17 abril 2021

As manhãs aqui - Por: Emerson Monteiro


Nesses tempos de isolamento, anos 2021, as horas ficaram como que mais agarradas dentro da gente onde passam numa busca perene de novidades quais sejam. Dali, os sons das manhãs claras de sol intenso na vegetação da serra orvalhada. Pássaros que percorrem as árvores à cata dos motivos de cantar, e cantam. O cacarejar e o cocoricó de galos e galinhas vagado no terreiro. Latidos de cães desocupados contrapõem as falas desencontradas dos outros animais. Ao longe, vindos daqui de onde moram vizinhos músicos, ouço acordes de um trompete, seguidos das notas suaves de um piano, a preencher de lucidez as pautas do silêncio. Nisso, a necessidade rasante de dominar o instinto de correr pelas distâncias do passado, enquanto, do outro lado de mim, as penas do presente querem impor a qualquer preço visões intermitentes do futuro só inexistente. No entanto vago apreensivo na trilha estreita entre eles dois, ora vencido, ora vencedor dessas imaginações inesperadas, vadias e corriqueiras, dos dois senhores à procura de cativos, o passado e o futuro, duas ficções das circunstâncias, no entanto pura abstração do presente raquítico de nós em nós carentes de maiores convicções.

Vagas manhãs estas de tempos esquisitos, depois das agruras sanitárias que invadiram o mundo. Disso tudo, resta o senso das indagações de quando será diferente, o que tanto aguardamos e nele desenvolvemos nossos projetos de vida regular. Quando, afinal, abriremos as janelas da alma e deixaremos entrar a luz da consciência plena que já chega às mentalidades, contudo deve nutrir o espaço entre as sombras preguiçosas desta civilização. Após o que mais haverá de chegar ao poder o valor da realidade, livre dos cascalhos e dos escombros?! Algo assim de querer saber o que existe logo ali, transcorridos próximos dias de tanta dúvida, quanto ao que herdaremos disso tudo.

Em meio, pois, às forças da natureza, isto de querer solucionar de uma vez por todas o problema do mal que ainda aflige a humana incoerência, nos dias da véspera de novas possibilidades, sempre a vicejar no coração das pessoas, instrumentos de alegria e paz.

Verdades Inquestionáveis

 A Monarquia combate a corrupção

   A Monarquia não pretende ser uma panaceia, capaz de curar milagrosamente todos os males, mas é certo que ela cria as condições necessárias para sanar ou ao menos minorar muitos deles, dentre os quais a corrupção. Isso porque a forma de governo monárquica traz consigo uma influência altamente positiva sobre o andamento dos negócios públicos, sejam políticos, econômicos ou sociais.

   Há que se considerar que o Imperador paira acima dos interesses políticos ou privados de qualquer ordem, com o seu interesse pessoal se confundindo inteiramente com os da Nação. O Soberano pode, assim, exercer sobre a política e a administração pública uma ação moralizadora ao mesmo tempo firme e serena, de modo a corrigir e por nos eixos o que deve ser corrigido e ordenado.

    Pelo contrário, na República, se deseja alcançar os mais altos cargos, um político tem literalmente que comprar o apoio dos amigos e até mesmo dos inimigos; caso contrário, ele cai em desgraça e não consegue governar. Basta lembrarmos aqui os tristemente famosos “Mensalão” e “Petrolão”, para não falar de outros esquemas de corrupção...
Conforme mostra o quadro abaixo, dos quinze países menos corruptos do mundo, um total de nove são Monarquias, a começar pelos dois primeiros, o Reino da Dinamarca e a Nova Zelândia. O Brasil, por sua vez, graças à República, ocupa a desonrosa 94º posição na classificação, ficando muito abaixo de países como Tunísia (69º) e Senegal (67º).

    Fica evidente a falta que faz em nosso País uma figura como a do Imperador Dom Pedro II, que, utilizando-se do Poder Moderador e de sua inegável presença moralizadora, era o grande fiscalizador da honestidade pública. De fato, o célebre escritor Monteiro Lobato comparou Sua Majestade à “Luz do Baile”, apagada pela República, com os lamentáveis resultados que hoje assistimos.

Que volte a tremular na nossa Pátria a Bandeira do honrado Império do Brasil

16 abril 2021

O lugar do coração - Por: Emerson Monteiro


Nessa busca incessante de achar paz dentro da geografia da gente, quantos pontos cardiais de esperança o coração e a vontade experimentam na revelação das flores e dos frutos, estando a alma em sintonia consigo mesma. Andam devagar nas estradas desta vida; olham insistentes o crivo dos sentimentos; e caminham de olhos atentos às margens de tanto amor pelos desvãos das promessas. Os sinos da alegria que sacodem o valor de sonhos e sorrisos contêm o impulso extremo de vislumbrar os jardins de mais além, nos pequenos louvores das estrelas, de contemplar o firmamento no íntimo das nossas canções.

De palmilhar, pois, as gretas de nós mesmos, lá certo dia se aprenderá o jeito bom de acreditar nos valores da satisfação de nossos instintos no nível mais alto da consciência. Coragem de sustentar normas de bondade sem perder tempo nas longas escolhas que fluem feito folhas e logo em seguida desaparecem como que por encanto no horizonte da pureza do tempo. Nisso, alimentam os gestos de união das criaturas, força inigualável de tempos novos cheios de felicidade.

Assim, depois de longos desfiladeiros de solidão, por fim deparam com o senso da razão de ser o amigo fiel das lonjuras. E amar define o senso da evolução perante os seres, modo perfeito de satisfazer a eterna procura dos melhores momentos. Quantas vezes, neste afã de revelar tais meios de harmonizar o universo dos aventureiros, neste procedimento, somos vistos pelas normas do divino instante qual milagres da Criação, e rimos de tão merecedores, na realização do Ser.

Bem isto, seremos os autores da humana concretude face ao movimento persistente das ondas deste mar infinito de histórias sem fim. Suaves parceiros dos segredos do equilíbrio de luzes e sons, enfim abriremos a porta do silêncio e habitaremos o país das emoções em festa.

Príncipe Philip, o Duque de Edimburgo – por José Luís Lira (*)

 Príncipe Philip (1921--2021)

   O título também poderia ter, romanticamente, um subtítulo: a história de um amor ou, ainda, mais realisticamente, o marido da Rainha Elisabeth II, da Inglaterra. A morte do Príncipe Filipe, nascido Príncipe da Grécia e Dinamarca, foi o principal noticiário dos últimos dias. Seu sepultamento ocorre neste sábado, na Capela de São Jorge, que fica no Castelo de Windsor, 2 meses antes de seu aniversário de 100 anos. Todos os que me conhecem sabem que vejo na monarquia constitucional como a melhor forma de Governo. O monarca atua como Chefe de Estado e é reconhecido como uma espécie de grande pai da Nação. Sua Alteza Imperial e Real Dom Bertrand de Orleans e Bragança, que celebrou 80 anos em fevereiro último, tetraneto de nosso primeiro Imperador, Dom Pedro I, diz com muito acerto que todo brasileiro aspira o ideal monárquico. Quantos reis no Brasil temos? Rei da música, rei do futebol, princesas etc., muitos. E presidentes? Só de instituições. A monarquia nos foi tirada, mas, nós não a esquecemos.

    Voltando ao Príncipe Filipe, sua história é muito interessante. Filho do príncipe André da Grécia e Dinamarca e da princesa Alice de Battenberg que depois de viúva se tornou freira na Igreja Ortodoxa e foi sepultada em Jerusalém, Filipe nasceu na Grécia, pertencendo às famílias reais grega e dinamarquesa. Sua família foi expulsa da Grécia enquanto ainda era criança, durante o Golpe de 1922. Filipe estudou na França, Inglaterra, Alemanha e Escócia, ingressando na Marinha Real Britânica, em 1939, aos 18 anos. Numa ocasião, Filipe conheceu a Princesa Elisabeth, filha do Rei Jorge VI do Reino Unido. Consta que foi amor à primeira vista. Ela tinha 13 anos, ele 18 anos. Eles são primos de segundo e de terceiro grau. Para casar-se com a então Princesa Elisabeth e herdeira do trono do Reino Unido, em 20 de novembro de 1947, Filipe renunciou seus títulos gregos e dinamarqueses, converteu-se da ortodoxia grega para o anglicanismo e recebeu o título de Duque de Edimburgo. Tratou-se de uma extrema renúncia pessoal. Ele sabia que não receberia o título de Rei-Consorte da Rainha, mas, de Príncipe-Consorte. Que sua vida ficaria completamente atrelada à Rainha não só no aspecto sentimental, mas, em todos os aspectos. Ainda assim ele a tudo renunciou por amor à Princesa que ele viu se tornar Rainha e se tornou o pai do sucessor de Elisabeth no trono, Príncipe Charles (Carlos, em português), avô do Príncipe William (Guilherme, em português), que sucederá a Charles e assim sucessivamente.

    Pelos mais de 70 anos de serviço à realeza inglesa, vimos o mundo todo se manifestar solidariamente à Rainha e sua Família. Os próprios ingleses sentiram a partida do Príncipe Filipe como se de alguém da família. Foram muitas as declarações neste sentido de líderes mundiais, destacando Sua Santidade o Papa Francisco, reis, rainhas, presidentes, chanceleres e outras personalidades, entre as quais Sua Alteza Imperial e Real Dom Luiz de Orleans e Bragança, chefe da Casa Imperial do Brasil e herdeiro de direito do trono brasileiro. O povo inglês lembrará o Príncipe Filipe, como nós, brasileiros, lembramos de Dona Leopoldina e Dona Teresa Cristina, imperatrizes, esposas dos Imperadores Dom Pedro I e Dom Pedro II.

      Que Deus o guarde!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.

 

15 abril 2021

O poder dos acontecimentos - Por: Emerson Monteiro


Incrível a força que as coisas parecem ter quando têm de acontecer.
 Nietzsche                                     

São essas as ilustrações do livro da natureza, no fluir dos fenômenos. Tantas e quantas vezes, devido a um mínimo, ocorrem aparentes acasos, jamais imaginados que houvessem sido exequíveis, porém dotados de plena coerência (Deus não joga dados, nas palavras de Einstein). Quando, então, algo vem à tona, efeito de mil de milhões de fragmentos, traz em si o processo espontâneo dos acontecimentos.

Isso de considerar coincidência fica por conta das poucas (ou nenhuma) justificativas aparentes, quais numa orquestra monumental regida pelos magos da história. Aonde ir, pois, ali impera a força viva de leis inderrogáveis, o que significa a pedra de toque dos céus às mãos de uma Inteligência Suprema.

Espécie de universo integrado, objetos e gente circulam este planisfério da ordem dessa harmonia. Assim, em meio ao painel infinito que gira pelas horas, sem cessar um só momento, desliza faceira a humana consciência, na busca de si própria, em nuvens planetárias vagando entre a sombra e a luz da existência; sustentam no território da matéria estes aventureiros da razão, ora vestidos de palavras, ora de emoções. Desejos em ação, paixões por vezes alucinadas de revelar perfeições a qualquer custo, no entanto sujeitos bater de frente nos sonhos de felicidade, e padecer as dores dos partos alucinados, vidas adentro.

Outrossim submetidos às ordens do mistério, rendem graças aos diversos deuses que lhes traz a vontade aparentemente soberana, porém autora, nalguns instantes, de cruéis enganos das tais criaturas humanas. Serem meros sujeitos das consequências, dão de cara nas cavernas do desconhecido, e padecem de não saber ainda qual rumo irá seguir nesse roteiro dos instrumentos. Bem isto, aprendizes das cicatrizes que adquirem, tatuam na carne os meios de guardar consigo o senso da Razão maior, lá um dia.

13 abril 2021

Esses messias indecisos - Por: Emerson Monteiro


A que viemos aqui... Qual sentido extremo de viver neste chão... A porta do definitivo... Quantas vezes assim de mergulhar e querer saber, no entanto de susto voltam apressados aos afazeres das ausências deste objetivo que olha de longe o movimento da gente. Lá dispersos, agarrados na vegetação das margens, tantos buscam esquecer a que vieram.

Fugir, porém, não consta desse roteiro, porquanto nem aonde fugir existe. E lustram as estradas de rastros incertos, elas, as criaturas. Escrevem milhares de cartas aos céus, definem sonhos de querer o melhor, ordenam as horas de acordo com suas próprias interrogações... Plantam, colhem; vivem, revivem; alimentam desejos de perfeição quais mergulhadores de mares desconhecidos, sem saber jamais nem o que buscam afinal.

Contudo só aguardar, que existe, sim, real finalidade (Sois deuses e não o sabeis, disse Jesus). A todos há essa fatalidade, concretizar o projeto da Criação, mesmo que omitam de si a condição essencial de estar e ser diante dos segredos guardados. Solene imaginar isto, de ser messias em crescimento, até um clímax de maturação. Fortes vínculos nos prendem ao desconhecido, algo religioso, original, astrofísico, eterno...

Desde que aceito no íntimo da solidão cósmica das existências, antes somos isto a improvisar desempenhos no teto das dúvidas, meros experimentadores dos destinos. Arrastar correntes enquanto isso, nas vidas que se sucedem. Quantas e tantas luas e baladas, e filmes, e livros, e encontros, e desencontros, ainda instrumentos de forças até então abstratas, poderosas, outrossim.

No sol quente das manhãs, ali, gelados por dentro, impera esse instinto de sobreviver aos impactos inevitáveis de um viver provisório. Queremos, todavia, desvendar os enigmas destas horas que projetam cores, luzes, movimentos, pedaços de sentimentos e pensamentos, que desmancham as idades e burilam os corações na forma de uma verdade definitiva, que o seremos para sempre. Somos, pois, a semente do Infinito plantada no mais profundo de nosso ser. Tais fagulhas, significamos o primeiro instante da revelação original.

24 de abril: festa de São Fidelis Sigmaringa, Co-padroeiro de Crato

No próximo dia 24, a comunidade católica cratense lembrará o Dia de São Fidelis de Sigmaringa. Este frade capuchinho, foi escolhido por Frei Carlos Maria de Ferrara para ser o Co-padroeiro da “Missão do Miranda!”, esta o embrião da atual cidade de Crato. Sobre este grande Santo, reproduzimos abaixo excertos de um artigo escrito pelo pensador católico Prof. Plinio Corrêa de Oliveira.

O martírio de São Fidelis de Sigmaringa, ocorrido há 399 anos, em 24 de abril de 1622

     “Modelo de leigo e advogado católico, de religioso e de mártir, São Fidelis de Sigmaringa foi suscitado por Deus no início do século XVII para pregar uma autêntica reforma católica na Suíça alemã, e reconduzir à verdadeira Igreja os que se haviam deixado seduzir pela heresia de Calvino. O Santo nasceu em Sigmaringa, às margens do Danúbio, no Principado de Hohenzollern, Alemanha, filho de João Rey, descendente de espanhóis, de fé sólida e honestidade comprovada. Este, por suas qualidades morais e administrativas, chegou a ser escolhido para conselheiro da Corte e prefeito de sua cidade adotiva. Sua mãe chamava-se Genoveva de Rosemberg. Marcos Rey, como se chamava o menino, desde tenra idade professava entranhada devoção à Virgem e horror ao pecado, revelando formação religiosa tão profunda, que marcou toda uma vida que seria depois coroada com a palma do martírio.

      Inteligente e aplicado, Marcos fez com sucesso seus estudos na Universidade católica de Friburgo, na Suíça. De elevada estatura, bela presença, semblante sério e sereno, ele era respeitado pelos professores e admirado pelos condiscípulos que, por sua ciência e virtude o cognominaram o Filósofo Cristão. Após diplomar-se em Direito civil e canônico, Marcos aceitou o convite de alguns condiscípulos para servir-lhes de companheiro e guia numa viagem cultural por várias nações da Europa. Conhecendo diversas línguas, Marcos exerceria também a função de intérprete. Na França, o Santo aceitou os desafios de protestantes para debates em praças públicas, confundindo-os sempre. No Franco Condado ingressou na Confraria de São Jorge, cuja finalidade era a de dar sepultura aos condenados à morte.

      Estabelecendo-se depois em Colmar como advogado, teve muito êxito, e em breve adquiriu fama e clientela. O Dr. Marcos Rey, no entanto, preferia as causas dos pobres às dos ricos, para poder defendê-los gratuitamente. Em suas defesas jamais utilizou recurso algum que pudesse tisnar a honra da parte contrária. Certo dia, a Providência iria servir-se de um de seus sucessos para apartá-lo do mundo. Defendendo uma causa justíssima, fê-lo com tanta maestria, que encerrou o caso de vez. O advogado da parte contrária confidenciou-lhe então que, se ele não protelasse seus casos para ir vivendo por conta de seus clientes, acabaria morrendo de fome. Era preciso ir esticando-os às custas deles, para ter o necessário para viver.

       Essa observação interesseira e muito mundana, desgostou tanto o Santo que, como outro grande santo e famoso advogado, Santo Afonso Maria de Ligório, o Dr. Marcos Rey desiludiu-se do mundo da jurisprudência, decidindo-se a abandoná-lo de vez. Depois de fazer os exercícios espirituais, ele pediu admissão no Convento capuchinho de Friburgo. Por sugestão do Superior, recebeu antes a ordenação sacerdotal. Na festa de São Francisco de Assis de 1612, cantou sua Primeira Missa e recebeu o hábito capuchinho, trocando seu nome batismal pelo que o imortalizaria, Fidelis de Sigmaringa.

No ano de 1621, o exército austríaco invadiu a região dos grises suíços, tendo sido escolhido o Santo para capelão do exército acantonado nos arredores de Feldkirch. Uma peste atacou as tropas fazendo inúmeras vítimas. Fidelis corria de um a outro atingido, a fim de levar auxílios materiais e da Religião aos enfermos, obtendo, junto aos ricos, donativos para comprar os remédios necessários aos feridos. Recorreu para isso ao próprio Arquiduque Leopoldo, generalíssimo do exército austríaco, para socorrer os empestados. Com sua prudência e caridade apaziguou um grupo de soldados rebelados por falta de víveres.

      Ocorreu depois que, quando o Arquiduque Leopoldo recobrou certos vales do país dos grises, na Suíça, que antes lhe pertenciam, pensou em enviar para lá missionários zelosos que pregassem a fé católica, e fizessem voltar ao grêmio da Igreja os infelizes que dela se haviam apartado por causa da pregação dos calvinistas. A Congregação da Propaganda Fidei, de Roma, nomeou São Fidelis chefe dos missionários. Quem não se convenceria ouvindo esse apóstolo desafiar os ministros protestantes, fazendo cair por terra todas suas argumentações? Vendo-o caminhar com os pés nus catequizando as crianças, procurando as ovelhas desgarradas através do gelo, dos rochedos escarpados e precipícios, até o coração mais empedernido no erro sentia-se comovido.

      É claro que isso só podia suscitar ódio nos inimigos da Fé. E São Fidelis não ignorava que poderia ser morto a qualquer momento. Ele teve mesmo uma premonição sobre seu próximo martírio. Chegando ao seu conhecimento vários complôs para assassiná-lo, e querendo morrer com as armas na mão, começou a assinar: “Irmão Fidelis, que dentro em breve será pasto de vermes”.

       No dia 24 de abril de 1622, depois de celebrar, saindo da igreja, no caminho caiu nas mãos de soldados protestantes, dirigidos por um ministro da mesma seita. Na recusa de abraçar o calvinismo, respondeu: “Eu vim até vós para refutar vossos erros, e não para aceitá-los”. A esta resposta, um dos hereges desferiu-lhe um violento golpe na cabeça, lançando-o por terra. O mártir conseguiu ainda pôr-se de joelhos, e dizer: “Ó Maria, Mãe de Jesus, assisti-me neste transe!”.


Dom Pedro II, o Imperador que impressionou o mundo

   Em julho de 1877, era inaugurada em Londres, no Reino Unido, a Exibição Caxton, organizada em honra de William Caxton, que no século XV havia introduzido a imprensa na Inglaterra. Na ocasião, William Ewart Gladstone, um dos mais célebres estadistas britânicos e futuro Primeiro Ministro, fez um discurso no banquete ao qual estavam presentes a Rainha Vitória e seu filho, o Príncipe de Gales, futuro Rei Eduardo VII.

    Naquele discurso, ergueu-se o brinde protocolar – o chamado “brinde da lealdade” – à Soberana inglesa, a Rainha Vitória e ao herdeiro do Trono, futuro Rei Eduardo VII. Normalmente, nenhum outro brinde se poderia fazer; contudo, Gladstone pediu licença, dizendo estar certo da aprovação não só da Rainha e do Príncipe de Gales, mas de todos os presentes, pois desejava saudar o Imperador Dom Pedro II.

    Sua Majestade, o Imperador Pedro II – então em sua segunda viagem ao Exterior – fora um dos primeiros a visitar a Exibição Caxton, e mantivera longa palestra com Gladstone, cujo discurso foi assim resumido nos jornais do dia seguinte:

“Esse homem – e posso falar com mais liberdade por estar ele ausente – é um modelo para todos os Soberanos do mundo, pela sua dedicação e esforços em bem cumprir seus altos deveres. É um homem de notável distinção, possuidor de raras qualidades, entre as quais uma perseverança e uma capacidade hercúleas. Muitas vezes começa seu dia às quatro horas da manhã, para terminá-lo tarde da noite.
“Atualmente, essas dezoito ou vinte horas de atividade diária, ele as emprega através do mundo, e em esforços constantes para adquirir conhecimentos de todo o gênero, que saberá aproveitar no regresso à Pátria. E continuará, assim, a promover o bem-estar de seu povo. É o que chamo, senhoras e senhores, um grande, um bom Soberano, que, pelo seu procedimento no alto cargo que ocupa, é um exemplo e uma bênção para a sua raça.”

FONTE: Leopoldo Bibiano Xavier, no livro “Revivendo o Brasil-Império”. 1ª edição. São Paulo: Artpress, 1991. página 30.

 

12 abril 2021

Hora de passar o mundo a limpo - Por: Emerson Monteiro


De que adiantou saber tanto e não praticar, ou praticar pela metade. Ou não saber. Nunca se descobriu tantos mistérios, no entanto a natureza permanece a nós desconhecida nos momentos mais críticos. Há que haver uma autocrítica severa diante disso tudo que vem ocorrendo. Repensar a finalidade e o que significa existir. Rever objetivos. Crer verdades nas potencialidades que nos sobram, a fim de construir o mundo novo de que falavam os visionários. Sonhar acordado, mas exercitar o direito de sonhar de todos. Exercitar as virtudes que decantam os filósofos, os santos e profetas. Aonde foram parar os planos de viver em paz numa sociedade justa das histórias que contavam nossos avós em volta da fogueira? Por que encontrar respostas e as deixarmos de lado quis fossem apenas ficções?

Enquanto isto, as leis da natureza prosseguem inevitáveis frente às estações, senhoras de si, por vezes severas, exigentes daqueles que as utilizam ao bel-prazer das humanas vaidades. Quanta exclusividade nas classes sociais dominantes, nas imposições da força bruta que arrasta os séculos, quantos gastos em armas, em sistemas de sacrificar populações no interesse de alguns, das elites hegemônicas... Quanto descaso no exercício da honestidade, do respeito aos demais, da ganância, interesses escusos... E querer respostas diferentes daquilo que apresentam, vê-se nisso as garras afiadas da ilusão que exigem justiça inevitável no decorrer das gerações, nas muitas ciências que devíamos guardar com zelo. Nada ficará impune nos delitos praticados em detrimento da paz.

Ainda que perfeito, maravilhoso, o Universo detém, infinito, o poder das vidas em todos os sentidos. E esse mundo principia dentro de cada um de nós, no espaço restrito de um tempo em movimento. Que estamos fazendo de nós mesmos, das nossas potencialidades em favor de revelar os valores positivos de existir em harmonia com as leis da Criação, apenas os indivíduos são capazes de responder, pois as determinações da existência assim impõem. O fazer do que nos resta face ao futuro desconhecido, só os seres humanos haverão de mostrar, nestes tempos de uma sobrevivência quase que tardia.

11 abril 2021

Convicção - Por: Emerson Monteiro


Além das certezas, logo ali perto, onde existe o território franco em que impera a entrega absoluta, isto livre de outras considerações, numa firme representação do que denominam Fé. Conceito por demais elaborado nos estudos das religiões, tal seja o Amor, tal disposição do ser contém valores adquiridos no decorrer das existências. Bem quando os conceitos das verdades várias deixam cair por terra os princípios só intelectuais, há que se adentrar o âmbito desse mecanismo guardado a sete chaves nos mistérios da consciência mãe. Reunir, assim, tudo enquanto vivência e valores, e mergulhar de corpo e alma no universo inesgotável da crença numa verdade única, indizível, insofismável, depois das considerações dos povos, tempos e costumes. Adiantar nos séculos e milênios e conhecer a claridade do poder divino.

Nisto impera o silêncio das horas, mares de infinitudes, sonhos de paz, ausência de preconceitos, divisões, obstáculos que sejam... Apenas a serenidade dos deuses na fronte das criaturas, passados que foram tempos de solidão e desventura. Novas florestas de esperança, desejos de serenidade, olhos de transcorrer as alturas e obter meios de cruzar os abismos mais profundos. A força plena do ânimo que sacode as bases da indiferença e impõe urgência de acalmar os pensamentos frívolos. Voos siderais às plagas celestes de que somos herdeiros e viventes.

Quantos disso necessitam, porém deparam laços de dúvida, amarguram intransigências da matéria, padecem a fome das alturas sem, no entanto, elevar aos céus o ímpeto das dores em princípio de vitória. Mesmo que limitada, a nossa humanidade atravessa, ardorosa e vadia, essa barreira do som das circunstâncias, por vezes longe de conhecer a que veio aqui. São gerações sucessivas de aprendizado pelas escolas deste mundo. Ardorosos aprendizes dos tantos sinais, contudo meros serviçais de sortes incertas, instrumentos de marcos ilusórios, transpiram necessidades desta condição dos entes fieis, heróis de novas danças e lúcidos donatários da Eternidade.

09 abril 2021

As portas da ilusão - Por: Emerson Monteiro


Largas, imensas, rasgam as vistas... Escancaradas bem na margem dos passos dessas criaturas humanas, por via do pensamento vacilado, torna-os meros escravos de si mesmos, entregues às ganas dispersas da ilusão entontecida, imprudente, das longas noites de loucura, vastos campos de amargas visões, dorsos amolados na fraqueza daquelas almas inebriadas de alucinadas perdições, dromedários dos vícios e das sombras.

Foram, pois, muitas daquelas horas de coragem às avessas, nas aventuras de abelhas de fastios exasperados, longas filas de zumbis lançados aos universos inexistentes, pecados de religiões invertidas e à toa, no tempo e no espaço fugido, ao longo das patas daqueles animais enfurecidos no deserto.

E pensar que a morte não é o fim, só um novo recomeço. Regras imortais das calandras desse mundo de surpresas, viemos aqui tão apenas experimentar viver e aprender, reconhecer as tantas oportunidades na aplicação do fenômeno vida, instrumentos de elaboração da consciência que o somos e seremos sempre. Nesse dizer, resta aprender, guardar o definitivo das luzes que percorrem o firmamento, experimentos de segredos tenebrosos.

Insistir em renunciar a tudo isso na intenção dos acertos, construir novos seres e salvação no íntimo da criatura em crescimento espiritual, foi assim e será o ofício da natureza, no coração de todos nós. Aprendizes do destino, talhamos vencer a ilusão num esforço necessário à libertação que nos aguarda mais dia menos dia.

Conquanto ainda em aprimoramento, no entanto seres de poderes incríveis, na força suprema de criar o painel das histórias individuais, qual função inevitável, no gesto de existir nas dobras do tempo onde habitamos. Senhores desta possibilidade às nossas mãos, construímos o futuro ao sabor do presente. Somamos força ao poder infinito dos mistérios, e dormimos no seio do Eterno quais minúsculas partículas da perfeição de que já somos dotados.

Esperança Renovada – por José Luís Lira (*)

      Esta semana da oitava ou primeira semana da Páscoa começou com a esperança de dias melhores. Pelo novo decreto municipal emitido pelo Prefeito de Sobral, Ivo Gomes, autorizou-se a retomada de algumas atividades, contempladas no decreto estadual, entre as quais o setor de construção civil. E nisto muito nos animamos pela possibilidade de reinício da restauração do Museu Diocesano Dom José, já septuagenário. Por conta disso voltei a Sobral e revi essa terra tão amada. Não fiz um tour, apenas fui aos locais que precisei ir. Sobral é uma cidade viva. Gostamos dela. Vivemos n’ela. A força que nos move nestes tempos é a esperança. Vemos os esforços das autoridades municipais e estaduais para proteger a VIDA. Outro dia me questionaram sobre uma possível “violação” ao direito de ir-e-vir e eu respondi – como responderia em qualquer ocasião –, que o direito à vida é maior. O choque de princípios constitucionais é sempre solucionado com ponderação e com o princípio da proporcionalidade. De que adianta eu ter o direito de ir-e-vir se enquanto usufruo ponho minha vida em risco e posso pôr a vida do outro também em risco. É preciso prudência e proporcionalidade que rima com humanidade, humildade etc. Não estamos confortavelmente livres dessa situação. Mas, vamos torcer e oferecer nosso contributo, mantendo o isolamento.

     Última quinta-feira o dia inspirou saudade porque foi o 11° mês de falecimento de minha amada Matusahila. É uma saudade tão grande que nosso conforto é saber que ela está na glória de Deus e a Deus a confiamos. Mas, nesse mesmo dia houve também alegrias. Acompanhei meu pai, dentro de sua faixa de idade, na vacinação dele contra a covid-19 e penso que na próxima semana será a vez de minha mãe, com a graça de Deus. E neste mesmo dia retornei à sala de aula como aluno, mesmo após mestrado, doutorado e pós-doutorado para uma Pós-Graduação em Direito, dessa vez em Direito Canônico, matéria que muito aprecio. Uma turma bem dedicada e preparada. Fiquei muito feliz participar. O público é mais de padres e religiosos(as), mas, temos leigos também, entre os quais me situo. Quando acolhi o convite, primeiro foi porque aprecio muito o tema; segundo porque é oportunidade de requalificação e a disciplina se envolve com as que leciono. O Curso é oferecido pelo Instituto de Estudos Superiores do Maranhão – Faculdade Católica. E se o magistério é um sacerdócio e o bom pastor, lembrando o Papa Francisco, é aquele que sofre a dor das ovelhas junto a elas, é muito interessante a nós, professores, que estamos vivendo esses tempos, passarmos para o lado do aluno que assiste aulas remotas. A experiência é sempre válida e se pode compreender melhor as limitações dos alunos nesse contexto sendo, também, aluno. 

     Falando em Papa Francisco, sua mensagem de esperança continua a ecoar do Vaticano para o mundo e no último domingo ele concedeu a bênção urbi et orbe (da cidade para o mundo). Sua imagem de pastor solidário com a dor das ovelhas, reitero, representa o maior estadista deste tempo de pandemia. A história fará o registro. E, confiando em Deus, aguardemos o dia em que venceremos essa etapa, com o abraço da paz nas Celebrações em Ação de Graças que será mais intenso. 

      Deus nos proteja

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.


06 abril 2021

O rei de cada barriga - Por: Emerson Monteiro


Nesses tempos que é de guerra e paz, dormentes e impávidos lá vão eles, os donos do poder de tudo, ou nada. Umas, vestais de credos desconhecidos; outras, senhoras dos ares e dos mares. Que vale dizer tangem os rebanhos das consciências nas trilhas das lendas. Claro que existem os menos inúteis, no entanto que carregam consigo do pouco que juntaram das tralhas dos vagões. Olhos acesos nas sombras do que deveriam carregar, esquecem o peso e transportam multidão de ilusões em forma do vazio que significam viver. Sóis e luas, arrastam cruzes e matulões de vaidades soltas, cacarecos da ansiedade, das dores atrozes do desespero, de amanhã, de horas desejadas de ambições perdidas. Eles, muitos, bichos de lata e cavaleiros da solidão.

Isso bem dos tempos quando as amarras dos navios começavam a virar fiapos de lã num mar de vícios. E as luzes do alvorecer pedem mais sinceridade às criaturas, estas peças de reposição do destino cheias de certezas artificiais e cicatrizes de combates que nunca aconteceram dentro de si. Apenas saltimbancos doutros filmes jogados à lama dos séculos, à lata de lixo da história. Neles, que as esperanças viraram feras sem dentes e lâminas de papel toalha. Quase isso, de alimentar o firmamento de seres destinados a outros planetas vindos bem de longe, certo dia, à cata dos seus habitantes.

Fôssemos recorrer aos sonhos da ficção, diríamos só que já atravessamos o lodaçal dos resultados aqui plantados no decorrer das civilizações, conquanto aguardamos nova fase de alegria e uma coletividade fraterna, fruto do que até agora aprendemos a ferro e fogo. Nada, porém, foi para sempre, se assim o será nalgum momento perante as ilusões de um chão de tanta fantasia. Há que haver, por isto, solo fértil de verdades absolutas, oportunidades da visão plena e dos valores eternos, que persistem acesos em nossos corações.

NESTES TEMPOS DE DOR E PERPLEXIDADE PELA PANDEMIA DO VÍRUS CHINÊS

 Em meio à mediocridade – com raríssimas exceções – dos políticos brasileiros, leiam abaixo a mensagem do Príncipe Dom Luiz de Orleans e Bragança – este sim, um verdadeiro estadista! São palavras elevadas, frutos do equilíbrio, sensatez, serenidade e sensibilidade de Dom Luiz.. 


MENSAGEM DO CHEFE DA CASA IMPERIAL DO BRASIL


    Meus muito caros brasileiros,

    No dia 1º de abril de 2020, quando os graves efeitos da pandemia do novo coronavírus apenas começavam a ser sentidos em nosso País, julguei ser de meu dever, como Chefe da Casa Imperial do Brasil, dirigir-lhes palavras de Fé, esperança e caridade. Passado um ano desde aquela comunicação, acredito ser oportuno revisitar os pontos ali levantados, à luz da experiência obtida desde então.

    Com profunda consternação, quero, antes de tudo, lamentar a perda irreparável de 321.515 vidas colhidas neste período no Brasil, segundo dados oficiais do Ministério da Saúde. Rogo a Deus Nosso Senhor, por intermédio da Santíssima Virgem, pelo eterno repouso dessas almas, e ofereço orações e solidariedade, em meu próprio nome e em nome de toda a Família Imperial, às famílias enlutadas e àqueles que vêm sofrendo, direta ou indiretamente, em função da crise sanitária.

    De outra parte, não posso deixar de comemorar o fato de mais de 11 milhões de nossos compatrícios – dentre os quais alguns de meus próprios irmãos, cunhadas e sobrinhos – terem superado a moléstia. Apesar dos problemas e das dificuldades por todos nós bem conhecidos, pode-se afirmar que o Brasil tem enfrentado esta verdadeira guerra, travada não em trincheiras, mas sim em leitos hospitalares, da qual pelo favor de Deus, e pelo valor de seus filhos, há de sair vitorioso.

    Neste sentido, devemos louvar o devotamento incansável de nossos cientistas, médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde que, com não pequeno risco para suas próprias vidas, têm se empenhado no combate e tratamento da doença; o trabalho e o sacrifício desses profissionais – assim como os dos chamados “trabalhadores essenciais”, que, a bem dizer, mantêm o País funcionando durante a calamidade – será sempre digno de toda a nossa admiração e reconhecimento.

    Convencido como estou de que o fim do flagelo não tardará, conclamo as Autoridades Constituídas em nível federal, estadual e municipal a deixarem de lado quaisquer discordâncias políticas e cooperarem, segundo suas legítimas atribuições, neste já dolorido esforço em prol da saúde do povo brasileiro. Recomendo-lhes ainda olhar com particular atenção a aflição de médios e pequenos empresários, profissionais liberais, autônomos, bem como os trabalhadores em geral e suas famílias, duramente atingidos pela crise econômica resultante da pandemia; o Brasil é lar de uma gente generosa, laboriosa e inovadora, que saberá superar mais esta crise, fazendo uso dos recursos com os quais nos dotou largamente a Divina Providência.

    Agora, uma vez mais, como católico, sinto ser necessário externar minha angústia ante a nova ameaça de fechamento das portas das Igrejas do Deus único e verdadeiro, privando tantos e tantos brasileiros de receberem os Sacramentos da Confissão e da Sagrada Comunhão e, mais grave ainda, levando muitos a falecer sem a Unção dos Enfermos.

    A prática da Religião é fator preponderante para a saúde psíquica de um povo, de modo que renovo aqui o meu respeitoso apelo aos membros do Clero para que – neste momento em que, com razão, preocupamo-nos com a saúde do corpo – não deixem de cuidar da saúde das almas e da salvação eterna de nossos irmãos, como tantos Santos o fizeram por ocasião das pestes que assolaram as nações no passado. E inspirado na Fé que moveu aqueles Santos, animou os mártires e ergueu a Civilização Cristã, convido todos à oração e à penitência.

    Por fim, dirigindo-me de modo particular aos sempre leais monarquistas, quero agradecer-lhes pelo exemplo de amor acendrado à Pátria, de solidariedade e de busca do bem comum que souberam dar ao longo do último ano.

    Na cuidadosa observância das necessárias medidas de resguardo, tem sido possível realizarmos pequenas reuniões, com número limitado de atendentes. Contudo, permanece minha orientação para que, por ora, Encontros Monárquicos e reuniões correlatas de maior porte permaneçam sendo realizados sob o formato de videoconferência, deixando que o uso sadio da tecnologia moderna transponha as vastidões geográficas de nosso rico País de dimensões continentais. Tanto quanto for possível, não faltará a essas beneficiosas conferências o concurso de meus imediatos herdeiros dinásticos, os irmãos Dom Bertrand e Dom Antônio e os jovens sobrinhos Dom Rafael e Dona Maria Gabriela.

Tenhamos em mente que o impedimento é momentâneo, e que muito em breve poderemos comemorar, todos juntos, o Bicentenário da Independência do Brasil, em 2022.

    Encerro esta comunicação da mesma forma que fiz há um ano: rogando a Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil, que leve consolo às famílias enlutadas, alento aos enfermos e que abençoe e proteja esta Terra de Santa Cruz, a Ela consagrada por meu tetravô, o Imperador Dom Pedro I, por ocasião do Grito do Ipiranga.

São Paulo, 1º de abril de 2021.

Dom Luiz de Orleans e Bragança

Chefe da Casa Imperial do Brasil




05 abril 2021

A lenda da Pedra da Batateira - Por: Emerson Monteiro


Eis o título do livro de Fátima Teles, que traz por subtítulo Uma história do Cariri, há pouco lançado, contendo ilustrações de João Alves, numa confecção gráfica da Premius Editora, de Fortaleza CE, 2020. Obra de cunho etnográfico, aborda em detalhes o mito maior da região do Cariri cearense, narrativa esta por demais conhecida, segundo a tradição, fruto dos tempos da colonização portuguesa. A autora desenvolve o tema distendendo sua narrativa em estilo prosaico e cordial, qual de uma avó, Dona Maricotinha, que conta aos netos esses feitos de quando os índios foram daqui expulsos de suas terras em nome do progresso e da civilização europeia. Resultado disso, esses tempos de agora e suas características profanas industriais.

A autora, no entanto, distende sua proposta a eras mais remotas, tratando do período Cretáceo, que bem caracteriza esta parte de mundo da Era Mesozóica, de quando surgiram as flores na Terra, enfocando, com isso, detalhes da nossa paleontologia regional, exaustivamente estudada, que marca presença nos anais acadêmicos. Vê, em paralelo, o aspecto ecológico conservacionista, por sermos detentores da primeira floresta nacional do Brasil, a Floresta Nacional do Araripe.

Assim, ao momento em que a escritora Maria de Fátima Araújo Teles, neta do emérito educador de Brejo Santo, Professor José Teles, nos conduz pelo universo da cultura original do povo e suas lendas, a publicação evidencia o talento de João Alves de Queiroz Neto, jovem desenhista que revela talento e criatividade neste livro que mereceu a revisão de Cleide Souza Teles, equipe esta que vem, com esta obra, enriquecer nossos acervos e aprofundar os conhecimentos de tradição rica e surpreendente, patrimônio, agora, também das novas gerações.

04 abril 2021

Aos olhos da noite - Por: Emerson Monteiro


Desde quando, lá adiante no céu do poente, o Sol esquece um dos lados da serra, nesse exato momento nasceu a noite, manto de negrume desenhado de estrelas. Bem ali, nas dobras do silêncio da natureza, outra realidade principia. Assim também nas pessoas, exames mais profundos da condição humana arma laços de busca lá dentro. Quais reflexos de si mesmos, caçam mistérios e respostas aos enigmas na Criação que vivem nas entranhas desses mundos que o somos. Saber de nós, das sombras que envolvem a compreensão de tudo, querer conhecer do que nos resta. Desvendar as histórias que acontecem e quase nem as dominamos. Pedaços de pessoas largadas no extremo de todo dia. As graves perguntas dessa existência que vêm mais fortes nessa hora.

Espécie de fantasmas da própria consciência, esses hominídeos vagueiam nas sombras à cata de reaver o que o dia os levou a deixar vidas que se consomem no furor do tempo. Fitam o vazio da compreensão e querem descobrir a que vieram, tais escravos de senhores esquecidos nas sombras que chegam.

A humanidade atravessa, pois, tempos tais, de tantas e largas indagações, porém certezas desconhecidas que lhes escapam à fome de saber. Marcas e filamentos dos lençóis esquisitos que os dominam, feitos fragmentos inúteis, lançados ao solo nas sementes e criaturas numa velocidade inevitável, nessa fase da história.

Qual manto de severa culpa, movem as estatísticas os números dos que se foram, aumentando inexplicavelmente novas perguntas, preenchendo o teto das condições deste chão. Vorazes senhores da transformação dos seres em objetos, seguem seu curso independente da ciência desses homens. Ninguém quer sumir de repente, no entanto aumentam os números ausentes, numa fase que já demora passar. De tão distantes e tão perto, a escuridão desses dias lembra as sombras noturnas que invadem a Terra, e os homens fixam no horizonte a sede do desejo de uma vida longa, saudável.

(Ilustração: Noite estrelada, de Vincent van Gogh).

O poder infinito da oração - Por: Emerson Monteiro


Pouco antes de sua morte, o Rabi Haim disse a um visitante: - Contasse eu nove amigos fiéis, com cujos corações o meu batesse em uníssono, cada um de nós meteria um pão na sacola e sairíamos juntos para o campo, e juntos andaríamos juntos pelo campo, e oraríamos e oraríamos até que a oração fosse ouvida e viesse a redenção.
Martin Buber (Histórias do Rabi)

Há alguns que oram dentro de tamanha convicção que as portas do Infinito se abrem e deixam passar a contrição. O fervor dos corações em plena coincidência daquilo a que oram e propicia o reviver as certezas e transformar o instante no que de melhor pedem os fiéis na força da convicção do Absoluto.

A oração qual fonte que vem dos que reconhecem a presença de Deus nos indícios do poder sem limites da Verdade. Abrem de si a leveza da emoção superior e deixam nascer a possiblidade de partilhar a força do mistério tenebroso na imensidão da vontade pura. Orar, que possibilita os meios reais de encontrar a própria essência do ser.

Daí o valor inestimável da prece com toda a intensidade da alma. Buscar uma forma de encontrar a resposta adequada aos nossos pensamentos de conforto. Fazer valer a fé em ação nos refolhos da consciência e chegar mais além das limitações do pensamento. Viver de dentro a experiência de falar com Deus. Circunscrever a vivência de guardar na certeza a glória infinita do Amor. Viver, afinal, o que de melhor possa, no sentido de responder ao vazio que, por vezes, quer tomar de conta dos dias escuros e trilhar as respostas que correspondam à conformação, e tranquilizar crises, situações inesperadas.

Uma forma de responder ao senso das fragilidades humanas. Sonhar com o impossível em termos de convicção e fervor.

(Ilustração: Angelus, de Jean-François Millet).



Os Dias Grandes – por José Luís Lira (*)

 

     Logo na sexta-feira que antecede a Semana Santa nós entrávamos no clima da Paixão de Cristo. A imagem de Jesus carregando a cruz percorrendo as principais ruas e o encontro d’Ele com Maria, sua mãe, Nossa Senhora das Dores, nos emociona(va) profundamente. Quando morávamos no sítio, sábado era dia de ir à cidade comprar os mantimentos para os Dias Grandes, sem esquecer-se de trazer um pouco a mais para doar aos que vinham pedir “esmolas” para o jejuar. Ainda no sábado à tarde, acompanhávamos nosso pai para a retirada do melhor “olho” de palmeira para o Domingo de Ramos, quando íamos à Missa vespertina e voltávamos para casa contritos, pois, os dias seguintes seriam de profunda reflexão. De início, não lembro bem, penso que o feriado se estendia por toda a semana. Assistíamos na TV, em preto e branco, a Paixão de Cristo, em vários episódios. Como no sítio só tinha TV lá em casa, os vizinhos acorriam e esta era posta do lado de fora, quando não chovia. Nossos vizinhos, parentes, amigos e nós mesmos, nos emocionávamos. 

     Com o passar do tempo, o feriado foi se resumindo. Só a partir da quarta-feira de trevas, data que lembra a traição de Judas e a entrega de Jesus aos seus carrascos, era feriado. Depois, o feriado se dava a partir quinta-feira santa, data importantíssima para os cristãos e, especialmente, para os cristãos-católicos: celebração do lava-pés, instituição do sacerdócio e da Eucaristia. Atualmente o feriado é sexta-feira da Paixão. Mas, no íntimo continuo achando que a semana toda é santa. São os dias mais importantes para a nossa fé cristã. Temos um vínculo deles com o Natal, pois, o Deus que se fez menino terno naquela festa, após sofrer horrores, por amor a nós, ressuscita/renasce triunfalmente.

     A mim, no ambiente familiar, sinto o mesmo clima em relação àqueles sagrados ritos e a o preparo para os Dias Grandes. Esta semana o papai, atento, se preocupava em comprar queijo, em saber se o feijão “novo” plantado lá no sítio estará bom na Semana Santa. A mamãe lembrava que sexta-feira de Passos não comeríamos carne e parecia que o tempo voltara. O clima de Semana Santa, como antigamente, se renovou. A exemplo do ano passado, essa Semana Santa é atípica. Assistimos à Missa de Ramos pela TV, no Sítio Monte Alegre. Os outros ritos sagrados também. E a mesa com tantos convivas não teve espaço este ano. É momento de reflexão e de pedir a Deus o fim da pandemia.

     As celebrações desde mais de um ano, me fazem recordar poema do amigo Dr. Ronaldo Frigini, “Templo vazio”, escrito ano passado: “Eu vi, Senhor/ Os bancos de teu Templo vazios/ Todos os teus não estavam neles/ Mas Tu estavas lá.// Eu vi Senhor/ O teu ungido a dignificar-Te/ E proclamar a Tua palavra/ Por que Tu estavas lá... Eu percebi Senhor/ Que embora estejamos cada um no escondido/ Tu nos dás força e coragem/ Para, no tempo que é Teu, podermos voltar para lá”.

       Participamos de celebrações, rezamos em família, jejuamos na sexta-feira santa e cantaremos Aleluia neste Sábado Santo, em preparo à Páscoa, pois, o Senhor Ressurgido da morte sobre nós derrama bênçãos, tudo assistido em casa. Emocionados, renovamos a sempre esperança de que a Páscoa do Senhor nos traga o fim da pandemia e a paz que aspiramos!

    Feliz Páscoa do Senhor Jesus!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.


31 março 2021

Padre Pedro Inácio Ribeiro, outro santo do Cariri – por: Armando Lopes Rafael

 

Lembrança distribuída na missa de 7º Dia do falecimento do Padre Pedro Ribeiro

    Existe na cidade de Brejo Santo um pequeno memorial em homenagem ao Padre Pedro Inácio Ribeiro – onde estão expostos objetos de uso pessoal deste sacerdote –vigário daquela cidade durante exatos 33 anos. Padre Pedro Ribeiro morreu com fama de santidade e muitas pessoas asseguram ter obtido graças por sua intercessão.

    Nascido em Missão Velha, em 19 de maio de 1902, Pedro Inácio passou sua infância e juventude na cidade de Crato. Sentindo inclinação para o sacerdócio estudou no Seminário São José de Crato e no Seminário da Prainha, em Fortaleza, vindo a ser ordenado sacerdote no dia 17 de abril de 1927, na Catedral de Nossa Senhora da Penha de Crato, pelo primeiro bispo da diocese, Dom Quintino. Em 1º de janeiro de 1930 assumiu a Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, de Brejo Santo, onde permaneceu até a data do seu falecimento, ocorrido em 3 de janeiro de 1973. Em Brejo Santo seu sacerdócio não foi vivido mediante obras especiais ou de caráter extraordinário, mas sim na fidelidade cotidiana do exercício do ministério que abraçou. Reside aí, provavelmente, a dimensão da santidade sacerdotal atribuída ao Padre Pedro Ribeiro.

   Na verdade, ele viveu seu sacerdócio na consistência do amor a Cristo e a sua Igreja; no amor aos pobres e necessitados; na compaixão pelas almas desviadas e no amor pela pregação do Evangelho de Jesus Cristo. Aliado a tudo isso, a simplicidade, mansidão e humildade de que era dotado o Padre Pedro Ribeiro contribuíram para ele conquistar o afeto de adultos e crianças. Todos em Brejo Santo tinham carinho por seu pastor.

    O trabalho missionário de Padre Pedro não foi feito somente no município de Brejo Santo. Durante alguns anos ele deu assistência ao povo da cidade e da zona rural de Porteiras, conforme atesta o historiador Napoleão Tavares Neves, no texto “O Padre Pedro que conheci”, escrito a partir da leitura feita por ele do opúsculo “O Santo do Sertão–Uma biografia”, publicado pela Fundação Memorial Padre Pedro Inácio Ribeiro, de Brejo Santo.

    Segundo Maria Santana Leite – na monografia “Pequena História da Paróquia de Brejo Santo”: “O Padre Pedro foi sempre um pai espiritual para todos os paroquianos. Estava sempre preocupado com os agricultores sofridos, especialmente na época da seca, quando as famílias pobres da zona rural passavam necessidades. Era um entusiasta com a catequese das crianças a quem dedicava um carinho todo especial, participando das aulas de catecismo, levando-as a passear em momentos de lazer, promovendo brincadeiras, além de distribuir moedas e pequenos brindes à criançada.

“Evangelizou mais com seu desprendimento das coisas materiais, sua vida de oração, adoração e contemplação; pelo seu testemunho de vida, do que mesmo pelas pregações, embora nunca deixasse de fazer as homilias por mais simples que fosse. A tônica de suas pregações era sempre o amor, a partilha, a vida de santidade. Sua metodologia era a do perdão. Pregava um Deus Pai amoroso, misericordioso. Nunca julgava nem condenava ninguém, pelo contrário incentivava e conduzia à conversão.

“Além do Sagrado Coração de Jesus, era devotíssimo de Maria Santíssima, de Santa Teresinha do Menino Jesus e de São Geraldo”. Nos últimos quinze anos de sua vida, Padre Pedro Inácio Ribeiro foi acometido de forte reumatismo que o deixou paralítico. Nos tempos finais perdeu também a visão. Nunca reclamou de nenhuma dessas provações. Ele foi, enfim, um sacerdote bom, piedoso e santo, que fez um bem imenso aos seus paroquianos.


29 março 2021

8 de março: há 213 anos a Família Real Portuguesa desembarcava no Rio de Janeiro – por Armando Lopes Rafael (1ª Parte)

   A transmigração da Família Real Portuguesa para o Brasil foi iniciada em 29 de novembro 1807, data do embarque da comitiva, com um séquito de mais de onze mil pessoas. Essa comitiva aportou em Salvador, na Bahia, no dia 22 de janeiro de 1808, Ali demorou-se cerca de um mês rumando para o Rio de Janeiro, aonde desembarcou 8 de março do mesmo ano.

    Conquanto o motivo imediato dessa transferência fosse a invasão de Portugal pelas tropas de Napoleão Bonaparte – que vinha com o plano de extinguir a dinastia dos Bragança e dividir as terras de Portugal, e de suas colônias, entre a França e a Espanha – o plano de deslocar a corte portuguesa para o Brasil era uma ideia bem antiga. A primeira vez que se cogitou nesse plano foi entre 1640 e 1668, durante a guerra de independência de Portugal contra a Espanha. Registram os historiadores que, àquela época, o famoso Padre Antônio Vieira sugeriu ao Rei Dom João IV a transferência da sede do reino português para o Brasil, com o objetivo de aqui fundar o Quinto Império – um reino católico e português – que seria o substituto do Império Romano como líder do mundo.

     Já no século XVIII, em 1731, o diplomata e político Dom Luís da Cunha sugeriu, em suas Instruções Políticas, que Portugal estabelecesse sua corte no Brasil e, a partir do continente americano, refundasse sua monarquia com o título de Império do Ocidente. Ainda no século XVIII – entre 1761 e 1763 – diante da ameaça de uma invasão franco-espanhola ao solo lusitano, o Marquês de Pombal chegou a determinar a formação de uma esquadra para levar ao Brasil o Rei Dom José I e sua corte.

Os benefícios da vinda da Família Real Portuguesa para o Brasil – por Armando Lopes Rafael (2ª Parte)

      O jornalista Laurentino Gomes – autor do livro 1808 – em artigo sob o título “O ano em que o Brasil foi inventado” (in revista Aventura da História, edição 54, janeiro de 2008) afirmou peremptoriamente:

“O Brasil foi descoberto em 1500, mas inventado como país em 1808. Nenhum outro período da história brasileira testemunhou mudanças tão profundas, decisivas e aceleradas quanto os 13 anos em que a corte portuguesa permaneceu no Rio de Janeiro. Num espaço de apenas uma década e meia, o Brasil deixou de ser uma colônia proibida, atrasada e ignorante para se tornar um país independente. Portanto, o que se comemora em 2008 não são apenas os 200 anos da chegada da corte ao Rio de Janeiro. O próprio Brasil está fazendo aniversário”.

    É verdade. Tudo mudou com a chegada do príncipe-regente ao Brasil. Na escala em Salvador – aonde chegou em 22 de janeiro de 1808 tendo ali permanecido por quase um mês – a primeira medida de Dom João foi a abertura dos portos da colônia às nações amigas. Quebrava-se, assim, o monopólio do comércio com Portugal. Ainda em Salvador, Dom João VI criou o ensino da medicina no Brasil, com a fundação da primeira Escola Médica do país. Concedeu licença para construção de duas fábricas, uma de vidro e outra de pólvora, além de ordenar a feitura do plano de defesa daquela cidade.

     Já no Rio de Janeiro, Dom João consolidou aquela cidade como o centro de decisão da colônia. Editou o regulamento da Administração Geral dos Correios, criou as Escolas de Medicina e a Superior de Técnicas Agrícolas; um laboratório de estudos e análises químicas; as Academias: Real Militar (que incluía cursos de Mineração e Engenharia Civil) e a de Guardas-Marinha. Ali, o príncipe regente revogou um alvará que proibia a fabricação de qualquer produto no Brasil. Surgiram, então, as primeiras indústrias brasileiras: a fábrica de ferro, em Congonhas do Campo, moinhos de trigo, fábricas de tecidos, cordas, pólvora e barcos. 

    Dom João criou ainda: o Supremo Conselho Militar, a Intendência Geral da Polícia, o Erário Régio, o Conselho da Fazenda, o Corpo da Guarda Real e o Tribunal da Mesa do Desembargo do Paço e da Consciência e Ordens, ou seja, o Judiciário Independente do Brasil. Posteriormente, o príncipe regente criou o Banco do Brasil e várias instituições culturais, como a Biblioteca Nacional, o Jardim Botânico, o Real Gabinete Português de Leitura, o Teatro São João, o primeiro jornal impresso no Brasil (a Gazeta do Rio de Janeiro), a Imprensa Nacional, o Museu Nacional, a Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios.

     No entanto, o maior de todos os benefícios prestados por Dom João VI ao Brasil foi, sem nenhuma dúvida, a manutenção da integridade territorial do nosso país. Não fora ele, nosso país continental tinha sido dividido em 4 ou 5 republiquetas, semelhantes as existentes na América Central.

Conhecendo a herança arquitetônica do Império do Brasil – por Matheus Meirelles Marquetti.

O Paço Imperial

        A Família Imperial Brasileira residia no Palácio São Cristóvão (prédio que foi destruindo por incêndio em setembro de 2018), localizado na Quinta da Boa Vista, no Bairro Imperial de São Cristóvão, Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro.

         Entretanto, no Centro do Rio de Janeiro, na hoje denominada Praça XV, existia (e continua existindo) o chamado “Paço Imperial”, antigo gabinete de despachos das autoridades do Império. O Paço Imperial foi construído em 1743 para ser a residência oficial dos Governadores da Capitania do Rio de Janeiro, e posteriormente, serviu como residência dos Vice-reis do Estado do Brasil. Com a chegada da Família Real, em 1808, passou a ser a residência provisória de Dom João VI. Com sua mudança para São Cristóvão, e, posteriormente, serviu como gabinete de despachos até 1889.

         O Paço foi o local de vários acontecimentos históricos, podemos citar:
         - A Aclamação de Dom João VI como rei do Reino Unido de Portugal, Brasil e    Algarves (1816).
         - O "Dia do Fico" (1822).
         - Comemorações das coroações de Dom Pedro I e Dom Pedro II (1822 e 1841).
         - Assinatura da Lei Áurea pela Princesa-regente Dona Isabel (1888).


          Vale lembrar que em 1889, o Paço foi sitiado pelas Tropas de Deodoro que prenderam o Primeiro-ministro Visconde de Ouro Preto. E depois, a família imperial ficou detida nesse Paço Imperial, até sua partida forçada para o exílio, que durou 56 longos anos.



28 março 2021

Em tudo há duas rédeas - Por: Emerson Monteiro


As circunstâncias e as escolhas, duas rédeas do destino, chegam às nossas mãos. Em tudo tais alternativas reclamam das nossas atitudes e providências. Ninguém se ache isento de resolver qual dos caminhos seguir senão o das próprias escolhas, marcas definitivas do nosso êxito. Somos quais autores/diretores das nossas histórias, criaturas privilegiadas no âmbito da natureza, senhores da semente que houver de plantar. Circunstâncias e escolhas, a realidade e seus protagonistas, cocredores do Universo em eterno movimento.

Muitas vezes, na correnteza das situações, chegam os meios às posições que temos de escolher, e quais plantadores, lá adiante adquiriremos o produto da lavoura que o tempo germinou com inevitável facilidade. Nisso, de comum, talvez por falta de conhecimento, quantos e quantos deixam de considerar os frutos justos das suas plantações, sofrendo horrores da inconformação, no entanto herdeiros inquestionáveis dessa justiça maior que dominar o Cosmos.

A ninguém, por isso, ignorar o desconhecimento da Lei, face à lente da consciência, voz geral em todos os humanos, que indica a presença dos dias e mostra os frutos das escolhas. Ainda que desfrutemos, pois, dos maiores benefícios das chances que tivermos na mão, cuidemos, carinhosamente, de acertar nos critérios de reciprocidade, e querer aos outros o que queremos a nós mesmos, norma essencial da lei que tudo rege.

Horas sem conta, a compreensão desses conceitos passa pelos nossos praticados, justos arqueiros das setas que disparamos. Claro que, no fervor das ocasiões, nem sempre adotamos as medidas de melhor convenientes, porém novas e verazes circunstâncias representam a existência, matéria prima da escola onde aqui aprendemos viver.

Consequência de vícios e virtudes, assim a vida segue, nos âmbitos coletivo e particular, cavaleiros que significamos desse plano daqui do Chão. Parceiros dos resultados, usufruímos as bênçãos plantadas e aprimoramos ossos dias mágicos da felicidade e da paz.

Alguém lembrou?... Hoje é domingo de Ramos

 Príncipe Dom Bertrand: "Pelo Sagrado Direito de celebrar a Semana Santa

    Na última segunda-feira, dia 22 de março, o Príncipe Imperial do Brasil, Dom Bertrand de Orleans e Bragança, teve a grata satisfação de participar de uma discussão promovida pelo benemérito Centro Dom Bosco, do Rio de Janeiro, em defesa do sagrado direito de celebramos a Semana Santa, que se inicia neste domingo, dia 28 de março, com o Domingo de Ramos, em rememoração da Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. 

     Devido a esta já longa e deplorável emergência, em todo o Brasil parece não haver um consenso se se deve fechar ou não o comércio e permitir ou não a circulação de pessoas em determinados horários, ou quais serviços são essenciais ou não. Contudo, paralelamente a essas discussões, coloca-se outro grave problema: pode um Governador, um Prefeito ou mesmo um Bispo suprimir aquela que é a mais importante celebração do calendário da Santa Igreja?


Imperatriz Dona Thereza Christina– A Mãe dos Brasileiros

 

   A Imperatriz Dona Thereza Christina se adaptou rapidamente ao Brasil. Seu completo alheamento em relação à política, sua generosidade para com os necessitados, seu sorriso terno e bondoso e o trato sempre amável ganharam a admiração de nosso povo. Sua Majestade se tornou a “Mãe dos Brasileiros”, a senhora mais popular e respeitada em todo o Império.

    Mas para que a auréola de sua esposa não fosse trocada por uma coroa de espinhos, o Imperador Dom Pedro II a aconselhou, com prudência e sabedoria, a limitar-se à sua dupla missão de esposa e mãe, e que nunca atendesse a pedidos de favores de quem quer que fosse, pois para cada pretendente servido, haveria dúzias e centenas de pretensões malogradas.

    A Imperatriz assim procedeu, e sempre que se atreviam a importuná-la com pedidos, sua resposta era:
– Isso é lá com o Imperador.

Fonte: Leopoldo Bibiano Xavier no seu livro “Revivendo o Brasil-Império”. 1ª ed. São Paulo: Artpress, 1991, página 159.

27 março 2021

Especial – Museu Diocesano São José: 70º ano– por José Luís Lira (*)

 


    Falando sobre o Museu Diocesano Dom José, Gustavo Barroso afirmou: “O Museu de Sobral é na realidade o terceiro do Brasil”. Dom José Tupinambá da Frota, primeiro Bispo Diocesano, declarou o Museu Diocesano de Sobral fundado no dia 29/03/1951, quinta-feira após a Páscoa. Dom José teve sua educação para o sacerdócio dividida entre Salvador e Roma. Em Roma, conheceu os dias do pontificado de Pio X e, certamente, espelhou-se nos Museus Vaticanos para criar em sua Diocese um Museu. Para isso não mediu esforços. São muitas as provas disso. E aqui destaco trecho de uma carta de Dom José ao então Vigário de Guaraciaba do Norte, Mons. Antonino Soares, data de 25/11/1951, registrada na folha 87-v do Livro nº. 2, do Tombo Paroquial. Dom José queria acoplar ao acervo do Museu de lâmpada existente na Matriz da cidade serrana então pertencente à nossa Diocese.

    O povo da cidade não aceitou e o bispo, mostrando sua grandeza, diz ao então Pe. Antonino: “... não passou nem sequer de longe pelas minhas cogitações constranger o povo de Guaraciaba e muito menos praticar uma extorsão, porquanto, tudo isto está muito fora dos meus hábitos e da minha dignidade. Com desagradável surpresa soube da celeuma provocada por um cidadão que por meio da amplificadora local concitou o povo a levantar-se contra essa troca. Não era preciso mais do que pedir a V. Revma. que não consentisse nessa operação, e estaria tudo acabado”. Assim com dificuldades e abnegações como a compra, com recursos próprios, de um museu fechado em outro Estado, Dom José constituiu este patrimônio incalculável para Sobral, o Ceará, o Brasil e o mundo.

     A construção que abriga o Museu é datada de 1844, um sobrado, de grande valor arquitetônico, com 57 janelas externas, dispostas ao longo de dois pisos e conserva características do estilo imperial. Dom José o adquiriu ali instalou o Palácio Episcopal. Na escritura de compra e venda, data de 8/01/1934, no 1° Tabelionato Pedro Mendes Carneiro, lemos: “um sobrado à rua Senador Paula, número cento e quatro, conhecido por sobrado do Prolongamento desta cidade. Adquirente: Patrimônio da Diocese de Sobral, legitimamente representado pelo Exmo. e Revmo. Sr. Bispo Diocesano, Dom José Tupinambá da Frota. Transmitentes: João Cavalcante e sua mulher, D. Joaquina Saboya de Albuquerque e Silva”. Nosso primeiro Bispo nele residiu até sua morte, em 25/09/1959. Com sua morte, seu então bispo auxiliar, Dom José Bezerra Coutinho, foi escolhido vigário capitular e se tornou diretor do Museu Diocesano de Sobral, já o denominando de Dom José, em homenagem ao primeiro e grande bispo de Sobral e iniciou o processo de transição de Palácio Episcopal para Museu Diocesano Dom José, visto que se mudou para outra residência, deixando, inicialmente a Cúria que depois foi transferida e o prédio efetivou-se Museu.   

      Os dois bispos que sucederam a Dom José, Dom Motta e Albuquerque e Dom Walfrido Vieira, dirigiram o Museu Diocesano. Na sequência, o Mons. Joaquim Arnóbio de Andrade até 1971, o Mons. Sabino Guimarães Loyola o assumiu, se mantendo no posto até 1978 quando o Pe. Joviniano Loyola Sampaio se tornava diretor e permaneceu na função até 1980; de 1980 a 1990 foi o Mons. Manuel Valdery da Rocha; de 1990 a 1996, a primeira leiga assumiu o Museu, a Professora Minerva Sanford que em 1996 passou a condução do Museu a Professora Giovana Saboya Mont’Alverne que assumiu tendo a Professora Hilce Girão Capote na vice-diretoria e permaneceu por mais de 20 anos na função. A Profa. Giovana permaneceu até 2015 quando assumiu o Professor Antenor Coelho que permaneceu até este 2019 e de 2019 para cá, imerecidamente, estou eu na direção do Museu. Por dever de justiça, destaco a contribuição do Prof. José Teodoro Soares para a última restauração pela qual passou o prédio do Museu e sua manutenção.
    O rito da tradição católica envolveu o ato de minha posse e jurei cumprir o mandato com a mão sobre a Sagrada Escritura, diante do Sr. Bispo Diocesano de Sobral, Dom José Luiz Gomes de Vasconcelos, grande entusiasta e incentivador do Museu, e do Conselho Presbiteral da Diocese de Sobral. Dia seguinte foi a posse diante do Reitor da Universidade Estadual Vale do Acaraú, Prof. Fabianno Carvalho, e da Vice-Reitora, Izabelle Mont’Alverne. A ocorrência de duas posses cumpre o preceituado no convênio entre a Diocese e a UVA. O Museu Diocesano Dom José está vinculado ao Departamento de Patrimônio da Diocese de Sobral, dirigido pelo Pe. Airton Liberato.

     No momento, o prédio do Museu passa por projeto de restauração e reestruturação, realizado pela Prefeitura Municipal de Sobral e Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), por meio do PAC Cidades Históricas e celebramos seus 70 anos nesta Segunda-Feira Santa, dia 29 de março, sem grandes celebrações tanto pela restauração quanto pela pandemia. Mas, com a graça de Deus, neste ano septuagenário a Casa da Sobralidade, o Museu Diocesano Dom José reabrirá as suas portas e vamos celebrar essa grande efeméride, em prédio atualizado às necessidades atuais e livres da pandemia!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.
 

25 março 2021

Às vezes - Por: Emerson Monteiro


Quando menos espero, me pego lembrando pessoas a quem poderia ter feito mais e disso não me apercebi naquele momento; hoje, vêm as cobranças lá de dentro, do que me cabia fazer e, na ocasião; fui desatento, ou insuficiente. Isso pesa um tanto (como pesa), pelos corredores da consciência tais desleixos, por vezes de consequências nada felizes. Enquanto eu, bem ali perto, talvez a pessoa escalada de cumprir tal desiderato, no entanto fora omisso por demais. Lembro alguns desses acontecimentos que fugiram dos meus domínios por comodismo, e sendo a causa da ausência de sentido, naquelas situações. Contudo agora vejo que há sempre um novo amanhecer, outras oportunidades, a depender tão só da disposição e da atenção dos que possam servir no cumprimento do dever.

São estas percepções que fazem da gente criaturas afeitas às missões no serviço dos demais. Esta a dialética entre egoísmo e caridade, palavras adotadas sobremodo nas religiões. Abrir o coração e servir ao próximo qual razão de ser das existências, no exercício da evolução. Abrir o coração ao sentimento de amar, a grandeza maior do Universo.

Toda dedicação corresponde, pois, a respostas iguais e em sentido contrário. Quem faz o bem é a si que o faz. À medida que evoluem, os seres compreendem e agem deste modo. Eis a lição principal da natureza em todo tempo. Linguagem perfeita dos que querem a sonhada felicidade; abrir mão de ganâncias individuais e ver os outros quais instrumentos de nosso crescimento moral, espiritual.

Daí quando, nas vezes em que chegam as lembranças daquelas oportunidades perdidas, sempre peço que retornem de outra forma e anistiem os passados infelizes. A isso, estejamos sempre ligados nas novas chances que venham refazer dos erros antigos e construir a paz da consciência, através de providências que as situações possam requerer. Só sabe o quanto de satisfação tem servir com alegria quem o faz de um jeito desinteressado.

24 março 2021

Tipo assim - Por: Emerson Monteiro

 


A paz do coração, que tantos buscam todo momento, pedra de toque da história das pessoas, eis a necessidade do querer a felicidade, função de viver fundamental, desde sempre. Essência de existir, olhos insistem neste poder, lá um dia, de ter paz, a paz que tantos falam de sobreviver ao gesto de andar e lavar a alma nos trilhos da evolução. A razão de tudo, achar o pouso certo de assim permanecer diante dos dias, vontade por demais soberana que invade o tempo à nossa frente e traz de volta o motivo de tudo quanto há.

Nessa missão de revelar a si o ser verdadeiro que mora em nosso coração, por vezes muda o dia, leva pessoas a exercitar o desespero qual alternativa, porém infundada e, de longe, esquecer do quanto de acerto tem o mundo. Ampliar as normas de sabedoria e praticar novos meios de alimentar o sonho de viver bem, no seio infinito da paz. Usar as técnicas de querer aos outros o que quer a si mesmo. Quem quer paz, invista na paz tudo enquanto...  

Desse jeito, de modificar o instinto em meios de intuição, aprender na experiência e justificar os praticados pela intenção de tratar o mistério com a letra da justiça, gesto simples de fazer e receber o que seja bom. Ir ao lado da própria existência como amigo e ver com a lente da limpeza, ainda que nem tudo já esteja limpo em volta.

O valor da boa música, a harmonia, a melodia, o ritmo, que nos toque a sensibilidade no esforço de crescer durante as horas; trabalhar a existência tal matéria prima de aprimorar a consciência e ser feliz.

Este dia será sempre no agora, forma simples de aceitar as contradições e reparar nos tempos os recursos que se nos oferecem; exercitar a alegria pela alegria, pela saúde, no tribunal de nossa presença. Sei que há desafios, sendo este o principal, de conhecer a nos mesmos e utilizar as teclas ideais das nossas aspirações; poder inigualável, que vive intenso no ato de existir. Tipo assim...

23 março 2021

Horas mil em um tempo de ficção - Por: Emerson Monteiro


A condição de se saber aqui neste chão das almas implica nisso, de sobrevoar a existência e querer dela fugir, qual quem foge da realidade. E nada mais misterioso do que essa realidade fria, artificial, e seus instrumentos de voo, peças soltas no ar das florestas em movimento nas pessoas e nas coisas, módulos e naves que flutuam pelas artérias do destino. Quantos segredos assim são revelados a todo instante. Cores. Formas. Luzes. Pensamentos e sentimentos. Entre eles, duas extremidades inconstantes, corre este rio das evidências, no entanto isolado pelas sombras que as escondem, pessoas que fogem de si e, aflitas, mergulham na imaginação de ser só, ninguém, de atravessar a linha do horizonte e desaparecer lá além, na consciência intocada. Sonhos. Visões. Abstrações. Medo. Ficção.

Módulos, deixados no tempo que agora nem existe mais, fixam raízes na solidão, tais puros saltimbancos de verdades que a eles parecem representar o senso e mesmo assim as evitam, porque representam valores da essência e os transformam nos encapuzados vadios da escuridão, vilões do sol, e nisso adiam até nem poder ao encontro dessas linhas paralelas, pensamentos e sentimentos. Enquanto os primeiros carregam nas tintas de criar ilusões, os segundos amarguram o que poderiam de amar e não deixam isto acontecer, o sentimento maior, a fim de atender aos instintos originais e vencer de tudo os primeiros, titulares perdidos em noites antigas. Uma queda de braços, pois, desses dois personagens, que desejam dominar o ator principal no ser que o somos, no entanto pura criação de sentenciados ao nada desde sempre, e querem a qualquer custo tomar o lugar, fornecendo amores impossíveis nas paixões desenfreadas.

Portanto, há infinitas horas de mergulho nas profundidades desta ficção, no largo período de espera sem fim na casa da humana paciência. Durante o percurso do longo itinerário, nesse esforço de construir inexistências, aqui permanecemos lado a lado com nossos algozes, senhores ainda escravos dos próprios caprichos, na função soberana de aprender a amar os inimigos, meros coadjuvantes de um zigzague febril, experimentos da multidão de prometeus dos rochedos, nas horas mortas. Ali, no íntimo dos céus, riscam distantes estrelas, no coração dos que vivem e confiam.

(Ilustração: Aquiles, o herói por excelência, de Arnóbio Rocha).

Cartas de Juventude - Por: Emerson Monteiro


Em mãos, exemplar do livro Cartas da Juventude, organizado por Assis Sousa Lima, edição da Confraria do Vento, Rio de Janeiro, 2020. São cartas que Assis recebeu de seis amigos, que as preservou com zelo e agora lança numa bem cuidada edição apresentada por Ana Cecília de Sousa Bastos e José Esmeraldo Gonçalves, com o subtítulo: Crônica de época. Recortes autoetnográficos (1968/1977). Autores das cartas: Emerson Monteiro, Eugênio Gomez, Flamínio Araripe, José Esmeraldo Gonçalves, Pedro de Lima e Tiago Araripe.

Obra de referência aos que buscam elementos largados no tempo mas que sobrevivem à sua ação. Cartas entre amigos num período humano de profundas contradições. Eram plena Guerra do Vietnam, rebeliões coletivas de estudantes nas principais cidades europeias, ascensão do rock tal instrumento de contestação, festivais da canção, movimento hippie, Guerra Fria, psicodelismo, regimes de exceção na América Latina e noutros lugares, tropicalismo, em suma, tempos de crise profunda em caráter mundial. Nisto, a expressão desses jovens em vias de elucidar o futuro e resistir aos desafios propostos aos que possuem o senso da criatividade artística, na música, na literatura, artes plásticas e, sobretudo, no afã de descobrir alternativas de sobreviver aos valores materialistas que dominam a sociedade contemporânea.

Nas palavras de Assis Lima: O objetivo não é teorizar sobre o que representam os anos finais da década de sessenta e da década de setenta com relação a costumes, comportamentos e ideologias. Mas sim, de algum modo, revisitar o período com o espelho de hoje. Um fio narrativo atravessa cada personagem. Um plano narrativo maior abarca o conjunto do material apresentado. Depende do ângulo da leitura. Aberto ao leitor.

Dito, pois, qual matéria prima de avaliar em profundidade o que acontecia à época, de dentro dos autores das cartas, o livro traz força de expressão, em estilo confessional, despretensioso, anônimo. São testemunhos de um tempo sombrio, de onde provêm os dias da atualidade.

Enquanto isto, Ana Cecília Bastos considera: Não é possível atravessar sem portas: que este livro – documento vivo de sonhos de liberdade – seja, também hoje, uma afirmação de abrir portas e dissipar sombras.

E José Esmeraldo resume: Este livro alcança a memória e resgata sentimentos íntimos de um grupo de amigos no momento em que, tais quais milhares de outros, faziam suas legítimas escolhas pessoais e profissionais.

Com isto, eis uma produção coletiva de cunho documental, editada décadas depois com esmero, acontecimento digno dos fieis credores das boas letras.