03 junho 2007

BLOW UP


NAVALHA


JFLÁVIO

O leitor – se já se não encontra totalmente imune -- deve ter mais uma vez se indignado , nos últimos dias, com novas e intragáveis denúncias de corrupção no país.A Operação Navalha da Polícia Federal destronou o ministro das Minas e Energia , enlameou de uma vez por todas o presidente do Senado e, espalha-se a boca miúda, que mais de cem parlamentares podem estar envolvidos.Corrupção no Congresso, definitivamente, não é mais novidade: de tão comum, já não dá IBOPE, nem vende mais jornal.Calcula-se que o Brasil perde cerca de R$ 20 bilhões por ano com corrupção , verba suficiente para tocar toda a saúde do Crato pelos próximos 83 anos. De há muito perdemos a fronteira entre a vida pública e a privada.
Há, no entanto, um detalhe nas notícias espalhadas pelos jornais brasileiros que merece reflexão. Aparentemente passa desapercebida, em meio aos caos do desvio de mais de 30 milhões de verbas federais pelas empreiteiras identificadas na Operação Navalha. O cabeça da quadrilha, o empreiteiro baiano Zuleido Veras , é dono da Construtora Gautama. Concordemos que o nome é esquisito , parecido com uma daquelas cidades da região Norte , mas perfeitamente o aceitaríamos sem muitas perguntas , se a navalha não lhe houvesse exposto as vísceras.Pasmamos todos quando o Zuleido, algemado, informou ser budista e que havia batizado sua construtora em homenagem ao Buda, um dos líderes religiosos mais humildes e despojados da humanidade e que aí pelo Século VI a.C. ficou conhecido como Siddartha Gautama.
Para mim, pobre ruminador de idéias de fim de semana, este fato mostrou-se como o mais revelador brotado do corte da Navalha. Nada mais brasileiro que o ato do nosso Zuleido. Nós somos em verdade este mar de inconsistências aparentemente consistentes. Nação milagrosamente nascida da miscigenação de muitas raças e culturas, carregamos conosco também verdades e valores multifacetados. Pensamos e agimos como seres afro-índio-mouro-ibérico-sino-ítalo-germânicos. Esta variedade inesgotável se encontra presente no nosso fenótipo, mas também na nossa culinária, na nossa música, nas nossas festas, na nossa religião.Temos um sincretismo religioso bastante peculiar. No Candomblé isto parece tão visível quando Ogum se traveste de São Jorge e Iemanjá de Nossa Senhora. A recíproca, também,faz-se verdadeira entre alguns grupos evangélicos, como os da Igreja Universal, quando se estabelecem rituais para afastar os Encostos e o Exu-Tranca-Ruas. O “Vale do Amanhecer”, uma das mais brasileiras das religiões, apresenta rituais imensamente sincréticos: uma mescla de catolicismo-kardecismo-budismo-candomblé-xamantismo.Entre os católicos, a religião mais predominante do país, este sincretismo não é menos visível. O Padre Pinto na Bahia, ano passado, se alternava entre o terreiro e o púlpito. Por outro lado nossas festas religiosas se apresentam como uma mescla de sagrado/profano, religioso/pagão, basta ver, por exemplo , o Pau-de-Santo-Antonio aqui na Barbalha. Na semana santa, por outro lado, tomam-se carraspanas fenomenais e tudo parece perfeitamente permitido, desde que a bebida seja o vinho.Vamos ao confessionário, única e exclusivamente, para zerar os pecados e começar tudo de novo. Nossas promessas com os santos de devoção são uma espécie de escambo, de toma-lá-dá-cá. Para que Santo Antonio arranje noivo, muitas vezes, além da promessa pura e simples, se amarra a imagem do santo de cabeça para baixo dentro de um copo d´água e só se tira depois da promessa alcançada. É como se seqüestrássemos o santo e o torturássemos até que cumprisse aquilo que pedimos.
Assim, colocar o nome de Siddartha Gautama numa Construtora plena de falcatruas e fraudes, mostra-se como claramente aceitável e um ato profundamente brasileiro. Neste país é quase que impossível saber-se onde termina o culto religioso e começa o carnaval.