23 novembro 2008

Deforete



A rua Irineu Pinheiro – no Pimenta - foi palco de minha adolescência. Ali aportei aos 10 anos, recém-chegada da França, onde havia passado um ano na cidade de Arès (perto de Bordeaux) – mas isto é outra história.

Minha casa foi batizada com um nome festivo: FrançAlegre. Meu pai, Hubert Bloc Boris, cidadão cratense, ex-maqui na Segunda Grande Guerra, fazia questão de demonstrar seu amor à França dando um nome à sua residência. Expressava, assim, esse sentimento de liberdade e alegria e ao mesmo tempo de uma saudade arraigada e difícil de esconder. Era um homem alegre e inteligente, e tinha a alma de artista. Pintava telas abstratas, escrevia em Português seus discursos do Rotary, tinha muitos amigos que o admiravam... e era um dínamo no âmbito do trabalho.

Dizia ele que seu aprendizado de Latim, quando estudante, o fez assimilar mais rápido o Português que falava com algum sotaque. Era um homem muito afetuoso e não se envergonhava disto. Ai de mim e dos meus irmãos se não lhe aplicássemos um sonoro beijo na bochecha na hora do desjejum... Meu pai, era um homem diferente, sensível, lábil e hábil, que se deixou consumir pela vida tentando compensar-se dos sofrimentos causados pela Guerra, das perdas, e das feridas da alma.

Atrás de um grande homem, uma grande mulher: Janine, minha mãe. Ela viveu no Brasil, mais propriamente, no Crato, desde 1957, quando Dominique minha irmã, teve uma crise de apendicite e foi trazida às pressas da Fazenda Serra Verde até o Crato, num Jipe, por estradas de terra esburacadas e enlamaçadas. Foi operada em caráter emergencial, por Doutor Macário, num dia de tensões enormes. Enfim, este é outro capítulo.

Minha mãe viveu quase que silenciosamente seguindo seu amado em todos os lugares. Era moderna para sua época. Sofrida também pelos maus tratos da Guerra, mas isto não fez dela uma pessoa soturna. Era alegre e sorridente, reservada e de uma gentileza inigualável. Quem a conheceu sabe disso.
Mas, os anjos um dia voam de volta ao reino e foi pra lá que eles se foram há algum tempo deixando atrás de si pessoas que os amavam. Era preciso que eu falasse isto, antes de mais nada. Há coisas ditas por aí que me obrigaram a calar o tempo e cabe-me agora fazer-lhes justiça. E o que me faz falar neste momento, não é apenas meu amor filial, mas o dever de mostrar a verdade sobre duas pessoas queridas do Crato.

Agora, o assunto é outro. Voltemos à rua Irineu Pinheiro. A essa época, a rua era nova e terminava pouco adiante de minha casa. Seu Felipe Ribeiro da Silva e Dona Guimar, nossos vizinhos e amigos, na época, venderam a meu pai a casa de número 22 (que depois mudou de número). Ficava (e ainda está lá ) bem em frente do “Grupo Teodorico Telles” (que depois, com as novas denominações, recebeu aquele nome enorme que é um martírio para os pobres aprendentes).

Havia, nesse tempo poucas casas construídas nos dois quarteirões que compunham o núcleo de moradores da rua. Quase em frente ao Seu Felipe moravam Seu Cícero de Holanda Cavalcanti e Dona Marivalda (e uma meninada danada: Gracinha, Glória. Rubens e Renato (gêmeos) Meirinha e Vanda)...

Um pouco abaixo, uma vila de casas do mesmo estilo. Cada uma com sua história. E a turma era grande! A começar pela casa de Dona Joaninha e Seu Pedro que gastaram todo o seu Português para batizar os seus rebentos: Evaldo, Erivaldo, Edilton, Ernane, Evanilda (Vanidô), Evaneide, Erivane... parece que havia mais um, mas como era mais velho não estava por lá... Subindo um pouco, a casa de Dona Ana Banca (Ana Moura), mãe de Aparecida e Gilberto... Ao lado, a casa de Marisa Sobreira e Inês (sem esquecer Leni)e seus irmãos: Cícero e Donizeti. Era lá onde havia uma radiadora que derramava som pela rua, além dos recadinhos do coração.

Ah, e finalmente chegamos à casa de Dona Ana Preta (Ana Simões)– que criava Socorro e que não era preta, pois este era apenas o apelido que a distinguia da outra Ana. E o louro? Eita, papagaio gaiato! Gritava o dia inteiro: Socorro! Socorro!

Era quase em frente à sua casa que se reunia um séqüito de jogadores de peteca (feita por seu Zé Barbosa). Era realmente uma roda grande de vizinhos-amigos que se empenhavam pra não deixar cair a “dita cuja”. Lá de Seu Felipe, vinham: Rita, Sérgio (Batata), Derico, Adriano, Aninha, Bibica (Fabiana), Bodão (Marquinho) Corrinha (era pequenina ainda). Claro que havia briguinhas, risadas, folguedos, fofocas, intriguinhas... mas sobretudo alegrias e sorrisos que se espalhavam pela rua e chegavam aos ouvidos de Seu Pedro Praieira em sua bodega, além da Pracinha.

Doutor Derval e Dona Luizinha foram morar por ali, numa casa linda e imponente, colada à casa de Seu Felipe, na rua que cortava a Irineu Pinheiro. Claudia, Zena (Azenete) e Leandro eram os mais velhos (Fafá era o caçula), mas não visitavam os vizinhos, nem também jogavam peteca. Morava, com a família, Joana d’Arc, prima deles e excelente amiga.

Assim, dentre tantas histórias da Irineu Pinheiro, ressalto neste momento apenas mais um detalhe curioso. Uma personagem que me ficou na memória por suas características “sui generis” : era Dona Ana Preta, que em sua simplicidade, fazia parte do folclore da rua. E havia um motivo especial para isto. Ela era amiga de Seu Januário, pai do nosso Luiz Gonzaga, rei do Baião e era sua anfitriã quando ele visitava a cidade de Crato. Seu Januário ia buscar, lá em Seu Zé Barbosa, que morava mais acima, os chapéus de couro e gibão, que este fazia com esmero e que eram encomendados por Luiz. Dona Ana também gostava de contar as histórias de Lampião e, “vira-e-mexe”, tinha gente curiosa por lá escutando os “causos”, recheados de fantasia.

E assim, para encerrar, fica aqui a lembrança e a saudade desse tempo e dos finais de tarde em que, quando o dia esfriava, Dona Ana Preta, toda faceira, se sentava na calçada em sua cadeira de balanço e anunciava às passantes: “Minha fia, o tempo tá tão quente que eu vim aqui fora tomar um deforete”.

***

P.S. Agradeço a Glória pela (re)lembrança de alguns detalhes.



Texto de Claude Bloc

13 comentários:

  1. Oi Claude,
    Parabéns pelo seu texto. Seus pais eram amigos e companheiros de Rotary dos meus pais. Lembro deles com muito carinho.Também recordo da sua casa e dos seus vizinhos incluindo meus tios Felipe e Guimar

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  2. Magali,

    O melhor de tudo isso é que estamos nos reencontrando. Padrinho Anibal, Madrinha "Marineida", Dr. Jefferson e Dona Letícia creio terem sido os primeiros amigos dos meus pais ao chegarem no Cariri. Lembro ainda de sua casa na João Pessoa e de como eram gostosas a sopa de feijão e as tapiocas que se comia por lá. Lembro-me também das brincadeiras de roda na calçada ... do meu medo de arrancar meus dentinhos de leite com Padrinho Anibal e das merendas na casa de sua avó que morava (quase em frente) do outro lado da rua...

    Gostaria de poder te rever assim como a todas as pessoas que fizeram parte de minha história afetiva e das quais me lembro com saudade.

    Abraço,
    Claude

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  3. Olá, Claude,

    Sempre acordada nessas altas horas, hein ?

    Pois é, você e a Socorro irão re-escrever a história ou as muitas estórias das ruas do crato.

    Só para lembrar a vocês que o Jornalista J. LINDEMBERG de AQUINO escreveu um livro há muito tempo, em que contava a história de cada uma das ruas do Crato. Seria bom até a gente resgatar esse livrinho agora que o Crato está bem maior...

    Abraços,

    Dihelson Mendonça

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  4. No texto anterior, leia-se:

    REESCREVER, sem hífen.

    DM

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  5. Claude,
    Você tem uma memória prodigiosa e este texto me trouxe recordações de alguns personagens que você mencionou.Pareceu reviver o Crato da década 60...
    Você não me conhece, mas eu me lembro de você (da época que ambos estudavámos no Colégio Diocesano, sem nunca termos nos cumprimentado), lembro de Dominique e do Sr. Hubert. Dona Janine, infelizmente, não cheguei a conhecer.
    Sempre leio suas postagens que são interessantes e trazem mensagens de benquerença e harmonia com a natureza.
    Saúde, bem estar e bons momentos.
    Armando Lopes Rafael

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  6. Prezada Claude
    Não sei se você se lembra de mim. Fomos colegas do IBEEU nos anos 61; 62 e 63 e alunos nos dois primeiros anos de Antõnio Edson Libório e no último ano de Vicente Bezerra, o Vinvim, que nos anos seguintes foi meu companheiro de moradia em Salvador. Entre os colegas daquela época lembro-me do Aglésio, Darcy Libório e Eliane Macedo. Numa aula de conversação o Antonio Edson lhe perguntou; “Claude, do you like dogs? E você prontamente respondeu; “Yes, i like dogs very much” e lá de trás eu gritei num bom português “Eu sou um cachorrinho.” O Antõnio Edson riu muito e você ficou muito séria, aliás como sempre foi. Hoje sou marido da Magali, sua amiga de infância. Conheci a Serra Verde em 1976 quando, trabalhando na Coelce, fui levar a energia elétrica para lá. Houve uma grande feste nesse dia, com a presença até do governador. Lembrei-me muito de seus pais, que não estavam lá. Seu primo François me prometeu um estágio na França, que ainda hoje aguardo. Há uns quatro anos tive como meu aluno na UECE de um neto do François no curso de Administração de Empresas. Como o tempo voa! Um abraço e minha admiração.

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  7. Em Março de 1971, em companhia de Rita Vilar e seu esposo, amigos de seus pais chegamos a Serra Verde. Não se sabia qual dos dois era mais gentil: Se seu Hubert ou Dona Janine. Eu havia chegado de Várzea-Alegre e como tal matuto acostumado a tomar um aloázinho ou refresco de tamarindo. Vi-me diante de duas garrafas de uma bebida estranha. Uma garrafa de gim e outra de Vodka. Você sabe como é a curiosidade, tomei uma golada de uma em seguida uma golada da outra a misturança não me fez bem. Andei me embebedando nada que depois de um bom banho de açude não estivesse devidamente recuperado.
    Parabéns ao Blog do Crato por contar com colaboradores de tamanha qualidade literária e tão boa memória como você. Havia muito tempo que sentia falta do termo deforete.

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  8. Dihelson,

    Meu pai foi amigo de LINDEMBERG de AQUINO. Gosteria imensamente de conseguir um exemplar desse livro. Como farei para consegui-lo?

    Abraço,

    Claude

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  9. Amando Rafael,

    Os nomes e os rostos da gente de nossa época sempre ficam guardadinhos na gaveta do tempo... Cabe a nós fazê-los ressurgir um dia. Agradeço a você pela gentileza e pelo comentário. Esse tipo de coisa é sempre um incentivo para quem , como eu, gosta de escrever.
    Saúde a PAZ a você.
    Abraço,
    Claude

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  10. Carlos Eduardo,

    Isso aqui (o Blog do Crato e CaririCult) tem sido um ótimo ponto de encontro para as pessoas de minha geração e da sua. Muita gente já tem aparecido através de comentários e de muita simpatia. Depois de ler seu relato, creio ter "visualizado" a situação vivida no IBEU, assim como, de outra feita, uma pergunta diferente que me foi lançada: "Do you pretend to be a good student?" e eu, sem atinar para o falso cognato, repondi orgulhosamente, pensando acertar: "Yes, I do" e daí, vieram as risadas... Eu FINGIA ser boa aluna? - Mas o que você chamou de seriedade em mim era fruto de uma timidez em alto grau, que chegava a me incomodar e que só consegui superar quando passei a enfrentar minhas turminhas de alunos nos diversos estabelecimentos de ensino onde lecionei.
    Quanto a Magali,continua morando no meu coração. Lastimo não saber como encontrá-la e também a muitas pessoas que compõem esse tecido vivo da história do Crato.
    Gostaria de poder manter um contato mais próximo antes que a vida passe de uma vez...

    Abraço ao casal de amigos.

    Claude

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  11. A. Morais ("A" de Antonio?)

    Creio me lembrar de episódios em que seu nome foi citado lá em casa. Talvez pelo seu mau jeito para com bebidas na época (risos). O importante neste momento é a oportunidade de juntar esses detalhes e enriquecer a história de nossa geração. É como compor uma sinfonia a muitas mãos.
    Agradeço pela gentileza.
    Não sou tudo isso que citou, mas de qualquer forma, meu ego agradece explodindo de alegria

    Abraço,

    Claude

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  12. Claude,

    Sobre o livro, não faço a menor idéia. Talvez no Instituto Cultural do Cariri haja exemplares.

    Sobre a noite: também concordo. Só que eu sou um cara esquisito: Eu gosto da noite para poder ficar longe das pessoas e ao mesmo tempo olhá-las sob uma perspectiva. Quando amanhece, o encanto perde a graça. A noite é a pausa do mundo. Eu vivo nas pausas. Odeio o sol quente. Sou meio Conde Drácula. Quando o sol vem, eu vou... nisso ás vezes é ruim para resolver coisas durante o dia, mas essa maratona de dormir de dia e trabalhar á noite já se arrasta por mais de 20 anos.

    Sobre o fingir, claro...boas risadas, o certo seria:

    "Do you intend to be a good student ?"

    Esses falsos cognatos às vezes nos pegava direitinho, mas isso é sempre no início do aprendizado.

    Abraços,

    Dihelson Mendonça

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  13. Oi Claude, muito linda, parabéns mana! Um beijo pra vc! Seu mano Humberto...

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