20 maio 2022

A solidão dos que amam - Por: Emerson Monteiro


Às vezes me pergunto a respeito de como vivem os que se dedicam de corpo e alma às ideias religiosas com ânimo de pô-las em prática. Viver de renúncia, bondade, fraternidade, serviço, esperança, fé... Isto em um mundo onde de comum mais prevalecem os interesses individuais, projetos pessoais, intenções de lucro e competitividade... Mesmo assim existem esses exóticos que buscam desenvolver outra compreensão que não seja apenas o materialismo vigente e resolvem ser em vez de apenas ter, e saem vagando, nesse meio tempo, até chegar aos páramos de uma verdadeira espiritualidade.

Andam que andam, persistem nos propósitos que adquirem nas visões, nos estudos da visão interna, pessoal, pela descoberta dos mistérios da consciência. Atravessam contradições e desafios; sustentam as barras do cotidiano quase igual desta civilização; e estudam a história que o tempo registrou, de tanta repetição de conflitos, guerras e conquistas, destruição egoísta de povos e nações. Veem o exercício das funções da humanidade que precisa desenvolver, no entanto até parece que pouco ou nada aprende no exercício justo deste chão de quantas lutas.

Daí nascem os místicos, poetas, visionários, profetas, mártires, a contar dos segredos que aprendem de dentro de si, numa vontade férrea de conquistar meios da tão sonhada felicidade. Há sempre novos e novos missionários dos tempos e das promessas. Seres iguais a nós que desgarram do grupo social e vão arrastando pelos campos um viver de explicar modos outros que permitam desvendar o enigma profundo do desaparecimento de todos pelo sumidouro da morte. Empregam os trunfos da certeza aos meios de revelar trilhos da sonhada transição a planos superiores, ainda que também guardados a sete capas na constituição das gentes.

Isto faz com que, nalgumas ocasiões, os vejamos quais bichos esquisitos, seres surreais, pessoas alienadas, dementadas, sequeladas, cartas fora do baralho, porém de todos a quem podemos dar um crédito de confiança e esperar sinais de boas novas, de que falam os livros sagrados.

(Ilustração: Santo Afonso de Ligório).

(Re)mexendo nos meus alfarrábios – por Armando Lopes Rafael (*)

 A noite que transformaram dona Bárbara de Alencar numa "anã" 

    Na noite de 21 de junho de 2016, data do Município de Crato, o então prefeito Ronaldo Gomes de Matos (“O Fenômeno”, como gostava de ser chamado), inaugurou um “monumento” no calçadão da Praça da Sé. Criticada por ser “pobre de monumentos”, a Cidade de Frei Carlos (não existe nada que lembre o fundador de Crato, sequer uma ruela no chamado bairro "Rabo da Gata")  recebia um “busto” de Bárbara de Alencar, uma figura emblemática no episódio que se convencionou chamar de “desdobramento da Revolução Pernambucana de 1817 na cidade de Crato”.

     Tratava-se, na verdade de um simulacro de monumento. Uma "anã", colocada rente ao chão (pense no nivelamento, que contrariava toda a politica dos monumentos), simbolizava a "heroína dos cratenses". Sinceramente, dona Bárbara merecia ser homenageada com um monumento à altura da sua memória.

     Sobre esse “busto” assim foi noticiado no Blog Plim-plim do Cariri, mantido pelo Sr. André Lacerda: 

     “Inaugurado o busto da heroína Bárbara de Alencar no município do Crato, parece brincadeira, ou alguma criança brincando de argila, me desculpe o artista, mas até agora eu fico imaginando de quem foi a brilhante ideia, se a guerreira estivesse viva, era capaz dela ter um enfarte fulminante, já não bastasse a cara torta e mal feita da santa”. (SIC)

    Passados quase oito anos da introdução daquela “aberração” ainda não se viu um protesto à altura contra aquela coisa horrorosa, capaz de motivar a retirada da “anãzinha” que fere os foros da memória histórica de Crato. Triste!

Sobre a  Revolução Pernambucana de 1817 em Crato:  mito e realidade

     A participação de Crato na Revolução Pernambucana de 1817 tem sido o episódio histórico desta cidade mais exaltado, nos anos "pós–proclamação" da República. Costuma-se dizer que a história é sempre escrita pelos vencedores. Os revolucionários republicanos de 1817 – derrotados pela contrarrevolução do monarquista cratense Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro – passaram a ser exaltados como heróis, após o golpe militar que impôs a forma de governo republicana no Brasil, em 15 de novembro de 1889. Os feitos desses republicanos de 1817, no Cariri cearense, são divulgados em proporções maiores que as reais, tanto nos meios de comunicação, como por parte de alguns historiadores. Do Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro pouco se fala. Quando se escreve sobre o efêmero movimento que foi a Revolução Pernambucana de 1817, em terras do Cariri cearense, omite-se a decisiva participação do Brigadeiro Leandro, ao debelar aquela revolta. Omite-se, também, a coragem pessoal e cívica de Leandro Bezerra Monteiro naquele episódio.

   Aliás, o historiador cratense J. de Figueiredo Filho, apesar de simpático às ideias republicanas foi veraz ao escrever: “Muito se tem discutido em torno da Revolução de 1817, na Vila Real do Crato. Foi movimento efêmero, que durou apenas oito dias. Ocorreu a 3 de maio de 1817, em consonância com a revolução que eclodiu em Pernambuco. Foi abafada, quase ingloriamente, a 11 do mesmo mês. É verdade que a vila bisonha de então não estava suficientemente preparada para a rebelião que, para rebentar, em Recife, necessitara da assimilação de muitas páginas de literatura revolucionária, da luta entre brasileiros e portugueses, em gestação desde a guerra holandesa e do preparo meticuloso, em dezenas de sociedades secretas, além de fatores econômicos múltiplos”. (01)

   Passados 200 anos daquele episódio e analisando de forma objetiva vários escritos e opiniões dos pesquisadores regionais chegamos à conclusão: o que ocorreu no Cariri, em 1817, não foi uma simples disputa entre clãs familiares, como alguns historiadores escreveram no passado. Tratou-se, na verdade, de um confronto de ideias. De um lado, o proselitismo e ações concretas em favor dos ideais revolucionários e republicanos, feitos por membros da ilustre família Alencar, um dos clãs mais importantes do Sul do Ceará. No entanto, o povo não apoiou os Alencares, que lutaram para impor uma ideologia estranha à mentalidade da sociedade caririense de então. Do outro lado, opondo-se a essas ideias republicanas, estava o Coronel das Milícias  Leandro Bezerra Monteiro, um homem dotado de profundas e arraigadas convicções católicas e monarquistas.

   Relembre-se, por oportuno, que a fidelidade à Monarquia, por parte de Leandro Bezerra Monteiro e seu clã, motivou a concessão – partida do Imperador Dom Pedro I – da honraria ao ilustre cratense do primeiro generalato honorário do Exército brasileiro. Àquela época, embora em desuso, o posto de Brigadeiro correspondia – na escala hierárquica do Exército Imperial – à patente de General.

No mais 

    Outro historiador cratense, o Prof. Dr. José Denizard Macedo de Alcântara fez interessante análise sobre a mentalidade vigente na população do Cariri, à época da Revolução Pernambucana de 1817.  A conferir:

    “Um bom entendimento dos fatos exige que se considere a realidade histórica, sem paixões nem preconceitos. Ora, dentre os dados da evolução histórica brasileira há que se ter em conta o seguinte:

a)    a sociedade brasileira plasmou-se, em mais de três séculos, à sombra da monarquia absoluta, com todo o seu cortejo de princípios, hábitos, usos e costumes, não sendo fácil remover das populações esta herança cultural, tão profundamente enraizada no tempo;

b)    daí o apego aos Soberanos, a aversão às manobras revolucionárias que violentavam suas tradições éticas e políticas, os reiterados apelos de manutenção da monarquia absoluta, que aparecem, partidos de Câmaras Municipais – os órgãos públicos mais aproximados das populações – mesmo depois que Pedro I pôs em funcionamento o sistema constitucional de 1826;

c)    o centro de gravidade desta sociedade eminentemente rural era sua aristocracia territorial, única força social de peso na estrutura nacional, repartida em clãs familiares, e profundamente adita ao Rei, de quem recebia posições públicas e milicianas, além de outras benesses, sentimento este que mais se avolumara com a transmigração da Família Real, em 1808, pelo contato mais imediato com a Coroa, bem como pelos benefícios prestados ao Brasil, no Governo do Príncipe Regente;

d)    sendo insignificante a sociedade urbana, era mínima a capacidade de proselitismo da vaga liberal que varria o mundo ocidental, na época, restringindo-se a uma minoria escassa, embora ativa e diligente. (02)

    Donde se conclui que não houve simpatia, nem apoio da sociedade caririense às ideias republicanas da Revolução Pernambucana de 1817, difundidas no Sul do Ceará pelo seminarista, subdiácono José Martiniano de Alencar.


Referências bibliográficas:

(01) FIGUEIREDO FILHO, J. História do Cariri. Vol. I. Edição da Faculdade de Filosofia do Crato, 1964.  p.61
(02) ALCÂNTARA, José Denizard Macedo de. Notas preliminares in Vida do Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro. Secretaria da Cultura, Desporto e Promoção Social do Ceará, Fortaleza, 1978. p.26

 (*) Armando Lopes Rafael é historiador. Sócio do Instituto Cultural do Cariri e Membro–Correspondente da Academia de Letras e Artes Mater Salvatoris, de Salvador (BA).
 


18 maio 2022

No mar do esquecimento - Por: Emerson Monteiro


Tantas vezes são estas cenas que se repetem na vastidão das memórias fieis. Andar pelas ruas e rever pessoas e lugares do pretérito que nunca morreu. As mesmas cenas assim perduram claras no teto infinito da subjetividade. As histórias de antigamente, nos pagos soltos da saudade. Nisto, hoje achei de caminhar um pouco, em face do carro na oficina, e pausei alguns momentos desses de idos tempos, pelas calçadas onde pisava nos cotidianos dalgumas décadas. Até os prédios velhos ganharam alma nova. Outros desapareceram envoltos nos vestígios de construções renovadas e lojas de artesanato dos dias que desgrudam das ausências e sobrevivem aos desejos insaciáveis do abandono.

Ali as pessoas vivem nos pedaços de lembranças semelhantes ao que foram pelos desvãos das consciências adormecidas. O prédio onde ficava minha primeira escola, por exemplo, agrega uma igreja evangélica em formato diferente. As casas revestidas de taipa de antanho, três quase iguais, num repente mudaram aos moldes das argamassas cinzentas, brilhosas. O mais incrível, a força resistente de grudar por dentro feito pedras irreversíveis, tijolos de metais incandescentes, não acaba nunca nos quereres aqui jogados fora.

E sai a caminhar no calor escaldante de um sol do meio-dia, a meio de silêncios e solidão, nos recantos de mim que restou enternecido às folhas dos pergaminhos das horas outras que regressam ao presente que fossem as velhas ruas deste dia, tal existência das criaturas que permanecem gravadas nas lâminas eternas de cada instante, entre aqui e jamais, formas daqueles engenhos de emoção que fervem as rapaduras da memória e as deixam abandonadas no açúcar das ondas deste mar de eternidades.

Via com nitidez pessoas ali naqueles muros onde as deixara largadas no sonho desse filme insistente. Legiões de afetos, fisionomias, sorrisos; um coração ainda pulsando às aproximações, nos caminhos, nas páginas desse conteúdo que agora sou, de velas ao vento na sequência natural de tudo. Que nem de procurar, me resumo longe nos céus nebulosos dos outros dias, este ser único de quem preciso a fim de ouvir os murmúrios, e viver sempre nesta sede perpétua da continuação das espécies.

16 maio 2022

A resistência da vontade - Por: Emerson Monteiro


O querer desde sempre impõe condições. Qual quem obedece a uma força desconhecida, tem-se a nítida impressão que somos comandados por entes até então desconhecidos, neste mar de fenômenos inevitáveis. Depois da prática vem a virtude dos que praticam. O desejo de acertar naquilo que a vontade determina fica aquém dos que a exercitam. Tais blocos de pedras que descem das montanhas, as atitudes crescem na medida em que os resultados sujeitam os que os deram origem à força de tê-los praticado. Algo assim de receber os próprios frutos, porém quase sem compreender a força que impõe a sua produção. Espécies de consequências de si mesmos, seres pensantes vivem no mar das consequências e adormecem debaixo das suas ações.

Nisso a visão de sermos produtos de nossas ações no decorrer de todo tempo. Sermos o que fizemos do que ora somos; seres agidos, antes de seres agentes. Uma matéria prima da individualidade, fazemos do que nos é dado fazer através das nossas escolhas. Então seremos os frutos das escolhas que tivermos feito. A pretensa liberdade vem nesse ritmo, de termos liberdade a fim de acertar, porquanto errar não é liberdade, mas escravidão.

E a vontade corre solta nesse viver a vida que nos é dada. Após escolher, resta receber os resultados. Nem, muitas vezes, sabe-se o que lhe moveu a agir. Seremos, pois, vítimas ou senhores do que fizermos, e não donatários exclusivos das ações.

Daí a importância da vontade férrea no caminho que desejamos nos sujeitar. O plantio é livre, mas a colheita obrigatória. E longe de alegar que desconhecíamos a Lei do Retorno. A facção do bem reporta o merecimento do Bem. São leis da existência durante qualquer época e onde quer que seja. Fazes por ti e os Céus de ajudarão.

Há de se pensar que o materialismo desconhece a realidade maior, invisível, por conta de alimentar ignorância dos reais propósitos de tudo quanto determinam os acontecimentos, no entanto a eles deverá, sem alternativa, obedecer e render graças ao processo em movimento.

14 maio 2022

Padre Cícero, um Bezerra de Menezes

 Abaixo, postagem antiga feita em  de outubro de 2013, pelo historiador Daniel Walker (in memoriam) no Blog Portal de Juazeiro:

Padre Cícero, um Bezerra de Menezes 


   Alguns ancestrais do Pe. Cícero pertenciam à Família Bezerra de Menezes. Quem lê estudos mais aprofundados sobre a biografia de Cícero Romão Baptista, o padre secular que revolucionou a Povoação do Joazeiro, entre 11 de abril de 1872 - quando chega na povoação para residir, na companhia de sua família (a mãe Joaquina Vicência – chamada Dona Quinô, duas irmãs – Mariquinha e Angélica, e uma escrava, Terezinha) e 20 de julho de 1934, quando falece - deve ter encontrado alguns destes registros. As suas tetravó e trisavó paternas, respectivamente, Petronila Bezerra de Menezes e Ana Maria Bezerra de Menezes, filha de Petronila, eram relacionadas por genealogistas como oriundas da contribuição étnica da família, dos troncos existentes entre velhos povoadores da Bahia, de Pernambuco e de Sergipe, especialmente. Contudo, as ressalvas eram feitas, admitindo-se que eventualmente fossem estes ancestrais consanguíneos.

   Levantamentos mais recentes mostram de forma inequívoca, as relações familiares destes avoengos com as mesmas heranças espanholas e portuguesas já referidas para a ancestralidade do Brigadeiro Lndro Bezerra Monteiro. O nono filho do casal Bento Rodrigues Bezerra e Petronilla Velho de Menezes, se não teve uma grande importância no povoamento do Cariri, menor não é o significado de sua descendência, especialmente, para Juazeiro do Norte, pois representou o berço do patriarca da extensa Nação Romeira, o reverendíssimo padre Cícero Romão Baptista . Assim:
1. João Bezerra de Menezes matrimoniou-se com Maria Gomes, e foram os pais de:
2. Petronila Bezerra de Menezes que casou com o Cap. João Carneiro de Morais, e geraram:
3. Ana Maria Bezerra de Menezes, que desposou o Cap. Francisco Gomes de Melo, pais de:
4. José Gomes de Melo, capitão, de cujo enlace com Ana de Farias, tornaram-se pais de:
5. Vicência Gomes de Melo, que uma vez casada com José Ferreira Castão, foram os pais de:
6. Joaquina Vicência Romana (ou Joaquina Ferreira Castão – Dona Quinô), de cujo casamento com Joaquim Romão Baptista Mirabeau, foram os pais de:
7. Padre Cícero Romão Baptista.

   Por conseguinte, o Pe. Cícero Romão Baptista é um Bezerra de Menezes. Neste caso, sem nenhuma dúvida, este parentesco com os povoadores do Sítio Joazeiro se verifica bilateralmente, pelos lados materno e paterno. (Daniel Walker e Renato Casimiro)  

Postado por Daniel Walker às 15:02


13 maio 2022

Acreditar no imponderável - Por: Emerson Monteiro


Quanta distância entre o visível e o inalcançável pelos sentidos da matéria. Nesse espaço imenso ali acontece a evolução do espírito humano. Dali nascem as buscas, filosofias, religiões. O que um de nós percebe torna-se exclusividade individual, porquanto por mais que digamos, descrevamos, resta uma própria presença de quem ouve dentro da vivência pessoal. Nisso o direito inevitável do respeito a ambos, vez ser impossível só duvidar, vez que ninguém é proprietário do outro na sua essência. São muitas as narrativas das descobertas através dos tempos. O materialismo, a seu modo, impõe limite particular a dizer que existe o que possa cruzar a experiência sensória, o que é pouco face ao aspecto abstrato da existência, a subjetividade da experiência humana.

Ainda assim, persiste a necessidade premente do método, larga conquista da Ciência, a impor a demonstração do fenômeno antes de aceitá-lo qual definição de uma verdade conclusiva.

Porém negar, por si só, é insuficiente a provar a impossibilidade, conquanto conhecesse unicamente uma face do poliedro infinito nas normas do Universo. E negar, apenas negar, em minuto algum oferece inviolabilidade aos conhecimentos científicos, também humanos, aferidos através dos mesmos elementos que pretendem contradizer a imponderabilidade.

Ao afirmar seu absoluto desconhecimento (Sei que nada sei), o filósofo Sócrates testemunha     a insuficiência da percepção diante do Tudo magnânimo da Natureza. O puro raciocínio, raiz do pensamento, estabelece bases relativas ao que o ser humano sustenta de certeza perante o Cosmos. Enquanto isto, outros fatores de compreensão existem que propiciam navegação noutras dimensões, às quais se nega foro absoluto face à subjetividade, a percepção através dos sentimentos, das emoções, dos sonhos, visões que pouco requer da participação dos sentidos materiais.

Todavia há quem afirme que se diz o que pensa que está dizendo, e que o outro ouve o que pensa que está ouvindo, deixando, destarte, a percepção definitiva de tudo quanto há, numa margem de profundidade que afirma a clareza das palavras do filósofo grego que citamos, no mundo particular de cada um.

11 maio 2022

Uma embriaguez coletiva e as redes sociais - Por: Emerson Monteiro


Já ouvi que tempo de guerra é tempo de boatos sem conta. Isso nesta hora a mim me parece semelhante. Cada usuário passou a ser uma fonte de notícias. Ninguém quer ficar por baixo e tomem versões, desencontradas ou não, do cotidiano em jogo. Sei mesmo que quase chegamos a um tempo da casa do sem jeito em matéria de notícias bem concatenadas, porquanto a todos foi dado o poder de emitir seus boletins diários numa velocidade cibernética, graças ao avanço imediato da tecnologia. De todos os lados vêm páginas e acontecidos, sempre a corresponder no gosto de quem os administra, espécie de revelação de profissionais da comunicação numa concorrência surda aos anteriores ocupantes das faixas, das colunas e dos canais, febre de revelações jamais vista no âmbito do jornalismo, desde quando surgiram as páginas impressas, agora virtuais. Ninguém que cheque as fontes, qual dizíamos nos passados ainda próximos das redações coletivas.

Quer-se crer mesmo serem sinais dos tempos, de avalanches de apropriação desencontrada dos meios de massa da informação. Órgãos de elevada credibilidade e tradição hoje viraram meros tabloides informáticos, sob a igual concorrência dos emergentes individuais e só há pouco conhecidos. Raros ainda mantêm edições impressas, com retiradas das ruas, bancas, alamedas, e desaguando apenas no salve-se quem puder da mídia contemporânea instantânea dos computadores e celulares (computadores de bolso).

Ao lado disso tudo, o que eram notícias bem investigadas sob o crivo dos jornalistas de plantão ou pesquisadores fervorosos, às vistas dos chefes de redação, virou meros arremedos. A depender dos interesses em jogo, o próprio direito de opinião atual disputa com o passado as suas prerrogativas. Os custos dos recursos em jogo e a distância das bases saturam tribunais e escritórios advocatícios.

A origem noticiosa trocou, pois, de lugar com a paixão desenfreada dos autores das notícias, o que, decerto, dificultará sobremaneira, mais do  que antes, a narrativa histórica deste ciclo de tanta guerra de critérios e pecados à Ética e aos reais valores na busca dos caminhos conscientes da Humanidade.


(Ilustração: R7 Internacional).

10 maio 2022

As tardes assim - Por: Emerson Monteiro


Das que deixam aqui de junto da gente a larga margem de compreender o som cálido das manifestações que acontecem no bojo da imaginação. Tons pálidos de cinza que esvoaçam suavemente pelas gretas do sentimento e revelam a intensidade maior que tem em tudo de um mistério imortal. Qual pulsar dos mecanismos das horas dentro dessas pessoas, persiste o ritmo monótono da existência enquanto mergulha nas ondas o inesperado; velhos guerreiros que regressam aos pousos de todas as batalhas chegam devagar. Uma espécie de ficção olha de frente a cada pessoa e deixa que desista de acreditar nos segredos apenas guardados a sete capas nas florestas da ausência, que aos poucos some pelo abismo da tarde. Algo que tal, sons cavos das longas noites que virão logo depois ali no deslizar frágil dos dias. Tardes definitivas das doces lembranças só agora trazidas ao silêncio das horas que não terminam nunca. Voos de pássaros invisíveis nas estradas que sustentam, pois, esse calor de sol na alma das criaturas humanas, caudal insistente do somatório das inúmeras vidas espalhadas pelo mundo.

Pudessem determinar os próximos passos e jamais reuniriam tamanhas sombras, que descem pouco a pouco nas encostas do poente avermelhado. Ao fechar os olhos desses viajantes, o dia alimenta para sempre as bordas do firmamento nas entranhas do Paraíso. E adormece dentro de si feito senhor da vontade que arrasta o cordão dos séculos afora. Ele, o autor da solidão que transporta no peito as criaturas a quem deu origem, guardião do próprio sonho de que não quer dele desprender as amoladas garras.

Isto de seguir adiante sob o signo dessas alucinações reunidas no tempo e que ainda irão permanecer estiradas nos desejos das luas inevitáveis e novos sóis, e outros apegos. Assim, tais mantos rubros formados nas pequeninas células que sustentam as individualidades, além do que tenhamos de certeza, restam palavras que se sucedem nas malhas da consciência, adormecida na escuridão das noites. Nós, prudentes anônimos das aventuras deste chão, peças do tabuleiro das dúvidas e mestres na Criação em movimento, eis algures os mártires das epopeias que se desfazem na sombra imensa das árvores em volta. Profundos textos das sinfonias das muitas cores, sussurros cálidos aos ouvidos surdos, melodias do Infinito de que somos agora uma pauta no coração do Universo.

09 maio 2022

Clareza e paz na consciência - Por: Emerson Monteiro

 


Com a medida com que medirdes, medir-vos-ão também a vós. Jesus-Cristo

 Das conquistas individuais uma merece destaque, vistos seus frutos diante dos acontecimentos que vivemos a todo instante, qual seja, o mérito de uma consciência tranquila face às nossas atitudes. Nos livros místicos, o que mais guarnece a vida de uma pessoa bem significa o fiel cumprimento dos sentimentos bons nas histórias dos viventes. Face à Justiça maior, que tudo comanda no transcorrer dos acontecimentos, isto aonde quer que seja, obedecer às leis da existência favorece sobremodo a evolução e representa vitória sobre as armadilhas do inesperado.

Porém não poucos insistem ferir as malhas da ordem através dos improvisos e casos pensados, a calcular possam escapar pelos caprichos do que queira fazer quando queira. E nisso a consciência exerce o papel de agente preservador da espécie, a indicar prudência e honestidade aos que avançam o sinal da sorte e ficam assim na linha de tiro dos destinos. A consciência é este filtro balizador constante que alerta os incautos e clareia o caminho.

Ninguém, portanto, que alegue descaso à Natureza, pois ninguém foge das malhas desse instrumento de absoluta perfeição que já carrega consigo bem dentro do íntimo. Que existem os testes sucessivos de aprimoramento isto traspassa o limite da ignorância, e mostra com insistência, aos que precisam, as consequências das ações tresloucadas, impondo condições e preço ao que virá em consequência.

Aqueles que atentam contra a justiça natural, com isto recebem de volta o custo que terá de pagar no regresso ao caminho do qual nunca houvesse abandonado. Tal o mérito infalível das reencarnações, invés das calandras do fogo eterno. Nas vindas das muitas existências aqui na matéria, virão resgates ou recompensas do quanto das práticas exercidas nas vidas. Daí o tanto de exatidão na matemática das gerações, lugar de plantio e colheita neste solo da nossa própria consciência. 

07 maio 2022

Bispo de Crato encontra-se em Roma

  Dom Magnus Henrique Lopes, Bispo Diocesano de Crato, está em Roma, em Visita Ad Limina Apostolorum, que acontecerá de 8 e 15 de maio do corrente ano.

 

Neste domingo, o programa "Fantástico" exibe matéria sobre a Beata Benigna

   Neste domingo, 8 de maio, o Fantástico (@showdavida ) irá contar um pouco mais sobre a história de Benigna Cardoso, beatificada no próximo dia 24 de outubro. 

   A equipe de reportagem esteve em Santana do Cariri, conheceu o local do martírio, o santuário, e conversou com pessoas que conviveram com a “Heroína da Castidade”


 

Na seca do Nordeste, o desvelo do Imperador por seu povo

 

   Quando, em 1877, o Imperador Dom Pedro II retornou ao Brasil, após sua segunda viagem ao Exterior, grandes festejam haviam sido planejados para a sua chegada. Mas a satisfação de retornar ao lar foi diminuída pelas más notícias da Província do Ceará, onde a fome rugia, depois de prolongada seca.

    Dom Pedro II cancelou as celebrações oficias, dizendo que os fundos reservados para tal fim deveriam ser empregados no trabalho de alívio aos flagelados. Apesar dos grandes gastos que tivera na viagem, o Soberano destinou parte de sua dotação para a mesma finalidade.

   Durante uma reunião do Gabinete de Ministros, o Ministro de Estado da Fazenda informou:
– Majestade, não temos mais condições de socorrer o Ceará. Não há mais dinheiro no Tesouro.

   O Imperador então baixou a cabeça por alguns instantes, antes de dizer com firmeza:
– Se não há mais dinheiro, vamos vender as joias da Coroa. Não quero que um só cearense morra de fome por falta de recursos.

Fonte: Xavier, Leopoldo Bibiano. Revivendo o Brasil-Império. 1º ed. São Paulo: Artpress, 1991, pp. 74-75.

Publicado originalmente no site Pró Monarquia

05 maio 2022

A escrita e os sentimentos - Por: Emerson Monteiro


Do jeito de ver a vida tal seja o jeito de escrever. Se com otimismo, alegria, as palavras acompanham tais sentimentos e os transmitem na vontade dos que escrevem. Sem deixar que o estado de espírito circunscreva a escrita é difícil criar um texto que isso não transpire, no ânimo de quem a utiliza. De tal modo a força de escrever tem esse condão de influenciar o leitor e permitir que ache no que lê o alimento que lhe acrescente naquilo que pretenda.

São quantos, são tamanhos os resultados da escrita no decorrer da civilização, que daí nasceram as religiões, filosofias, doutrinas, raízes dos caminhos de quem conduz os grupos. Filões de instrumentos, os textos perpassam turnos da História de modo constante, inclusive nas versões posteriores dos acontecimentos, resultados de quem a conta, a dizer que a história é dos vitoriosos, dos que permanecem no poder após embates de povos e nações.

Há também as angústias dos desesperados que recusam ficar em silêncio. Contam de suas dores, frustrações, seus percalços, desde que possam chegar adiante e relatar dramas e perdições por que houvessem de transcorrer, deixando, assim, a canção dos sofrimentos na forma de poemas, romances, narrativas atiradas aos mares ignotos em busca doutros incertos destinos.

Escrever... Gestos aflitos dos que recusam o vazio da ausência. Vem disso o desejo de preservar a consciência dos tempos na viagem pelas mentes e épocas. Em decorrência da escrita, provêm os outros meios de ir mais longe às pessoas através dos folguedos populares, cinema, teatro, imagens visuais, fotografia, sempre a descrever momentos e plasmar os dias que somem céleres pelo abismo do passado.

A narrativa, por isso, sustenta a memória das gentes e reflete os sentimentos que vivem soltos na imaginação. Este o sonho da Salvação que há de, eternamente, revelar à aventura humana o encontro das palavras e dos pensamentos nas praias do definitivo. 

(Ilustração: William Blake).

04 maio 2022

Viagens pelas cavernas da alma - Por: Emerson Monteiro


Nas circunstâncias dessas daqui do Chão, lugar onde moram as nossas presenças, vive-se entre árvores de pensamentos e palavras, num processo ininterrupto de registrar os pedaços de tempo que escorrem todo momento. Elas, as florestas de acontecimentos, também nos envolvem; julgamos isso constantemente na medida em que trocamos a solidão pelas suas versões individuais no movimento dos dias. Todos, sem qualquer exceção, singram os ares e produzem neles os seus habitantes, crostas de si mesmos. Quanta imprevisão, pois, a todo tempo. Ainda fora de uma visão definitiva, preenchem esse espaço aberto, artesões das histórias imaginárias. Avistam até onde a visão pode chegar e se prendem aos instintos de sobreviver. Assim revelam as dores e os amores deste mundo na carcaça que jogam no lixo.

Quer-se reunir as tais versões individuais através dos documentos escritos, das paisagens fotografadas, dos quadros, filmes, músicas, no entanto estes sendo meros escolhos do que resta bem longe da realidade, daí nascendo outras e novas realidades, fabricadas no vazio das criaturas. A ânsia de não perder o rio dos dias força as multidões a plantar flores nos jardins da humanidade. Nisso, marcas profundas invadem o mistério das histórias e somam ao que antes foram presenças, mas que sumiram no limbo do passado. Espécie de vultos sombrios, lá nas ruas desce o séquito desses que foram e aqui permanecem na memória dos entes vivos.

Ora seres esquisitos, contudo, tocam adiante o fardo das horas em forma de imagens que persistem no solo dessas pessoas iguais que somos. Qual figuração de si mesmos, os humanos tecem o mar das existências com essa mesma linha do que sejam eles e que depois restarão tão só as mãos das outras criaturas que nem existem mais. Daí as melodias desse tempo inesquecível dos animais que pensam e continuam a produzir o Eterno das próprias entranhas, fragmentos extintos de antigas tradições que já desapareceram.

Quando vemos ao nosso lado o reflexo de cada um de nós nas individualidades que nos acompanham, vem isto de saber que nesses outros ali de junto também reviveremos para sempre. E dormiremos em paz no coração das ausências imortais.

02 maio 2022

Quando nascem os sonhos - Por: Emerson Monteiro

 


Tudo são sonhos dormidos ou dormentes!
Cecília Meireles

 Agora, quando a necessidade obriga, todos passam a viver dias de sonhos bons que precisam a fim de orientar os humanos. As horas se desmancham pelos ares e uma fome de novos momentos que sejam felizes cresce no peito das criaturas que ora vivem a gênese disto, de atravessar os dias de angústia e revelar aos sentimentos da vontade extrema de acreditar em novas possibilidades que moram vivas no coração das pessoas e adormeceram sob os escombros dos conflitos doentios da sociedade. Isto acontece, na maioria das vezes, quando impera esse drama das feras de violentar o equilíbrio da espécie, deixando tantos só a imaginar tempos outros dos dias de paz e querer de ser feliz qual vocação da espécie.

Assim nascem os sonhos, lá de dentro das salas escuras dos gabinetes que planejam destruir, em nome da prepotência, os desejos de dominar a riqueza e sucumbir aos instintos de perdição de que são eles responsáveis. Tal agora, quantos viajam nas trilhas misteriosas de alimentar sonhos de amizade, solidariedade humana, auxílio de uns aos outros, face os trâmites das guerras que nunca param, no seio da mesma humanidade da qual fazemos parte. E querer construir a esperança nos que vagam pelos países, sem teto, sem pão, vítimas da truculência deslavada dos bárbaros que sustentam armas construídas com a riqueza das populações em sacrifício.

Agora, nesses turnos de ignorância, o desejo do bem serve de instrumento da revivescência dos séculos em nossas próprias mãos calejadas. Esperar, que deixa de ser um verbo atual. Carecemos de praticar o que aprendemos; revelar todo tempo o que já adquirimos de conhecimento, independente dos quereres injustos dos brutos. Sejamos, por isso, a razão que possa faltar naqueles em quem não mais acreditamos que possam reviver os anseios de todos na face da Terra, à procura das teorias tão propagadas dos dias melhores sem as vivências de fraternidade e progresso. A hora é esta e protagonistas já o somos, longe das sombras que eles são. A ocasião ideal de vislumbrar essa força de que somos dotados eis o atual instante, pois.

 

28 abril 2022

Na jaula dos macacos - Por: Emerson Monteiro


Diante dos sucessivos destemperos dessa época de humanidade contrafeita, onde quando menos termina uma guerra já estão usinando ferro a fim de produzir as armas do próximo conflito, necessidade que parece constante nos animais que ainda somos, hoje achei de lembrar uma historizinha zen, bem aos moldes da sabedoria do Oriente.

Um domador tinha sete macacos presos numa jaula, com os quais oferecia quadros no circo da região. Todo dia, chovesse ou fizesse sol, preparava e oferecia de alimento três doses de castanhas a cada um deles. Duas castanhas pela manhã. Uma no meio do dia. E três ao final da tarde. E desse modo transcorreram dias e dias, com os bichos conformados naquela ração diária, acrescida de mais alguns agrados. Lá certa feita, um deles acho de reclamar que daquele jeito faltasse algum detalhe, que precisava mudar o quanto antes o regime dos fornecimentos, que via naquilo algo a ser cuidado doutro modo, etc., etc. Os demais habitantes da gaiola não perderam tempo e seguiram o protesto dos selvagens da prisão.

Foi um movimento feroz naquela jaula de micos. Uma zoeira. Ninguém mais teria paz na casa do proprietário dos antes passivos e conformados símios. Só faltava quebrarem tudo, sem oferecer qualquer alternativa de acordo que fosse.

Pensa que pensa, e o domador resolveu fazer uma pequena alteração no fornecimento das rações diárias dos prisioneiros.

Daí passou a oferecer, invés de duas castanhas pela manhã, três. Não mexeu na refeição do meio-dia, que seguiu de apenas uma. E ao final da tarde, invés de três, ofereceu duas castanhas.

Com aquilo, os macacos, desconfiados, olharam uns pros outros, sorriram satisfeitos, e a paz voltou a reinar no recinto, todos eles entregues aos seus nenhum afazeres, se coçando e dormindo contentes os dias todos.

Resta imaginar aonde se parece essa história nos acordos coletivos dessa hora pelo mundo inteiro.

27 abril 2022

Os caminhos da História - Por: Emerson Monteiro


São os planos de aperfeiçoamento, tanto individuais quanto coletivos que passam às vistas dos céus. Tudo quanto acontece a todo tempo demonstra o fluir desse rio da História. E nós vivendo dentro dele. Todo passo de cada ser tem de tudo nessa inter-relação inevitável. Uns grudados aos outros. Pedaços do mesmo ser. As sombras que restam disso chamamos de passado. Restos acumulados de frações preenchem, pois, o espaço abstrato das relíquias deixadas pelos séculos. Templos abandonados de seus reis e deuses veem crescer o mato do tempo e serem encobertos de solidão e silêncio. Janelas abertas ao aprendizado, as consciências fustigam meios válidos de sobreviver a qualquer custo. Porém jamais conseguem pagar o suficiente de eternizar o princípio das vidas. Saem assim jogados aos cascalhos e revirados nesse laboratório das transformações. As luzes que restam disso representam a fisionomia transversal das sociedades, dita de Civilização; hoje, bem; amanhã, claudicante. Impérios de paz, no entanto a custo de dores dos que ficaram abaixo da linha da pobreza moral. Longos estios, e vêm guerras de conquistas, as invasões, os martírios. Doses fortes de sacrifício cobram deles, dos homens, o preço de dominar moedas, posses e armamentos. Contudo, a quem reclamar, pedir, implorar, senão as si mesmos, os protagonistas do drama de estar aqui e resistir ao furor dos animais que ainda somos.

Feridas cruéis carregam as sociedades, sempre sob o suor e o sacrifício de gerações inteiras que alimentam o princípio de uma derradeira batalha, quando humanos abandonem a fome do egoísmo e passem a viver os fulgores da certeza mais justa. Verdades inteiras serão atiradas à lama desses ninhos de feras, marcas atrozes que isto signifiquem presenciar o ritmo do rebanho ao porto da Luz. Mesmo sem ter aonde fugir, seremos parte desse todo indivisível. Ninguém que fira fugirá dos próprios ferimentos, porquanto há um só corpo e um só destino comum. O impasse de alimentar os tais dessabores das aves de rapina pede compreensão e sentimento verdadeiro aos quantos aceitem transformar em sonhos as doces felicidades da Esperança e da Paz

26 abril 2022

A força dos acontecimentos - Por: Emerson Monteiro

 


Incrível a força que as coisas parecem ter quando têm que acontecer. Nietszche

 Até parece ser fatalismo, no entanto. Quais raízes de um vegetal, os acontecimentos formam o corpo na sequência deles mesmos. Chegam variáveis de tudo quanto é canto, e criam os resultados. Porquanto, depois de acontecer nem de longe há meios de rever. Instrumentos dos destinos, as normas produzem seus frutos.

Isso de olhar de frente a realidade necessita de um conteúdo interno nas pessoas. Apenas tocar adiante de olhos vendados significa ausência de domínio. Essa fase da nossa humanidade representa pois um tanto de confronto face aos acontecimentos, quem, logo ali, viram pedras. Daí os bloqueios de aceitar o jeito dos resultados. Quantas vezes surgem dores que o tempo impõe a que aproveitemos suas lições. Enquanto isto, a Natureza segue o compasso, livre da participação de outros fatores a não ser o próprio movimento de tudo quanto há. Livre dos insistentes anseios dos humanos, nada deixa de acontecer em tudo quanto é lugar deste Universo.

O modo de aceitar este movimento do tempo implica numa evolução do ser que somos. São as teses de muitos a imperar no meio dos pensamentos nem sempre dóceis. Assim, os indivíduos vagam soltos no meio dos tantos objetos e ideias, e se largam pelo ritmo deste mundo. Alternativa não existe. Viver, portanto, eis o único instrumento de interpretar o que acontece. Aceitar o andar dos momentos, às vistas com o futuro, que passa numa velocidade estonteante, longe do que possamos recolher.

As religiões ensinam a lógica dessas ocorrências, que gravamos na memória e pouco exercemos de verdadeiro. Bem isto, de responder aos desafios numa coerência que prevaleça às ruínas que restam depois do quanto vivemos. Gestos de nossos passos no Infinito desaparecem. A força indomável dos atos da existência fica aqui aos nossos pés, do que fomos, do que somos, nós, autores do depois que não cessa de acontecer.

(Ilustração: Hórus, arte egípcia).

23 abril 2022

Esses deuses que somos nós - Por: Emerson Monteiro


Sois deuses e não o sabeis
. Jesus-Cristo

Em quais dimensões ser isto, deus que somos, eis a equação das existências. Disso falam todos que buscam desvendar o mistério de viver. Uns indicam caminhos, outros exemplificam o jeito de ser. Assim descemos neste rio de continuar rumo ao desconhecido. A cada indivíduo, portanto, cabe responder ao enigma que grita dentro de si com a igual intensidade. Tocamos as paredes da caverna tais cegos no escuro dessa missão de avisar a nós mesmos onde fica o mar. Divagamos pelas humanas contrições e padecemos a síndrome da busca, num afã de dor por vezes mascarado nas ilusões incontidas. Isto é, enganamo-nos de embriaguez com as próprias nuvens que passam quais também passamos.

Luas e luas, fustigamos a sorte em toques alucinados de resolver o que por ele já se acha definido desde sempre que existirá vida. Meros espectros de sonhos imaginários, viajamos nas abas do destino apegados nas formas e objetos, pensamentos e sentimentos, sem, contudo, abrir mão dos blocos de granito das horas que se desfazem. Elas escoam pelo Infinito e ficamos a observar o eco das saudades que repercutem no coração da gente, folhas secas de outras estações adormecidas.

Enquanto isso, nunca deixaremos de ser esses deuses sem o sabermos. Atravessamos o rio da morte quais visagens que sofrem de não conhecer o que existirá logo ali adiante, no transe da imortalidade. Ainda desse modo persistimos tontos de continuar pela Eternidade, a ignorância qu


e apreciamos e que irá a lugar algum. Disso nascem e morrem as crostas que deixamos largadas nos sóis de que viemos. Doces pássaros dessas novas madrugadas, de novo regressaremos ao mesmo ofício de achar, certa feita, o tesouro da luminosa certeza que abandonamos pelas plataformas da ficção. Durante todo tempo, Ele esteve juntinho de nós e não tivemos consciência de reconhecer, isto por Ele somos nós e nós é Ele que o somos.

Trilogia de um aprendiz de passarinho!– por José Luís Lira (*)

     Na antiga Grécia, a trilogia se constituía de poema dramático composto de três tragédias que devem ser representadas juntas. Em pleno século XXI ainda temos trilogias. Não, obrigatoriamente, no estilo grego. Dias antes da Páscoa recebi de presente do poeta Bruno Paulino uma trilogia: “Ofertório de Pássaros” (2019), “Breviário” (2020) e “Salmos para orquestrar silêncios” (2022). Essa trilogia ao invés de tragédia, traz beleza, arte e muito sentimento. Todos os livros são lindamente diagramados, com ilustrações magnificamente antigas que nos remetem, historicamente, ao passado, num momento tão presente.

   Pela argúcia do título comecei pelo Breviário. Logo num dos primeiros poemas li “como nunca aprendi dançar forró/ tornei-me poeta”.  Na sequência encontramos a “árvore sagrada/ o juazeiro...” “verdejante e festivo/ portal d’outro mundo” que “abriga visagens e esconjura demônios”. E falando em geografia o poeta diz: “pra lá,/ pra lá dos ermos/ foi morar minha saudade”. E o poeta que se diz aprendiz de passarinho lembra que os “passarinhos estão cantando/ o sol hoje está brilhoso/ os lírios são para o poeta/ um presente maravilhoso”. E lembrando Vinícius o autor arranca lágrimas do leitor: “quando você morreu/ tive que morrer também/ p’ra vida seguir adiante”... E como isso é real. E para o poeta “as horas não descansam/ o silêncio não dorme”. E heresiando, o poeta se propõe a “tirar Deus lá de cima/ e acordá-lo do seu sono eterno”. Seu poema hagiografia III é tão belo que merece ser citado por completo: “rainha Aparecida/ que emergiu negra/ das águas do rio:/ coroada, liberta/ e imponente// és a única Senhora/ do meu culto”. E no canto final, lembrei-me do Evangelista Amado, João, e de Olinto (menino mineiro que viveu quase nove décadas): “pelo século dos séculos/ a palavra/ alimentará/ o homem// o resto,/ como diz o Eclesiastes:/ será silêncio”.

   Seguindo, fui aos “Salmos para orquestrar silêncios”. Que beleza: “VENI CREATOR SPIRITUS”. Me senti rezando, num alpendre, pois, “o mundo/ acaba/ e nem sempre/ recomeça”; “arrumo gavetas/ incendeio velhas cartas/ escrevo poemas que você não vai ler”. E “meus versos/ sem rima/ - com cervejas -/ desmetrificados”. O leitor sabe que os textos aspeados são de Bruno Paulino e citando-o, mais uma vez: “que descaradamente/ roubei pra te dizer/ o que não sei dizer”. E a aldeia do Poeta cintila e tudo é Quixeramobim: “na estrada: paisagem, pedra/ cemitério, silêncio e soluço”. E num “bilhete”: “rezei para nossa senhora dos poetas/ pedindo que ela me inspirasse”.

   Indo por onde deveria ter começado, cheguei ao “Ofertório de Pássaros”, cheio do “vírus da poesia”. “Madrugada/ o vento sopra lá fora...// ... sozinho em casa/ ouço passos contidos/ e recebo sem medo/ a visita dos meus sonhos mortos”. E “um homem sem tempo/ num tempo sem pássaros/ caminha sozinho”... “entre a boca da noite e a madrugada/ a rua silencia, faz frio, e canta o salmo do homem só”. E rezando à Mãe de Deus: “Mãe Maria/ mãe do céu dos passarinhos/ mãe do crucificado/ fortaleça minha fé/ interceda por mim/ perdoa os meus pecados”. E muitos pássaros são ofertados e o autor viu “o beato iluminado tombar/ e os anjos o carregaram para o céu”.

   Uma trilogia. Excelente leitura.
   Amém!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com 26 livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.


21 abril 2022

Imperador Dom Pedro II -- Considerado um líder arquétipo do Brasil ( por Plinio Corrêa de Oliveira)

Fonte: revista Catolicismo--agosto de 2019

     No tempo de Dom Pedro II, éramos indiscutivelmente um povo em que a organização da família ainda estava viva e pujante, muito de acordo com o modo de ser afetivo do brasileiro. O velho Imperador — respeitável, venerável e bondoso, com cabelos e barbas brancos — foi durante décadas, por assim dizer, “o vovô do Brasil”; e o Brasil se deliciava em ser neto de Dom Pedro II.

    O modo como ele governava e dirigia a política brasileira era inteligente e cheio de jeitinhos, como o brasileiro gosta. O que fosse imposto à força, de acordo com o modelo de Frederico II da Prússia, não era apreciado pelos brasileiros e poderia “azedar” as relações muito desagradavelmente, ou até fatalmente.

     Naqueles tempos, a Constituição brasileira era liberal e reduzia muito os poderes do monarca. Mas ele era muito sagaz e servia-se do prestígio de Imperador para negociar nos bastidores o curso da política, de tal maneira que se tornou o principal político do País. Acomodava os problemas e abafava as revoltas, fazendo reinar a paz com muita prosperidade. Assim o Brasil se tornou uma das maiores nações, com uma esquadra mercante que era a segunda maior do mundo.

    Apesar de o Imperador seguir inteiramente a Constituição, os políticos liberais reclamavam muito dele, dizendo que exercia um “poder pessoal” extra constitucional, porquanto acumulava os dois poderes. A resposta dele era que nada na Constituição o impedia de exercer influência política. Os liberais vociferavam, mas nada podiam contra a força moral do Imperador. Assim ele conduziu a política até o fim de sua vida, quando foi destronado. Deixou nos brasileiros saudades daquela época, pois o Imperador os representava arquetipicamente.

(Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 17 de fevereiro de 1989. Esta transcrição não passou pela revisão do autor).


Da série " História Secreta do Brasil": A inexistente "proclamação da república"—por Fernando Mascarenhas Silva de Assis (*)


    Há uma versão um tanto idealizada da chamada "proclamação" da República (que nunca ocorreu). Esta versão, embora fantasiosa, tem sido incentivada pela propaganda oficial. Abaixo, a descrição correta de uma das mais negras páginas de nossa História.

    A verdadeira causa da pseudo proclamação da república chama-se Maria Adelaide Andrade Neves Meireles... Deodoro estava no Comando Militar do Rio Grande do Sul. O influente político Silveira Martins ocupava a Presidência da Província. Ambos disputavam os encantos e favores de uma viúva, cujo nome era Adelaide . Parece que ela preferia o Silveira Martins, deixando Deodoro em segundo plano. Por consequência, tornaram-se inimigos ferrenhos... Daí, anos mais tarde, a conduta tresloucada do Marechal que não proclamou a república...

    De fato, as chamadas "causas" da proclamação (que nunca ocorreu) desta República (que não é, e nunca foi) não passam de eventos maquiados pela propaganda golpista (que não menciona a Viúva Adelaide). São pouco, muito poucos, os que já ouviram falar na Viúva Adelaide. É natural. A historiografia oficial, por motivos óbvios, faz o possível para que seja esquecida.

    Portanto, a chamada Proclamação da República no Brasil é uma fábula. Nunca aconteceu. Contudo, resta a pergunta: Se não houve uma proclamação, como foi implantada a República no País? Após ter gritado "Viva o Imperador”, (que a propaganda oficial mudou para “Viva a República), Deodoro voltou para casa. Volta ao leito e, na cama, recebeu a visita alguns militares republicanos. Tentaram fazer com que Deodoro assinasse o documento que viria a ser o decreto Nº 1 da república. O velho militar se recusou: havia jurado fidelidade ao Imperador.

    Deodoro não era republicano. Havia mesmo escrito, poucos dias antes, a um de seus sobrinhos, o General Clodoaldo que: "República no Brasil e desgraça completa são a mesma coisa”. De má fé, os militares golpistas disseram ao Marechal que o Visconde de Ouro Preto seria substituído por Silveira Martins. Sabiam da inimizade entre os dois. Deodoro não havia perdoado seu antigo rival na disputa pelos favores da Viúva Adelaide.

   Tresloucado, como sempre ficava quando se lembrava de sua antiga paixão, Deodoro disse textualmente: "Deixe-me assinar esta porcaria". A “porcaria” era o primeiro decreto do “governo provisório” documento este que efetivamente implantou o regime republicano no Brasil.

(*) Fernando Mascarenhas Silva de Assis, residente em Belo Horizonte, é Engenheiro Civil pela UFMG, pós-graduado em Engenharia Econômica. Diretor do CETEC - Centro Tecnológico do Estado de Minas Gerais, Diretor da Faculdade de Administração da Fumec, Auditor de Sistemas e Auditor Ambiental.


Monarquia, guardiã da verdadeira democracia

    Ao contrário do que tentam fazer parecer certa historiografia e a imprensa tendenciosa, a Monarquia é a guardiã da verdadeira democracia. Durante todo o Segundo Reinado, no Brasil, o Partido Liberal e o Partido Conservador alternaram-se no poder sem nenhum problema, pois era assegurada a vontade popular expressa nas urnas; e as eleições ocorriam sempre nas datas pré-estabelecidas. Muito diferente da República, marcada por sucessivos golpes de Estado, ditaduras, regimes de exceção, etc.

    Há que se considerar que o Imperador paira acima dos interesses políticos e privados de qualquer ordem; seu interesse pessoal confunde-se inteiramente com o da Nação. O Soberano pode, assim, exercer sobre a política e a administração pública uma ação moralizadora ao mesmo tempo firme e serena, de modo a coibir as más tendências dos homens públicos... Basta recordarmos o ditado: “A Monarquia pensa nas próximas gerações; a República pensa nas próximas eleições.”

   Conforme mostra o quadro, das 15 nações mais democráticas do mundo, nove são Monarquias – e as duas primeiras, a Noruega e a Nova Zelândia, são países que, além de monárquicos, são juveníssimos, tendo se tornado independentes somente em 1905 e 1947, respectivamente. O Brasil – onde desde o golpe de Estado de 1889 vigora o fracassado presidencialismo – ocupa a nada satisfatória 47º posição, atrás de nações como Trinidad e Tobago (41º) e Botsuana (30º).

    Fica evidente a falta que faz em nosso País uma figura como a do magnânimo Imperador Dom Pedro II, que, fazendo uso do indispensável Poder Moderador e de sua inegável presença moralizadora, era o grande garantidor do bom funcionamento da máquina pública, totalmente dilapidada após 132 anos de uma malfadada experiência republicana. Felizmente, ainda há tempo de nos unirmos para corrigir este grave erro, através da Restauração da Monarquia, o que irá coroar a verdadeira democracia!

(Publicado originalmente no Facebook Pró Monarquia)




18 abril 2022

As cores do Infinito - Por: Emerson Monteiro


Diante da paz que ora habita em estado latente as consciências ainda assim bem possível será que logo vejamos todas elas, as cores inesquecíveis da Natureza pura. Até quando chegar a tanto, tantas vidas haverá. Contudo a isto viemos e lá certa vez teremos tamanha alegria que nos uniremos de vez à emoção esplendorosa das galáxias. E que, sem sombra de dúvidas, esquecemos, nalgumas ocasiões, pelos caminhos de onde chegamos. Foram as dores das vivências que isto produziram, esse distanciamento de agora, esquecido face aos desatinos e desencantos. De tal modo que os trilhos da perene perfeição nos parecem remotos. Seremos, só então, o elo indestrutível que trará de volta os segredos da Criação.

No íntimo da humana solidão, vive intensa a certeza de tamanha envergadura e realização. Todos os sinais falam nisso, da continuação das horas santas no momento preciso de concretizar o sonho da Felicidade. Isto impera dentro do nosso coração, instinto mágico da existência. São muitas falas vindas de longe, de todos os quadrantes, a dizer da finalidade única de onde possa algo ressurgir na face dos céus, da amplidão e do ilimitado.

Por mais que doa o ímpeto de viver, nessa coerência subsiste a exatidão dos moldes universais, mesmo que pequenos os vejamos a braços com este querer continuar e vencer todos os obstáculos. Que se interponha o senso de resistir às duras penas. Sei que importa o empenho de lutar, porém maior sempre haverá de ser recontar uma história de conquistas inigualáveis.

Daí, a gama do mistério das quantas cores a transformar luz em salvação, aos olhos de todos. A imensidade dos painéis geniais oferecem bênçãos de arte nas dobras do Infinito; aqui prossigamos de alma fiel aos valores da magnitude e jamais desistamos de obter Deus na iluminação do ser pequenino que ainda o somos.

Tudo, por isso, transmitirá a força que nasce desta fonte original que alimenta as jornadas de transformação em que viemos no intuito de revelar a verdadeira Humanidade em cada uma das infinitesimais partículas que em nós representamos.

16 abril 2022

A satisfação de viver - Por: Emerson Monteiro


Em essência, isto buscamos durante o tempo todo. Uns saem à procura nos seres e objetos, criam mil justificativas de sentir prazer em estar vivos. Passeiam pelo eterno quais catadores de conchas que as acumulam nos depósitos do passado e, com isso, aceitam razões imediatas e motivos só aparentes de andar aqui nesse teto das humanas condições. Pisam, esmagam, desfrutam dos instantes numa presa avassaladora, incontida. Olham em volta e rendem homenagens aos dias quando usufruem das ilusões sem maiores significados.

Outros, no entanto, passam a adquirir noções de consciência de que carecem mergulhar em si e desvendar o mistério da existência. Longa jornada rumo às estrelas, nos céus da individualidade. Avançam aos segredos pouco a pouco. Desmancham os invólucros da presença no passar dos astros pelo firmamento. Dias e dias a gritar dentro da alma sinais de intensa velocidade com que transcorrem as idades. Mais que só testemunhas das horas, sabem que precisam desfazer os equívocos da ignorância e acordam noutras luas.

Disso advém a satisfação de viver que todos desejamos todo momento.  Largar de lado o que disseram ser a outros interesses dos seus domínios.  Temos, portanto, o dever para conosco de cumprir a determinação de nos encontrar de verdade, sem alternativa que seja. As tais angústias, ansiedades, dificuldades incontidas nos desejos, representam a ausência dessa claridade nas pessoas, que trocam o presente pelo impossível de outras realizações abstratas.

No andar da sequência, vislumbramos atitudes ideais de alimentar nossos sonhos. Viver a essência de ter paz com a luz dos sentimentos bons, fora do desespero de criar limites ao senso de si. Sei que tal revela graus diferentes das individualidades, porém resume que somos o professor de nós mesmos e interpretaremos com sabedoria os tantos códigos da Natureza onde agora habitamos. Em nós persistirá sempre o grande encontro que nos liberará de vez da inconsciência e, enfim, ocasionará a realização do Ser que vive em nós.

13 abril 2022

Hordas bárbaras e os dias atuais - Por: Emerson Monteiro


De quase nada e compõem o traçado desses tempos, de uma fragilidade a toda prova. Quando menos esperar, aquilo que parecia ver o sólido se desmanchar pelas quebradas da serra. Apenas luzes distantes. Restos de bruma nos sóis da humana felicidade. Nuvens que passaram. Sons que viraram ecos lá longe na distância inevitável. Enquanto aqui o mesmo corredor de velhos princípios e garras de dominação persiste continuar. Bárbaros vestidos de monges invadem o território das horas e desaparecem pela escuridão. Povos doutros mundos das sombras, eis o que vale parecer diante desse eterno das palavras. Rudes bestas e a carne seca de outras histórias. As lendas, as fadas, os duendes, os gnomos. Trastes de passadas luas. Somem no despenhadeiro das sortes aqueles que ainda demonstravam querer dominar o mundo e nem a si dominaram.

Houvesse novas oportunidades, o claro dessas melodias românticas de novo significaria suspiros no coração de todos. Porém ondas de lucidez sacodem o solo do Planeta e determinam o cumprimento avançado das promessas, o vago das profecias em tudo e tantos os lugares a um só tempo. Isso de hoje em que muitos falam e nada querem dizer, conquanto esquecessem-se das origens do sentimento maior que lhes dera seguimento lá no futuro mais remoto. Marcas de uma solidão profunda. Tatuagens de sal no coração das pessoas. Paraíso sideral de outras dimensões. Ninguém que reconheça a que vieram e tramam fugas maravilhosas através de viagens alucinadas.

Quem poderá, pois, rever o coro dos contentes e avisar dos riscos das perdidas ilusões; ninguém nem isto poderá. Multidões alvoroçadas abandonam lares e saem pelo deserto das mentes vazias, deixando rastros de pólvora nas areias. Dores sem fim, amém. Os seres dos antigos sonhos a quanto representam aqueles arautos de ideias esquecidas em bibliotecas abandonadas. Poucos animais viveram tamanhas contradições, e insistimos assim preservar a espécie no sabor das voltas que as palavras permitem, enquanto a hora não vem logo com toda sua intensidade.

12 abril 2022

À frente é que batem as malas - Por: Emerson Monteiro


Face ao andamento constante dos acontecidos, seja onde seja neste chão, importa, sim, ver de frente, com o mínimo de senso, que andamos à diante, quiséssemos ou não. Dotadas de esforços quase sobre-humanos, as pessoas e as massas rendem fria homenagem ao correr do tempo, tanto na vida individual quanto nos movimentos da coletividade. Nem de longe seria possível imaginar um regresso ao passado e desmanchar o q1ue se fez, a não através da literatura, dos filmes de ficção, das resenhas... E todos baixam a cabeça a essa força descomunal que tem nas mãos os dias, as vidas, a criar sobre si quais numa imensa cachoeira de ocorrências. Houvesse meios e, decerto, alguns mais insistentes na força de continuar com as velhas paixões voltar-se-iam à preservação de valores e privilégios a eles condicionados. Bem nisso o poder imenso das decisões indefensáveis do que ficou atrás; quem plantou, há de colher, seja o que machuca, seja o que transmite alegria.

Dúvidas de lado, pois vivemos dentro de um mecanismo de extremo domínio sobre o que existe, dando-lhe o nome que assim o desejem os componentes desse quadro inevitável. Somos peças de xadrez em constante ação da gente com a gente, ao sabor de lances dos parceiros silenciosos ali em volta dos tabuleiros da História.

Quando menos se espera, nascem as árvores que plantamos. Outro momento, desaparecem florestas inteiras que ficaram lá atrás no corredor das existências. Disso permanecem, no entanto, as lições aqui praticadas nessa escola das gerações. Poucos conhecem os professores, contudo os respeitam por decisão das próprias imprudências em resposta aos desafios e visões. Quase nunca valeria apenas protestar, contradizer, desconsiderar, vez que o caudal do rio dessa humana exatidão só aceita viver e adormecer.

Pudéssemos, reveríamos as previsões e crenças, porém só na outra volta do parafuso as haveremos de rever, entretanto. Palavras que viajam no vento, alimentamos um céu na procissão de toda manhã, e dormimos a sono solto nos braços das limitações, pouco cientes da Justiça imbatível que nos acompanham estradas afora sem a mínima pressa de esperar.

10 abril 2022

O filme das ruas - Por: Emerson Monteiro


Principalmente aos finais de semana, quando cessa o movimento intenso do comércio, as ruas falam alto de dentro da gente. Isso depois de haver morado tanto numa mesma cidade, que, silenciosa, revive seus acontecimentos que vivemos no decorrer do tempo. Fácil, fácil, e vêm desmoronando pelas encostas as décadas das velhas histórias ali depositadas bem no coração de gente. Digo coração porque, para mim, é ele a sede da memória propriamente dita, onde pensamentos viram emoções transformadas em sentimentos que grudam nas paredes da existência e tatuam de fogo as almas. Lugar espaçoso, por demais, de muitos megabits, que guarda os mínimos detalhes, as histórias vividas nas gerações. Isto mais diante da força dessas ocorrências que mergulham a fundo o recôndito de nós mesmos. São tardes cinza, calmas, frias, quase sem trânsito, sem pessoas andando, e logo chegam instantâneos bem focados desses momentos à alma, emoções fortes, por vezes doloridas, marcadas de saudade, ânsias de vômito e desejos entorpecidos. Aqueles mesmos personagens, que voltam, trazem neles cenas inteiras dessas horas aos intestinos da presença que ora somos. Fugir, nem pensar, nem tem lugar que seja de chegar, apenas a efervescência daquilo que o passado fixou e que insiste permanecer nas abas do firmamento, a dizer que estamos vivos nos muros, nos oitões, nas pedras, no teto das casas enegrecidas, nos armazéns envelhecidos ou reformados, esquinas, luzes que permanecem acesas, conspiração entre o que vivemos e os cenários daquele teatro de largas avenidas das vivências humanas, nessas estâncias de mornas recordações, reinos e penumbra

Nesse domingo de abril, fim de tarde, isso tudo repisou de lembranças meu íntimo sem a menor cerimônia, qual dominasse o ensejo de querer, no entanto causa perdida e regressos insistentes, criaturas, contos vagos, movimento lerdo, nítido, folhas secas incandescentes, e uma cidade mora no meu peito,  bicho largado vadio pelas matas virgens da consciência; não importa o quanto alimento de visões ou imaginação, o céu aberto de tal força logo em frente prevalece  Isso que lembra, de verdade, um provérbio africano que li, certa vez: Quando morre uma pessoa, se fecha uma biblioteca. Registros de eternidades indóceis, assim, nos amarram ao que vivemos, a ponto de recusar quaisquer argumentos de outras ausências, ou liberdade, aonde quisermos ir, pois o nunca habitará sempre essa casa das inexistências ora perene, lugar de inteira continuidade, em que imperam os atores e diretores dos nossos próprios filmes e sonhos...


09 abril 2022

Há um ser que somos nós - Por: Emerson Monteiro


Indivíduo. Indivisível. Num só ser. Vago silêncio de esplendoroso mistério, conduzimos tal espectro vidas afora adiando segredo da maior revelação. Do agora pelas longas noites de reconhecimento de este ser que nós somos hoje. Ele que esquisita dos escombros, que vai largando restos de sobejos pelas encostas dos monumentos forjados nas batalhas do passado esquecido. Pedaços de si que pertencerão para sempre ao mesmo ente que o elaborou de dentro desse eco infinito das próprias sombras. Olhos fixos não sabem aonde, permanece único elemento possível de referência diante de tudo. Amargurada solidão. Dorme vadio nos sonhos dos abismos da consciência, que amadurece nos erros e desprende crostas nos incêndios e nas dores em que a isso reverte sempre, perante a justiça das circunstâncias que virão logo depois. Erros. Acertos. O que de real existe durante todo tempo, ser este que em nós avistamos, no espelho das existências pessoais. A quem representamos, nesse teatro de viver, senão a si mesmo, valor de vaidades e desesperos, presença e ausência que acende e apaga nas miragens da história, que nada mais significa do que o jeito de ver os acontecimentos detrás do longe que vem perto, de sequenciá-lo ao testemunho da alma que fala de um lugar lá nas profundezas do que ainda desconhece. Enquanto isso, tropeça nas pernas e caí sobre a lama do único sangue que derramou. Todos e um só. Valores. Pudores. Amores.

Dotados desses poderes além do conhecimento, no ardor da sabedoria ainda adormecida nas entranhas, mergulha nos desejos e desaparece face aos menores argumentos da matéria  que desmancha na busca das outras vidas que vêm. Escondido debaixo das sete capas do destino de suas mesmas ações, desprende nas ilusões derradeiros equívocos, qual prisioneiro de gestos que ainda ignora, por mais algum espaço de eternidade ao sabor das sementes que ora seja. Porém às luzes da perfeição a si segue de perto, pastor da fera que logo ali conciliará consigo os humores da sombra que transporta e iluminará os céus da tanta claridade que já carrega no âmago da alma. Por ser indivisível, apenas vive essa intenção de achar a paz, o que quanto busca, a isso veio, nas folhas do coração, na fresta do existir definitivo que é.

08 abril 2022

Um mundo sempre novo - Por: Emerson Monteiro


A gente é que tem de se manter atualizado e tocar em frente ao sabor do tempo. Bem isto todo momento. A busca incessante de continuar possibilita  vontade férrea de revelar nos dias o que eles trazem de melhor, e viver com a mesma qualidade o poder dos acontecimentos originais aqui bem perto de todos nós. Isto de preservar o senso e admitir o funcionamento avassalador dos fenômenos bem significa o que tantos pretendem nesse fluir intermitente da Natureza. O de que carecemos representa esse poder que já trazemos conosco, conteúdo suficiente em tudo a descobrir vertentes de esperança em forma de uma prática constante, fiel, inesquecível.

Nisto somos o instrumento por demais necessário de existir e fazer as escolhas dos pensamentos, sonhos, imaginação, sentimentos e participar com alegria dos instantes solenes da própria evolução. Bem assim junto de nós mesmos, construímos as virtudes essenciais de revelar a paz de que tanto ansiamos. Pisar maneiro diante dos desafios e trabalhar os nossos dons de arte e ofício na melhor das estruturas. Esse trabalho exige, pois, a dedicação suficiente dos bons frutos, lições continuadas em observar, em voltar e exercer o papel de criadores de nossas atitudes em forma de bênçãos de exercer o papel de seres inteligentes, identificados com as leis do Universo.

São muitos os recursos permanentemente ao dispor nesta missão fundamental de dar conta daquilo a que viemos neste lugar. Prosseguir dentro do que aprendemos nas horas, sabendo trazer aos praticados o carinho que no oferecem os motivos em volta. Uma forma de mudar o mundo e fazê-lo uma constante novidade significa tais providências, durante os turnos preciosos deste cotidiano de luz e paz. Eis algumas claras notícias que aguardamos e que estão dependendo exclusivamente do nosso olhar positivo.

Os dias grandes para os cristãos – por José Luís Lira (*)

   Para muitos, a Semana Santa se resume aos feriados – facultativo de 5ª feira e obrigatório de 6ª feira. Em minha família nunca foi assim. Logo na sexta-feira que antecede a Semana Santa nós entramos no clima da Paixão de Cristo. A imagem de Jesus carregando a cruz percorrendo as principais ruas e o encontro d’Ele com Maria, sua mãe, Nossa Senhora das Dores, nos emociona profundamente. Quando morávamos no sítio, sábado era dia de ir à cidade comprar os mantimentos para os Dias Grandes, sem esquecer-se de trazer um pouco a mais para doar aos que vinham pedir “esmolas” para o jejuar. Ainda no sábado à tarde, acompanhávamos nosso pai para a retirada do melhor “olho” de palmeira para o Domingo de Ramos, quando íamos à Missa vespertina e voltávamos para casa contritos, pois, os dias seguintes seriam de silêncio e respeito.
    
    A propósito, amanhã é Domingo de Ramos. Celebraremos a entrada triunfal de Jesus na Cidade Santa de Jerusalém. E o tema, inevitavelmente, me leva ao título do livro do Papa Bento XVI, “Da entrada de Jerusalém à Ressurreição”. Hoje temos a sorte de sua trilogia estar reunida num só livro. E este é quase um companheiro, ao logo das festas litúrgicas, se iniciando com o Natal, passando tempo comum, Quaresma e Páscoa!

   Voltando aos Dias Grandes, penso que na infância o feriado se estendia por toda a semana. Assistíamos na TV, em preto e branco, a Paixão de Cristo, em vários episódios. Como no sítio só tinha TV lá em casa, os vizinhos acorriam e esta era posta do lado de fora, quando não chovia.

   Com o passar do tempo, o feriado foi se resumindo. Só a partir da quarta-feira de trevas, data que lembra a traição de Judas e a entrega de Jesus aos seus carrascos, era feriado. Depois, o feriado se dava a partir quinta-feira santa, hoje, em alguns lugares considerada ponto facultativo; é dia importantíssimo para os cristãos-católicos: celebração do lava-pés, instituição do sacerdócio e da Eucaristia, presença permanente de Cristo no nosso meio. Atualmente o feriado é sexta-feira da Paixão, dia de jejum e abstinência de carne. Mas, no íntimo continuo achando que a semana toda é santa. São os dias mais importantes para a nossa fé cristã.

   A mim, no ambiente familiar, sinto o mesmo clima em relação àqueles sagrados ritos e a o preparo para os Dias Grandes. Esta semana o papai, atento, se preocupava em comprar queijo, peixes, em saber se o feijão “novo” plantado lá no sítio estará bom na Semana Santa. A mamãe lembrava que sexta-feira de Passos não comeríamos carne e parece que o tempo agradavelmente voltara... O clima de Semana Santa, como antigamente, se renovou. É a primeira Semana Santa após o período mais complicado da pandemia, mas, ela ainda não chegou ao fim.  Peçamos a Deus para que voltemos, plenamente, à vida normal.

   Participaremos das celebrações, algumas presenciais, outras à distância, rezaremos em família, jejuaremos na sexta-feira santa e cantaremos Aleluia no Sábado Santo, em preparo à Páscoa, pois, o Senhor Ressurgido da morte sobre nós derrama bênçãos. Renovamos a esperança de que a Páscoa do Senhor nos traga o fim da pandemia e a paz que aspiramos!

   Lembremo-nos que a Semana Santa não é um feriado, mas, um período de rememoração de Deus que se fez homem e habitou entre nós!
    Abençoada Semana Santa!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com 26 livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.