31 março 2007

Zé dos Prazeres


Esta reportagem é do Vicelmo e saiu hoje no DN, sobre um dos maiores e mais duradouros boêmios cratenses.


Boêmio e personagem de resistência cultural


O José Henrique, ou simplesmente, Zé dos Prazeres, é um dos personagens mais Conhecidos do Crato


Crato. O Diário do Nordeste lan­ça, a partir de hoje, mais este es­paço de valorização das popula­ções residentes nos municípios cearenses. A seção Personagens do Interior quer divulgar os perfis de pessoas que se destacam em sua cidade, nas mais diferentes áreas, seja na arte, na cultura, no artesanato, no comércio, no tra­balho comunitário, entre outras. *i iUm exemplo que vem dos velhos cabarés do Crato. O rit-mista e seresteiro José Henri­que dos Santos, conhecido por "Zé dos Prazeres', é o único so­brevivente de uma casta de boémios que marcaram presen­ça nos velhos lupanares do Cra­to. O apelido vem de sua mãe, "Maria dos Prazeres", que criou os filhos vendendo cabeça de porco aos frequentadores do chamado baixo meretrício. Foi neste ambiente de pros­tituição, malandragem e pobre­za que Zé dos Prazeres foi cria­do. Mesmo assim, a adversida­de não o arrastou para o mun­do do crime. Exerceu as mais humildes profissões de engraxate a menino de recado das mulheres que vendiam o pró­prio corpo para sobreviverem. No convívio com estas mu­lheres, segundo afirma, colheu as mais nobres lições de solida­riedade. Como exímio percur-sionista de pandeiro e bateria, Zé dos Prazeres deu prioridade à música, seguindo os conse­lhos de sua velha mãe que sem­pre o orientou no bom cami­nho. No balanço que faz de sua vida em clima hostil , ele diz, com orgulho, que não tem ne­nhum inimigo.
Casado, pai de três filhos, um dos quais morando em Tó­quio, no Japão, e os outros dois em São Paulo, Zé dos Prazeres constituiu sua família distante de seu ambiente de trabalho, preservando-a das máculas preconceituosas da sociedade. Provou que no meio do lama social nascem flores.
Hoje, com 82 anos de idade, o velho boémio ainda mantém o seu bar aberto no coração do antigo baixo meretrício.
Cercado por meia dúzia de garrafas, duas geladeiras e uma bicicleta que lhe serve de trans­porte, ele se mantém de pé, en­trincheirado no último reduto da chaga social da vida clan­destina da cidade.
Para os que criticam as mu lheres com quem conviveu, ele tem na ponta da língua um so­neto de Patativa do Assaré. "A letra fala por si mesma".
A meretriz
Se alguém te chamas de perdida e louca/Não acredites, pois não é verdade./ Há quem procure cheio de ansiedade /A graça e o riso que tu tens na boca/ Fostes menina, já usastes touca / Fostes donzela, tinhas virgindade/ Tudo é fugaz, tudo é brevidade /
De qualquer forma nossa vi­da é pouca.
Nunca lamentes teu viver de puta/ Entre os pomares tu tam­bém és fruta/ Alguém te estima e com fervor te quer/ No chão na cama ou dentro de uma re­de. / 1\i és a fonte de matar a sede / Do desgraçado que não tem mulher.