28 outubro 2020

A que servem os valores morais - Por: Emerson Monteiro


Valores, ou seja, as bases sobre as quais estruturar o comportamento nas relações entre as pessoas, sociedades e natureza. Afinal se busca níveis melhores que dimensões arcaicas, de quando animais e bárbaros, dos tempos das cavernas. Eles evoluíram desde que o homem é homem, de quando resolveu aprimorar realizações no decorrer da história. São padrões mais refinados de convivência que resultam nos estados de justiça e civilização.

A que servem esses tais valores morais? Só visam estabelecer pactos em favor dos grupos, ou indicam crescimento dos indivíduos nos planos elevados da ética e do progresso de sonhos maiores?

A psicologia evita o âmbito da religiosidade, mantendo compromisso restrito ao campo das reações aparentes das pessoas. Contudo há limites inatingíveis no desconhecido. Pois a ânsia das soluções bate de cara nalgumas impossibilidades científicas, estação provisória do conhecimento. E a dor segue doendo pedindo paz aos organismos enfermos da coletividade.

Nessas horas restam os valores, decisões pessoais estabelecidas no íntimo de vencer o vazio existencial nas criaturas humanas. Algo que deve existir plantado no território silencioso da solidão visando balizar as dificuldades existenciais. Nessas paragens longas e angustiosas, luzes acendem quando guardadas. Lembram a parábola cristã das virgens loucas, que não mantiveram o azeite de acender as lâmpadas, na chegada imprevisível dos noivos. E ficaram lá perdidas nas trevas do abandono, enquanto as prudentes revelavam suas localizações.

Nas noites e febres do isolamento a que se submetem os desavisados vagando pelos mundos incertos, o plantio e a colheita bem aos moldes daqueles que aperfeiçoam valores morais, servem nas ingratas situações da sorte e reduz a fome de Amor desses tempos transitórios.


E essa fome de viver - Por: Emerson Monteiro


Essa vontade imensa de cruzar o território longo da existência vem ser a busca de um pouso seguro aonde nos deitemos em campos de leite e mel. O instinto natural da história das pessoas, valor soberano apesar de tantas contradições desse chão comum de abstinência e fé. A doce ilusão, que perpassa quase tudo, na imensidão de mundo maltratado pela insânia da riqueza, nas minorias, e calvário de muitos deserdados das doses materiais da fortuna. Conduzir o barco da sobrevivência, no entanto, a mares por vezes de procelas e desencontros, em que corações festejam cada dia que nasce no esplendor dos horizontes quais únicas razões de alimentar a vida. O desejo enorme de sonhar com os momentos de alegria passageira, que perseveram e alimentam o prazer dos amores quantas horas desleixados e pobres, porém o que a todos cabe na esperança do carinho tão necessário a se sentir feliz, amado, aceito.

Pergunta no mínimo instigante, a que final estamos aqui nesta lida. Não diria constantemente, que habitemos a casa dos instantes agradáveis que foge todo tempo, mas a angústia compõe o quadro da existência de ver sumir a idade, a saúde, os entes queridos. É a ânsia da procura, a ânsia da cura definitiva... Há nisso a chave do mistério de existir. 

Ninguém, de sã consciência, vive só por viver. Nas luas sucessivas, o sempre anseio humano de achar a resposta, eis a essência da filosofia existencialista. Trabalhar esse conceito desde cedo, de se encontrar consigo mesmo e com o desconhecido, que pulula nos refolhos da alma. Apenas largar de lado a angústia que significa representaria má-fé, desistência e derrota. Nisso, o ser humano consiste da liberdade o seu significado particular. E continuar vale dizer do drama e da comédia a obter a resposta conclusiva, que vale insistir até o claro da consciência acender as luzes da revelação.

Enquanto isto, o segredo maior dormirá com a gente nas malhas do sentir em que viajamos e que conta as estações e dão sentido ao existir, ação possível à pequena faísca da infinita Perfeição que somos nós.


24 outubro 2020

Julgada a quarta denúncia contra Lula

 É condenação atrás de condenação: Lula, Palocci e Okamotto são réus por lavagem da Odebrecht – por Paulo Roberto Netto

                                  Foto: Reuters

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se tornou réu na Lava Jato Paraná após a 13ª Vara Federal de Curitiba receber a denúncia apresentada pela força-tarefa contra suposta lavagem de R$ 4 milhões da Odebrecht ao Instituto Lula. A peça acusa o petista de receber propinas da empreiteira como se fossem doações oficiais ao instituto. O ex-ministro da Fazenda Antônio Palocci e o presidente do Instituto Lula Paulo Okamotto também foram postos no banco dos réus. 

É a quarta denúncia da Lava Jato Paraná a ser aceita contra Lula e a segunda relacionada ao instituto que leva o nome do ex-presidente. A peça também é a primeira assinada pelo novo coordenador da força-tarefa paranaense, Alessandro José Fernandes de Oliveira, que substituiu Deltan Dallagnol no comando do grupo no início de setembro. A denúncia foi recebida pelo juiz Luiz Antônio Bonat, que disse que a força-tarefa 'não se escora tão-somente no depoimento de colaboradores' ao acusar Lula, mas 'igualmente em provas e indícios obtidos de forma autônoma e independente'. 

"Os próprios recibos das doações feitas pela Construtora Norberto Odebrecht ao Instituto Lula são indícios dos crimes imputados aos acusados", afirmou o magistrado. "Tais evidências bastam, em um juízo de cognição sumária, para o recebimento da denúncia, eis que detém ela lastro probatório mínimo em desfavor dos acusados". 

Em nota, o criminalista Cristiano Zanin Martins, que defende Lula, afirmou que o recebimento da denúncia 'é mais um ato de perseguição' contra o petista. O advogado acusa a força-tarefa de tentar 'transformar doações lícitas e contabilizadas' em 'atos ilícitos, durante o período eleitoral, em evidente prática de lawfare'.


23 outubro 2020

A Estátua do Padre Cícero – José Luís Lira (*)


   Em 1° de novembro de 1969 era entregue ao povo cearense ou, mais amplamente ao povo brasileiro, particularmente o de Juazeiro Norte, no sul do Ceará, a estátua do Padre Cícero Romão Batista, santificado no coração do povo nordestino. A inauguração foi em data muito apropriada. É o dia que a Igreja Católica Apostólica Romana, conforme afirmo em meu livro “A Caminho da Santidade” (Ed. A Partilha, 2012), em sua sabedoria, reservou para a Festum Omnium Sanctorum, festa de Todos os Santos, celebrada anualmente. A Igreja firma na Liturgia, o santo desconhecido, mas, glorificado por Deus. Os santos reconhecidos, foram beatificados ou canonizados e possuem festas próprias. Aqueles que não tiveram esse reconhecimento são celebrados nessa festa. 

    A história do Padre Cícero é uma história complexa, mas, ao adentrarmos nela encontramos um sacerdote fiel à Igreja. Claro que controvérsias há, mas, hoje se tem uma dimensão maior do que ele fora e realmente fez, retiradas as injúrias e lendas que foram se acoplando a ele ao longo dos anos. A Igreja já reconhece a necessidade do reconhecimento de seus méritos. Isto se iniciou no bispado de Dom Fernando Panico e esperamos um dia ver meu “Padim” reconhecido pela Igreja.

    A estátua foi construída na gestão do Dr. Mauro Sampaio, médico. Em vídeo comemorativo dos 50 anos da inauguração da estátua que o amigo historiador Armando Rafael me enviou essa semana, vemos um depoimento do edificador. Diz o Dr. Sampaio que alguns dias após a sua posse na Prefeitura de Juazeiro recebeu um beato de nome Beato da Cruz que lhe pediu para edificar um cruzeiro na colina do Horto e ele disse que faria uma imagem do Pe. Cícero. O Beato ficou feliz, mas, incrédulo. O prefeito diz que “nunca mais o viu”, mas, levou adiante a ideia. Pensava-se em uma estátua de uns 8 metros de altura, mas, o projeto foi alterado para 28 metros de altura. As fundações da estátua são as mesmas fundações da capela que o Padre Cícero pretendia construir naquela Colina. Com a base, a estátua tem 30 metros de altura no total. O escultor foi Armando Lacerda. Rômulo Ayres Montenegro foi o engenheiro responsável. 

    No relato do Dr. Mauro Sampaio ele diz que faltou cimento durante a construção, contudo, o governador Plácido Castelo estava construindo o Castelão e tinha cimento para a obra. Conforme Sampaio, Plácido Castelo havia sido juiz em Juazeiro e estava ao lado do Pe. Cícero quando este faleceu. O Prefeito foi, então, ao Governador que doou o cimento vindo da Rússia e da Hungria.

    Ainda no cinquentenário da estátua que é símbolo do Ceará, na Reunião Ordinária do Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural - COEPA - de quarta-feira, 21/10, iniciamos a discussão sobre os estudos para registro não só da Estátua do Pe. Cícero, mas, de outros bens, no pedido intitulado Juazeiro Lugar Sagrado, feito pelo próprio município de Juazeiro do Norte, em trâmite no Conselho desde 2018. Em julho de 2019 quando estive na região, cheguei até a falar com os amigos Armando Lopes Rafael e Heitor Feitosa para fazermos a solicitação ao COEPA, mas, constatando a existência do pedido, aguardamos. Veio uma lei estadual, mas, agora o órgão certo para defini-la como patrimônio do Estado do Ceará iniciará seus estudos e a Coordenação de Patrimônio Cultural e Memória está nas mãos de quem conhece bem essa história e foi diretora do Memorial Pe. Cícero, Cristina Holanda.

     Viva Meu Padrinho Cícero!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.


21 outubro 2020

A ciência de uma amizade verdadeira - Por: Emerson Monteiro


Dia desses, recebi pelas redes sociais um vídeo onde contavam a história de dois amigos cuja existência os levaria aos campos de batalha e, num mesmo contingente, poderem seguir juntos e enfrentar as intempéries de guerra cruel, qual cruel são todas as guerras.

Nisso, os dias foram passando sempre a defrontar as agruras do conflito, quando numa das piores situações vividas pelo seu exército, se perderam ou do outro. Exausto e só, já no acampamento, enquanto repassavam o efetivo da tropa, um deles notou a ausência do outro, e entrou em aflição. Buscou o comando e solicitou ir ao front, no sítio da encarniçada luta, à busca do inseparável parceiro.
Os oficiais argumentaram, no entanto, que a atitude no mínimo seria temerária e, decerto, o amigo havia de ter sucumbido nas violentas escaramuças do trágico dia. Mesmo assim, por mais argumentos que ouvisse, o soldado insistiu até obter autorização de retornar aonde combateram naquela ocasião.

Transcorridas longas horas, no meio da escuridão da noite, lá que o moço regressa trazendo às costas o corpo sem vida do amigo morto na contenda. Ao encontrar os responsáveis pela tropa, estes foram logo confirmando o que disseram, que de nada adiantaria tanto esforço de voltar ao campo da batalha, conquanto o soldado ali apenas restasse morto.

O amigo, porém, reconhecido pela chance que tivera de cumprir aquela missão, entre lágrimas e com um leve sorriso no rosto, responderia:

- Sim; mas quando cheguei junto dele ainda respirava e, consciente, me olhou agradecido e falou: - Eu sabia que você vinha à minha procura e, por isso, resisti até agora, para, em seguida, fechar os olhos e desfalecer silenciosamente.

19 outubro 2020

O viver não tem rascunho - Por: Emerson Monteiro


De comum, as filosofias ensinam valores a serem exercitados no decorrer da existência. São opções, nunca determinações, e nisso estudam o modo de comportamento dos tempos, examinam os métodos das gerações e concluem pelas doutrinas que levam às religiões e práticas sociais. Espécies de escrituras do que se obteve reação no decorrer das civilizações. Bem, isso, de meros repórteres dos idos e vividos significam os filósofos. 

Com isto, aprendem que procurar nas páginas dos livros guardados quer-se conhecer, e estender a mão ao futuro inédito. Porém de um detalhe sabemos com fartura, todo dia é dia novo, toda época tem seus novos costumes e experiências. Qual dizem os sábios, o passado é rastro de um farol que ilumina para trás. E uma sequência nunca vista nos aguarda lá na frente. Esse tema envolve diretamente a distância entre teoria e prática. 

Assim, viver representa a claridade de todo momento, e pronto. Ninguém, pois, que seja mestre do próprio destino.

O mesmo ocorre no que diz respeito aos credos e religiões; vêm os ensinos e a resposta depende do grau evolutivo de todo crente, porquanto representamos o que o somos de personalidade e caráter. De igual modo, as práticas políticas e sociais, onde todos vivem as experiências que a hora ensina pelas mãos das circunstâncias. O cidadão carrega sua formação e responderá com ela de acordo com a capacidade até então desconhecida. 

Ninguém queira, por isso, dominar a sombra dos seus atos, necessidade mínima de ter humildade, vez ninguém ser dono absoluto da verdade e muito menos detentores de certeza absoluta. 

Os conceitos do conhecimento humano transportam essas notícias através das massas, e pedem coerência no exercício pleno da verdade transmitida. Todo dia traz em si novidades, por meio dos fenômenos. Destarte, qual dissemos, o viver não tem rascunho. Superar desafios e aceitar o inesperado, portanto, só reclama poderes que nem nós imaginávamos antes possuir.

Ilustração: A queda dos anjos rebeldes, de Pieter Brueguel. o Velho.

18 outubro 2020

Notícias do domingo 18 de outubro de 2020 (Compiladas por Armando Lopes Rafael)

Crato pós-pandemia do vírus chinês

    O coronavírus deixou seu rastro de destruição na Cidade de Frei Carlos! Além de ter ceifado a vida, até agora, de 95 cratenses (pelas estatísticas oficiais, e bote "oficial" nisto) o setor de gastronomia foi um dos que mais sofreu dentre as atividades econômicas da Princesa do Cariri. Foram muitos os “self service” que encerraram suas atividades, abrangendo “delivery”/lanchonetes/restaurantes. Muitos empregos formais e informais desapareceram. Lamentadas, pela população, os fechamentos dos Restaurantes Guanabara, Só Baião, Lanchonete Primavera, dentre outras tradicionais em Crato. Amanhã – 19 de outubro – o Supermercado São Luiz encerra sua seção de restaurante que funcionava desde a inauguração daquele centro de compras, localizado no bairro São Miguel.


Igrejas com pouca frequência

    Depois que as autoridades permitiram a retomada das atividades religiosas presenciais em Crato, observa-se pouca frequência dos fiéis nas missas. Para receber o público católico, que desejava participar dos sacramentos, essas ciosas autoridades exigiram que os bancos das igrejas fossem marcados com sinalização “para respeitar o distanciamento social, além da disponibilidade de álcool em gel”. 

     Na verdade, a prioridade de reabertura, por parte das autoridades, sempre foi para o comércio, praias ou para   pequenas reuniões visando as eleições municipais de 2020. Foi preciso que o Arcebispo de Teresina, Dom Jacinto Brito, fizesse enérgico pronunciamento lembrando que, depois de mais de cinco meses fechadas, as igrejas católicas continuavam a sofrer duras restrições para serem reabertas.

Manifestantes protestaram contra indicação do Desembargador Federal Kassio Marques para vaga de ministro do Supremo Tribunal Federal

    A nota foi divulgada pelo Estadão. “Manifestantes realizaram atos em 12 cidades neste domingo, 18, para protestar contra a indicação do desembargador federal Kassio Marques ao Supremo Tribunal Federal (STF) e a possibilidade de reeleição dos presidentes da Câmara e do Senado, Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre.  Organizado pelo Movimento Vem Pra Rua ocorreram carreatas – em São Paulo, Rio, Brasília, Curitiba, Goiânia e Manaus, além de outras seis cidades – denominadas “Manifestação Contra o Acordão pela Impunidade”

 
Foto: Daniel Teixeira / Estadão 

     O formato escolhido – realização de carreatas – segundo o movimento Vem Pra Rua visou a evitar riscos relacionados ao novo coronavírus. Em São Paulo, a maior cidade do país, a carreata chegou a ter cerca de 18 Km de extensão, passando por avenidas importantes da cidade, como Paulista e Vergueiro. Os manifestantes protestaram, também, contra a nomeação do desembargador federal Kassio Marques ao STF. Ele foi indicado por Bolsonaro, mas teve seu nome contestado entre seus apoiadores do atual presidente, que chegou a ser acusado de "traição" aos compromissos assumidos na campanha de 2018. Pois é. O povo brasileiro está mudando. E mudando de forma imprevista!


17 outubro 2020

O tempo – José Luís Lira (*)

   Em tempos de notícias falsas, fica difícil compartilhar notícias que circulam aqui e alhures. Por esses dias uma notícia acerca do grande poeta Mário Quintana, o poetinha. Se por um lado falei em notícia falsa, prefiro o português ao inglês. Todos sabem o inglês aplicado ao termo. Todavia, o autor do texto em questão disse que romanceou a história e vejam o que dá quando o poeta é parte da tão usada licença poética.

    O texto narra um episódio na vida de Quintana quando ela muda do hotel em que morava e foi convidado pelo jogador Falcão (Paulo Roberto Falcão) oferece hospedagem ao grande Poeta, mas, como dissemos, o texto publicado há alguns anos e viralizado nos últimos dias, o autor usou de certo exagero e comoveu leitores com fatos que não se deram. Há, inclusive, erro no nome do hotel que Quintana morava. De logo a Casa de Cultura Mario Quintana (CCMQ), sediada no prédio do Hotel Majestic, em Porto Alegre (RS), onde o Poeta residiu por longos anos esclareceu os fatos e a verdade surgiu, mas, temos que considerar que tais equívocos trouxeram certo vexame aos fãs de Mário Quintana. Não vou alongar o texto porque não cabe. O autor já pediu desculpas. Os parentes do poeta disseram e confirmaram que tal situação não ocorreu e aqui não vou repeti-la. Apenas lembra e vejo a necessidade de termos cautela ao passar adiante essas informações que por aí circulam.

    O título dessa coluna é de um poema de Quintana (não retirei de um livro, embora tenha sua obra completa, ela não se encontra comigo no momento, mas, é dele). E nestes tempos em que a realidade e a ficção andam tão próximos, vale apena refletir as palavras de Quintana.
 

“A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
 Quando se vê, já são seis horas!
 Quando se vê, já é sexta-feira!
 Quando se vê, já é natal...
 Quando se vê, já terminou o ano...
 Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
 Quando se vê passaram 50 anos!
 Agora é tarde demais para ser reprovado...
 Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
 Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...”.

 
    Quintana fala em sua época, mas, o poema pode, perfeitamente, ser lido e observado na atualidade. Já estamos em outubro num ano que parece que nem começou por conta da pandemia, mas, lembrando outro poeta, Cazuza, numa de suas canções, o tempo não para. E nós temos que dar nossa parcela de contribuição para que, mesmo na adversidade, tenha valido a pena viver.

     Aproveito o ensejo para agradecer as inúmeras mensagens que recebi pelo dia do Professor. Ensinar e aprender é uma das mais belas artes e neste ano nós, professores, estamos nos reinventando. Não gosto muito de rótulos, mas, essa é a realidade que vivemos não só não no Brasil, mas, em todo o mundo. E mesmo com perdas, com dificuldades e uma série de outras coisas, ainda podemos sorrir e confiar em tempos melhores, pois, a esperança nos acompanha e Deus não nos desamparará.

    E reiterando, cuidado ao compartilhar algo. Verifique se é verdade, busque fontes e, se houver dúvidas, não passe à frente. Isto é bom para todos e nestes tempos eleitorais, excelente para a democracia.  

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.


15 outubro 2020

Diminuição da população indígena no Brasil: “genocídio” ou miscigenação? – por Armando Lopes Rafael

     Já li alhures que as universidades públicas brasileiras servem para duas coisas: formar mão-de-obra profissional e, ao lado disso, servir de máquinas para produzir e aparelhar soldadinhos para a esquerda troglodita... A bem dizer, a função primordial de uma universidade é produzir novos conhecimentos, acima dos usados pela média da população ativa da sociedade,  e cumprir essa missão na formação e transformação do homem.

     Rotineiramente, nos meios universitários, volta-se a bater no velho chavão: os portugueses foram responsáveis pelo genocídio de todos os nossos índios! Afirmam, alguns mestres, à exaustão, que à época do descobrimento existiam entre 5 a 7 milhões de silvícolas no Brasil. Não há base científica para se avaliar quantos índios habitavam aqui em 1500. Tudo não passa de chutômetro. Mas como hoje só temos cerca de 800 mil índios vivendo em aldeias, professores abusam do argumento de que houve chacinas homéricas contra as populações indígenas. Houve, é verdade, sangrentas batalhas entre europeus e índios. Como também havia cruéis batalhas entre as próprias tribos que se dizimavam constantemente entre si. Mas isso é omitido aos soldadinhos-alunos.

    Ora, ao longo dos séculos, um grande número de indígenas foi se aculturando, ou seja, assimilando o modus vivendi do português. E o que dizer da grande miscigenação ocorrida entre os colonizadores lusos e as raças indígenas que aqui viviam? Dificilmente se encontra hoje um brasileiro com características só europeias. Todos nós carregamos nas veias um percentual de sangue indígena e africano. Muitos portugueses, alguns até fidalgos, se consorciaram com índias de tribos amigas. O casamento, na Igreja Católica, de Diogo Álvares (o "Caramuru") e a índia Paraguassu é o exemplo clássico do português e da índia que deram origem a inúmeras e importantes famílias brasileiras

     Lembram do lendário Jerônimo de Albuquerque, cunhado de Duarte Coelho Pereira, primeiro donatário de Pernambuco? Jerônimo foi casado com uma filha do cacique Uirá-Ubi (arco verde, no idioma nativo) pai de 34 filhos (entre legítimos e ilegítimos). Dele descende em linha direta o primeiro cardeal da América Latina, Dom Joaquim Arcoverde Albuquerque Cavalcanti. E o que dizer das uniões naturais, entre lusos e índias, habitualmente muito fecundas, que deram origem a importantes clãs familiares brasileiros? Ficaria longo e enfadonho falar dessa miscigenação que resultou numa raça mestiça forte, fruto de uma e outra etnias, cujo resultado foi os bandeirantes paulistas, conhecidos como Raça de Gigantes, responsáveis pela conquista do imenso interior brasileiro...

         Mas para os trogloditas das universidades públicas o que ocorreu no Brasil foram só “genocídios” contra nossos ancestrais indígenas...


12 outubro 2020

Há 182 anos um naturalista inglês fazia pesquisas no Cariri – por Armando Lopes Rafael


    Em 1838, há 182 anos, a região do Cariri já era objeto de interesse por parte de cientistas estrangeiros. Padre Cícero ainda nem tinha ainda nascido naquele ano, mas George Gardner (médico naturalista, botânico memorialista, intelectual pesquisador, escritor, ensaísta e cientista inglês) – nascido em Glasgow, Escócia – residiu durante cinco meses) no Cariri. No então Império do Brasil, Gardner realizou estudos sobre a flora, fauna, reservas paleontológicas e aspectos sociológicos do Cariri.

     Após explorar os arredores de Crato (àquela época, no território cratense, já existia uma pequenina aldeia chamada Joaseiro. erguida em torno da capelinha de Nossa Senhora das Dores, está construída pelo Pe. Pedro Ribeiro), Gardner incursionou por outros sítios da Chapada do Araripe. A exemplo da Vila da Barra do Jardim (hoje cidade de Jardim). Esta havia sido emancipada de Crato, em 3 de janeiro de 1816, por um decreto assinado por Dom João, Príncipe-Regente do Reino de Portugal, Brasil e Algarves.

    Interessante ler as primeiras impressões que Gardner escreveu sobre sua chegada a Crato depois de ter viajado – várias semanas – pelo sertão semiárido do interior cearense:

“Impossível descrever o deleite que senti, ao entrar neste distrito, comparativamente rico e risonho, depois de marchar mais de trezentas milhas através de uma região que, naquela estação, era pouco melhor que um deserto. A tarde era das mais belas que me lembra de ter visto, com o sol a sumir-se em grande esplendor por trás da Serra do Araripe, longa cadeia de montanhas, a cerca de uma légua para Oeste da Vila, e o frescor da região parece tirar aos seus raios o ardor que pouco antes do poente é tão opressivo ao viajante, nas terras baixas. 

A beleza da noite, a doçura revigorante da atmosfera, a riqueza da paisagem, tão diferente de quanto, havia pouco, houvera visto, tudo tendia a gerar uma exultação de espírito, que só experimenta o amante da natureza e que, em vão eu desejava fosse duradoura, porque me sentia não só em harmonia comigo mesmo, mas “em paz com tudo em torno”.

    Em 2006, o então reitor da URCA, Dr. André Herzog, adquiriu, por 240 libras, para aquela universidade – num antiquário de Londres–Inglaterra (Antiquarian Bookksellers), a primeira edição inglesa do livro de George Gardner “Viagem ao Interior do Brasil”, publicado em 1849. Naquele livro consta o texto acima. André Herzog pensava incluir esse volume na “Biblioteca Caririana”, um sonho dele para reunir publicações e documentos, nas diversas áreas de conhecimento sobre o Cariri, publicadas ao longo dos últimos dois séculos. Pelo visto tudo ficou mesmo só em sonho....


O sapo e o vagalume - Por: Emerson Monteiro


Para o sapo o ideal de beleza é a sapa. 
 Voltaire

Outro dia, em nossas comunicações, a minha amiga Geracina Aguiar me lembrou de uma das fábulas brasileiras bem aos moldes desta humanidade, que conta a história de vagalume que vivia nos lodos fétidos do pântano e notava, constantemente, o assedio de um sapo vadio a lhe buscar de alimento. Escreveu não leu e ali surgia o horroroso batráquio munido da língua pegajosa à cata do pequenino inseto, que sempre galgava fugir. E a peleja já até constava das rotinas daquela natureza primitiva, sob a observação dos outros viventes do lugar. 

Lá pelas tantas, num noite mais escura, o sapo realizaria seu intento e vê-se com o vagalume preso às mandíbulas famintas, disposto que estava de nutrir o velho sonho de devorar ao besouro luminoso. Porém, nas últimas providências que lhe restavam, o vagalume ainda consegue estabelecer rápido diálogo com o feio animal que o devoraria logo em seguida.

- Seu sapo, queira dizer, por que tudo isso, essa insistente vontade de me engolir há tanto tempo? – pergunta agoniado.

Arrogante, meio sem jeito, no entanto cheio do voraz apetite, o sapo, de chofre, respondeu:

- Ah, não, além de tudo, jamais me conformaria com sua audácia, pirilampo, de buscar iluminar as trevas do brejo e, quem sabe?, despertar a noite da escuridão impenetrável. Bem que podia ficar quieto no seu canto e esperar a hora do nascer o Sol. 

...

Entre o gramado do campo
Modesto em paz se escondia
Pequeno pirilampo
que, sem o saber, luzia

Feio sapo repelente
Sai do córrego lodoso
Cospe a baba de repente
Sobre o inseto luminoso

Pergunta-lhe o vaga-lume
- Porque me vens maltratar?
E o sapo com azedume:
- Porque estás sempre a brilhar!

                     (João Ribeiro - 1860-1934)

Responda se souber: quem é o Padroeiro Principal do Brasil? – por Armando Lopes Rafael

Algumas curiosidades sobre a maior devoção do povo brasileiro

1ª curiosidade – Pouca gente sabe, mas o Padroeiro Principal do Brasil é São Pedro de Alcântara.
                            Logo após a Independência do Brasil, o Imperador Dom Pedro I compreendeu que o Brasil precisava ter um santo padroeiro oficialmente autorizado pelo Vaticano. Mas, ao lado dessa decisão, no retorno do Imperador de São Paulo para o Rio de Janeiro (após declarar a independência do Brasil, em 7 de setembro de 1822) , Dom Pedro I parou na humilde capelinha de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, localizada no município de Guaratinguetá, no território paulista. Lá, Dom Pedro consagrou, de modo pessoal (e não oficial) nossa pátria à proteção da Senhora Aparecida. Isso aconteceu na capelinha que abrigava essa imagem. 

    Logo após chegar ao Rio de Janeiro, Dom Pedro I formalizou a solicitação – ao Papa – para proclamar São Pedro de Alcântara Padroeiro do Brasil. O Papa Leão XII atendeu ao pedido através da Bula de 31 de maio de 1826. Entretanto a Família Imperial Brasileira continuou mantendo forte devoção à pequena imagenzinha de Nossa Senhora Aparecida, que se venerava no interior de São Paulo. Agora vem o desfecho. Com o golpe militar de 15 de novembro de 1889, que instaurou – sem consulta popular – a forma de governo republicana no Brasil, São Pedro de Alcântara foi sendo discretamente e programaticamente esquecido, provavelmente porque seu nome lembrava o dos dois imperadores da nossa pátria (Dom Pedro I e Dom Pedro II, ambos registrados como “Pedro de Alcântara”). Todos sabem que a República foi implantada no Brasil através da mentira. E da mentira ela vem se sustentando durante esses 131 anos, até chegar aos caos político, econômico e social dos presentes dias...

     2ª curiosidade – Dom Pedro I e sua neta, a Princesa Isabel, estão entre os devotos ilustres de Nossa Senhora Aparecida

               Cartão fúnebre da Princesa Isabel, a Condessa D’Eu, distribuído em Paris em 1921

   Além da consagração pessoal e extraoficial que Dom Pedro I fez do Brasil a Nossa Senhora da Conceição Aparecida, vinte anos antes de assinar a Lei Áurea (que libertou a raça negra da escravidão no Brasil), a Princesa Isabel e o esposo desta, o Conde D’Eu, visitaram a capela de Nossa Senhora Aparecida pedindo a graça de filhos para o casal. Eles estavam casados há quatros anos, mas a Princesa não conseguia engravidar. Depois dessa visita a Princesa Isabel teve três filhos.

     Por conta disso, o primeiro manto de veludo azul, ricamente adornado, doado a Nossa Senhora da Conceição Aparecida, bem como a coroa de ouro de 24 quilates, cravejada de brilhantes, foi um presente da Princesa Isabel. Bom lembrar que o manto, entregue em 6 de novembro de 1888, tinha a verdadeira bandeira do Brasil: verde (cor da Casa dos Bragança de Dom Pedro I) e amarelo (cor da Casa dos Habsburgo, da Imperatriz Leopoldina) com o escudo imperial ao centro.

Bandeira imperial que constava no primeiro manto azul usado na imagem de Nossa Senhora Aparecida

  Só em 1904, quando a imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida foi solenemente coroada, em 08 de setembro daquele ano, no Rio de Janeiro, é que fizeram um novo manto, desta feita fazendo constar nele o desenho da atual bandeira republicana. E somente 16 de julho de 1930, foi que Nossa Senhora da Conceição Aparecida foi proclamada Rainha do Brasil e sua Padroeira, por decreto do papa Pio XI. 

     Esta a verdade dos fatos, sonegada à atual geração de brasileiros...

09 outubro 2020

Celebrar sempre – por José Luís Lira (*)

  Os três pescadores encontram a imagem de Nossa Senhora da Conceição, 
chamada "Aparecida"

   Segunda-feira próxima é a festa de Nossa Senhora Aparecida. No calendário litúrgico católico é Solenidade. Feriado nacional, dado o significado da Padroeira para a Nação. A imagem de Nossa Senhora Aparecida foi encontrada nas águas do rio Paraíba do Sul (SP), em 1717. De lá para cá a devoção a Nossa Senhora representada naquela imagem se fortaleceu ao ponto d’Ela ser aclamada Rainha e Padroeira do Brasil. E eu lembro de uma canção do Pe. Zezinho: “Vim ver a imagem que no rio foi achada/ e sei também sei muito bem que ela não é Nossa Senhora./ Não vim falar com a imagem não senhor,/ eu vim falar é com Maria, que é a Mãe do Salvador!”. E nós católicos prestamos homenagens a quem na imagem é representada, aquela que foi sacrário de Nosso Senhor Jesus Cristo, Sua Mãe Santíssima: Maria de Nazaré, a Imaculada Conceição cuja imagem foi encontrada naquelas águas e abençoa a todos nós!

    Na quinta-feira, dia 15, liturgicamente temos a celebração de Santa Teresa de Jesus, Teresa d’Ávila, definida no Martirológio romano santa e “doutora da Igreja, que, agregada à Ordem das Carmelitas em Ávila, na Espanha, foi mãe e mestra de uma observância mais estrita e concebeu em seu coração um caminho de perfeição espiritual sob a forma de ascensão por degraus da alma até Deus; ao empreender a reforma da sua Ordem, teve de sofrer muitas tribulações, mas tudo suportou com fortaleza invencível; também escreveu livros, em que expõe uma doutrina profunda e o fruto das suas experiências”. Salve à Santa Mestra!

                                                          Santa Teresa d'Ávila

    Neste mesmo dia, no Brasil, celebramos o dia do Professor. Digo sem titubear que é esta uma das mais nobres missões. Ensinar. Às vezes aprender para ensinar e aprender ensinando. E recordo poema que está no meu livro “Algum Poema?”: O Filho de Deus foi chamado: Mestre!/ E muitas vezes fora convidado a ensinar. /Conduzir pessoas. É a missão do Professor. // O magistério é antes de tudo: Partilha!/ Partilha do conhecimento adquirido./ História. Literatura. Direito. ...

    Nosso aplauso aos que abraçaram o magistério e foram nossos professores que ficaram gravados em nossas memórias e, ainda, a todos os colegas que abraçam o magistério na atualidade. Que Deus nos dê forças para as inovações que estes tempos nos apontam e tenhamos sempre a alegria de ensinar e aprender!

    Por fim, no último dia 7, festa de Nossa Senhora do Rosário, foi eleito presidente da Academia Fortalezense de Letras o Prof. Dr. Antonio Colaço Martins. Professor Colaço Martins foi reitor da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA). É um dos grandes intelectuais cearenses e destacamos sua contribuição no campo da Filosofia, da Teologia e da Administração Universitária. Além de reitor da UVA o foi da Universidade de Fortaleza (UNIFOR). Não tive a honra de ser seu aluno, mas, o tive por reitor duas vezes: na UNIFOR e na UVA, quando chefiei seu gabinete na reitoria. Fundadores que fomos da Academia Fortalezense de Letras, Matusahila Santiago (in memoriam) e eu, José Luís Lira, sempre admiramos e estimamos ao presidente eleito e em nome dela (sei que ela aprovou e aplaudiu sua escolha) e meu, apresento ao Prof. Colaço Martins, os melhores votos para sua gestão à frente dessa Academia que neste ano atípico completou 18 anos de fundação, sendo ele o sétimo presidente. Parabéns, Professor!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.




08 outubro 2020

Esses pobres amantes - Por: Emerson Monteiro

 


Desde as pompas preparatórias, danças lotavam de nobres os salões iluminados e deslizantes casais. Os dois, a lady e o príncipe, semelhavam pássaros alegres, reflexos dos olhares longos de damas e cavalheiros, imagem milenar das monarquias, saracoteando sedas no efusivo ambiente. 

Puro sonho, festa de casamento que durou três dias. Ela chegara à real família pelo amor romântico tecido nas teias da candura. Nobre, linda, porém fruto de linhagem paralela onde a fidalguia concedera-lhe o sétimo céu de ser princesa no reino da Inglaterra.

Essas emocionadas fases, conquanto depois contraditórias, cobravam da família detalhes essenciais à preservação das condições iniciais. Diana Spencer existiu para o marido, seus dotes e filhos herdeiros. Repetidas vezes, quis se arremeter de encontro ao destino que lhe tirara da história plebeia, largado-a no paço. Entretanto reservara-se discreta no silêncio das alamedas, submissa ao cerimonial, das viagens de ofício e compromissos outros.

Fluíram longos dez, doze, quinze anos de regularidade protocolar.

Numa bela manhã de primavera, na discreta cavalariça, próxima de James Hewitt, oficial instrutor dos príncipes, viu o que lhe fez recordar os livros infantis, as histórias de encanto, no reservado coração adormecido.

Dispararam em si tontas emoções retidas pelo contrato nupcial das máscaras oficiais. O castelo hostil veio no seu encalço. Saber disso jamais poderia, visto fugir da lei e, estoica, abandonar as calandras escuras do preço que pactuara. 

Nalgum impulso, as carnes rasgaram a tradição do sossego. Apaixonada, a princesa amou quanto necessário, quiçá pela primeira vez. Sentimentos ganharam corpos. Dois amantes pecaram no palácio imperial. Ela jogou ao solo muralhas carcomidas de todas as convenções. Charles também derivou noutras aventuras e o conto de fadas virou crônica galante. Os filhos, sempre eles, pagam o desamor dos pais. 

Separada a união do século XX, feridas abertas aos tabloides sensacionalistas, repercutiram escândalo e dramas particulares, na roupa suja lavada nas praças. Viajou pelos países, a servir de emissária que tutela os exilados desse mundo torto. África. Ásia. América.  

Uma noite a todos de novo surpreende. Em 31 de agosto de 1997, em Paris, morre Diana junto de outro namorado, após baterem com o carro nas estruturas urbanas da capital francesa. 

Cinco anos do desaparecimento, jornal inglês traz a notícia de que o ex-amante da princesa fixou preço para suas cartas de amor. O diário londrino News of the World, na edição de 15 de dezembro de 2002, disse que o oficial James Hewitt buscou vender pelo valor de 10 milhões de libras (US$ 15,6 milhões) a correspondência amorosa. Esta é a primeira vez que um membro da família real escreve a um soldado que está no front, disse Hewitt, que recebeu as cartas de Diana durante a Guerra do Golfo, ao servir no Kuwait. Isso num besto desvairado de quem acolheu o amor imperial e perdeu a licença possível que houvesse para os amantes verdadeiros nos tribunais da Eternidade.


As chances dos turnos eleitorais - Por: Emerson Monteiro


No aspecto clássico, a palavra política fica vinculada ao Estado e sua administração, isto, porém, numa tendência prática de ver política apenas como o exercício frio do poder. Qual disse Platão que a perfeição só existe no mundo das ideias, mesmo assim há que imaginar uma atitude humana mais inteligente diante dos problemas que afligem o mundo e as sociedades, daí a intenção de encontrar soluções justas dos problemas e definir padrões comuns de responder aos desafios.

Nisso, o que resta às populações, no sentido de rever o encaminhamento do sistema social, diz que a política deve ser um instrumento de considerar as dificuldades coletivas e descobrir métodos de funcionamento adequados à harmoniosa existência das pessoas.

Tal esforço demanda praticamente toda a história conhecida. Demasiadas oportunidades vêm tendo a raça no sentido de responder aos impasses dos tempos, contudo sempre a braços com limitações do imediatismo, em face do nível moral em que ainda nos achamos, quando o egoísmo domina pela força bruta e insiste continuar no poder mesmo a troco dos sonhos de paz e progresso, o que bem caracterizaria o ideal da perfeição.

Existem personalidades marcantes na História que lideraram profundas mudanças no comportamento das coletividades e ocasionaram o grau evolutivo em que ora nos achamos, no entanto tais exemplos só de longe são seguidos pela massa, a ponto de só verem a política qual trampolim de dominação, independente que quaisquer virtudes e nobrezas. O sonho clássico da política, hoje, no mundo inteiro, com raríssimas exceções, representa o instinto do domínio escravocrata de constranger os demais a pretexto de angariar recursos e marcar a divisão das classes sociais, em que o forte domina e impõe seus costumes perversos.

Eis o quadro real dos dias, onde a lei da selva como que ganhou conceito de inevitável, feras na luta de sobreviver a todo custo, não importa o idealismo e a Verdade. Na faixa estreita da liberdade que herdamos de enfrentar a ganância dos profissionais da política cabe a todos acreditar nos valores nobres e prosseguir fieis às lições da Ética durante todo tempo.

Ilustração: Detalhe de Jardim das delícias terrenas, de Hieronymus Bosch.

07 outubro 2020

As naus do Infinito - Por: Emerson Monteiro


Desde quando os primeiros foguetes rumaram a Marte que vazio profundo permaneceria no peito dos que aqui ficaram; de olhos fitos nos céus de depois daquele dia, névoa cinza cobriria as cabeça. Os pioneiros deixariam de lado a suposição de que estávamos sós no Universo; haveria possibilidades de encontrar outras humanidades noutros planetas distantes; e seguiram o sonho. Que direito houvesse na imaginação do povo, reveria as atitudes dos quantos que consumiam as riquezas deste mundo; persistiria, sobremodo entre os jovens, um gosto fantástico de que outros e mais outros foguetes também subissem, e nisso trabalhavam muito, no intenso calor do Sol, e à noite permaneciam até as altas horas de pensamento fixo nas luzes que riscavam o espaço a meio das raras nuvens, pois bem dali que eles voltariam numa doce madrugada, argonautas, desbravadores que partiram cheios da certeza de trazer notícias boas de haver, nalgum lugar, mundos de mil e uma noites em que coubesse de todos continuarem a rica aventura dos humanos. 

Horas, luas, meses, longos e frios temporais de novos invernos, sempre de almas levadas nas marcas deixadas naquela partida luminosa, de quando eles sumiram; vidas voltadas a retornar e oferecer saídas, de mãos beijadas e sabor aos corações da Humanidade.

E seguiram inúmeras as novas gerações; passadas se foram as originais, que guardaram a tradição dos homens errantes mandados ao firmamento, a salvação que nutriam os próximos passos da história. Voltados, no entanto, aos afazeres mundanos, muitos esqueceriam os astros lá nos céus, desistiriam do ânimo de que, num fria madrugada, desceriam de olhos vivos e alegres naquela primeira leva a distribuir nacos de esperança e festa; eles, os viajantes que avançaram na intenção de revelar aos que ficassem o mistério das alturas. 

...

Qual dizíamos há pouco, séculos, milênios se desfizeram no furor do tempo, e apenas raras lembranças restaram, nalgumas comunidades afastadas, de que, a certo momento, alguns deles mergulharam no desconhecido à busca da sorte. Assim, dos poucos resquícios, surgiria uma religião que denominaram As Naus do Infinito, e que reza de olhos focados nas luzes que brilham nas noites, enquanto aguardam, silenciosos, as notícias que venham deles, nascidas na imensidão longínqua. 


04 outubro 2020

Sementes do desconhecido - Por: Emerson Monteiro

 


Escravizado às camadas inferiores da varada, algum animal escondido ali buscava acordar dos entulhos, dos galhos e folhas secas, até obter êxito nos esforços e surgir à vista de quem olhava interessado em descobrir o que adviria daquele movimento estranho de debaixo das entranhas do chão. Espécie alimária entre ressequida e semelhante quase à textura dos galhos e das folhas secas da entrecasca do solo, dali surge médio corpo de um jacaré filhote de boca grande e dentes afiados. Assim inesperado, preenche o espaço das apreensões de quem assistia. Algo de se recolher com cuidado ao espaço que lhe restava, em defesa dos botes do estranho visitante vindo das entranhas da terra. 

Mas achou por bem de suportar na casa a presença do inesperado ser. Haveria de superar a visita e seus modos, sempre em favor da instituição doméstica. E o tempo foi deslizando no correr dos dias, nas linhas das horas intermitentes, meses, levando a novo acontecido. 

O bicho ainda pequeno lá numa incerta ocasião acharia de se meter em um buraco de outros insetos no encontro de uma parede do lado sul da casa e nele permanecer algum tempo, sem mais, nem menos. Sumiu desaparecido dentro do furo qual houvesse terminado de tudo o drama. Que durou outro tempo, talvez longo, talvez breve, no juízo de velocidade da testemunha que acomodava os sucessivos inesperados. 

Ora só o que viria ocorrer. Daquele buraco, aonde penetrara o filhote de jacaré aparentemente inofensivo pela idade, sairia já no formato de espécie maior da mesma família dos dinossauros, mas noutras e maiores proporções, esse de pele enegrecida, consistente qual o casco dos bichos do passado geológico dos antigos predadores, e com aparência agressiva de apreciador de carne sangrada, de gente que fosse e achasse pela frente. 

Ele, que acompanhara tudo a partir do nascedouro da primeira visão, notou a gravidade dos sucedidos, presenciou em si o risco da sobrevivência em xeque, e somou as peças do enigma. Deveria sobreviver, sim, no intuito primeiro maior de cumprir a missão lhe destinada. Fugiria na primeira nave que lhe viesse recolher face ao desencanto das populações em volta de fogueiras acesas nas noites frias do estio da Terra. 


02 outubro 2020

Um mundo se refaz a todo momento - Por: Emerson Monteiro


A cena final do filme Ran, de Akira Kurosawa, genial diretor do cinema japonês, mostra dois exércitos feudais em confronto numa planície linda, de verde intenso e luzes fulgurantes. Nisso, o plano de próximo vai distanciando para o alto afastando daquela batalha derradeira dos dois clãs em luta, ficando cada vez maior o plano e menores as imagens... até desaparecer numa única visão planetária, minúscula, e sumir de tudo. Quando, certa vez, perguntado o que representaria essa conclusão do filme, Kurosawa considerou ser o que imaginava a visão de Deus quanto aos acontecimentos daqui do chão, dos movimentos de causas e condições, fluir universal das consequências que somem no vazio cósmico.

Esta diluição dos instantes se sobrepondo a novos instantes que vêm e vão, céleres quais vieram, bem significa o que denominamos realidade, sem sustentação definitiva, sem praias de respiração. Apenas um escorrer de tintas nas telas do Infinito, ensaios de um artista magistral, incansavelmente, repetitivamente. Espécie de rascunhos de sonhos que desfazem ao vento das horas mortas, as ânsias humanas gestam o firmamento e somem de junto, autores da própria função, no entanto ausências de resultados, desparecimentos, desejos e velas acesas apenas repastos feitos ao nada inevitável dos dramas.

Nesse intervalo entre dois fragmentos de tempo ali moramos todos, nutrição de eternidade que nunca ultrapassa a visão imediata, eixo central das horas em movimento no carrossel bravio das circunstâncias. Assim contemplamos o definitivo, porém almas largadas aos caprichos da mutação permanente de coisas e seres entre partos e sepulcros, fantasmas nas madrugadas anônimas dos séculos em decomposição.

Há, outrossim, lógica em tudo. Esse roteiro das descobertas face ao mistério das existências, lesmas de rochedos monumentais e oceanos indóceis, o segredo de todos os códigos representa a razão essencial de andar pela História feitos animais esquecidos de contos maravilhosos. Neste trotar de pernas no deserto da solidão, somos heróis das lendas que viveremos lá um dia nos trilhos da Esperança e da Paz. 


Os santos em nossos dias – por José Luís Lira (*)

 

São Francisco

      Em 3 de outubro, no longínquo ano de 1226, acontecia o trânsito da terra para o céu, a morte, de São Francisco de Assis, Giovanni di Pietro di Bernardone, simplesmente Francesco. Ele foi uma dessas figuras que se fazem únicas. De jovem rico e aventureiro como qualquer um outro, cavaleiro, Francisco abandona tudo e opta por uma pobreza completa, após ouvir o chamado do Senhor: “Francisco, reconstrói a minha Igreja”. E o santo mudou a Igreja. Seus irmãos ainda hoje são presença na Santa Madre Igreja Católica e os franciscanos são campeões em número de Santos. A ele, símbolo de perfeição, neste dia 4 é dia celebração, dia que, em tempos normais, estaríamos em Canindé, a mais franciscana das cidades do Brasil, ou no Santuário de São Francisco aqui em Sobral ou paróquias em toda a parte, mas, sem a preocupação que temos hoje. Mas, isso passará, e pedimos a São Francisco rogar a Deus pelo fim da pandemia.

    Carlo Acutis, que será beatificado no próximo dia 10

    E foi de Assis, de Francisco e Clara, que na data da celebração de Santa Teresinha, a flor mais bela do Carmelo, que veio a imagem bela da santidade em nossos dias. O corpo do jovem Carlo Acutis, italiano, falecido aos 15 anos, em 12 de outubro de 2006, jovem como tantos jovens de sua idade que presenciou as tecnologias, conhecia muito bem a Internet e gostava de desenvolver programas educativos em computadores, brincou, foi feliz e em suas próprias palavras, fez da Eucaristia sua autoestrada para o céu. Acometido de leucemia, ao ser internado em hospital, disse aos pais: “Ofereço os sofrimentos que deverei sofrer ao Senhor, pelo Papa e pela Igreja, para não ir ao Purgatório e ir direto ao céu”. E nos sofrimentos, procurava minimizar. “Há pessoas que sofrem muito mais do que eu", respondia às enfermeiras e recomendava: "não acorde a mãe que está cansada e se preocuparia mais”.


    Na doença, lembra o brasileiro Marcelo Câmara, Marcelinho, que viveu mais que Carlo, mas, que tinha valores e sofrimentos tão parecidos. O milagre aprovado para sua beatificação, ocorrido no Brasil, é o reconhecimento dos céus à sua santidade e o corpo preservado é testemunho belo. É a primeira vez na história da Igreja que vemos um santo vestido de calça jeans, tênis e moletom. O rosto sereno. Os cabelos. De certo usaram alguma técnica de preservação para a exposição, mas, está uma perfeição. Ele foi sepultado no Cemitério de Assis há 14 anos. Tecnicamente nada teria além de ossos, mas, ele foi preservado. Seu corpo está exposto no Santuário do Despojamento, em Assis, Itália, onde, próximo dia 10 acontecerá a cerimônia de beatificação, na Basílica superior de São Francisco. Grande emoção e alegria! Deus continua a abençoar-nos com pessoas santas!


     Nestes dias, celebramos Santa Teresinha, dia 1º, embora a santa-doutora que teceu um caminho da infância espiritual, em seu belo “História de uma Alma”, tenha falecido em 30 de setembro, celebração de São Jerônimo, santo e doutor da Igreja, tradutor da Bíblia. 29 de setembro, foi a festa dos Arcanjos, bem como ontem, 02, foi dia do Anjo da Guarda, nosso protetor. E você ainda lembra daquela oraçãozinha que nossas mães nos ensinaram na infância?. Vamos rezá-la: “Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, se a ti me confiou a Piedade Divina, sempre me rege, guarda, governa e ilumina. Amém.”  
Deo Gratias!

 (*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.



29 setembro 2020

Deuses dos pés de barro - Por: Emerson Monteiro


 É que a sustentação de tudo quanto existe neste Chão bem que representa só isto, de grandes monumentos postos sobre estruturas frágeis, incompletas, conquanto há uma destinação que diluirá aquilo que implica nas criações parciais do universo estreito que ainda somos no mundo da matéria. Claro que se quer que assim não seja, no entanto nenhuma alternativa de provar o contrário persiste diante do medo constante da inexistência. Argumentos não subsistem perante a queda livre inevitável das coisas e dos dias desse plano escorregadio que redunda em nada.

Face esses no entanto, aonde, pois, segurar o aparentemente seguro? Acreditar seria insuficiente Daí a larga interrogação dos argumentos de tantos que apostam nas casas da destruição e jogam fora a vida, a alma, o futuro, a história, os sonhos, nas empresas destinadas ao definitivo nas esquinas logo ali em frente. O que faz com que seja deste modo, de apostar nas casas da perdição quais dementes, quase sempre a roer os ossos da existência precária dos homens.

O cidadão imprime todo esforço em querer ser grande perante a sobrevivência, mesmo sabendo que nada persistirá. Todavia acredita no impossível e deixa a ilusão morar lá onde devesse alimentar outros motivos. Jogam a paz, o senso e a felicidade num lance de dados, largando o patrimônio da vida no escuro dos desenganos, levando consigo o desgosto e a inutilidade. Raros, raros, agem doutra maneira.

Estes querem acertar e renunciam ao descaso com que os inúmeros trabalham no acúmulo de riquezas, prazeres celerados, dramas e angústias, apenas a título de realizar a leviandade dos instintos. Tais vidas, tais mortes... Porquanto desacreditam, sem convicção, na continuidade dos seres que ora somos. Escolhem a letra que mata e desprezam o espírito que vivifica. Firmam os pés no lodaçal da fragilidade e desprezam o êxito de uma verdade maior. Escolhas versus escolhas...


28 setembro 2020

Os versos - Por: Emerson Monteiro


Minha infância depois dos cinco anos vivia em casa ampla onde morávamos, na Rua Padre Ibiapina, bairro Pinto Madeira, em Crato, vizinha a serraria de meu pai e de um tio, irmão de minha mãe, Quinco Monteiro. Na área em frente daquele sobrado de dois pavimentos construído pelo dentista Pergentino Silva na década de 40, empilhavam carradas de toros de cedro acinzentados do barro das margens do rio São Francisco, de onde procediam. Daí, demoravam utilizar em portas, janelas e móveis, confeccionadas por exímios marceneiros e carpinteiros.

Meus dois irmãos mais velhos, Everardo e Lydia, frequentavam o grupo escolar no turno da manhã, enquanto eu ficava no período a brincar no terreiro com os meninos da rua, ou vendendo a lenha, que sobrava do sarrafo das madeiras, utilizada em fogões domésticos anteriores aos de gás butano de hoje.

À tarde, seria minha vez de ir à escola, o Grupo Dom Quintino, no mesmo quarteirão, esquina da Rua São Francisco com a Monsenhor Esmeraldo.

No intervalo do trabalho, entre onze e uma hora da tarde, alguns dos operários, que procediam, na maioria, de Juazeiro do Norte, preparavam a refeição em cozinha improvisada num dos cantos da serraria. Alimentados, buscavam lugares mais amenos debaixo dos galpões para ouvir a leitura de folhetos de literatura de cordel que compravam na feira semanal.

Reservavam emoções especiais a esses momentos, mistura de mágica com recantos agradáveis de países distantes, aventuras em viagens fantásticas, batalhas de mouros e cristãos, príncipes, princesas, reinados esplendorosos, animais diferentes, bravatas, desafios, sonhos. Eu, ao meu turno, terminava rápido minha refeição já com endereço certo de ficar junto daquela confraria dos apreciadores atenciosos dos trechos lidos pelos operários. Acabou sendo esse o meu primeiro contato com a literatura. Eles denominavam versos aqueles livretos populares, nome genérico destinado a cada um, sem exceção.

O interesse de menino que demonstrava pelos cordéis me habilitava recolhê-los ao final quando se completava a leitura e reiniciavam a faina do trabalho. Com esses versos formaria bela coleção que guardava na gaveta da mesa principal da nossa casa, lugar mais seguro que encontrara, apenas por mim utilizada e fora da atenção das outras pessoas. Ocorria, raras vezes, no entanto, dos operários pedirem que trouxesse de volta para releitura algum dos volumes.

Passadas décadas, ainda me recordo o título de vários daqueles livretos que conheci na infância: Romance do pavão misterioso, Juvenal e o dragão, A triste partida (que chamavam de O verso da seca, da autoria de Patativa do Assaré), A chegada de Lampião no Inferno, A peleja de Zé Pretinho com o Cego Aderaldo, Aladim e a lâmpada misteriosa, Proezas de João Grilo, História de Roberto do Diabo, História do valente sertanejo Zé Garcia, O prêmio da inocência, A bela adormecida no bosque, A batalha de Oliveiros e Ferrabrás, A força do amor – Alonso e Marina, O soldado jogador, A vida de Cancão de Fogo e seu testamento, A prisão de Oliveiros, A filha do pescador, Os doze pares de França, dentre outros.

O mistério que existe nos livros eu descobri, pois, sua existência nesse tempo, através da literatura de cordel, este mundo encantado da tradição popular.

Curas musicais - Por: Emerson Monteiro

 


Certa vez, na década de 80, encontrei Luiz Gonzaga numa loja de móveis, em Crato, quando pude escutá-lo a falar algumas coisas sobre o poder de curar que tem a música, guardando, dessa ocasião, as duas histórias que agora escrevo.

Transcorriam os anos de ouro da Rádio Nacional do Rio, a cujo cast pertenceram os maiores talentos da música brasileira daquela época, dentre eles se inseria Gonzaga. Aos domingos, havia programa noturno da mais ampla audiência. Numa dessas ocasiões, o nordestino foi procurado por Netinho, trompetista que fazia parte da orquestra da emissora, a lhe dizer que estava com um filho enfermo, vítima de problema grave, o qual a medicina não conseguira diagnosticar. Por ser o garoto fã incondicional do Rei do Baião, queria o pai fazer-lhe uma surpresa e convidava o músico a visitar sua residência. 

De pronto, Luiz aceitou o convite, oferecendo, inclusive, seu automóvel como transporte para, tão logo concluíssem o trabalho noturno, seguirem até o bairro afastado onde residia a família do colega, assim, ocorrendo. 

Chegados à casa, o cantor, munido da famosa sanfona, se dirigiu aos aposentos da criança, que feliz pode ouvir as  músicas de sua preferência interpretadas pelo próprio ídolo.

Quase em seguida, para espanto de quem presenciava a cena, o menino, antes tomado por intensa febre que lhe prendia ao leito, esboçou imediata recuperação e, já na despedida, levantou-se, indo à porta, de todo refeito do mal que se vira acometido.

Ocorrência semelhante também se dera, de acordo com as palavras de Luiz Gonzaga, numa visita que ele e dona Helena fizeram a amigos, na cidade fluminense de Macaé. 

Tratava-se de casal de origem sírio-libanesa, estando o esposo a passar momentos difíceis por causa de doença incurável que lhe roubara o entusiasmo de viver. Informado da ocorrência, pouco antes do show que faria na cidade, Lua decidiu ver o amigo, indo a sua procura, mesmo sabendo que seria mínima a demora, dada a programação prevista. 

Depois de efetivada a deferência, seguiu em busca do compromisso, onde um grande público lotava a praça principal, esperando os acordes inesquecíveis do menestrel.          

Da hora em que saíra da casa do amigo até aquele instante não se passara muito tempo. Achava-se nas primeiras músicas da apresentação, entoava o Baião da Penha, quando percebeu algumas pessoas abrirem caminho no meio da multidão, oferecendo espaço a um automóvel que rumava na direção do palco. Nele vinha, junto da esposa, o dito senhor que Luiz Gonzaga há pouco visitara; aproximando-se, foram alçados ao palanque, onde permaneceram no decorrer da grande festa. Depois disso, conforme o relato daquele que protagonizou o ocorrido, desapareceram de todo e para sempre os sintomas da enfermidade e o amigo pode, sadio, viver ainda muitos anos.


26 setembro 2020

O Santo Vicente – por José Luís Lira (*)

   Na prestigiada revista “O Cruzeiro” que circulava em 24/09/1960, há 60 anos, a escritora Rachel de Queiroz escrevia sobre os trezentos anos do falecimento de São Vicente de Paulo, o santo da caridade, celebrado domingo, dia 27. Depois de tantos anos, a palavra de Rachel de Queiroz que se declarava agnóstica (impossibilidade de dizer com certeza se Deus existe ou não), escreveu uma das mais belas páginas sobre o extraordinário São Vicente de Paulo. A crônica de minha amada madrinha Rachel merecia ser transcrita na íntegra, mas, o espaço aqui não é suficiente então, transcrevo trechos. Com a palavra, a imortal Rachel de Queiroz:

 “...em 27 de setembro de 1660, morria em Paris um ancião. Camponês de nascimento, pastor na sua infância, prisioneiro de piratas e cativo de um alquimista árabe nos seus vinte anos, padre, postulante em Roma, confidente de S. Francisco de Sales e Santa Joana de Chantal, discípulo do Cardeal de Bérulle, preceptor daquele que foi depois o demoníaco e aventureiro Cardeal de Retz, esmoler da Rainha Margot, confessor “in extremis” de Luiz XIII, diretor espiritual de Ana d’Áustria (...), esmoler-geral das galeras do Rei, intermediário de paz nas lutas da Fronda, fundador das congregações dos Lazaristas e das Irmãs de Caridade - chamou-se em vida Vincent-de-Paul. É o nosso São Vicente de Paulo. Mas, nos altares onde subiu, não é representado junto a reis nem rainhas - mas como um padre velho que abriga sob a capa duas crianças desvalidas. Pois o que fez um santo do camponês de-Paul, não foi a convivência dos grandes - foi a sua heroica virtude da caridade...

    Há, na santidade de Vicente de Paulo um elemento que o aproxima especialmente de nós, no nosso século tumultuoso. É a sua condição de ativista, de homem atuante, de operário de Deus, que enfrenta o mal pegando-o pelos chifres, em vez de apenas o exorcizar. Com a sua energia de camponês, o seu bom senso popular, fez da caridade uma tarefa do corpo, além de uma exaltação da alma. S. Vicente é um santo que a gente entende, e, como o entende, ama-o melhor que aos outros, os que sobem às altas esferas da doutrina e do misticismo. S. Vicente, contemporâneo de Richelieu e de Luiz XIV, soube ensinar a um mundo ofuscado por esses dois que foram o alfa e o ômega do Grande Século, que além da grandeza política, além do orgulho nacional, além do poder e da pompa de Rei, existe uma glória maior, mais duradoura: a glória humilde de servir, de enxugar lágrimas e sarar dores.

   Trezentos anos se passaram. De Richelieu e Luiz, o Sol, que resta? Pedras mortas, páginas de livros. Mas a obra de Vicente de Paulo está aí, viva, palpitante, eterna, maior ainda que em vida do santo, multiplicada muitas vezes. Não há lugar perdido no Mundo, na Europa, na Ásia, na África, na América ou na Oceania, que não apareça nos mapas da caridade como parte de uma província Vicentina. Hospitais, orfanatos, escolas, asilos - qualquer forma de caridade elas revestem”.

    Rachel prova aquela imortalidade que o também imortal Victor Hugo, célebre escritor francês, afirmou ao ser eleito para a Academia Francesa de Letras, em 1841, “Verdadeiramente imortais são os santos católicos que quase 2000 anos depois de sua morte ainda recebem culto”.
São Vicente de Paulo, rogai por toda a humanidade!
 
   (*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.


25 setembro 2020

Transcendência - Por: Emerson Monteiro

 Nas batalhas, entre exércitos que combatem, no campo de manobras resta margem de respiração no meio dos dois territórios. Aquela faixa recebe o nome de Terra de Ninguém. Zona intermediária por demais importante, exige de ambos os lados condições mínimas de respeito a título de segurança das tropas. 


Assim nos humanos. De um aspecto, o mundo ilusório. Do outro, a transcendência do Ser. Qual fruto em fase de amadurecimento, a existência permanece o tempo inevitável de, um dia, cruzar a fronteira e unir a divisão dos dois eus que ainda elaborar o sonho da Salvação. 

Presos ao Chão daqui, estamos nessa época de cruzar a Terra de Ninguém e desvendar os bosques da libertação da individualidade. Nisso, a busca da Luz da espiritualidade. Largar os apegos da matéria e conduz o barco aos oceanos do Infinito, razões principais da Consciência. O barco do Ser que se permitir navegar em águas da Perfeição.

Nessa epopeia de realização, o trilho há de iluminar a alma da gente. Primeiro, saber disso. Desvendar o primor da possibilidade. Admitir o senso da procura e caminhar rumo da concretização. Trabalhar em si os meios de querer e dar o primeiro passo. Exercitar o conhecimento através dos meandros por vezes escuros daquela zona de luta de nós conosco próprios. 

Transcender, eis o nome que resume as ações de vencer as montanhas e os precipícios da zona desmilitarizada dentro do campo de batalha que somos nós mesmos. Converter a permanência em impermanência e deixar margem a transpor o espaço das contradições, até revelar ao ser interior o mistério da superação. Isto significa bem o decorrer das buscas.

Ausentes disso, dessa condição determinada através das leis eternas, fora daquele território neutro, impera a inexistência, cavernas da ilusão. Requer coragem vencer as barreiras dos céus e chegar aos braços do Amor, fonte da Vida. 


24 setembro 2020

Tempo, o senhor da Razão e dos acontecimentos


No transcorrer das gerações só não aprende quem não quiser. São as ondas repetidas do mesmo oceano do Tempo que quebram sucessivas nas praias dos destinos. Dizem que o uso do cachimbo é que faz a boca torta, no costume daquilo que vira comportamento. E nisso existe uma escola aberta aos que queiram reconhecer as lições da verdade, da justiça e da paz. Essa aparente ingenuidade que ocasiona os erros de comportamento nada significa além de pouca inteligência moral daqueles que repetem os desmandos que ficaram lá atrás na crueza do passado. Falamos isto a propósito da falta de critério que empana os dias de hoje no mundo inteiro, que, se nenhuma consideração pelos resultados negativos até aqui apresentados pelos modelos praticados, agem quais vítimas de si mesmos.

Avaliemos isto pelas lideranças que nos trouxeram até aqui e detectemos o tanto de fragilidade nos costumes da Raça. Quero crer nem ser necessário indicar culpados, conquanto todos o somos, autores e vítimas dos próprios atos, pois a evolução dos meios políticos e sociais levaram a trabalhar as escolhas. Ninguém alegue desconhecer o jeito certo de selecionar as lideranças que conduzirão as instituições coletivas logo depois dos pleitos eleitorais. 

No entanto até parece que andamos de marcha ré, face dos resultados que vêm à tona horas sem fim. As crises do Planeta apontam os desmandos de verdadeiras feras da ganância, causas das divisões de classe, da exploração das nações pelos impérios, destruição inconsequente da natureza, escravidão dos fracos e acumulação deslavada de minorias perversas. Entretanto o barco segue seu curso pelo rio dos acontecimentos, todo instante a oferecer novas chances de lucidez quase constantemente atiradas ao lixo da História.

Bom, este é o quadro por demais conhecido de um egoísmo crônico que persiste na geopolítica, apesar de tanto conhecimento acumulado, ausente, no entanto, da consciência geral, sobretudo no que tange às lideranças emergentes, reconhecendo, porém, ser larga culpa que cabe aos responsáveis pelas más seleções, vez que os indivíduos são eles e suas escolhas, afirmam os sábios.

Ilustração: Os colhedores, de Pieter Brueguel (o Velho).

22 setembro 2020

Há uma luz acesa no coração - Por: Emerson Monteiro


Vem de dentro do silêncio essa voz que embala o sentido das existências, luz que ilumina a firme disposição de continuar pelas vidas afora. A força do querer. Ninguém que se preze fugiria de admitir este poder indomável de querer seguir mesmo diante dos obstáculos que sujeitem os dias. Autores da vontade de viver a todo o momento depois de lançados na correnteza, os humanos sobrevivem às intempéries mais duras, sempre no ímpeto de preservar a oportunidade deste chão por vezes tão inóspito. Os maiores apuros jamais desvanecem o impulso das vidas, por menos e válidos elementos estejam disponíveis.

Esse querer de sobreviver nasce de luz que ilumina o coração da gente, a reclamar espaço no invisível do tempo. Independente, pois, das condições necessárias, se quer a qualquer custo alimentar a ânsia de existir, tanger adiante o processo de estar aqui agora, fruto das escolhas logo após o nascimento. Paladinos desse apostolado, nem sempre conhecemos a fonte origem de tanto empenho, porém há, sim, uma luz bem acesa no coração da gente, que alguns denominam fé, outros coragem, esperança, convicção, ideal, amor, justiça, paz, etc.

Autores existencialistas esclarecem tais razões quis sejam vontade, exercício de liberdade, sonho de poder, enquanto os outros indivíduos estabelecem limites aos demais sob que exercitar esse tal estado de potência; a nós correspondem as escolhas daquilo que nos permitam escolher. Todavia persiste e luz acesa na alma das criaturas humanas, foco das atitudes dia após dia.

Quanto à resposta que seja dos viventes caberão, outrossim, variações de pessoa a pessoa, vindo desde então os tantos desempenhos e práticas trazidas às histórias das gerações. Isto varia ao infinito, conquanto demasiadamente, no território entre o fracasso e o sucesso, dos dramas às alegrias, retratos fieis das epopeias deste mundo fruto da compreensão dessa luz que ilumina no coração de todos o desejo de viver.


21 setembro 2020

Sombra e Luz - Por: Emerson Monteiro

A China preserva uma tradição milenar, vistas as técnicas de registro que desenvolveu como nenhuma outra civilização. A propósito, vale lembrar que fabricou o papel, aperfeiçoou a porcelana e a seda, além de produzir instrumentos de orientação, depois usados pelos ocidentais quando de suas viagens marítimas para conhecer o resto do Planeta.                                   

Dentre os consagrados gênios do pensamento chinês figura Fo-Hi, denominado Imperador Amarelo, que se destacou pelas pesquisas no campo da Ciência Universal. Sábio avançado para sua época, voltou-se a conhecer a natureza humana e sua busca de adaptação com o meio em que vive. E dos conhecimentos que deixou à posteridade um queremos aqui avaliar: o do Princípio Único da Bipolaridade, que afirma tudo ter o seu contrário para poder existir. Ou Yin/Yang, a Lei Universal na matéria, base de todo progresso tecnológico.

Sobre o assunto alguma coisa pode ser falada, ainda que de modo rápido, devido às dimensões restritas deste pequeno instrumento de divulgação. 

Após passarem a existir, sem que avaliemos o mérito disto, os seres animados e inanimados se vêem situados entre dois extremos de força, o centrífugo e o centrípeto. Na energia elétrica, são eles os dois pólos, negativo e positivo, a terra e a fase. 

Caso analisados sob o prisma do equilíbrio entre as partes, fenômenos e objetos a se apresentam dentro da obediência deste princípio. Lua e Sol. Noite e dia. Açúcar e sal. Mulher e homem. Escuro e claro. Baixo e alto. Frio e quente. Esquerdo e direito. Tudo tem seu outro lado, possibilitando a relação cooperativa e complementar na outra extremidade. Friedrich Hegel (filósofo alemão) demonstrou, na Filosofia, esta lei, quando criou o método dialético da tese e da antítese a gerarem uma síntese, início de nova tese, aspectos distintos do processo energético do movimento na matéria.

  

SETAS ESPIRITUAIS

  

As religiões também se utilizam referências idênticas, desde a mais distante antiguidade, registrada em livro, no Hinduísmo, onde se lê, na Sublime Canção dos Vedas (Bhagavad Gita), o diálogo entre Arjuna, um guerreiro em conflito quanto a lutar ou se omitir face batalha extrema, e Krishna, a Suprema Personalidade de Deus, a lhe indicar o caminho da Verdade e manter o seu ânimo de lutar. 

Depois, veio o Budismo, fruto da evolução individual de Gautama, que desperta em si o Eu Búdico, ou o Buda (O Iluminado), no outro lado de si mesmo, o Eu Superior. 

No Cristianismo, Jesus de Nazaré, após os 40 dias no deserto, virá às margens do rio Jordão, no Batismo, dividir a História com a manifestação do Cristo (Escolhido de Deus), sua outra natureza, seu lado interno, transformação que passa a transmitir em andanças persistentes através da Palestina, anunciando o Reino Divino existente no coração de cada ser humano - Sois deuses e não o sabeis. 

 Meu caminho é o do coração. Ninguém chegará ao Pai a não ser por mim.                                                            Buscai a porta estreita, porque larga é a da perdição.

 Não saiba a vossa mão esquerda o que dá a vossa mão direita. 

 Se vosso olho é mau, todo o vosso corpo é mau. Se vosso olho é bom, todo o vosso corpo é bom.

 Brilhe a vossa luz. 

A mesma lei veio também de orientar a Psicologia moderna, pois o mesmo princípio passa por todas as coisas do Universo, segundo afirmativa de Hermes Trismegisto, sábio consagrado no Antigo Egito. 

No campo da pesquisa psicológica, os resultados demonstram que a essência da personalidade compreende uma harmonia que se faz no funcionamento proporcional do ego e do Eu Superior, os mesmos dois valores ora aqui abordados. 

    

OS HEMISFÉRIOS

  

Distantes dos conceitos apenas abstratos, vemos, na composição física do corpo, em sua arquitetura, que o nosso cérebro se estrutura em dois hemisférios, esquerdo e direito, a se entrecruzarem nas ligações nervosas para com o restante dos órgãos, a coordenarem os lados interno e externo complementares, enquanto que se comunicam por estreita faixa denominada corpo caloso – uma espécie de ponte correspondente a 25% da área de fronteira destes dois territórios, qual traço de união.

Estudos de funcionalidade avaliam que existe uma proporção de predominância, na razão de l para 3, de um lado sobre o outro, as mesmas equivalências de terra e água, na face da Terra. 

Como visto, o mesmo princípio também forma tudo o que existe, e se sabe que um dos aspectos possui luz própria, no contexto da própria Lei, sem que sejam necessários juízos de valor, a indicar que a Verdade existe, independente das escolhas individuais das criaturas humanas, qual coisa em si, além das interpretações e escolhas particulares. 

A luz do Sol é própria; a da Lua, refletida. 

Na energia elétrica, apenas o positivo dispõe da fase, ou fogo, com mostra a experiência cotidiana; o outro pólo, a terra, poderá se trazer na ocasião da exteriorização da força, como se dá nos sistemas de fornecimento que utilizam apenas de um único cabo para transportar a eletrificação, exemplo adotado como alternativa de menores custos. 

Nesta seqüência de raciocínio, a lógica reflete uma norma original, onde o progresso se evidencia qual tendência natural, onde as águas correm sempre para o mar, como diz a sabedoria do povo. As trevas fogem da luz, porém a luz não foge das trevas. E o Homem se vê na condição inevitável de um dia ser feliz, pelo triunfo definitivo do Amor sobre a morte. 

No entanto, isto compete ao livre-arbítrio de cada criatura pensante, que deve evoluir por esforço exclusivo, sendo-lhe permitido o plantio de uma colheita eterna e justa, como propõem as filosofias e religiões: A cada um conforme o seu merecimento. 

    

A TRAVESSIA

  

Deveremos mudar de lado, romper o cristal que nos divide, conduzidos pelo poder maior da Consciência, e passar ao outro hemisfério cerebral, que também nós somos. Para percorrer este caminho de libertação, atravessemos o Mar Vermelho, a seiva colorida que nos irriga vasos, veias e artérias, para chegar na Terra da Promissão e viver o sonho da real felicidade. Eis o mito hebreu da Passash, ou Páscoa, a significar, em hebraico, passar sobre (atravessar), da escravidão para a libertação. 

Quando Saulo de Tasso, na estrada de Damasco, se refazia do impacto vivido na presença da Luz, se depara com tamanha mudança interior que passa de Saulo a Paulo, e afirma: - Não sou eu quem vive. É o Cristo que vive em mim. 

Portanto, a capacidade humana de se auto-avaliar demonstra conteúdo espontâneo de um fenômeno biológico permanente, em cumprimento de trilha universal organizada desde a origem de tudo, qual o mesmo percurso da Terra em volta de um eixo imaginário, iluminando-se ao Sol, que a clareia do Leste para o Oeste.   Do olho esquerdo para o direito - na rotação própria da evolução - quando cada olho corresponde a um dos hemisférios de predominância do uso cerebral, no espaço físico do próprio corpo. 

A história de Jesus revela bem claro este enfoque, por muitos usado para dominar os outros, como fonte de poder temporal, revestindo de mistério o simples de sentir e viver, criando bloqueios à percepção daquilo que nos acompanha pela vida. Fundaram até, em proveito de pompas e privilégios, os conceitos indeclináveis de secreto, tabu, mágico, milagroso, dentre outros, sempre em prejuízo da maioria social e a favor de uma elite prestigiosa e impenitente. 

Com a perspectiva ampla das oportunidades, veio a propagação das idéias, fase em movimentação, no seio da espécie humana. Recordamos, deste tempo, a invenção da imprensa ocidental, que deu publicidade à cultura letrada, propiciando o espaço fértil de textos antes retidos a sete chaves, para tão só beneficiar grupos de poder. 

  

O EXEMPLO CRISTÃO

  

Quando massacrado por judeus e romanos, na colina do Gólgota, próxima a Jerusalém, foi Jesus submetido à crucificação entre dois ladrões. Observemos que tudo faz sentido na linguagem divina. Pois Gólgota quer dizer crânio e os dois ladrões representam os dois olhos, a nos retirar da concentração interior, levados aos chamamentos das ilusões exteriores. Um ruim, outro bom, segundo a tradição; porque ambos revelam a sintonia polar da avaliação aqui proposta: negativo e positivo. Ao centro, no alto, acima dos olhos, uma glândula, também pesquisada pela ciência em certas escolas iniciáticas, denominada terceiro olho, corpo pineal, olho de Shiva, consciência cósmica, olho da vidência, etc.

No Zen-Budismo, as modalidades de despertamento se dão através do samadhi, vislumbre de uma consciência nova, qual lampejo luminescente (insight) - a se completar, pela prática fiel e virtuosa, no Nirvana, encontro definitivo com Deus. Lembremo-nos de Jesus, quando disse: - Aquele que perseverar até o fim será salvo.  

Face à constatação de que se pode transmitir a energia elétrica via um único cabo, como dissemos, e ao se pensar que o ego equivaleria ao fio terra, ou o nosso corpo de matéria; o Eu, por sua vez, o Espírito (o outro lado), que continua vivo após o desaparecimento do invólucro material, podendo depois vir a se manifestar noutro corpo (pelo princípio da Reencarnação), levado pelo aspecto abstrato da existência energética, ou semimatéria, instrumento de que se reveste o Espírito imortal até a sua total libertação deste mundo.                                                                                            

Se um atributo é matéria, o outro se opõe na característica, por meio de corpo imperecível. 

Numa escala constante de graduação, as pessoas crescem para o Bem Eterno, dentro de sua capacidade de comando, ou grau de memória. A quem muito foi dado mais lhe será pedido. E o momento em que cada um de nós existe pode ser avaliado pelo modo de seu comportamento. Pelo fruto se conhece a árvore. Árvore má não dá bons frutos; árvore boa não dá maus frutos, na afirmação evangélica. 

  

ONDE ESTAMOS? 

  

Perante a dúvida de qual hemisfério se usa como predominância, busquemos classificar nossos próprios pensamentos, sentimentos, atitudes. 

Quando positivos, otimistas, construtivos - sinais evidentes da utilização do hemisfério do coração. Caso inverso - o da fria razão. Isso fica nítido, sobretudo quando proliferam tantas escolas do pensamento quais remédios universais para tantos males. 

Existem, sim, estudos avançados sobre as polaridades hemisféricas cerebrais. Ainda na década de 70 do século passado, no Brasil, o jornal Movimento (nº.s 122 e 123), publicava artigo do teórico canadense de comunicação Marshall McLuhan, a considerar que se a Humanidade adotar o outro hemisfério cerebral solucionará os graves problemas da inflação, da fome, guerra, angústia, drogas, desigualdades sociais, desemprego, ganância, egoísmo. 

Quando se sabe do certo, despreza-se o errado - norma comezinha da inteligência prática. 

Assim decidimos pela divulgação que ora fazemos, dado o pressuposto de que Deus é a simplicidade das coisas mais simples, como aprendemos dos experientes na arte do bom viver. Tomamos por método compartilhar a emoção do sentir junto daqueles que, por vezes, acham por demais remotas as possibilidades da transformação. (Não poderá ver o Reino Divino quem não nascer outra vez). 

- Não se acende uma lâmpada para ser escondida, mas para que se eleve e ilumine toda a casa. 

Sabe-se de pessoas que questionam este ponto de vista. Entretanto isto jamais justificaria o desuso no direito de falar. Deste modo, como outros também fazem, apresentamos estas idéias, fruto de nossa história. 

  

SOM E IMAGEM

  

 Quisemos amarrar o burro nas orelhas do dono, dizendo e mostrando, em nós próprios ser possível a mudança de alternativa hemisférica, para aqueles que quiserem ver. Contra fatos não há argumentos, num axioma clássico de domínio público. 

- Uma imagem vale por dez mil palavras – asseguram os mestres orientais. 

Palavras faladas se propagam à velocidade do som, a 343m/s. As imagens, à da luz, a 299.792km/s, sem termo de comparação em nível de rapidez, portanto. 

Numa outra conhecida comprovação, Mcluhan conclui que o meio é a mensagem, isto trazendo à baila as palavras de São Francisco de Assis, que defendia a tese de que as palavras convencem, mas o que arrasta é o exemplo. 

Tais como estações de ondas curtas (a porta estreita) e médias (a porta larga) trabalhamos, na face do Universo recebendo e transmitindo vibrações eletromagnéticas, tanto negativas, quanto positivas, cabendo-nos definir a nossa predileção. Um vibrando para o bem equivale a milhões vibrando para o mal, eis o que afirmava Mahatma Gandhi, o mentor da independência da Índia. 

Muito ainda mais se dirá sobre o que aqui trouxemos, e que todos possam sempre usufruir, livres de preconceitos e limitações. De novo citamos Jesus, em frase de beleza incomparável, a informar que os que comerem deste pão jamais terão fome, e beberem desta água jamais sentirão sede. Então, quedemo-nos quais crianças, a escutar as notícias dos páramos da Luz Superior no mais íntimo de nós mesmos.