11 fevereiro 2007

Flores & Lobos - J. Flávio

Flores & Lobos


Quem quiser conhecer um pouco o espírito de uma época deve consultar as páginas policiais. Ali estão estampadas as chagas de uma sociedade, sem reparos e maquiagens. Os outros cadernos geralmente pintam-se com tintas atenuadas ou acentuadas pelo pincel do poder reinante: reis e nobres ganham virtudes inexistentes e revolucionários defeitos que não possuem. A seção policial, no entanto, traz a crueza do mundo, o dilaceramento contínuo das relações humanas, o homem como lobo do homem. A história, por fim, que se escreve com sangue e que demonstra a pouca diferença entre o sujeitinho de gravata e o primata peludo que acabou de descer da árvore.
Nestes dias, divulgou-se uma destas histórias emblemáticas da nossa era. O protagonista tem um nome embebido , aparentemente, em raios de sangue azul : Renné Senna. Tratava-se, no entanto, de um pobre lavrador do interior do Rio de Janeiro que, doente, acabou tendo as duas pernas amputadas e viu-se abandonado pela mulher e pela filha. Morava ,de favor, no fundo de uma escola e, de cadeira de rodas, sustentava-se , vendendo flores à beira da Estrada Rio-Santos. Um destes dramas comuns a que estamos afeitos e que já não têm sequer a força de alimentar qualquer cronista hebdomadário. Parece até ficção, um destes dramalhões do Sidney Sheldon, pois não é que em 2005 a vida do Renné dá uma guinada totalmente imprevista? O homem ganha sozinho a mega-sena: mais de 50 milhões de reais. A seqüência parece bastante previsível. A ex-mulher deve ter se acercado, enchendo a boca de: meu ex-marido; a filha, dengosa voltou a chamá-lo de painho e os amigos e parentes multiplicaram-se . Consta que Renne´, sobrevivente de tantas batalhas, mostrava-se um figura doce e muito generosa. Ajudava amigos e aderentes com uma presteza jamais vista. Adquiriu uma enormidade de bens de consumo: casas, fazendas, carros importados, apartamento no Recreio dos Bandeirantes. Passou a ter às mãos tudo que materialmente desejasse. Arranjou até uma nova esposa, uma loura bonita, ex-cabeleireira, o objeto de consumo de muitos em Rio Bonito. A sorte, no entanto, deu uma nova reviravolta e, no início de janeiro, Renné foi assassinado com cinco tiros, aparentemente a mando da nova esposa, Adriana Almeida, que tomara conta de sua vida, afastava seus familiares e mantinha muitos amantes. O motivo parece o mais banal e previsível : apoderar-se da herança.
Reflitamos, um pouco, sobre este conto real ,escrito pelas trêmulas mãos do destino. O primeiro ponto é que Renné sobreviveu à miséria mas não conseguiu sobreviver à riqueza. A abastança é uma doença muito mais mortal que a indigência. A fartura deu para Senna uma infinidade de bens que nunca havia sonhado em possuir, mas lhe trouxe junto a ganância, a inveja e a necessidade de exercer o eterno escambo emocional e sentimental. Os amigos, as mulheres, os parentes se acercaram de Renne´ não pelo que ele era ( e, aparentemente, este se mostrava como seu maior tesouro) mas pelo que Renné tinha. A miséria e a doença não o atacaram tão mortalmente como a ganância dos lobos.Uma outra reflexão interessante é a de que Senna, definitivamente, não teve sorte com as mulheres e Nelson Rodrigues dizia que o dinheiro é tão poderoso que compra até amor verdadeiro.A primeira o abandonou quando estava na sarjeta e a outra para lhe tomar o trono de ouro. Um outro ponto a ser pinçado da história: os psicólogos têm trabalhos que mostram : após se ter uma guinada na vida como aconteceu com o Renné, a pessoa se vê imersa numa enorme felicidade e sensação de bem estar. Este estado, no entanto, mostram as pesquisas, dura apenas um ano, após este prazo, apesar de toda a fortuna, o nível de bem estar volta a ser o mesmo de antes. Por que isto acontece? Simplesmente, a meu ver, porque o dinheiro traz apenas uma profunda mudança na superfície de nossa vida. No início satisfazemos todos os desejos materiais que se encontravam represados e nos sentimos profundamente felizes. Completado este primeiro estágio, já não nos sobram aspirações e caímos na mesmice de sempre. As nossas mais importantes e verdadeiras aspirações encontram-se mais profundas, nas regiões mais abissais dos nossos oceanos interiores, totalmente inacessíveis à ação do dinheiro. Renne´ há de ter tido tempo de perceber isto. Seus amigos anteriores faziam-se mais fiéis, seus amores mais verdadeiros e talvez ele fosse bem mais feliz quando morava nos fundos da escola . Na abundância distribuiu jasmins e lhe deram em troca apenas os espinhos , quando vendia flores ,ao menos ficavam nas mãos um pouco do perfume das rosas que enchiam de cores os carros na Rio-Santos.

Um comentário:

  1. Crônica tocante. Fato tocante.

    "O trágico não vem a conta-gotas"

    Sábio Guimarães Rosa.
    _______________________

    Por isso é que "de temer a gente tinha que fazer costume".

    ResponderExcluir

Visite a página oficial do Blog do Crato - www.blogdocrato.com - Há 10 Anos, o Crato na Internet.