22 fevereiro 2019

As Naus do Infinito - Por: Emerson Monteiro



Desde quando os primeiros foguetes rumaram a Marte que vazio profundo permaneceria no peito dos que aqui ficaram; de olhos fitos nos céus de depois daquele dia, névoa cinza cobriria as cabeça. Os pioneiros deixariam de lado a suposição de que estávamos sós no Universo; haveria possibilidades de encontrar outras humanidades noutros planetas distantes; e seguiram o sonho. Que direito houvesse na imaginação do povo, reveria as atitudes dos quantos que consumiam as riquezas deste mundo; persistiria, sobremodo entre os jovens, um gosto fantástico de que outros e mais outros foguetes também subissem, e nisso trabalhavam muito, no intenso calor do Sol, e à noite permaneciam até as altas horas de pensamento fixo nas luzes que riscavam o espaço a meio das raras nuvens, pois bem dali que eles voltariam numa doce madrugada, argonautas, desbravadores que partiram cheios da certeza de trazer notícias boas de haver, nalgum lugar, mundos de mil e uma noites em que coubesse de todos continuarem a rica aventura dos humanos.

Horas, luas, meses, longos e frios temporais de novos invernos, sempre de almas levadas nas marcas deixadas naquela partida luminosa, de quando eles sumiram; vidas voltadas a retornar e oferecer saídas, de mãos beijadas e sabor aos corações da Humanidade.

E seguiram inúmeras as novas gerações; passadas se foram as originais, que guardaram a tradição dos homens errantes mandados ao firmamento, a salvação que nutriam os próximos passos da história. Voltados, no entanto, aos afazeres mundanos, muitos esqueceriam os astros lá nos céus, desistiriam do ânimo de que, num fria madrugada, desceriam de olhos vivos e alegres naquela primeira leva a distribuir nacos de esperança e festa; eles, os viajantes que avançaram na intenção de revelar aos que ficassem o mistério das alturas.

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Qual dizíamos há pouco, séculos, milênios se desfizeram no furor do tempo, e apenas raras lembranças restaram, nalgumas comunidades afastadas, de que, a certo momento, alguns deles mergulharam no desconhecido à busca da sorte. Assim, dos poucos resquícios, surgiria uma religião que denominaram As Naus do Infinito, e que reza de olhos focados nas luzes que brilham nas noites, enquanto aguardam, silenciosos, as notícias que venham deles, nascidas na imensidão longínqua.

21 fevereiro 2019

A formação do caráter - Por: Emerson Monteiro


A essência de tudo, da educação do ser interno nas criaturas humanas, o caráter, base principal do comportamento durante todo tempo; a edificação dos sistemas de crenças e valores; as tendências da personalidade; o berço do conhecimento, do isto que significa perante a continuação da espécie; o que vem de dentro das pessoas, lá da origem primeira; a educação verdadeira.

Isso dito em um tempo do calendário quando pedem tanto educação nos discursos, que parece até dizer o óbvio, e as justificativas dos gastos públicos indicam criação das escolas, expansão das especializações, abrangência dos programas de governo. Que as nações mais avançadas têm as melhores universidades, que reúnem gênios que alimentam o mundo de cérebros de proporções inigualáveis no decorrer da história. Que nunca chegaram a tanto em termos de progresso científico, na construção das indústrias. Que beira as raias da exatidão o nível de sapiência, de títulos e significados daquilo em que sempre sonharam os filósofos do conhecimento.

No entanto, a cara desse universo está nas tetas dos jornais e televisões; jamais tamanho arbítrio registraram os acontecimentos; extrema discórdia e competição nos mercados; poluição e desequilíbrio. Que progresso é esse de que cantam maravilhas, refutam de evolução e indicam de exemplo?!

...

Sim, que vale a pena ensinar normas de bom caráter ninguém questiona. Porém como fazê-lo com eficiência. Uma amiga professora falou que se daria na ocasião da primeira infância, nos lares, na educação doméstica. À medida dos pais, os filhos aprenderiam pelo que presenciam na prática, na demonstração da família, nas atitudes que presenciam; e guardam consigo ao resto da vida. Assim, desde os começos do crescimento, nesta vida, as crianças adquirem o caráter, amoldam o espírito ao que é certo, ideal.

Já no ponto de vista das religiões, existem considerações a respeito de que o espírito grava na consciência a evolução de outras vidas, segundo ensina budistas, judeus, espíritas, aqueles que admitem vidas sucessivas, ou reencarnações, que pensam de tal maneira. Há filósofos clássicos, quais Rousseau, que consideram os homens nascerem bons e a sociedade os corromper.

Contudo persiste, ainda, uma nítida diferença entre educação só formalista, intelectual, e a formação do caráter propriamente dito, esta doutra gradação, de ordem ética, além dos interesses só materiais.

(Ilustração: Homens lendo, de Francisco de Goya).

Caririensidade (por Armando Lopes Rafael)


Desprezo com o patrimônio histórico não é só no Cariri: casa de JK, em Diamantina, fecha as portas por problemas financeiros

    Causou grande repercussão, no Brasil inteiro, a notícia divulgada nesta 4ª feira, da grande perda para a cultura de Minas Gerais e para a memória do país: depois de 35 anos em funcionamento, a “Casa de Juscelino”, no Centro Histórico da cidade de Diamantina (MG) vai fechar as portas na 5ª feira, dia 21. Funcionando a duras penas nos últimos anos por causa da falta de repasse de verbas de convênios, o imóvel histórico onde viveu Juscelino Kubitschek (1902-1976), ex-presidente do Brasil (1956-1961), ex-governador de Minas Gerais (1951-1955) e ex-prefeito de Belo Horizonte (1940-1945) terá seu memorial encerrado.
Casa onde viveu o fundador de Brasília, Juscelino Kubitschek

Situação do Patrimônio Histórico no Cariri


 Antiga casa do Senado de Crato, onde funcionava o Museu de Artes (fechado há 9 anos) e o Museu Histórico (funcionando precariamente)

   Tirante a cidade de Barbalha, é lamentável a preservação dos prédios históricos na conurbação Crajubar. Em Crato, as últimas medidas de preservação ocorreram por iniciativa do governador Lúcio Alcântara (período 2003 a 2006). Naqueles anos,  a Secretaria de Cultura do Ceará–Secult, dentre outras iniciativas, tombou o prédio da antiga Prefeitura e Cadeia Pública de Crato (onde funcionavam os Museus Histórico e de Artes Vicente Leite, o primeiro funcionando precariamente, o segundo fechado há quase 9 anos); tombou o prédio da antiga Estação Ferroviária (que resultou no exitoso Centro Cultural do Araripe, hoje com poucas atividades), além do Sítio Caldeirão, na zona rural, com a finalidade de preservar a memória da experiência comunitária feita pelo Beato José Lourenço (onde nada foi feito até agora).


Casa do Juiz de Direito Juvêncio Santana, recentemente demolida

       Em Juazeiro do Norte, também não se pode aplaudir a preservação dos prédios históricos. Recentemente, a antiga casa do juiz Juvêncio Santana, personagem popular na História de Juazeiro do Norte, foi demolida apesar dos protestos das instituições culturais e da imprensa desta cidade.

Diocese de Crato possui dois seminários para formação de sacerdotes


 Capela do Seminário Propedêutico de Crato, dedicada a São João Paulo II

   Além do Seminário São José (que caminha para os seus 150 anos de existência) a Diocese de Crato possui também o Seminário Propedêutico Dom Fernando Panico, ambos destinados à formação dos padres diocesanos.

      O Seminário Propedêutico Dom Fernando Panico foi inaugurado no dia 29 de dezembro de 2015. A Obra foi erguida no bairro Granjeiro, atrás da capela de Nossa Senhora da Conceição, em meio as árvores e tem como moldura o cenário e a vegetação da Chapada do Araripe. Possui uma área de 700 mil metros quadrados, doada à Diocese, em testamento, pelo Monsenhor Francisco de Holanda Montenegro.

       Esse Seminário dispõe de oito dormitórios, sala de estudos, biblioteca, atividade de informática e televisão, cozinha, refeitório, dispensa, lavanderia, área de lazer, além de uma capela dedicada a São João Paulo II, a primeira na Diocese a ter como patrono o Papa Polonês. Nas suas instalações físicas foram homenageados com a denominação de dos pavilhões o quarto Bispo Diocesano Dom Newton Holanda Gurgel e o Monsenhor Francisco Montenegro. A biblioteca recebeu o nome do Monsenhor Vitaliano Mattioli.

Caririenses ilustres: Dr. Leandro Bezerra Monteiro


   Dr. Leandro Bezerra Monteiro (foto ao lado) nasceu na cidade de Crato, no dia 11 de junho de 1826, filho primogênito do Coronel José Geraldo Bezerra de Menezes e de Jerônima Bezerra de Menezes, sendo neto do Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro, de quem herdou o nome. Em 1847, com vinte anos de idade, iniciou o curso de Ciências Sociais e Jurídicas, na Academia de Direito de Pernambuco, onde recebeu o título de Bacharel, em 1851, com vinte e cinco anos de idade.

     Durante seis anos, foi magistrado em Sergipe. Atraído pela política, foi eleito vereador e presidente da Câmara da cidade de Maruim.  Depois foi Deputado Provincial (hoje deputado estadual). Em 1860, conseguiu o mandato de Deputado Geral (hoje deputado federal).       Reeleito, em 1872, Deputado Geral pela província de Sergipe, ganhou fama nacional, devido ao episódio que passou à história do Brasil, como a “Questão Religiosa”. Esta, chamada no início de “Questão Maçônica”, foi um conflito ocorrido no Brasil – no último quartel do século 19 – entre a Igreja Católica e a Maçonaria. 

O que foi a “Questão Religiosa”

    Em maio de 1872, o Bispo de Olinda e Recife, Dom Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira, após várias e seguidas admoestações, interditou uma confraria religiosa em Recife, da qual faziam parte dois padres e vários leigos todos filiados à Maçonaria. Eles se recusaram a abandonar essa sociedade secreta, apesar da nova proibição de católicos pertencerem às lojas maçônicas, feita pelo Papa Pio IX. Também o bispo do Pará, Dom Antônio Macedo da Costa, adotou idêntica providência, na sua diocese. Ambos os bispos foram processados e presos por ordem do presidente do Conselho de Ministros do Império do Brasil, Visconde do Rio Branco, que era o grão-mestre da Maçonaria, no Rio de Janeiro.

     Dom Vital e Dom Macedo Costa foram transferidos para o Rio de Janeiro, onde foram condenados a trabalhos forçados, por quatro anos. Como era previsível, o fato causou grande revolta, junto à sociedade brasileira, àquela época majoritariamente católica. O Parlamento brasileiro passou a ser o foco dos debates entre os que apoiavam os bispos e os que defendiam a decisão do Visconde do Rio Branco. Os vários pronunciamentos feitos na Câmara pelo deputado Leandro Bezerra Monteiro, em defesa dos bispos Dom Vital e Dom Macedo Costa, constituiram-se em peças oratórias de grande coragem. Ninguém o excedeu na defesa da Igreja Católica, naqueles momentos difíceis para a Igreja Católica no Brasil. Seus discursos tiveram grande repercussão em todo o Brasil e até no exterior.

Servo de Deus Dom Frei Vital, cuja beatificação poderá ocorrer neste ano

19 fevereiro 2019

A busca imortal - Por: Emerson Monteiro


Vem do mais antigamente de os humanos empreenderem o gosto de descobrir a que vieram a este mundo; donde e aonde também contam; mas, muito mais, conta esse motivo de estar aqui; será só de comer, sobreviver e voltar?, há de tudo nesse desejo insano, inclusive nas atitudes menos aconselháveis; até as aconselháveis, essas também não revelaram com clareza coletiva as razões da paixão humana.

Pois bem, criaram explicações desesperadas, desde guerras de conquista a extermínios em massa das outras espécies; porém nada que mereça o desgaste que vêm acarretando ao Planeta já cambaleante nas mãos dos desavisados e pródigos; são meros atores de dramas inventados, a pretexto de preencher as lacunas das gerações de ansiedade; no entanto adversários até de si mesmos, que afrontam o desconhecido nas diversas culturas, feitos irracionais e ignorantes, touros bravios soltos em lojas de porcelana.

A seguir assim, rigoroso, doutrinário, poucos, talvez, hajam passado deste parágrafo. Cabe, contudo, alimentar, sempre alimentar dias melhores, nas certezas vivas da Inteligência maior, nas conquistas tecnológicas, nos direitos adquiridos, na família e noutras instituições importantes por demais; isto sem desacreditar do instinto de controlar o fugidio, ver nas artes, na cultura, sinais de tanto crer numa visão próxima de bênçãos, profecias positivas e amor no coração dos seres humanos de que somos partes indissolúveis. Acreditar sobremodo naqueles que plantam o bem no transcorrer das existências. Viver as utopias, independente das experiências nefastas dos estados totalitários, leviatãs e perversos. Preservar a todo custo os sonhos de nova humanidade nascida de nossos filhos, dos filhos deles e das futuras civilizações.

Dessa busca, lá diante remotas histórias contadas pelos séculos e milênios, existem poucos resquícios de vitória, encontros aquinhoados de glória e união; isso, entretanto, viverá para sempre na memória dos sábios, santos e líderes que sustentaram as longas trajetórias que nos trouxessem até este lugar e dele empreenderemos no tempo nossos próprios valores de liberdade, justiça e honestidade.

(Ilustração: Campo de trigo com corvos, de Vicent van Gogh).

Lições que os tempos modernos oferecem: A democracia da monarquia espanhola


   O Rei Dom Felipe VI da Espanha em breve terá de empossar seu terceiro Primeiro Ministro desde a sua ascensão ao Trono, em 2014, pois o atual premiê, o impopular Pedro Sanchez, do Partido Socialista Operário Espanhol, perdeu apoio no Parlamento, após cerca de 45 mil pessoas tomarem as ruas de Madri, há uma semana, pedindo sua renúncia, aos brados de “Espanha unida!”, “Queremos votar!” e “Viva o Rei!”. Agora, foram convocadas eleições para o dia 28 de abril próximo.

     Essa é a segunda crise política que o atual Soberano espanhol enfrenta em seu reinado. Tendo ascendido ao Trono após a abdicação de seu pai, o Rei Dom Juan Carlos I da Espanha, Sua Majestade – que conta com a aprovação de 75% da população – encarou, de forma muito bem sucedida, a tentativa de golpe de Estado por parte das lideranças separatistas na região da Catalunha, mostrando ser um símbolo da garantia da continuidade, estabilidade e unidade nacionais, a exemplo de seu pai, que, em 1981, rechaçou uma tentativa de golpe militar.

      É essa a verdadeira democracia, a democracia coroada! Algo que vem fazendo imensa falta no Brasil desde o golpe de 1889, quando passamos a conhecer os sobressaltos e a instabilidade típicos do regime republicano. Somente após a restauração da Monarquia Constitucional o Brasil poderá alcançar a verdadeira grandeza à qual foi destina pela Divina Providência, pois teremos novamente um Imperador velando sobre o bom funcionamento das instituições e inibindo as más-tendências dos homens e mulheres públicos, enquanto a Família Imperial servirá como espelho e exemplo das melhores virtudes do povo brasileiro.

Foto: Sua Majestade o Rei da Espanha, Dom Felipe VI
Fonte: Face book Pró Monarquia

17 fevereiro 2019

Razões de ser feliz - Por: Emerson Monteiro


Por vezes sentimos apreensão, qual pisar em solo pedregoso, em lama escorregadia, e as percepções reclamam as ocasiões melhores que somem, parecendo não virem mais. Nuvens sombrias sujeitam, nisso, cobrir o panorama imediato, deixando pouco espaço de alegria nas horas transitórias da felicidade com que sonhávamos. Fecha o tempo mental, espécie de eclipse de nós próprios, isso que acontece três por dois com os humanos, a pedir clemência dos pais da humildade e senhores da paciência.

Diante dos tais momentos de contrapé, face aos riscos desanimadores das lides cotidianas, que instrumentos adotar de reverter o quadro dessas limitações, reconstituir as horas de leveza? Que normas adotar no pensamento, palco das fraquezas e desânimo, invés de fugir da raia, se esconder das sete capas do destino, recalcitrar aos desafios e sustentar a barra de seguir?, conquanto logo bem perto, na essência de nós, sobretudo, persistirá a força que guia nas penumbras. Jamais considerar, pois, a derrota por justificativa das limitações.

Isto no que tange às pessoas em particular. No todo, entretanto, funciona de igual para igual; há sempre um novo amanhã, modos clássicos de conformação e repouso da alma, isto nas religiões, nos folguedos populares, nas grandes movimentações de reconstruir o desejo de viver, seja perante o que vier de acontecer, sem a menor a discriminação. Quanto à criatura no seu íntimo, cabe erguer olhos aos espaços da consciência, à Natureza aqui presente que a tudo permite todo tempo.

Lembrar as tantas vitórias em circunstâncias idênticas, horas de desânimo que o passado triturou doutras vezes, porquanto somos o princípio e o fim de nós mesmos, matrizes da esperança. Sustentar degraus sob os pés ao ritmo do crescimento que vier, vez acharmo-nos instalados no império de leis inigualáveis, onde todos já agora fertilizamos a Paz e o Amor, nos caminhos da absoluta Perfeição. 

16 fevereiro 2019

O filho de Miguel Arraes - por Armando Lopes Rafael (*)



  Conheci Luiz Cláudio Arraes de Alencar – tratado carinhosamente por Lula – quando da temporada que ele passou em Crato, creio que entre 1966-1967, depois que o pai dele – Miguel Arraes de Alencar – foi deposto do cargo de Governador de Pernambuco pelo Golpe Militar de 1964. Luiz Cláudio devia andar aí pelos 7/9 anos e sempre ia à redação do jornal “A Ação” (onde eu trabalhava), em companhia de dois irmãos, pouco mais velhos do que ele, e dos primos residentes em Crato.

A imagem que tenho dele é a daquele tempo: um garotinho vivaz, inteligente, comunicativo e simpático. Lula era o caçula do primeiro casamento do pai. E por ser o caçula era ainda mais carinhosamente cuidado por sua dedicada avó paterna, dona Benigna, e por suas dedicadas tias Almina, Alda, Laís, Maria Alice e Anilda, todas irmãs do Dr. Miguel Arraes.

A comunidade cratense tinha conhecimento, à distância, dos imensos transtornos sofridos pela família do político Miguel Arraes. Este foi deposto e preso (em Recife e Fernando Noronha) durante quatorze meses, depois de ter sido abruptamente arrancado do poder. Até que, certo dia, conseguiu ser solto por algumas horas – por meio de um habeas-corpus – e buscou asilo político na Embaixada da Argélia, no Rio de Janeiro. Enquanto isso seus nove filhos ficaram dispersos. Os quatro mais novos viveram uma temporada em Crato na casa da avó Benigna.

     No final de 1968 deixei o Crato para trabalhar no Banco do Nordeste, em Sertânia (PE). Nunca mais tive notícias de Luiz Cláudio. Mas como meu pai era amigo de dona Benigna e das suas filhas, ele me transmitia, vez por outra, notícias esparsas da família do Dr. Miguel Arraes de Alencar.

     Já aposentado voltei a residir em Crato. E, vez por outra visito dona Almina Arraes Pinheiro, uma senhora admirável em múltiplos aspectos. Ela sempre me recebe com a fidalguia, que caracteriza aquele admirável clã. Outro dia perguntei a dona Almina por Luiz Cláudio e, para minha surpresa, ela me informou que ele era médico e tinha escrito alguns livros. Emprestou-me dois livros da lavra de Luiz Cláudio: “Tempo - o de dentro e o de fora” e “Todo diálogo é possível”.

       Confesso que ao lê-los tive uma agradável surpresa. Escritos com emoção, esses livros de Luiz Cláudio Arraes transmitem o amor e a admiração de um filho por um pai. E isso externado através de lembranças, de frases e de momentos vivenciados entre ele e seu pai, Dr. Miguel. É um desses escritos que faz bem à alma, pois mesmos povoados de sofrimentos, nos levam a acreditar que ainda existe gratidão, solidariedade e idealismo na humanidade...



(*) Artigo escrito em 2009, há dez anos.


A religiosidade da Família Imperial Brasileira


Fonte:  Face book Pró Monarquia

   Ao tempo do Império, sempre que o Imperador Dom Pedro II ou sua filha e herdeira, a Princesa Imperial do Brasil, Dona Isabel de Bragança, visitavam uma cidade do vasto território pátrio, buscavam iniciar seu itinerário pela igreja local, onde assistiam à Santa Missa junto às autoridades e à população, demonstrando que o rei temporal deve sempre se curvar diante daquele que é o “Rei dos reis”.

    Com o golpe republicano de 15 de novembro de 1889, o “Brasil oficial” – inicialmente impregnado pelo laicismo fanático dos positivistas proclamadores da República, e, nos dias de hoje, pela ojeriza esquerdista à religião – deu as costas a Deus, mas nossa Família Imperial, assim como o “Brasil profundo”, o Brasil de verdade, jamais se esqueceu da fé e da tradição que herdamos de nossos maiores, aqueles que evangelizaram esta Terra de Santa Cruz.

     É, pois, uma preocupação constante, da parte de nossos Príncipes e Princesas, quando de suas viagens de representação por todo o País, saber onde poderão comungar na localidade em que estiverem. Essa inabalável firmeza de princípios – que lhes garante a admiração mesmo daqueles que não partilham da mesma fé – é parte fundamental do caráter do modelo ideal de Chefe de Estado, representado pela Família Imperial do Brasil.

    Afinal, o Imperador, sendo temente a Deus Nosso Senhor, está sempre atento ao seu povo, auxiliando-o a alcançar suas legítimas aspirações e regendo os destinos da Nação de acordo com as Leis de Deus. Daí resulta aquele que deve ser o nosso principal objetivo: uma sociedade brasileira autenticamente cristã e monárquica, respeitando-se sempre as legítimas diversidades do nosso povo.

Na foto abaixo: O Príncipe Dom Bertrand de Orleans e Bragança, o Príncipe Dom Antônio, a Princesa Dona Christine e o Príncipe Dom Rafael de Orleans e Bragança, durante a Santa Missa em Ação de Graças pelo 79º aniversário natalício de Sua Alteza Imperial e Real o Príncipe Dom Luiz de Orleans e Bragança, Chefe da Casa Imperial do Brasil, celebrada na Igreja da Imperial Irmandade de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, no Rio de Janeiro, em junho de 2017.

15 fevereiro 2019

O livro “Virgílio Távora, o Estadista cearense" já é sucesso antes do lançamento


Obra será lançada em Crato, no próximo mês de julho
Fonte: Site "Cariri é isso"

 Escritor César Barreto, à direita

   O escritor César Barreto anda num estado emocional tão bom que vocês, caros leitores, nem imaginam. Tudo porque a lady Tereza Maria Távora assegurou que aqui aportará na VI Feijoada do Marcos Peixoto a acontecer no dia 13 de julho de 2019, no Espaço de Eventos Quinta dos Lobos, em Crato. E mais, Tereza Maria, que é herdeira do estadista  cearense Virgílio Távora, o saudoso VT, solicitou 50 livros versando sobre a vida e a obra de seu pai e que neste ano estaria completando 100 anos de nascimento se vivo fosse, para distribuir nas escolas públicas da periferia de Fortaleza.

    Mas essa felicidade de César Barreto conta com mais outra razão de ser:  os prefeitos de Acaraú, Cedro, Crato, Massapê, Várzea Alegre, Santa Quitéria, Cariré, Iguatu, Reriutaba e Icó externaram a ele próprio o desejo de adquirir exemplares do livro “Virgílio Távora: O Estadista Cearense”  para as suas respectivas bibliotecas municipais.

    A tiragem inicial com o selo da RDS terá que ser aumentada por conta da demanda.

Quem ama realmente os pobres? – por Marcos Luiz Garcia (*)

A sopa do mosteiro franciscano — Ferdinand Georg Waldmüller (1793-1865). Österreichischen Galerie, Belvedere, Viena

Entramos em 2019, e se renovam as esperanças de dias melhores. O presidente Bolsonaro tomou posse reafirmando suas promessas de termos nosso Brasil de volta, deixando para trás a atmosfera de desordem e caos da era "comuno-petista" e "socialo-psdbista". Prometeu proteger as nossas tradições e a família, bem como a propriedade privada e a livre iniciativa. Isso significa estimular as forças empreendedoras da Nação, que já se aprontam para corresponder ao estímulo.

Essas perspectivas vêm causando profundo desagrado nos arraiais da esquerda, sobretudo no setor do clero e do laicato alinhados com a “Teologia da Libertação”, todo ele amplamente comprometido com a ideologia petista. Para esse tipo de gente, um governo que estimule a propriedade privada e a livre iniciativa pode até gerar riquezas, mas à custa do que para eles é o supremo mal: a desigualdade. Preferem o achatamento de todos na miséria a permitir que os ricos se diferenciem dos pobres. Afirmam que se trata de “opção preferencial pelos pobres”, quando na verdade propugnam pela “opção preferencial pela luta de classes”.

Afinal, quem são os verdadeiros amigos dos pobres? Seriam os que desejam vê-los perpetuamente achatados na miséria, desde que não haja desigualdade? Ou são os que procuram criar condições para eles trabalharem e se enriquecerem? Por que não aproveitar em favor dos pobres a força dos que sabem fazer fortuna? Se estes dispõem das condições para trabalhar e enriquecer, criam também condições para enriquecer os que dependem de empregos. Dessa forma, dentro de uma benéfica e harmoniosa desigualdade, o pobre deixa de ser pobre e pode elevar-se a uma condição de vida melhor. Mas isso não é tolerado pelos adeptos da “Teologia da Libertação”.

Que mal há numa situação de harmônica desigualdade, com enriquecimento justo, honesto e digno? Foi para proteger esse direito que Deus estabeleceu dois Mandamentos: “Não roubar” e “Não cobiçar as coisas alheias”. Lamentavelmente, eles são sistematicamente omitidos nas homilias de padres progressistas.

“Pobres sempre os tereis entre vós”, disse Nosso Senhor Jesus Cristo. E São Tomás de Aquino nos ensina que é dever do homem praticar a caridade. Mas para que ela se torne possível, é necessário que uns tenham bens, e outros tenham carência de bens. Se Deus permite pobres no mundo, também suscita os ricos que os ajudam, fomentando assim a caridade cristã.

Em nenhum lugar o Evangelho relata conduta igualitária de Nosso Senhor. Não há um só caso em que Ele tenha tirado um pobre da pobreza, nem rebaixado um rico da sua condição de riqueza. Ele curou, deu esmolas, mas não modificou o status econômico ou social de ninguém. Nem pregou a luta de classes.

Num regime igualitário, ninguém tolera que um possua mais do que outro. É um mundo inóspito em que predomina o pecado capital da inveja. O verdadeiro espírito do Evangelho cria a harmonia e o amor recíproco entre as classes. O da “Teologia da Libertação” fomenta o ódio entre ricos e pobres, prejudica uns sem resolver o problema dos outros.

(*) Marcos Luiz Garcia é jornalista.

Palavras soltas - Por: Emerson Monteiro


Aonde se banham sentimentos, refastelam as paixões e lavam as mágoas de viver ainda sob o manto das sombras. De cujas praias partiram os grandes navegantes e conquistadores, praias das longas possibilidades humanas, centro de tudo que diz respeito existir e ter personalidade, que possa pensar e dizer, sem perder o senso. Mar do infinito, das luas ensolaradas e manhãs frias e cinzentas. Lâmina de saudades e conforto da solidão, crateras da liberdade e cárcere das ilusões. Mar imenso em ondas descomunais de vícios e virtudes, horas de sonhar e séculos e arrependimentos, abismo escuro das esperanças em vista.

Antes de ser, assim existia o Verbo... Faz em nós habitação e moureja ao nosso lado, no decorrer das escrituras sagradas, nas orações e litanias, Alguém que sussurra as santas preces no coração das almas. Luzes que acedem no transcorrer das tempestades; conforto dos insanos; cantos suaves do amantes em fúria; células mínimas do corpo das humanidades; candências ligeiras das tropas em retirada deste mundo que flutua pela recordação dos poetas.

Caminho de casa dos perdidos nas noites, as palavras viram pensamento, que revira as fibras do coração na festa de sustentar as leias da existência. O poder das palavras ao pendor das criaturas, força viva da criação em forma de momentos que esvaem ansiosos de desaparecer no firmamento das consciências, e depois a nunca mais... Pequenos gravetos de fogueiras acesas na crepitação e na dor de viver. Átomos da energia que nutre o monstro das eras e consome derradeiras imagens dos dias que somem na voragem incessante do Tempo.

Mundo de palavras em eterno movimento... Sons de natureza pensante... Blocos siderais de faíscas luminosas que saturam espaços e crescem ao término dos instantes eternos. Palavras, luzes que apagam e acendem ao sabor da respiração e combustível nas transformações e nos deuses.

(Ilustração: Colagem, Emerson Monteiro).

14 fevereiro 2019

Caririensidade (por Armando Lopes Rafael)


Projeto de Preservação do Soldadinho do Araripe

     Foi implantado,  na cidade de Crato,  o Projeto de Preservação do Soldadinho do Araripe. Está localizado na sede própria do Instituto Cultural do Cariri.  Além da sede foi delimitado uma área para funcionar como Centro de Visitação do Espaço do pássaro Soldadinho do Araripe.

     Através do apoio dos proprietários de terras, o projeto, em parceria com Área de Proteção Ambiental (APA), vem implantando o Cadastro Ambiental Rural. Atualmente, em 90 nascentes existem menos de 200 casais do pássaro. No total, são apenas 800 soldadinhos-do-araripe, que correm risco de extinção. Para evitar a consanguinidade, de acordo com estudos genéticos deste tipo de animal, são necessários 512 casais. Ainda em processo de preparação, o viveiro de mudas do projeto Soldadinho-do-Araripe vai funcionar produzindo espécies de plantas como a Rosa da Mata, Pimenta de Macaco e Candeeiro D´água que são adequadas ao habitat da ave. Entretanto, o plantio e a recuperação é demorada, devido aos fatores ambientais e também pela qualidade dos solos.

Soldadinho do Araripe: a ave símbolo da Caririensidade

   Esta espécie, cujo nome científico é Antilophia bokermanni, é um pássaro que só existe nas encostas da Chapada do Araripe. Trata-se da única ave endêmica do Ceará, ou seja, das mais de 460 espécies que encontramos no nosso Estado, o Soldadinho do Araripe é a única exclusiva do Ceará. Por isso, tornou-se o símbolo para a conservação da Floresta Nacional do Araripe–Flona.

   As riquezas e as diversidades naturais e culturais fazem do Cariri um oásis no centro da região Nordeste brasileira. A água que é armazenada – na temporada das chuvas –, em reservatórios subterrâneos na Chapada do Araripe, desce depois pelas encostas, formando algumas nascentes. E se transforma numa água límpida e cristalina, que se derrama entre a mata e o sopé da chapada, formando – parte inferior da encosta –  tapetes verdes de bela vegetação.  Em torno desses tapetes surgem pequenos regatos. Fica aí o habitat do Soldadinho do Araripe, uma ave ameaçada e extinção. O Soldadinho do Araripe tornou-se um ícone, uma imagem da caririensidade! E está sendo usado como apelo contra a devastação das florestas da nossa Chapada; contra o mau uso das águas das nascentes; em favor da defesa do meio ambiente.

Um exemplo de ensino de excelência: Colégio da Polícia Militar de Juazeiro do Norte


  Colégio Militar Coronel Hervano Macedo Júnior, localizado em Juazeiro do Norte

   Há 50 anos, Juazeiro do Norte só contava com três educandários de bom nível: Escola Normal Rural, Ginásio Salesiano e Ginásio Batista. Hoje tudo é diferente! A cidade cresceu também na área educacional de ensino médio. Dentre as boas escolas da Terra do Padre Cícero, o Colégio Militar de Juazeiro do Norte – criado pelo atual governador do Ceará, Camilo Santana, em 30 de dezembro de 2015, ganhou realce. Trata-se do segundo Colégio da Polícia Militar do Ceará, beneficiando, no Cariri, alunos do 8º ao 3º ano, do ensino fundamental e médio. Eles são distribuídos em 31 turmas, nos períodos da manhã e tarde. Em 29 de Junho, através do decreto nº 16.038, o colégio passou a se chamar Colégio Militar Coronel Hervano Macedo Júnior.

    São mais de 1.100 alunos, 55 professores, e cerca de 30 militares no quadro de profissionais da escola, que, além de um ensino eficiente, onde a prioridade é o respeito e a disciplina, dispõe de excelentes salas de aulas, laboratórios de Matemática, Informática, Biologia e Física, auditório biblioteca e ginásio esportivo.

     Apesar de críticas feitas por educadores seguidores das orientações emanadas pela “ordem global” no tocante à educação dos jovens,  a verdade é que a disciplina rígida das escolas de orientação militar; o bom desempenho em avaliações nacionais e o ambiente acadêmico com foco na formação completa do estudante, tornaram essas escolas verdadeiros exemplos de excelência em meio ao atual caos da educação pública brasileira.


Um fato histórico-religioso recente em Crato


    Era o dia 27 de janeiro de 2000. O Palácio Alexandre Arraes, sede da Prefeitura Municipal de Crato, estava lotado. Ante uma belíssima imagem de Nossa Senhora de Fátima, o então Prefeito, Moacir Soares de Siqueira, visivelmente emocionado, comandava a solenidade de consagração da cidade de Crato ao Imaculado Coração de Maria.

O texto da consagração

“Ó Virgem Senhora de Fátima, a cidade de Crato, prostrada aos vossos pés, crê e espera, deseja e implora a realização de vossa grande promessa: Por fim, o Imaculado Coração Triunfará!

      E nós, enquanto Prefeito deste povo fiel, em união com o Santo Padre o Papa João Paulo II, com o nosso Bispo Dom Newton Holanda Gurgel, e todo o clero, aclamamos desde já este triunfo, que fará raiar no mundo o Reinado de vosso Divino Filho, Cristo Jesus, nosso Redentor.

      E, ao mesmo tempo, suplicamos a graça de sermos instrumentos em vossas mãos para edificação deste Reinado, que só será verdadeiramente de Jesus, se for inteiramente vosso! Sois Vós, Senhora, a Estrela da Esperança e a Aurora do Terceiro Milênio. Foi por Vós que Nosso Senhor Jesus Cristo veio ao mundo, e será por Vós que ele reinará no mundo.

       E nós, vossos filhos de Crato queremos buscar em primeiro lugar este Reino, o Reino de Jesus em Vosso Imaculado Coração, bem certos de que todas as outras coisas nos serão dadas por acréscimo.

       Para selar oficialmente este propósito, nos Vos consagramos – tanto quanto nos outorga nossa autoridade de representante civil deste povo católico – nós consagramos ao vosso Sapiencial e Imaculado Coração nossa cidade, com todas as suas famílias e instituições.

       Aceitai, Senhora, esta consagração. Nós a depositamos em vosso Coração Imaculado, para assim nos consagrarmos mais santa e plenamente ao Sagrado Coração de Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Divino Filho. Assim seja.”

***   ***   ***

Ex-prefeito de Crato, Moacir Soares de Siqueira

    Assim, naquela singela iniciativa, o Prefeito Moacir Soares de Siqueira – com a legítima autoridade de que estava investido – ao consagrar o Crato a Nossa Senhora de Fátima, separou para Deus esta cidade e seus moradores, oficializando-os – no âmbito civil – como propriedade da Virgem Santíssima. Esta, certamente, cuidará ainda com mais carinho e desvelo maternal, tanto da cidade como do seu povo, que já lhe pertenciam por desígnios de Deus, e cuja pertença foi ratificada por suas autoridades civis constituídas...

13 fevereiro 2019

Dias alegres - Por: Emerson Monteiro


Os olhos que enxergam a paisagem são os nossos olhos. A cor da paisagem quem vê somos nós. O mundo existe independente, mas nós lhe damos o tom, a melodia. A paisagem existe lá fora, no entanto de dentro quem a vê seremos sempre nós. Daí a imaginação de que fomos criados a fim de dar sentido aos mundos e seres. Isto é, o panorama existe objetivamente, não fosse, contudo, a nossa existência ninguém registraria tais existências. Somos o sujeito das existências, inclusive de saber da nossa existência.

Dizem os existencialistas que, nos outros seres, a essência precede a existência. Vêm do jeito que serão. Já nos seres humanos a existência precede a essência; ainda não sabem o que virão a ser ao sair de volta. Animais, coisas e lugares nascem animais, coisas e lugares. O ser humano haverá de se fazer ser humano, deixar de ser só um objeto em movimento ocasional. A essência, o ser, nos humanos virá depois que existir, condição necessária. Se não, estará sendo tão só mais um animal, ou coisa, ou lugar, em que a essência estaria em potência sem realização daquilo que trazia quando chegara à existência.

Bom, essas tiradas conceituais resolvem o desejo de contemplar a paisagem do dia, uma manhã bonita de nuvens de chuva, chão molhado e frio gostoso pelo ar. Os dias que sucedem aos dias. As belas manhãs que enchem de vistas a alegria, quando a gente abre o coração e recebe de bom grado viver com intensidade o deslindar do tempo. As certezas, as pessoas integradas no gesto de viver em paz que elas delas conseguem obter. Horas de boa vontade.

Todo instante traz frutos bons, desde que plantemos à luz dos sóis em nossas almas, trabalho de quem busca inteiro o motivo de viver. Há, no que há, religiosidade plena, que nos resta desvendar através da sabedoria. Oferecer o melhor de si aos acontecimentos do Universo. Espécie de doação boa a nós próprios, viver pede inspiração. Dias alegres durante as existências, eis, em resumo, a razão principal do ato de existir.

11 fevereiro 2019

Artes da ficção - Por: Emerson Monteiro



Antes alguns dias ouvira aquela notícia de que nossa Terra sofreria uma mudança radical de polaridade cósmica, Norte seria Sul e Sul, Norte. Isto que tem data marcada; as proféticas notícias falavam de inversão extrema na mobilização do Planeta perante o espaço infinito, transformações dos movimentos de rotação e translação e outras consequências mais.


Mas o que contava mesmo, naquela tarde logo após a sesta, foi de ele sair ao quintal já munido da escova de dentes e começar a escovação, o que fazia sempre pela manhã no despertar corriqueiro e agora seria levado por estranhas forças a cumprir o ritual do asseio em pleno calor da tarde. O Sol era, no entanto, igual ao dos dias anteriores, apenas com um pequeno detalhe, pequeno e importante, vez que nascia no poente, da outra banda, no horizonte do lado contrário, desde aquela primeira vez. 

Nisso pensou que estivesse em outra dimensão, ou mais precisamente, noutro lugar do Chão que não fosse idêntico ao que deixara na hora em que adormecera cedo na tarde. Contudo, ainda desse jeito, raciocínio insuficiente a esclarecer a revirada total que pareceu lhe ocorrer no humor, de o mundo girar em sentido contrário, sem o que dissessem de certo pela televisão, pela internet... O que aquilo que houvera, então, sido até ali esdrúxulo ao máximo de inverter a tal polaridade?!

Bem, iremos devagar; veio sendo assim desde aquele instante em que notara, a ordem do Universo conspirava naquilo nas mínimas funções, pela reversão cronológica dos equipamentos eletrônicos, que aos poucos regressaram, dia após dia, aos velhos modelos lá de antigamente, outro sinal imbatível. Revia aos passos de ocasiões sucessivas os modelos dos rádios que conhecera no passado, rádios a pilha, a válvula, invenções da época das ditas modernas produções, imaginação fervilhante dos primeiros cientistas, os metais, as madeiras. O telefone, esses, dos esmartes aos da manivela, revelavam as marcas dos períodos; telegramas, correio a cavalo, a pé, a caravelas; tambores tribais, nuvens de fumaça nas montanhas afastadas; relâmpagos e trovões. 

Num processo repetido, visto momento a momento, vidas adentro observava o corpo, a própria pele, que limpava gradualmente cicatrizas das batalhas de que participara, das jornada terrenas, e ganhava elasticidade jovem a princípio, e infantil na sequência da comédia. Quando menos esperou, acompanhava às avessas o parto da sua mãe, e logo depois o seu desparecimento individual de esperma antecedendo a relação donde fora gerado. 



De regressão em regressão, entrou dessa maneira em um nível mórbido de flutuação nalgumas paragens que nem delas lembrava existir a memória, de outras esferas, outros universos, invisíveis que fossem; vagou num tempo sem velocidade, mas de paz e neutralidade crucial; luzes mergulhando na inexistência em ritmos ora alucinantes, acelerados, ora suaves, etéreos e vastos, conquanto nunca houvessem sido hora nenhuma que pudesse haver existido nalguma quimera.

Qual numa sucessão caleidoscópica de gerações, gerações, idades e acontecimentos, viu cruzar pela retina assustada, de tantas tradições revividas de modo inverso, inúmeras histórias de gente, civilizações do que antes registrara durante as muitas vidas, inclusive testemunhando a presença constante daquelas pessoas conhecidas com quem privara as estações geológicas que foram embora, e julgava que acharia de novo. Mundos e mundos, horas e horas, dias, meses, anos, séculos, milênios, bilênios... Perlustrou a era dos elementos originais; acompanhou de perto os esturros das manadas de búfalos nos sertões americanos; os dinossauros vagando famintos pela África; as cheias do Nilo; as aflições do Dilúvio; olhou de perto a crueldade insana dos reinos bárbaros e seus banhos de sangue ao preço da ganância nas fúrias de riqueza; ilusões; páginas sem conta de livros clássicos sendo jogadas às chamas das fogueiras e das guerras; fome campeando solta nos impérios devastados; vaidades vendidas, vencidas desde o nascedouro das paixões humanas.

Então, surpresa a sua, sentiu a paz deslizando pelos campos vivos dos lugares equilibrados, de animais pastando entre si sem a fome voraz das outras feras...

Um casal que assistia aquilo tudo sorria embevecido quais seres iluminados; seriam, avaliou consigo, os primeiros viventes daquela humanidade que sumia na voragem inversa dos movimentos.

Impacto inigualável, algo aconteceu de inopino; explosão monumental de mundos, espécies, formas, nisso ocasionou depois o silêncio solene no transcorrer daqueles sonhos intermitentes que viraram neblina em sua consciência. Unicamente ausência, de habitantes e objetos, tornou a visão íntima em um quase nada poderia persistir, sensação pouco a pouco revestindo apenas vazio imenso que pairou infinitesimal nas derradeiras pulsações que balouçaram nas ondas do mar de luz absoluta e um Sol a refletir claridades superiores ao que quer que esgotassem os rios das vivências arcaicas desaparecidas para sempre; e Ninguém a ver... A ver... Nada...

 (Ilustração: Colagem, Emerson Monteiro).



10 fevereiro 2019

Barbalha e Missão Velha estão se redescobrindo economicamente


Fonte: http://www.caririeisso.com.br/


   Alguns dias atrás, conversando com o amigo Givaldo Sisnando que é do Cariri, mas que muito cedo voou para a nossa Capital em busca de ganhar a vida. E ganhou, hoje é um homem realizado profissionalmente, materialmente e familiarmente. Givaldo se tornou um baita de um investidor financeiro e já emprestou seus serviços a grupos grandes como os do senador Tasso Jereissati, do João Melo (Mercadinhos São Luís), do Luís Cidrão e hoje se encontra no grupo José Carlos Pontes, da Marquise.

   Givaldo veio passar um fim de semana conosco e em uma de nossas conversas, adverti-lhe que Barbalha e Missão Velha estão se redescobrindo economicamente, através do agronegócio que atualmente recebe o nome de agrobusiness (agronegócios em inglês), e que corresponde à junção de diversas atividades produtivas que estão diretamente ligadas à produção e subprodução de produtos derivados da agricultura e pecuária.

   Percebi que o mesmo ficou espantado com a minha afirmação, como se estivesse escutando algo impossível de acontecer. Expliquei-lhe então que tinha as minhas razões para assim me posicionar. Explicações postas, acredito que consegui convencê-lo de tal assertiva.

   Pois bem, foi com satisfação que recebi ontem a noite da parte do amigo economista Boanerges Custódio a seguinte boa nova e que respalda por completo a minha análise sobre o fortalecimento econômico das cidades de Barbalha e Missão Velha:

   “O Sitio Barreiras, empresa localizada em Missão Velha- (Cariri-CE) e no Estado do Maranhão, maior produtora de banana do Nordeste, ganhou o segundo lugar em inovação tecnológica (pelo sistema de amadurecimento de bananas) na Fruit logistic em Berlim, Alemanha, maior feira do mundo em logística de frutas. Concorreram 380 empresas. O Sítio Barreiras é uma empresa com gestão financeira exemplar.”
    Honra ao mérito!

Falta de continuidade: o grande mal da república



Brasão do Império do Brasil em metal dourado
encontrado na capa da constituição nacional de 1824

   A República – pode-se afirmar com plena certeza – sofre de um problema sério de legitimidade. A cada quatro ou oito anos, o novo Presidente se esforça para desfazer as medidas, boas ou ruins, adotadas por seu antecessor. E antes que ele possa por em prática todo o seu programa – ou ao menos as promessas mais factíveis –, seu mandato termina, e o ciclo republicano se repete.

   Nosso País tem sofrido com uma decadência nunca antes vista em sua História. A moralidade pública desapareceu por inteira, o descrédito da classe política não poderia ser maior, com os homens e mulheres públicos acumulando escândalos de corrupção, e vê-se apenas desesperança e desânimo em nossas instituições. Até os mais otimistas se veem obrigados a reconhecer que mesmo o melhor dos paliativos não pode durar para sempre – dura pouquíssimo, aliás!

   Então qual seria a solução real para a crise brasileira?

   A solução não se encontra em salvadores da pátria, modelos utópicos ou sistemas de inspiração estrangeira, mas sim no regime de governo que melhor funcionou no Brasil: a Monarquia Constitucional, que trouxe grandeza interna, respeito e admiração no exterior para o nosso País, sobretudo durante o longo e próspero reinado do Imperador Dom Pedro II, e que necessitaria apenas de algumas poucas adaptações para o século atual.
Bandeira do Brasil Imperial

Fonte: https://www.facebook.com/promonarquia/

08 fevereiro 2019

Nas fronteiras do Infinito - Por: Emerson Monteiro


Bem ali aonde ir ou chegar pouca ou nenhuma diferença faz. No íntimo dessas visões de mistério, de quando o silêncio grita e os sons desaparecem como que por encanto por dentro das montanhas mais afastadas. Durante as horas mortas no chão da noite, sombras sobre sombras, e os bichos arrastam passos feitos quem quer se esconder da própria carne que carregam quais almas penadas diante do que lhes resta face a face do desconhecido.

Assim tais fenômenos inexplicáveis dessa luz baça da escuridão, os humanos desfazem rastros nas florestas do presente que esvai, lesmas a deixar listras surdas nos paredões desta vida, admiráveis entes de visão ainda insuficiente, a percorrer o mundo sem a leveza da sabedoria. Trilham os campos da própria glória neste chão de lágrimas e parecem contentes com o que encontram nas marcas do destino. Vagos, vacilantes, embriagados e pródigos, destroem a substância preciosa do tempo a bater nos céus as mãos imprudentes, apressadas, rudes.

Olhar as oito direções e nada enxergar além do horizonte curvo das horas impacientes pulsando nas veias ao ritmo da inevitabilidade. Querer discordar das possíveis respostas, no entanto, a dizer pouco do que precisa saber. Atirar às frestas das compreensões filosóficas o desejo de acalmar o fugidio, porém afogar nas mágoas do desespero, razão do quanto percorrer na ânsia dos abismos, roteiro impecável das circunstâncias em volta. Pedir, implorar, justificar, contudo submissos a leis que desconhecem.

Pássaros de asas rotas de tanto voar em círculo, decidem abraçar os troncos calcinados das árvores tortas e somem nas gretas do escuro, a sacudir aos noutros seres as respostas que precisam, prisioneiros da ausência de luz na consciência. Nisso, as caravanas deslizam sorrateiras a recomeço doutras vidas, pedaços em fragmento nas horas que ninguém sabe pronde foram.

Essas bólides que percorrem o espaço, dotadas de gente dentro delas, são aquilo que denominamos fronteiras do Infinito e seguem firmes a insistir nos sonhos de libertação que sempre carregaram consigo durante todo tempo de solidão.

07 fevereiro 2019

Elias e os sacerdotes de Baal - Por: Emerson Monteiro


Há que reunir elementos de três histórias a fim de contar a que aqui pretendo. Lá era um tempo passado, época do Rei Acabe no comando de Israel, esse que foi um dos reis malvados e que matou diversos profetas de Jeová, ele e sua rainha, Jazebel. Seguiam os profetas de Baalim, que pregavam outras práticas, alheias aos ensinos do verdadeiro Deus.

Já transcorriam três anos que não chovia face aos desmandos exercidos pelos falsos profetas. E Elias saíra das terras de Samaria em rumo desconhecido. Ao regressar, encontrou o profeta Oseias a recolher os derradeiros profetas de Jeová em cavernas das montanhas no sentido de evitar suas execuções. Pede Elias a Oseias que comunique ao Rei Acabe a sua volta.

Ao avistar Elias, Acabe acusou de ele ser o responsável pela situação de penúria que vivia o povo. Elias retrucou, transferido a acusação aos costumes trazidos pelos sacerdotes de Baal. Então propôs um teste de que saber quem seria o Deus verdadeiro. Os 450 sacerdotes de Baal e Elias ambos fizeram altares oferecendo sacrifício de animais aos seus deuses, e o que viesse receber a oferenda este seria o verdadeiro Deus.

Por mais clamassem aos céus a presença de seu deus, nunca que Baal ali apareceu a fim de receber o sacrifício, enquanto, em seguida, instado por Elias, Jeová fulminaria em um sopro o que se lhe oferecia.

Ciente da verdade do Poder, indagado por Acabe o que fazer dos 450 sacerdotes de Baal, Elias sentenciou que eles fossem executados por decapitação. Voltariam, sim, as chuvas e o reino judeu normalizaria sua vida.

No entanto dali restara a Elias, homem considerado virtuoso e obediente a Jeová, o carma adquirido por conta do que ordenara, numa medida extrema de justiça capital.

...

Séculos adiante, porém, reencarnaria como João Batista, o Elias que havia de vir, segundo predisseram as profecias da vinda o Messias (De o Evangelho segundo S. Mateus 17,10-13: Ao descerem do monte, os discípulos fizeram a Jesus esta pergunta: 

- Então, por que é que os doutores da Lei dizem que Elias virá primeiro?

Ele respondeu: 

- Sim, Elias virá e restabelecerá todas as coisas. Eu, porém, digo-vos: 

- Elias já veio, e não o reconheceram; trataram-no como quiseram. Também assim farão sofrer o Filho do Homem.

Então, os discípulos compreenderam que se referia a João Batista.

06 fevereiro 2019

Os sons do inesperado - Por: Emerson Monteiro


Escrever, no mínimo, é prazeroso, instigante. Oferece ímpetos de a gente correr em busca de novidades e encontrar alternativas de jogar com as palavras, em meio às rotinas, viagem por vezes surpreendente. Os sons das palavras saem batendo nas paredes da visão, escarrancham sótãos de lembranças, notícias, pensamentos, sonhos, assim quase vadias, destituídas de propósitos ou direitos, no entanto firmes na intenção de revelar os segredos guardados nas sete capas do inexistente. Muitas, inúmeras, as chances de acalmar o instinto dessa função de transmitir, porém, ainda que tranquilizem durante algum tempo, lá adiante vêm de novo neste desejo de saltar fora e trocar em miúdos o que restara das refeições cotidianas, e tem mais, acham que queiram parar aqui e dividir a solidão das existências, nesta comunhão de pensamentos na mesma aventura das revelações interiores. Palavras, palavras, palavras...

E quando, outra vez, elas descobrem a gente presa da angústia de querer contar o inconfessável, psicografando junto o séquito de andarilhos, de longe, observam os desavisados e trazem sons do inesperado ao texto.

Outro dia, Ceci me falou que, recentemente, ouviram profundo estrondo nas imediações do litoral norte da Bahia, quando identificaram naquilo a queda de um meteoro de maiores proporções. A notícia gerou empenhos dos estudiosos em localizar os pedaços do corpo celeste, disso pedindo à população que tragam às pesquisas tais pedras de corisco que recolheram. Eis dos tais sons do inesperado em que falei. Quantas e tantas ocasiões correm nos céus as estrelas cadentes, riscos de luz desses corpos que penetram a atmosfera da Terra e incendeiam nos fachos luminosos. Deles veem-se os claros, no entanto há dias em que deles também se ouvem o estrondo ao tocarem o solo das proximidades dos núcleos humanos. Gabriel até me disse que todo o ferro que existe na Terra veio do espaço, que leu nalguma revista.

Isso lembra os sons das palavras quando invadem o silêncio em volta e chegam ao coração, no instinto de serem transmitidas uns aos outros, pela escrita, no discurso de papel. Algumas viram coriscos e chamegam o território íntimo de quem escreve e adiante dos que leiam.

(Ilustração: Pieter Breguel).

05 fevereiro 2019

A ilusão da dualidade - Por: Emerson Monteiro


O Um é um nem mais, nem menos: o erro começa na dualidade; a unidade não conhece erro. 
 Hakim Sanā'ī, poeta persa e mestre sufi 

Insistir em confortar a Natureza, eis o pecado capital dos humanos. Andarem de mãos dadas com a destruição dos bens naturais qual leopardo à procura da próxima presa guardada no pensamento. Houvesse menos razão e maior intuição existiria no senso do equilíbrio a dominar o mundo. Perder-se-iam na inutilidade os valores estéreis da ganância e só o bem dominaria os instantes, tais perfumes da realidade, acima de todas as provações.

Porém há espécie de embriaguez no instinto de devastação que a tudo revolve feito animal desesperado à busca da carne que transporta no íntimo de si mesmo, sob o desespero de descobrir o Universo em destruí-lo, invés de aceitar viver em comum acordo com as normas do amor. Já foram tantas vezes assim que, entretanto, a fera tem hora que parece querer tomar conta do espaço. Sombras das sombras que transportam estradas afora, escodem na dúvida o faro da morte, que aceitam de conclusão, e olham o tempo menos consciente do que as presas os que devoram.

A orquestra executa as peças mais fervorosas e o rebanho contorce os corações endurecidos, inimigos entre si, aleijões da imaginação e cegos que nem querem ver jamais. Quando na verdade somos um e única criatura durante todo momento. Irmãos de irmãos, que desconhecem até quem pudesse pensar doutro modo e encobrem, na dança esquisita, a paz que viceja no sentimento e nas pessoas. Alimárias do destino inverso, criaram a guerra que lhes trará as dores do parto que nunca imaginaram.

...

Passados que sejam idos e vividos, longas jornadas os aguardam nas curvas do caminho, espreitas de esperança e felicidade. Porquanto persistiram luzes em diversas continentes e a renovação far-se-á nessa manhã esplendorosa.

(Ilustração: Na Cracóvia, um homem alimenta gansos).


A certeza da convicção - Por: Emerson Monteiro


Nos primeiros séculos do Cristianismo, quando a fé em Jesus galvanizava multidões inteiras necessitadas de esperança, quais as de hoje, a força com que aceitaram a transformação interior entre as pessoas a ponto de marcharem altivas às primeiras perseguições. Iam aos circos romanos de almas livres ao sacrifício. Seriam ali vítimas das feras famintas, dos gladiadores insanos, das fogueiras, o que divertia sobejamente aos instintos dos césares e da massa ignara, delirante nos poleiros dos estádios superlotados. Cenas de horror, a pão e circo, que alimentavam o sadismo dos ignorantes, a troco da exploração política e ditatorial de profissionais da descrença.

Hoje as manias dos humanos nivelam as épocas parecidas. A própria fé mudou de espírito. O que fora amor extremado na busca da Salvação virou interesse desnorteado pelas posses materiais. De que vale ao homem ganhar este mundo e perder a Eternidade? – indagou Jesus nos evangelhos.

Espécie de loteria da religiosidade, o valor das consciências pende aos paraísos artificiais do dinheiro, da fama, do sexo, dos vícios de outras espécies. O prazer pelo prazer, pouco ou nada importa o preço de pagar no correr dos ponteiros. Meros bonecos de marionetes absurdas, seres se exaurem na lama da autodestruição.

Daí apresentarem os tempos espécie de mutação moral que reclama inteligência. Quantas aberrações nessas fases críticas. Valores perdem o sentido, e enquanto nos tempos antigos desciam aos circos, de olhos abertos, os mártires da perseguição em nome da fé, agora carece de razões até às vítimas abandonadas nos guetos, paupérrimos e marginais. Fase escura de esperança, onde os vendilhões oferecem as almas no mercado da desonra e exploram o povo a mantê-lo escravo da mesma ignorância que lhes possui.

Mais que nunca, o presente requer a certeza da convicção, em que os princípios cristãos sejam o motivo forte de salvar si e aos irmãos de humanidade. 

(Ilustração: Colagem, Emerson Monteiro).

04 fevereiro 2019

O outono das cidades - Por: Emerson Monteiro


De observar as ruas da cidade, notamos forte tendência nos atuais moradores para se transferir ao campo, escapar do barulho, dos engarrafamentos, insegurança, e respirar libertos da fumaça. Nos fins de semana, então, a coisa ocorre sem deixar dúvida. Os grandes centros viraram só compromisso de segunda a sexta-feira. Depois, fuja quem puder.

Tal avaliação sugere a falência de um sonho que alimentou muitos séculos. O instinto de procurar vilas e repartir preocupações lotou o espaço das cabeças todo tempo, que povos não pensaram em mais nada como outro modo de racionalizar o povoamento.

A proposta seria somar forças. Entretanto a sofisticação da vida em grupo gerou dificuldades, no princípio superáveis pelo trabalho partilhado, depois intransponíveis face ao crescimento, rompendo previsões e limitando alternativas para ocupação de toda a mão de obra concentrada.

Os núcleos de prosperidade em que se haviam modificado as povoações resultaram nas baías interiores, com classes sociais dilatando o fosso divisório do abismo social, desvirtuando o impulso gregário dos indivíduos subtraídos da ordem natural que ficara no campo. A tendência afluente se reverte agora num isolamento coletivo, hoje bebido com náusea nos passeios neuróticos das madrugadas urbanas.

De qual maneira as chagas têm sangrado que maioria incalculável de cidadãos passou a descrer das soluções comuns, adotando iniciativas particulares, mesmo em detrimento dos que nada podem fazer.

Seriedade não falta para o estudo de sintomas. Congressos, mesas redondas, discursos, prepotência, pirotecnia. Interesses próprios mascarados de usurpação de atribuições. Fórmulas mágicas preenchem as prateleiras - critérios exclusivos e bilionários nos programas de governo.

Em compensação, risco ocorre no achatamento dessas intenções, vez ficar difícil dizer quem pode ou quem quer só o poder; saborear o mel e descartar o fel. Do pecado na escolha ruim fica um preço a ser pago, tamanho do tempo perdido, multiplicado pelas vidas em jogo, milhares que habitam os guetos das cidades; seria, talvez, a democratização da miséria, invasora dos lares e destruidora da vida social, espécie de submissão aos valores piores, quando se descartou a chance de escolher melhor, vezes perdidas para sempre.

No passado, as guerras reviravam ordens estabelecidas e desfaziam os problemas críticos a toque de caixa. Depois, técnicas potencializaram a riqueza, comprimindo exércitos no atributo de forçar direitos. Resultado: polos urbanos transformados em campos de concentração e desavenças. Os instrumentos de lazer eletrônico restaram desmantelados nos cubículos escuros sem ar, nem paz, quais sucatas de luxo.

O retorno ao seio da floresta mais do que nunca antes parece lenitivo provável; estudiosos da alma acreditam que trazemos o mapa desse percurso, algo semelhante ao que perfizeram os hebreus, na saída do Egito empós da Terra Prometida.

(Ilustração: Colagem, Emerson Monteiro).

31 janeiro 2019

Caririensidade -- por Armando Lopes Rafael

História do Cariri: 2 episódios ocorridos no século 19

1 – A Revolução Pernambucana de 1817

       Qual a postura das famílias caririenses na época do Brasil-Colônia? Os clãs viviam sob a forte influência da Igreja católica. Isso, certamente, teve influência para o fracasso dos revolucionários republicanos de Pernambuco de 1817 na sua investida no Sul do Ceará. Os revolucionários de Recife enviaram ao Cariri o subdiácono José Martiniano de Alencar, filho desta região, para levantar o povo contra a Família Real que residia no Rio de Janeiro, sob a liderança do Rei de Portugal, Brasil e Algarves, Dom João VI.

        Aqui chegando, o seminarista Alencar procurou logo a mais importante liderança desta região, o fidalgo e grande proprietário rural Leandro Bezerra Monteiro, à época Comandante do Regimento de Cavalaria de Milícias de Crato. José Martiniano acenou para Leandro  com vantagens para este aderir à Revolução. Sobre Leandro Bezerra Monteiro, assim se referiu Gustavo Barroso literalmente: “Homem equilibrado e sensato, nunca deixou de ser fator ponderável de equilíbrio social, naturalmente defendendo o que se chamava conservadorismo”. Não contava, pois, o jovem seminarista Alencar deparar-se com a solidez dos princípios religiosos e a lealdade que o Comandante das Milícias de Crato sempre tivera para com a Monarquia e a Dinastia dos Bragança. 

         Em resumo, assim descreveu o historiador Joaquim Dias da Rocha sobre o final da visita de abordagem feita pelo seminarista José Martiniano de Alencar a Leandro Bezerra Monteiro, numa das propriedades rurais deste último:
“O entusiasta propagandista esgotou em pura perda o arsenal de argumentos que trazia aparelhados; e desanimou quando, afinal, se resumiu o velho monarquista:

–“Padre José – disse Leandro Bezerra – é ainda cedo para a nossa emancipação; quanto à república, ela me terá sempre como acérrimo inimigo".

Revolução Pernambucana de 1817 em Crato. No Cariri o movimento foi feito pela família Alencar e seus agregados

2 – A Guerra do Pinto
Casa existente em 1834, na Praça da Sé, em Crato, onde foi julgado e condenado à força o Coronel Pinto Madeira. A sentença foi comutada, depois,  para fuzilamento do réu. Parte desta casa ainda existe,  na esquina da Praça da Sé com Rua Dom Quintino.

       Abordemos, agora, outro episódio da nossa histórica. Em 1832, o Cariri seria sacudido por outro movimento, desta feita liderado por Joaquim Pinto Madeira, que era, à época, o Capitão de Ordenanças e Coronel de Milícias de Crato, o qual, no auge do seu prestígio, era chamado – pelo povo – de Governador do Centro do Ceará. Isso porque a influência de Pinto Madeira se espalhava desde  a cidade de Quixeramobim, no Sertão Central até as terras do Cariri, numa distância de quase 400 Km.  Afeiçoado por índole às coisas da Monarquia e à Dinastia dos Bragança, Pinto Madeira lutou ativamente contra os que promoveram os movimentos republicanos da Revolução Pernambucana, em 1817 e da Confederação do Equador, em 1824.  A esse respeito assim escreveu o historiador Irineu Pinheiro: “Nunca perdoaram os Alencares e os liberais cratenses a ação de Joaquim Pinto Madeira naquelas duas agitadas fases da nossa história”. 

      Pois bem, quando Dom Pedro I renunciou ao trono brasileiro, em 1831, Pinto Madeira não se conformou, pois acreditava, erroneamente, que o gesto do nosso primeiro imperador teria sido forçado a isso pelos liberais. Pinto Madeira pegou em armas, invadindo várias cidades do Sul do Ceará, com o objetivo de permitir a continuidade do Reinado de Dom Pedro I. No entanto, os tempos eram outros, bem diferentes de 1817 e 1824. Estávamos já na época das Regências que governaram o Brasil até a maioridade do Imperador Pedro II. E o governador do Ceará não era outro, senão o Padre José Martiniano de Alencar, aquele antigo seminarista revolucionário de 1817, inimigo de Pinto Madeira. Em resumo: tudo terminou com o fuzilamento de Pinto Madeira, fato ocorrido em 1834, na cidade de Crato. 

   Quando a primeira saraivada de bala o abateu, Pinto Madeira ainda teve forças para gritar:
    – Valha-me o Santíssimo Sacramento.
   Passou à história do Ceará como “O Mártir da Monarquia”.
Em 1834, o Presidente da Provincia do Ceará Grande era o Padre José Martiniano de Alencar, o antigo seminarista que fez a Revolução de 1817 em Crato.


Irmã Annete, Doutora Honoris Causa da URCA


     Neste dia 1º de fevereiro, às 15 horas, tendo como local o Círculo Operário São José de Juazeiro do Norte, Irmã Annette Dumoulin receberá – da Universidade Regional do Cariri-URCA –, o título de Doutora Honoris Causa, que lhe foi concedido por aquela instituição. Nascida em Liége, no Reino da Bélgica, em 14 de julho de 1935, Annette Dumoulin viveu parte de sua primeira infância no seu país de origem. No entanto, por causa da Segunda Guerra Mundial, sua família teve de emigrar para o Sul da França, onde seu pai – que era médico –prestava assistência às vítimas do conflito que atingiu praticamente toda a Europa.

       Ainda jovem, ela se sentiu atraída pela vida religiosa, sendo admitida na Congregação de Nossa Senhora (mais conhecida como Cônegas de Santo Agostinho). Consta no seu face book que: “Em 1955, a jovem Annette formou em educação física na Bélgica e em 1958 graduou-se em Ciência da Religião pela Universidade Católica de Louvain, seguida também da formação em Psicologia da Religião, obtendo os títulos de mestre e doutora em Ciência da Educação com especialidade em Psicologia da Religião pela mesma Universidade Católica de Louvain”.

      Transferida para o Brasil, Annette Dumoulin reside há 45 anos em Juazeiro do Norte, sendo hoje a maior conhecedora das histórias das romarias do Padre Cícero. E foi ao ‘Padim” que ela dedicou a maior parte da vida e todo o seu talento intelectual e vocação humanitária. “Eu deixei Pai e deixei Mãe. Deixei todos os meus Irmãos. E cheguei no Juazeiro, para servir ao romeiro.” Afirmou Irmã Annette. Sua voz marcante se tornou referência na Basílica Menor de Nossa Senhora das Dores, durante as romarias ao Padre Cícero. 

          Já escreveu alguns livros sobre o Padre Cícero e o fenômeno das romarias. Mereceu com justiça o reconhecimento do seu trabalho concretizado com a concessão do título de Doutora Honoris Causa, que lhe foi concedido pela URCA.

Número especial da revista Itaytera


        No próximo dia 13 de abril será lançado o primeiro número especial da revista “Itaytera”, órgão do Instituto Cultural do Cariri, que tem sede em Crato. Esta edição abrirá a série de “números especiais” que serão editados – a partir de agora – juntamente com as edições normais de “Itaytera”.

          O número 1 especial de Itaytera, homenageará o professor José do Vale Arraes Feitosa por ocasião do centenário de nascimento deste mestre. José do Vale  lecionou, durante décadas, em educandários cratenses, dentre os quais: Colégio Diocesano de Crato, Colégio Estadual Wilson Gonçalves, Escola Agro-Técnica Federal de Crato, Ginásio Municipal Pedro Felício Cavalcanti.  

             Nascido no sertão dos Inhamuns, em 11 de abril de 1919, a fecunda vida do Prof. “Zé do Vale” – como era mais conhecido – iniciada no primeiro quartel do século XX e findada praticamente no final desse mesmo século, muito significou para a comunidade cratense e para sua família. José do Vale Arraes Feitosa foi um homem dotado de virtudes e qualidades, de marcante personalidade e de nobreza, no trato com seus semelhantes. Em 1968, José do Vale obteve graduação em Letras, pela antiga Faculdade de Filosofia de Crato, embrião da atual Universidade Regional do Cariri–URCA. Ele frequentou os bancos do ensino superior, apenas para oficializar o título. Não precisava dele. Nunca precisou. Mais do que um autodidata, José do Vale foi um “professor-aluno” daquela Faculdade, onde recebia o respeito tanto dos mestres como dos colegas.
No bairro Nossa Senhora de Fátima (antigo Barro Branco) ergue-se uma das maiores escolas de Crato, denominada Escola Professor José do Vale Arraes Feitosa