20 agosto 2007

Aquele abraço ao Blog do Crato



Quando até a cultura se tornou mercadoria e os comerciantes ditaram sua estética de venda, um tributário do grande rio mercadológico se criou. A Internet aprontou uma malha capilar de possível expressão e por ela os artistas, os produtores e as pessoas que interagem com a obra de arte se religaram. Mas não foi a grande rede que inventou ou selecionou a arte e o artista, ou seja, ditou a nova cultura. Na verdade os seres humanos sempre viveram a liberdade de pensar o mundo, achar-lhe explicação e expressarem-na como força de conservação ou mudança da realidade. A cultura é muito isso tudo, não depende apenas dos seus meios de divulgação, pois até na cela de um monge e de uma prisão, desde que duas pessoas se encontrem, a expressão do mundo já acontece.
O Blog do Crato joga dialeticamente com a cultura. Com a cultura em que o universo caririense se insere no universal de toda a humanidade. Em que a cultura é a mistura do último minuto acontecendo com centenas de anos que formaram este verdadeiro baião de três continentes. A cultura que não é a estética dos limites continentais, mas o conteúdo contradito de três imensos acontecimentos da história da humanidade: Europa, África e América. Por isso é um minuto acontecendo nesta verdadeira antropofagia de Mr. Dihelson em torno da música erudita e do instrumental moderno com o arcaico repetido na periferia dos bumbas dos Irmãos Aniceto e das dançarinas do Coco da Batateira.
A cultura do povo atual do Cariri faz muito sentido quando vista em todas as classes, em todas as manifestações. Os escultores do Mestre Nosa, os artesãos das feiras, os cordéis puros da alma sofrida, os andarilhos das veredas, as cantorias de viola, a poesia dos bancos de escola e da casa de taipa, enfim a cultura deste encontro que é o desencontro da bacia sedimentar do Araripe. Bem no coração do semi-árido nordestino.
Espero que os editores do Blog tenham pernas, ouvidos e olhos para este universo sedimentar e que levanta poeira a todo o momento. Hoje mesmo, a 60 quilômetros do Vale dos Cariris, na vertente pernambucana da Chapada do Araripe, a rocha é desmontada e o gesso calcinado junto com enormes faixas de mata essencial ao equilíbrio florestal. É preciso juntar o universo com o universo, pois é isso que ocorre a cada segundo no oceano de alguns séculos de fusão.

Suco de macaúba

Em Crato, no Café Joaquim Patrício (Rua Bárbara de Alencar, 936, centro) você pode saborear um delicioso suco de macaúba ao leite, R$ 2,00 o copo. Dizem que o suco, além de afrodisíaco e energético, tem outras utilidades, como as de ser excelente para a calcificação e prevenir osteoporose. Independente disso tudo, o suco é bom pra caramba.
A propósito, na década de 70, a banda Papa Poluição, integrada pelos conterrâneos Tiago Araripe, Zé Luiz Penna e Xico Carlos, lançou um compacto com uma música que tinha um verso mais ou menos assim: "com a boca inchada de macaúba e uma vontade louca de não morrer sem ver Paris". Alguém lembra?

POESIA


O rio tem um romantismo que lhe é próprio,
E que o mar não, as montanhas não tem,
As pradarias não, o deserto não.

A estar no mar, estou a dizer,
As montanhas têm uma paz que lhe é própria,
E que o mar não tem, não têm as pradarias,
O deserto...

Nas pradarias estou a dizer,
As pradarias têm um quê que as montanhas não,
O mar e o deserto não têm.

A estar no deserto, falo de solidão.

A estar com Clarice,
Penso no que Alice não, Maria sim, Helena talvez...
Ana Bela de quando em vez...

Procuro em cada uma, um rio, um mar,
As montanhas, as pradarias e o deserto,
Que de certo cada um tem!

Pachelly Jamacaru