25 dezembro 2007

O LEOPARDO E O ORANGOTANGO




Recebi um vídeo pela Internet. A mensagem era o instinto materno. Uma fêmea jovem de leopardo caça uma de orangotango e quando termina a operação, do corpo morto da primata começa a nascer um filhote. O predador que começava a fazer sua refeição se dar conta do parto. Aproxima-se e fica observando até que o parto se concretiza.

Esquece da caça e fica ao lado do bebê. Lambe-o, brinca com ele, leva-o de um lado para outro. Enquanto isso o jovem primata começa a seguir o leopardo, ficam os dois nos galhos da árvore, um ao lado do outro. As cenas são editadas para reforçar que se estabeleceu uma linha tênue de cuidado entre o predador e sua presa.


Retirando o fato que a edição reforçasse alguns aspectos e diminuísse outros, que a câmara parou quando já não havia possibilidade para a fêmea amamentar o pequeno ser da outra espécie. De qualquer modo ficou a mensagem do instinto materno. Todos os humanos interpretam a mensagem e seus corações se enternecem.


Mas no vídeo há uma outra mensagem tão evidente quanto a citada que, por efeito de distração, não se realça. Na narrativa que fiz já se embute. Trata-se da cadeia alimentar dos seres vivos sobre a crosta da terra. Embora os humanos tenham escrito milhões de palavras, quantos discursos, prédicas, orações, poesias não foram feitas sobre os limites da moral e a aceitação da ética. Mas a cadeia alimentar não é desta natureza.


Os vegetarianos não comem carnes, imaginam-se indenes ao stress dos animais prestes ao abate. Mas comem os vegetais. É verdade não possuem sistema nervoso, mas toda a bioquímica hormonal e das seivas alimentares neles existem. A cadeia alimentar é o ciclo da natureza. É ecológica se isso não é invenção humana em mero proveito de si mesmo. A ecologia, uma invenção humana. A natureza continua em movimento independente desta lógica cuja etimologia trata exatamente de casa e casa é coisa de gente.


O ciclo do carbono na natureza tem um certo fluxo que lembra aquele da água. Muda de estado e mais que o da água, muda de síntese molecular. De qualquer forma o carbono circula. Entre sólidos, líquidos, gases e troca de posição entre átomos e entre seres vivos.


Nesse processo se encontra o que se chama cadeia alimentar, que acontece pela boca, pelo ar que se respira, pelas raízes, pela fotossíntese nas plantas e por inúmeros outros processos. Não existe uma moral ou uma ética nela. Pode existir uma religiosidade, mas isso é cultura humana, não é um atributo geral nem dos seres vivos e nem da cadeia alimentar entre eles.


A verdade é o que os sistemas orgânicos, aqueles da vida são extremamente instáveis. Dependem continuamente de trocas com o cosmo do qual se integra indelevelmente. Os seres humanos mal suportam cinco minutos sem respirar e convenhamos até para o tempo curto de uma vida isso é uma fração muito pequena do tempo.


No futuro se poderia extrair os alimentos de fontes não vivas. Isso é uma possibilidade real dada a evolução científica e técnica atual. Mas de qualquer forma, a não ser que se extraia certas moléculas de outras fontes inertes, a verdade é que ao se criarem estas fontes e ao se apropriar o carbono nos seres humanos, no balanço geral da natureza outros seres perderiam a oportunidade de existir.



Finalmente. A ecologia, esta sim, é premida pela moral e pela ética. Afinal ela é a ciência com a qual a humanidade se desculpa pela agressão feita além dos movimentos naturais da terra e através da qual tenta controlar este dano.

Festivais da canção do Cariri, anos 70

Com uma programação especial durante o mês de novembro, os centros culturais Banco do Nordeste (Fortaleza e Região do Cariri, no Ceará, e Sousa, na Paraíba) prestaram uma homenagem aos 40 anos do surgimento do Tropicalismo (movimento deflagrado por artistas plásticos, cineastas, poetas e músicos). Pode-se dizer que foi na música, a partir do histórico LP “Tropicália ou Panis et Circenses”, lançado em 1967, que o Tropicalismo mais se destacou.
No Cariri, a programação incluiu debates, mostra de cinema e shows musicais. Assisti ao colóquio “Tropicalismo no Cariri?”, comandado pelos compositores e cantores Luiz Carlos Salatiel e Abdoral Jamacaru e pelo escritor José Flávio Vieira, com abertura feita pelo professor de Sociologia da URCA, Roberto Marques, autor do livro “Contracultura, tradição e oralidade - (re)inventando o sertão nordestino na década de 70”, que aborda a produção cultural alternativa elaborada pelos artistas locais.
A resposta à pergunta em questão é positiva. Sim, aconteceu um tropicalismo revisitado na região do Cariri cearense, cuja uma das principais manifestações foi o Festival da Canção do Cariri.
A convite de Luiz Carlos Salatiel, participei, ao lado de Blandino Lobo, da produção de um filme com depoimentos de remanescentes da época dos festivais caririenses (músicos, compositores, produtores e público), no qual foi incluída a minha opinião. O filme foi apresentado após a apresentação dos debatedores.
Apesar de um público aquém do esperado, o colóquio foi rico de informações, descontraído e ao mesmo tempo imponentemente sério. O tema é palpitante para aqueles que, como eu, viveram, de alguma forma, o clima mágico, especial, irreverente e moderno que irradiava por ocasião do evento.
O palco era a Quadra Bicentenária, no Parque Municipal. Um pequeno quarteirão da bicentenária cidade do Crato, mas também um espaço de comprovado valor histórico e afetivo. Em frente, a quase cinqüentona Sociedade de Cultura Artística do Crato, que na década de 1970 inaugurou o Teatro Rachel de Queiroz. Na ocasião foi encenada, pelo lendário Grupo Teatral de Amadores Cratenses (GRUTAC), a peça “A raposa e as uvas”, de Guilherme Figueiredo. Nessa peça, atuaram José Correia e Eloi Teles de Morais, nomes que para qualquer cratense dispensam-se comentários. O poeta Geraldo Urano, autor das apresentações mais vanguardistas (verdadeiros happenings), morava ao lado. A quadra ficava no centro geodésico entre o Bar do Alagoano, na Praça da Sé, e a Boate Arapuca, no vetusto Crato Tênis Clube, no bairro do Pimenta. Um ponto simbolicamente eqüidistante entre a tradição e do novo, o costume e o modismo.
No meu depoimento, disse que apesar da pouca idade, sempre me conectei com o clima do festival. Os primeiros festivais, ouvi pelo rádio, transmitidos pela Rádio Educadora do Cariri, porta-voz da Diocese do Crato; mas caia no sono antes do anúncio das músicas classificadas para a grande noite final, sempre num domingo de outubro. Torcia pelo grupo que meu irmão Tobinha (Osvaldo) integrava. Primeiramente chamado de Cia. Ltda., e depois de Gitirana, devido a música que emplacou o segundo lugar no festival de 1972. Não conhecia e não tinha lá simpatias por Luiz Carlos Salatiel e Abdoral Jamacaru - verdadeiros papa-festivais, deixando o Gitirana e outros concorrentes em posições secundárias. Na primeira vez que fui ver o festival ao vivo, acho que em 1975 (tinha 9 anos), assisti a apresentação do grupo de Geraldo Urano, do qual participava as feras Cleivan Paiva, no violão e Demontiê (hoje Dellamone, mas naquele tempo era chamado de Cu Preto) na bateria. Geraldo passou todo o tempo da apresentação sentado na beira do palco, lendo um gibi e tomando coca-cola. No final, saiu dançando por toda a extensão da quadra, sob o frenético frevo executado pela banda. Aquilo mexeu comigo e abriu definitivamente minha cabeça para a arte. Caiu a ficha, literalmente.
Bons tempos, aqueles.
Ou como dizem os velhos bluesmen: “Good times”.