14 fevereiro 2007

A Chama dos Velhos Carnavais - JFlávio

A CHAMA DOS VELHOS CARNAVAIS

Há alguns anos, no assassino desmoronamento do edifício Palace II , no Rio, entre os oito mortos, havia uma mocinha que foi surpreendida, no interior do seu apartamento, quando tentava salvar a fantasia de carnaval que usaria no desfile do outro dia. Quão importante aquela festa para a menina que, ao invés de tentar salvar bens mais duráveis, buscou desesperadamente salvar a sua fantasia! O Carnaval, que nos chegou com os portugueses ,aportou no Brasil como expressão máxima do anarquismo: festa onde cada um se fantasiava do que bem lhe aprouvesse, onde os escravos encharcavam os senhores e os súditos ridicularizavam os reis. Tudo era permitido naqueles quatro dias de trégua dos homens com o seu poder, seu status quo e suas regras sociais. Certo que, com o tempo, o capital começou a pôr leis e fronteiras na essência anárquica do Carnaval, vieram as arquibancadas, os cordões de isolamento, os trios elétricos, os abadás e a grande expressão da cultura brasileira foi se tornando burocrática, com uma alegria medida, uma transgressão controlada, uma anarquia regulada. Os reis já não se misturam com os súditos, os senhores já não se mesclam com seus escravos... o aparthaid brasileiro já não tem sequer um dia de trégua!
Soube de um tempo em que o Carnaval cratense tinha o doce sabor original dos velhos reinados mominos. Um tempo em que o Corso percorria toda a Rua do Commercio, em meio à guerra de serpentinas e confetes, entre pierrôs e colombinas que se espalhavam por toda avenida ou se encastelavam nas janelas dos velhos casarões e que , à noite, terminavam no baile carnavalesco no Clube Cariri, ali pertinho na Rua Formosa . O Lança-Perfume , na época, era um mero aromatizador e fazia as moiçolas lacrimejarem quando respingava nos olhos escondidos por trás das máscaras e corpos contidos pelos espartilhos. Vivi, depois, um tempo em que blocos organizados e Escolas de Samba desfilavam por toda a cidade e onde o Carnaval tinha seu apogeu nos Assaltos do Crato Tênis Clube, bailes comandados por figuras emblemáticas e inesquecíveis como Valdir Silva e Zé Maia e que terminavam, na madrugada da ingrata quarta-feira, em plena praça Siqueira Campos. Tempo que tão genialmente foi depois eternizado em dois frevos do nosso Abidoral Jamacaru. Época em que boêmios da nossa mais alta society roubaram, no romper do dia, um pato da Fonte Luminosa da Praça da Sé e foram saborear o petisco, após ser apetitosamente preparado pelas sábias mãos de Canena . O furto terminou em tanto alvoroço que rendeu uma Marcha:

“Levantaram um “falso”chato
Ao novo Clube das Rosas,
Só porque sumiu-se um Pato,
Lá da fonte luminosa”...
Quem paga o Pato?”

Depois o Carnaval cratense foi pouco a pouco esmaecendo, um pouco a cada ano, um tanto a cada gestão municipal. As poucas pessoas mais aquinhoadas arrefecem sua chama foliã nas praias do litoral e os foliões incorregíveis buscam Recife-Olinda que ainda conservam, como em um Museu, a chama inquebrantável dos velhos Carnavais. Ao povão resta seguir com seu eterno destino de escravo, sem poder sequer um dia mimetizar-se de marajá, de príncipe, de Rei. Resta-lhe tão-somente a velha e surrada fantasia de palhaço. Quem quiser um dia trazer de volta a nossa essência como cidade, terá que , necessariamente, resgatar nossos antigos e inesquecíveis carnavais. Precisamos trazer à tona a mesma chama que fez aquela mocinha , com todo perigo desse mundo, entrar no edifício que desmoronava, na vã tentativa de salvar sua fantasia para o Desfile do Carnaval...

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