08 maio 2007

As Lutas Ideológicas se Ativam


A luta ideológica não é uma guerra e
menos ainda uma batalha. Ela é um movimento
da história sem data para terminar, até que
todos percebem que mudou de patamar.



José do Vale Pinheiro Feitosa*


Qualquer discurso no mundo globalizado encontrará dois eventos. Por um lado, logo de cara encontra o seu contrário, pois nenhum discurso é suficiente para dar conta de todos os aspectos sociais, econômicos e culturais dos povos da terra. Por outro lado encontra enxerto e contradição com muitas idéias que migram constantemente, à velocidade da luz, através de meios de comunicação e da comunicação intragrupos. Tais eventos são responsáveis, ao contrário do que possa parecer, pela formação de ideologias (lutas pela forma de organizar o mundo humano e sua relação com o planeta) e em seguida a fratura ideológica que sintetiza a tentativa de impor uma ideologia hegemônica.
Quando nos anos 90 os arautos das mudanças econômicas, da ordem social e política, especialmente a ordem estatal, diziam que as ideologias haviam se esgotado, apenas queriam tornar hegemônica a própria ideologia em detrimento de outras. Vale salientar que nos anos 90 isso foi mais contundente pois toda a geração rebelde dos anos 50, 60 e 70 estava chegando ao apascentamento burguês e à decepção tão comum naqueles que chegam a idades maiores vendo que seus sonhos não se realizaram.
Uma manchete do Globo a respeitos das eleições francesas dizia: "A volta da paixão pela política". O subtexto da manchete se referia à apatia eleitoral de 2002. De qualquer modo a matéria foi reveladora que as ideologias (ou outro termo que traduza as visões de mundo de segmentos das sociedades complexas da atualidade) continuam vivas, se formando e lutando com seus contrários. Na França, por exemplo, de modo resumido teve-se duas posições em conflito.
Por um lado alguém dizia: não quero que a França, com políticas liberais, se torne um Brasil, dando oportunidade às grandes empresas sem cuidar do povo, que é o fundamental de uma nação. Já do outro lado o discurso em contrário: "criou-se uma cultura de assistencialismo neste país. No meu setor, de restaurantes e hotelaria, por exemplo, não se consegue achar gente para trabalhar como motorista ou pessoas que trabalhem com mercadoria. Por quê? Porque as pessoas não querem trabalhar. A França precisa de um eletrochoque. A esquerda francesa quer acabar com o capitalismo. Ora, mas não se pode acabar com o capitalismo!"
Mesmo com uma posição definida nestes contrários não vou discutir a minha posição. Apenas ao lembrar que as ideologias existem levantar algumas questões que precisam ser compreendidas. Especialmente no Brasil se tratarmos o assunto como porta de entrada e de saída do problema.
Ao entrarmos nas sociedades modernas damos de cara com a violência, em algumas áreas se configurando nitidamente uma guerra civil. Ao tentarmos compreender a localização exato de tal violência no nosso modo de ser humano, muitas visões se anunciam. A corrupção do espírito humano com a tradução em sua maldade intrínseca (psíquica, comportamental, etc.) ou extrínseca (ética, moral, cultural e religiosa como exemplo a idéia de demônio). A ganância desenfreada do homem por mais poder e mais consumo. A solidão das pessoas, sem família, sem religião e sem educação. A exploração mercantil organizada sob a forma de bandos, quadrilhas, máfias, que excluem qualquer compaixão a não ser a conquista do espaço comercial.
Na porta de saída para a violência alguns encontram a preguiça humana uma vez que se tenha consolidado uma escala de bens e serviços, uma sociedade solidária e uma proteção para os imprevistos que sempre acontecem. A mais expressiva tradução disso, traduzida em números, veio exatamente do campo dos seguros, que é aquele em que prudentemente as pessoas tentam se proteger de perdas agudas no futuro. Neste campo surgiu o que se chama Risco Moral em que as pessoas uma vez seguradas relaxam os cuidados com seus bens e terminam, pelo contrário, aumentando o risco de que o acidente aconteça. Essa medida foi tão cara aos pensadores liberais dos anos 90 que se transformou uma prova em contrário para as sociedades solidárias e de esforço coletivo.
Quando as civilizações perdem a capacidade de compreender seus momentos e não tomam uma posição hegemônica sobre estes, normalmente sofrem conseqüências negativas ao seu patrimônio cultural, social e econômico que podem até levá-las à decadência. Quando se pensa a questão da violência, das guerras genocidas pelos continentes, as guerrilhas e as máfias não há como separar a questão de como enfrentá-la daquilo que leva a tal violência. As várias explicações para a violência podem formar um painel bastante abrangente, mas é estéril de solução se apenas assim permanecer. Certamente que é preciso encontrar um denominador comum para as várias compreensões a respeito da violência.
De cara vê-se que é um denominador comum entre todas as explicações o ser humano, esse em si e por si. Acontece que o ser humano não é um mero mecanismo biológico e psíquico, ele se encontra no tempo e no espaço. É um ser humano contemporâneo e vivendo em certos espaços geográficos, sociais, econômicos ou culturais (religiosos e ideológicos). Mais ainda não se trata de um ser humano se organizando sobre outra forma de exploração dos meios e recursos que não o capitalismo e suas instituições. Não importa que se fale em estágios mais avançados e retardatários do capitalismo, o denominador comum é o próprio capitalismo globalizado, com suas instituições comerciais e financeiras.
A outra questão é o pessimismo prevalente em relação ao próprio ser humano como consciência de estar num mundo em movimento e em permanente transformação. A história inteira da humanidade já esgota o argumento, ele não é um ser ontologicamente indolente ou malandro. Pelo contrário é um ser de superação a ponto que importantes pensadores do século XIX, como Karl Marx por um lado e Adams Smith pelo outro, o viram ora como evolutivos historicamente ou ora como empreendedores em benefício próprio de tal modo universal entre si que se transforma em interesse coletivo. Portanto é importante entender que todos os "erros" dos sistemas de solidariedade atuais redundam de baixa consciência histórica, de sistemas exploradores com fina camada de proteção e de ordens extremamente hierarquizadas social e economicamente em que a sociedade se divide entre perdedores e vitoriosos. O denominador comum não é, novamente, o ser humano, mas o jogo de grandes massas de perdedores ressentidos, sem a tocha do seu próprio destino e sem a consciência da sociedade humana como ideologias em conflito.
Melhor dizendo uma sociedade verdadeiramente de paz seria aquela que desse um salto qualitativo por sobre o estágio atual da luta ideológica. As questões de ser e estar no mundo continuarão sempre para os humanos ou para qualquer outra espécie de vida. A diferença é que no atual estágio da humanidade, com a grande vitória do modo de exploração e remuneração do capitalismo, as ideologias continuam refletindo apenas o jogo entre classes econômicas, os de posses contra os despossuídos. Ou melhor, os que se apoderam contra o que não se destinam. Mas como se sabe esta ultrapassagem é o que se forja na história. Quando a história humana concretizará esse novo momento é um bom exercício intelectual. Acho que muitos revolucionários dos séculos XIX e XX trabalharam nisso, com freqüência acertaram e algumas vezes redundou em mero exercício. De qualquer forma aqui o objetivo é um pouco mais básico, não se trata da adivinhar o futuro, apenas de compreender a seta que aponta os conflitos da história e das ideologias no estágio atual.
* O autor reside no Rio. Nascido em
Crato é romancista e médico

Show de João do Crato no CCBN





João do Crato: Performer Dias 09, qua e 17, qui, 19h






Conhecido na região por seu carisma e estilo performático, João do Crato é ator, cantor, interprete e está na cena musical cearense desde o final da década de setenta, quando integrou, como vocalista, a banda “Chá de Flor”. No show “Performer”, João do Crato interpretará canções de compositores caririenses tais como: Abidoral Jamacaru, Pachelly Jamacaru, Cleivan Paiva, Patativa do Assaré, entre outros. 60min.



IMPERDIVEL !




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