12 setembro 2008

UDENISMO E A CONTA MÉDICA

Existem polêmicas que, por critérios pessoais, desistimos. As vezes revela-se o que se pensa e se dar por satisfeito, até porque o assunto tomou outro rumo. No entanto, refletindo mais, tem dois assuntos, um derivado do primeiro que gostaria de abordar. O primeiro é uma postagem de Valdetário Siebra sobre a história de uma criança em situação de risco na cidade do Recife. Fiz um breve comentário sobre a necessidade de se trazer para o universo político (a polis aquele que por vezes as pessoas saltam da sua individualidade para uma pluralidade transformadora) a questão da pobreza e da fome das crianças no Brasil. Mas não foi nesse o sentido que os demais comentários vieram. Migraram para o ceticismo em relação ao relato do médico e para uma ácida crítica a uma certa "inconsciência social" dos médicos e a voracidade por ganhar dinheiro. A segunda foi, em resposta a este enfoque, de que havia por trás disso um certo "udenismo" nos comentários. Aí passamos à postagem em defesa do udenismo tendo como tese a listagem das pessoas de bem que praticaram o poder na cidade do Crato por este ideário político.

Pelo fim. O "udenismo" é uma categoria histórica reconhecida pela literatura, dicionarizada como os filiados ao antigo partido da UDN e até mesmo faz parte de uma categoria ideológico política. Como categoria histórica o udenismo se criou como uma forte oposição ao governo Getúlio Vargas, combateu este político até a sua morte e com certeza, não por medidas exatamente democrática, tentou o golpe contra Getúlio e depois contra Juscelino Kubitscek. A liderança de um político de renome dos quadros da UDN, Carlos Lacerda, junto com militares da Aeronáutica (o ícone da Aeronáutica, Brigadeiro Eduardo Gomes fora derrotado por Getúlio) esteve por trás das pressões políticas que levaram ao suicídio de Getúlio. Do ponto de vista ideológico o udenismo era uma mistura de defesa das classes médias com a defesa dos grandes proprietários de terra. Por isso mesmo que pendulavam, por vezes, suas posições. Foram a favor do monopólio do petróleo e votaram contra a cassação dos comunistas, mas ao mesmo tempo eram contra a intervenção do Estado na economia, denunciavam a infiltração comunista e contestavam os resultados eleitorais quando perdiam eleições. Perderam as eleições para a presidência nos anos de 1945, 1950 e 1955, ganharam com Jânio Quadros e apoiaram o Golpe Militar de 1964.

Sendo o udenismo uma colcha ideológica, dada a diferença da raiz social do partido, nas suas teses políticas coexistiam ideais liberais, autoritários, progressistas e conservadores. O estilo de fazer política do udenismo era exuberante, denuncista, apegado ao liberalismo, ao bacharelismo, ao moralismo e um horror quase patológico aos chamados "populismos". O interessante é que a UDN na sua representação no Congresso Nacional tinha maior representação de proprietários de terra e funcionários públicos que qualquer outro partido, inclusive o PSD. A UDN sempre foi aliada dos empresários nacionais associados aos capitais estrangeiros e até por isso e em razão da guerra fria era adesista contumaz dos EUA. No embate político daquela época os inimigos da UDN a classificava como o "partido dos golpistas", "partido dos cartolas" e o seus aliados como o "partido do lenço branco" e "partido da aliança liberal". A UDN nunca foi apegada a determinadas formas de governo, especialmente a do voto secreto, como uma instituição essencialmente moralista já abria seu programa com a frase: "de nada valem as formas de governo, se é má a qualidade dos homens que nos governam".

Em síntese o Udenismo evoluiu historicamente numa radicalização já entranhada no seu ideário e nas suas práticas. A primeira fase do udenismo é essencialmente antigetulista e contra a política social e a intervenção do Estado na economia. A segunda fase é essencialmente moralista, combatia a corrupção do governo da aliança PSD-PTB. A terceira fase é a do anticomunismo radical que se aproxima de Adhemar de Barros e protagoniza o golpe de 64 com a deposição de João Goulart.

Agora, todos nós, sem exceção, vejamos que este mesmo ideário, com um certo ajuste histórico se encontra presente na realidade contemporânea. Por outro lado não podemos deixar de prestar a atenção que este ideário se adere precisamente na intimidade de todas as localidades. Especialmente o Crato que teve uma tradição política extremamente conservadora e udenista. Isso sem contar que as lideranças do velho clero do Crato migraram remotamente do integralismo para um udenismo de resultado junto às famílias que dominavam a região.

Quanto à questão da conta médica. Em primeiro lugar para se aceitar a ordem econômica vigente é preciso que toda pessoa de boa fé critique-a em sua raiz, pois desejar que os médicos virem sacerdotes, quando nem isso é realidade no seio das igrejas, especialmente as neo-pentecostais, é um exercício de mero desabafo. Ele, por mais sincero e contundente que seja, não mexe nem uma palha numa ordem cuja matriz é o lucro e o progresso material desbragado. Querer a ordem capitalista para seu progresso pessoal e criticar os médico por tal, é meia crítica e como não existe meia crítica, não se vê crítica alguma. Mas é claro, existem as críticas pessoais e estas apesar de provincianas vigem até na cultural mundial da imprensa americana.

4 comentários:

  1. Dr. Jose do Vale.
    Paz e Bem.

    Peço permissão para fazer um pequeno comentário. Prometo que será o ultimo e que não vou polemizar.
    Graças a Deus não tenho problema com atendimento medico. Vi para o Crato em 1969 e iniciei meus estudos no Colégio Estadual Wilson Gonçalves. Entre os meus colegas estava um menino de quem me tornei amigo. Ele foi para o Recife e graças ao seu extraordinário talento retornou medico. Em Crato, Ele dedica sua atuação na defesa da vida. È sem duvida o mais laureado e competente medico em atuação na atualidade. Continua simples, humilde, bom e AMIGO. Quando eu adoeço que ele sabe, vai a minha casa me receita e não cobra nada. Não é todo ser humano que tem este privilégio. Para não desmerecer os meus, tenho filha e genro médicos. Bem diferente daquele que cai de uma moto e chega no hospital de chinela japonês, bermuda melada de sangue e camisa poída. Aquele meu comentario era em defesa destes.
    Quanto ao rozario de personalidades que fiz, foi à maneira que encontrei de citar um dos maiores cidadãos que o Crato já teve, que honrou esta terra como nenhum outro, ou seja, o genitor do Dr. Carlos Eduardo Esmeraldo. Entendo que os de hoje não devem culpar os de 50, 60 ou mais anos atras pelas mazelas que por ventura existam. Devem agir e resolvê-las.
    Em nenhum momento pensei em magoar ou ser grosseiro. Não é o meu feitio. Portanto desculpe-me.

    Antonio Alves de Morais.

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  2. Caro Morais: eis um tipo de postura e de índole para o debate que enriquece, reduz excesso e se põe na pesquisa do outro. A idéia de postar o texto sobre udenismo era o de trazer o termo para o seu valor de categoria histórica e ideológica. O comentário sobre a remuneração médica não é no sentido que apoio determinado tipo de remuneração. Apenas pretendi levantar que os médicos, como todas a sociedade, fazem parte da mesma ordem econômica. Aliás ordem econômica contra a qual parte da minha geração lutou. Era apenas isso.

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  3. Caro José do Vale, muito bom o seu texto "Udenismo e a Conta Médica", como, aliás, têm sido os outros tantos. Provando que, não apenas seus pais, mas você também é Mestre. E dos raros. Parabéns.
    Dr. Valdetário.

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  4. Carlos Eduardo Esmeraldo13 de setembro de 2008 16:12

    Caro amigo e parente José do Vale

    Já que fui citado em um dos comentários sobre sua postagem, peço sua permissão para prestar alguns esclarecimentos. Aprendi muito com o seu comentário sobre a UDN. Você expôs de uma maneira clara, didática e com muita elegância o que eu disse de forma curta e grossa. Por isso uma observação que fiz no comentário por você aludido, levou algumas pessoas a confundir esta observação com uma pretensa acusação à honra de udenistas históricos, entre os quais meu saudoso pai. Isto não passou e nem passará jamais pela minha cabeça, como também pela de ninguém de bom senso. Não sei se intencionalmente ou não, você veio em minha defesa e lhe agradeço muito por isso.
    Mesmo sem nos encontrarmos há mais de 30 anos, tenho por você uma grande admiração e estima. Não só pelo parentesco, mas principalmente pelo seu pai, meu inesquecível professor, com quem aprendi grandes lições de vida.
    Um abraço e muito obrigado

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