufoco. Estava tão seduzido que imaginava a transferência do processamento criativo do raciocínio para essas ancas desenvoltas! Delirava.

– Já imaginaram isso com língua, falando... Que oratória! Vou perder a cabeça! Faz um último paralelo: os grandes pensadores da história universal versus as grandes bundas do final do século. Quanta evolução! Apela o mestrando em Matemática.

Certo dia, enquanto caminhava por entre os corredores da universidade, observou o edital de um concurso destinado preferencialmente para engenheiros. Em não havendo restrições expressas quanto às demais graduações, resolveu inscrever-se. Ao final das inscrições, eram mais de setecentos candidatos para uma única vaga. Numa primeira etapa, três seriam selecionados. Após uma entrevista final, ‘o melhor’ ocuparia o cargo percebendo um salário inicial em torno de cinco mil reais. Para um aluno de mestrado, família humilde e com uma módica bolsa de estudos de setecentos e vinte e quatro reais paga pela União, nada mal!

Sai o resultado da primeira etapa do concurso e ele está relacionado entre os três classificados. Logo após a euforia e a felicidade veio a constrição: Não terei chance... Competirei com sulistas. Eu, cabecinha chata, baixinho, magrinho... cheio de ‘inhos’; eles, provavelmente altos, olhos azuis, no mais requintado padrão Globo. Não tenho chance mesmo. Pensa.

Sufocado por esse desânimo resolve, à véspera da entrevista, ligar para o seu mentor, o professor Ciro:

– Professor. Preciso de ajuda. Passei num concurso. Amanhã é a entrevista e acredito que não passarei. O que faço?

– Seja verdadeiro. Apenas isso. Fale por você e seja a pura expressão da verdade. Agindo assim certamente conseguirá.

– Obrigado.

Com esse propósito preparou-se para a etapa final. No dia seguinte, confirmaram-se suas expectativas: os outros concorrentes eram, realmente, dois “armários” de olhos azuis e tudo.

– Tô ferrado! – Pensou alto.

Foi o último a ser entrevistado. Durante a entrevista o avaliador perguntou:
– Você sabe falar inglês?

– Não.

– Então não desejaria trabalhar numa seção onde fosse preciso utilizá-lo freqüentemente?

– Não.

– Você mexe com informática? Sabe trabalhar bem esse tipo de conhecimento?
– E muito.

– Então gostaria de trabalhar num setor da empresa onde a informática é de fundamental importância, penso?

– Também não.

O avaliador reflete um pouco e prossegue:

– Que não queira trabalhar num setor onde se use a língua inglesa diretamente eu até compreendo porque você não domina o idioma. Só não entendo o porquê de não desejar ir para um setor do qual tem profundo conhecimento. Isso é estranho. O que você quer, afinal, aqui na empresa?

– Quero pensar. Somente isso. Quero pensar e resolver problemas.

Não fizeram mais nenhum questionamento e encerraram a entrevista. Na manhã seguinte saía o resultado e o cearense era o detentor da vaga. Antes, porém, de assumir o cargo, o mesmo avaliador pertencente à bancada abordou-o com a pergunta:

– Você foi verdadeiro ao dizer que vem para pensar ou foi golpe de marketing?

– A única coisa que sei fazer bem, senhor, é pensar.

– Era justamente de que precisávamos aqui: de um cérebro que resolva nossos problemas porque o resto as máquinas já executam sozinhas.

Nijair Araújo Pinto

Do meu livro ‘Crônicas e mais um conto’
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3 comentários:

  1. Gosto do que vc escreve, sempre que acesso o blog e tem textos seus leio. Parabéns!!! Seus textos animam, entretem, monstra realidades e muito mais....

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  2. Gostos do que vc escreve. Sempre que acesso o blog leio seus textos, eles não só entretem e animam como relatam realidades. parabéns!!!!

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  3. Lucinha:

    Grato pela visita.

    Forte abraço.

    Nijair

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