27 novembro 2008

A RUA DOM QUINTINO É A MINHA RUA - Por: Carlos Eduardo Esmeraldo


S
ei que esse negócio de falar da rua da nossa infância já está ficando chato. Só falta agora alguém descrever as maravilhas do Rabo da Gata. Que a minha amiga Socorro Moreira me desculpe, mas a Rua Dom Quintino é a minha rua. Foi lá que eu nasci num velho casarão de número 18, onde residiam meus avós paternos. Precisa motivo maior que esse para eu ser o dono da Rua Dom Quintino? Acredito que eu fui o último cratense com mais de sessenta anos, que nasceu na Rua Dom Quintino. Sim, porque os mais jovens nasceram numa maternidade. Em compensação não tiveram a assistência da famosa parteira dona Ceiçinha. Existirá maior orgulho? Foi numa tarde morna de um quinze de setembro, que minha mãe precisou sair apressadamente da fila do confessionário na igreja da Catedral. Será que uma santa como a minha mãe poderia ter algum pecado? Ah, sim minha mãe é uma santa com toda certeza e, através dela, tenho conseguido as graças que guiaram minha vida inteira. Ela teve de andar os poucos mais de cem metros que separam a Catedral da casa da minha avó. Quinze minutos depois, eu via a Rua Dom Quintino pela primeira vez. Por isso eu considero a Rua Dom Quintino, a rua mais importante do Crato. Lembro-me que mamãe reclamava quando eu andava por lá somente de calção e pé no chão: “Não faça mais isso, meu filho, a Rua Dom Quintino é um pedaço de Copacabana no Crato”. Poucos dias após meu nascimento, fui transferido para o Sítio São José, onde moravam meus pais. Por lá cresci entre os canaviais e, aprendi as primeiras letras com minha tia afim, Hélia Abath. Diferentemente dos meus outros nove irmãos, que iam estudar no Crato antes de completarem seis anos, eu, por ser o filho caçula, fiquei mais tempo com meus pais. Assim bebi mais sabedoria com os conselhos de minha mãe e o testemunho de homem probo que foi o meu pai durante os seus sessenta e cinco anos de vida. Aos oito anos fui morar na Rua Teófilo Siqueira, numa casa que meu pai acabara de construir. Essa casa tinha o muro do quintal fazendo fronteira com o quintal da casa da minha avó. E foi construído um portãozinho unindo os dois terrenos. Pronto, aí estava a minha salvação. Eu era muito preso em casa e proibido de sair à rua para brincar com os outros meninos. Por esse portãozinho maroto, com a desculpa de visitar a minha avó, eu ganhava a Rua Dom Quintino. Depressa fiz amizades com Orlando da Bicuda, conheci os primos Marcos Cartaxo Esmeraldo e José Esmeraldo Gonçalves, o menino mais danado daquela época. Ele tinha o apelido de Zé Lorota. Embora hoje ele afirme que o apelido faz algum sentido, pois virou jornalista, dou meu testemunho que ele não era mentiroso de forma alguma. Mas creio que esse apelido, anos mais tarde, fez com que ele perdesse alguma namorada. A Rua Dom Quintino do Colégio Santa Tereza e suas internas tão apreciadas pelo Orlando, coroinha oficial, a quem eu ia ajudar, todo trapalhão, para boas risadas das internas. Delas me lembro somente da Toinha Antero, ainda uma amiga, que não vejo há anos. Nunca passou pela minha cabeça de oito anos de idade namorar alguma interna. Estava mais para perturbar a irmã Pia, a porteira do Colégio, tocando sucessivas vezes a campainha e me escondendo para que ela não me visse, quando viesse abrir a porta. Para mim, já era altas horas, mas no máximo oito e meia da noite. Um dia, ela me pegou e acabou com meu brinquedo preferido. A Rua Dom Quintino começava com a casa da minha bisavó torta Mãe Zarena, embora ela fosse muito elegante e retinha e a minha querida e inesquecível tia Lurdinha. Vizinho a elas existia a bodega de dona Joaninha e os famosos pirróis. Na Rua Dom Quintino morava quase toda minha família: Tia Pia Cabral, irmã do meu avô e mãe do primo e cunhado Huberto Cabral, José Sarto, além de um monte de filhas, que até hoje não sei ao certo quantas são. Mais à frente moravam Tia Cira, Dalvinisa, Stelina, Neném, e o casal Vicente Arnaud e Rosalva, donos de uma bodega com venda na caderneta, onde eu me empanturrava com as chupetas de mel de abelha, deliciosas como é a Rua Dom Quintino. A rua terminava na casa da minha querida tia Rosinha, a pessoa da família que mais viveu; 101 anos. Sempre que venho ao Crato não dispenso um bate-papo à noitinha na calçada da casa minha irmã Maria Zélia, na Rua Dom Quintino, a rua da minha vida, a minha rua.

Por: Carlos Eduardo Esmeraldo
.

18 comentários:

  1. Agora eu senti a emoção da surpresa.A flecha atingiu-me de muitas maneiras .
    Todos os personagens citados são tão familiares !
    Se ninguém nasceu , nem morou na D.Quintino , todos os cratenses , por ela ainda passam.
    A casa de Dona Pia se mantém com a mesma fachada. Uma família numerosa .Todos ou a amioria com talentos literários e artísticos , doados ao Crato de mãos beijadas.
    Vez por outra , entro lá... E me envolvo com a maior contadora de histórias que conheço :Bernadete Cabral.
    As internas do Sta.Teresa , naquela época eram as nossas grandes rivais. Nem imagina , como desejei ser interna , ser freira , apenas para gozar das regalias de um Colégio , aonde tanta coisa boa , acontecia. Mas eu fiz meus estudos Médio e Fundamental . no Dom Bosco , sob a direção de Dr. José Newton e Dona Rute. E no final , tenho certeza , que nada perdi.
    Divani ensinava Educação Artística ; Dona Lurdinha , Francês; Dona Cira , Geografia ; Anchieta, Matemática; Ana teresa , História e até Matemática ;Ana Cristina , Isa Barreto ,Dona Neide ,Ivone Pequeno , Vera lúcia Maia ...Todos encorporados.
    E aos nossos entendimentos erámos bem mais vigiadas do que qualquer interna de um Colégio de freiras.
    Tempos dos retiros espirituais , no Palácio do Bispo;Jogos de Volei , na Quadra Bi-Centenária , Quadrilhas , Dramas e peças de teatro , produzidos e dirigidos por Divani; aulas de poesia com Dona Sarita ; aulas de pintura com alguém que tinha um ateliê , naquela rua , e de quem nesse momento , escapou-me o nome. Mas ele era o responsável pela pintura dos santos , nos tetos da Igreja da Sé e S.Vicente. Era o nosso Miguel Ângelo.
    José sarto ... Quantas edificações e projetos não lhe devemos ?

    Carlos enqu8anto o0 assunto não se esgotar está tudo certo !


    Abraços.

    ResponderExcluir
  2. Amigos do Blog do Crato.

    Está o Carlos Esmeraldo a merecer o titulo de propriedade da Rua Dom Quintino. Menos pelas razões apresentadas e mais pelo amor imensuravel que ele tem pelo Crato. Num dia 15 de Setembro, dia de Nossa Senhora das Dores, Ceicinha recebeu essa criação de Deus em sociedade com Jose Pinheiro Esmeraldo e Maria Amelia Esmeraldo. A obra que já era completa foi lapidada por Magali e desse casal abençoado vieram Thales, Cristian e Carlos Eduardo. O Crato, Carlos, é uma propriedade de todos nós. No frontespicio da coluna da hora, na praça Francisco Sá, inaugurada em 1938 pelo prefeito Alexandre Arraes está escrito: Sede Bem-vindo, nesta cidade há lugar para todas as pessoas de boa vontade.

    Parabens Carlos pela elaboração de tão belo texto.

    A. Morais e nair.

    ResponderExcluir
  3. Socorro, minha amiga!

    Tá tudo certo para amanhã mesmo, lá na casa do Carlos Eduardo Esmeraldo ?
    Preciso saber se já entraram em contato com o Zé Flávio também.
    Eu nao tenho o telefone d Carlos Eduardo Esmeraldo. Gostaria que ele me enviasse para meu e-mail:

    blogdocrato@hotmail.com

    Abraços,

    DM

    ResponderExcluir
  4. Carlos,
    Excelente crônica. Merece ser inserida no seu próximo livro.
    Fiquei até com uma pontinha de inveja e, quem sabe, qualquer dia escrevo uma crônica sobre a rua da minha infância, a Rua da Cruz (oficialemte Teodorico Teles).
    Afinal também sou filho de Deus...

    ResponderExcluir
  5. Carlos, belo texto. Pergunte ao Zé Lorota o que ele aprontou com uma espada após um ensaio para a parada de 7 de setembro.

    ResponderExcluir
  6. Glória Pinheiro disse;
    Estimado Carlos Eduardo. Através do seu texto pude descobrir o meu grande amor pela Praça da Sé.
    Nasci na casa de número 80.
    Exatamente como se deu com você. Minha saudosa mãe, acabara de sair da Igreja da Sé. Naquele final de manhã de 30 de abril após assistir a missa de 1 ano do falecimento do seu querido pai. A Maternidade, por certo, estava em fase de construção. Por isso nasci com a ajuda da parteira Mãe Salvina. Como já li por aqui, boa aluna do Dr. Gesteira. Realmente a Rua Dom Quintino era a Copacabana do Crato.
    Abraço
    Glória

    ResponderExcluir
  7. Prezada Socorro Moreira.
    Muito obrigado por haver complementado este texto que escrevi com o coração. Foi tanta emoção, que eu não me envergonho de dizer que escrevia com lágrimas caindo dos meus olhos. Como o Dihelson recomendou textos mais curtos tive de omitir muita gente, como a inesquecível amiga Maria Norões, a quem eu e o primo Zé Lorota quase a matávamos de raiva pela barulheira em sua porta. Omiti também o nome de um grande amigo Edicio Abath e minha prima Bernadete, os filhos do seu Zelo, o Zelo Filho, Pombo Novo, Fátima, Plicarpo e Ciecera, Abdoral, sua cítera e seus filhos Abidoral e Pachelly, personagenes dessa rua, tão donos dela quanto eu, ou talvez até mais.

    ResponderExcluir
  8. Estimado Amigo Morais
    O que você escreveu ai acima foi tão bonito. Tenho certeza que não pelo nosso "acordo" tácito existente entre nós, mas fruto da sinceridade da qual já deu provas de ser possuidor. Muito obrigado amigo.

    ResponderExcluir
  9. Velho e Estimado Amigo Armando Rafael

    Muito obrigado pelas palavras sinceras. É claro que vou seguir o seu conselho. Afinal tenho que escrever um outro livro, pois não desejo ser comparado aquele compositor baiano que só fez uma música; "menina que desce a ladeira...la, laralarala..' e or isso mesmo foi apelidado de João Só. Escreva logo sobre a Rua da Cruz, o Crato tá precisando que nossos valores sejam resgatados. afinal de contas agora somente poderemos fazer textos sobre o Crato. Um abração e muito obrigado. aguardo vocês amanhã.

    ResponderExcluir
  10. Estimada Prima Glória Pinheiro
    Obrigado pela suas palavras e pelo amor demonstrado à Praça da Sé. Ela também era minha praça em sociedade com Magali. Lá passamos juntos muitas horas, que foram importantes para o sucesso da nossa vida a dois. Agora descobri uma coisa; vi você passar várias vezes pela minha rua, sem ao menos me pedir licença.
    Um grande abraço.

    ResponderExcluir
  11. Carlos,
    Seu texto me emocionou muito. Agradeço a Deus por ter abençoado e unido o casal José Pinheiro Esmeraldo e Maria Amélia que colocou voce no mundo, a minha cara metade. E que lhe educou com os valores cristãos, fazendo de você a pessoa que você è. O meu amor por você aumenta cada vez mais.
    Beijos.

    ResponderExcluir
  12. Dihelson
    Já temtei várias vezes he enviar meu e-mail, mas ele tem voltado. Não sei o que vem ocorrento. Acredito que o nosso amigo Morais tem meu celular. Ainda não consegui localizar Zé Flávio. O celular dele está todo tempo desligado.

    ResponderExcluir
  13. Minha querida Maga

    Você sempre me incentiva. Em todos os momentos da minha vida, encontro em você o ombro amigo, onde recosto minha cabeça nas horas tristes e difíceis. Como que, num passe de mágica, a alegria sempre volta. Muito obrigado. Beijos.

    ResponderExcluir
  14. Caro amigo e cunhado Luis Alberto.
    Você lembra que eu lhe devo um grande favor? Deu o seu aval positivo junto sua mãe naquele domingo em que iniciei a namorar Magali. Quanto ao Zé Lorota, que não mente, insisto nisso, aquele episódio foi um grande falso que levantaram a ele. E eu acredito, embora tinha colegas que diziam que foram lavar a espada com ele. Pura invencionice.

    ResponderExcluir
  15. Excelente mesmo!

    Mas, Carlos, você disse bem "eu recomendei" textos mais curtos, o que não impede que você escreva a "parte 2" ou "parte 3" da Rua Dom Quintino.

    Taí...eheheheh

    Abraços,
    Até mais tarde...
    Preciso que combinemos uma maneira de ir, para eu não errar sozinho...
    A minha Patroa sai do colégio ( ela é professora ) às 20:00 . Eu passo lá para pega-la, pois dessa vez ela não pode perder.

    Dihelson Mendonça

    ResponderExcluir
  16. Caro Carlos,
    Bonito o texto sobre a sua Rua ( e todos nós temos uma!). Escreveu com muita sensibilidade e precisão ( coisas difíceis de se unir). O Crato é pródigo em memorialistas e esta talvez seja o nosso viés mais forte em literatura. Percebo que o manancial não vai secar oq ue me alegra muito. Abraço,
    Zé Flávio

    ResponderExcluir
  17. Prezado Zé Flávio
    Puxa! Receber palavras de incentivo de um monstro sagrado como você (não somente para mim) é para nos encher de orgulho. Muito obrigado. Espero você e esposa hoje à noite. A nossa dieta está assegurada. Um abraço.

    ResponderExcluir
  18. Luiz Alberto e Carlos,
    Vamos esquecer as traquinices do passado. Mas a história da espada é verdadeira. Aconteceu de madrugada antes do início de um ensaio para o desfile de 7 de setembro. O doutor, nascido em Exu, colocou um prêmio para quem informasse o autor da morte do cachorro...

    ResponderExcluir

Visite a página oficial do Blog do Crato - www.blogdocrato.com - Há 10 Anos, o Crato na Internet.