25 julho 2007

O homem e a folha

Entardece no mundo.
O céu plúmbeo está pintado em tons de roza-cinza-azul e anuncia a possibilidade de chuva naquela pequena reserva de floresta tropical. Pequenos animais buscam as suas tocas adivinhando um temporal. Um homem já velho, magro e nu, caminha tranquilamente atravessando a paisagem. Sua face foi esculpida pelo tempo e expressa a paz que carrega dentro de si. Começa a chover. Um forte vento balança as folhagens das árvores. Folhas secas começam a cair. Uma delas, em movimento anguloso e lânguido parece aproveitar o vento para bailar. O homem observa com naturalidade e abre um sorriso: a folha transformara sua queda de morte numa dança? Continua seu caminho com muito mais tranqüilidade. Absorve todos os tons que a luz lhe oferece. Ouve os pássaros, o som das águas e...vozes de crianças que parecem brincar. Fica atraído pela algazarra. Anda mais naquela direção até uma pequena cachoeira que derrama suas águas num pequeno lago. Numa miragem, crianças-curumins pulam no poço, bebem água da fonte se enlameiam e se banham. O homem abre um largo sorriso e deita-se na água como se o poço fosse sua cama. Nesse mesmo instante a folha que o perseguia imita o homem. Os dois flutuam. Parecem descansar. Silêncio profundo. A folha se assenta sobre o corpo do homem. Ele, como num ritual, pega a folha delicadamente e a observa por algum instante. Conversam em silêncio. Depois, o homem velho pega a folha e a coloca num pequeno córrego para que siga o seu bailado. A folha flutua e navega sem destino. Cadê o homem? No poço apenas uma criança-curumim brinca com a lama e se banha.
A noite chega com uma lua nova brilhante no céu.

Luiz Carlos Salatiel
Rio, junho 2005/julho 2007

Um comentário:

  1. Maravilhoso, Salatiel. Maravilhoso! Pude imaginar todas as cenas desse poema. E enfim, cada um a seu próprio termo, o Homem e a Folha, seguem seu curso inexorável, ante as corredeiras da vida. E o sol, lâmina aguda a fatiar os dias e as noites, esculpe na imensidão do tempo, a eternidade de um instante captado pela lente sensível do poeta!

    Um grande abraço!

    Dihelson Mendonça

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