01 dezembro 2020

O mistério do Inconsciente - Por: Emerson Monteiro


De uma profundidade a bem dizer inalcançável, existe uma camada de nós que significa todos os mistérios da Natureza, o Inconsciente. Dotados de muitas definições através de inúmeros pensadores, representa a matéria prima das descobertas necessárias ao encontro definitivo da Consciência maior.

Do Inconsciente vêm os sonhos, as artes, as intuições, as religiões e tantos outros fatores das revelações isto além da realidade externa, manifestada. Verdadeira usina de produção dos avanços da ciência, ele conduz a personalidade ao domínio de si mesmo, permitindo avanços inestimáveis do equilíbrio emocional e espiritual.

A busca do Inconsciente resume toda a história humana durante todo tempo. Jamais se verão em desamparo os que desvendam, por mínimos que sejam, esse segredo guardado nas furnas desse universo interno que nós o somos. 

Nisso a literatura traz considerações imaginativas que indicam o mito do Inconsciente, por exemplo, a caverna de Platão, célebre citação dessa possibilidade aberta a todos de um dia descobrir e exercitar a libertação por meio da luz exterior que projeta nossa sombra de encontro às paredes deste mundo até nos voltarmos para fora e sair em evolução. Outro exemplo disto, o conto das Mil e Uma Noites, de Aladim e a Lâmpada Maravilhosa, indicação de um instrumento de poder que existirá dentro da caverna de nós mesmos, entre pedras e joias preciosas ao dispor dos que estenderem as mãos e aceitaram sua utilização. 

Há imenso caudal de riquezas no íntimo de todos, carecendo tão só desenvolver métodos dos pensamentos e sentimentos os quais devem focar a essência da concentração mental e causar uma prática fiel. Uns chamam de fé, outros, de atenção, meditação, ioga, etc. O que conta, na verdade, é estarmos vivos nesta intenção fundamental de achar a porta do Reino de Deus, de que nos fala Jesus, a fim de purificarmos os reais objetivos de nosso viver e galgar o encontro definitivo com Deus, causa origem de tudo. 


28 novembro 2020

É hora de parabenizar e agradecer – José Luís Lira (*)

 


   Uma coluna semanal requer temas novos. Após quase cinco anos escrevendo para este jornal, temos a responsabilidade de não ter repetido temas. E hoje escolhi realizar um tributo à amizade em sua dimensão mais pura. A de filho para mãe, espontânea, natural. A de tio para sobrinhas e a de amigos, irmãos que a vida nos ofereceu. A Sagrada Escritura diz que “Um amigo fiel é uma poderosa proteção: quem o achou, descobriu um tesouro. Nada é comparável a um amigo fiel, o ouro e a prata não merecem ser postos em paralelo com a sinceridade de sua fé”. Celebremos!

    No dia 11, Anne Eloísa, tesouro novo em nossa família, completou seu primeiro ano; dia 19, Isadora apagou a 7ª velinha; ontem, 27, a sobrinha Laiza Maria e a Mamãe, Luíza, celebraram a vida. Por tudo isso, só tenho muito a agradecer a Deus! Todos os que me conhecem sabem o quanto eu sou família e me orgulho deste presente sagrado que é a família. Parabenizo a estes e, também, a Ana Beatriz, sobrinha, dia 1º, e aos cunhados Robério, o pai da Anne Eloísa, dia 8, e Valnice, a mãe da Laiza Maria, dia 9. 

     A última quinta-feira foi o dia mundial de Ação de Graças. O primeiro Dia de Ação de Graças ocorreu nos Estados Unidos, em 1621. Duzentos anos depois a data se tornou um dos principais feriados na norte-américa. Aqui, no Brasil, a celebração foi criada em 1949, pelo então presidente Gaspar Dutra. A ideia de criar o Dia Nacional de Ação de Graças veio do embaixador Joaquim Nabuco, que ficou admirado de como os norte-americanos levavam a sério as comemorações quando atuava como embaixador do Brasil nos Estados Unidos e quis trazê-la para nossa Pátria, mas, não se popularizou.

     E o último dia do mês chegará em breve: festa de Santo André, irmão de São Pedro, um dos que ouviu o chamado do Mestre: “Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”. E neste dia tão simbólico, lembramos a ordenação sacerdotal do saudoso Pe. Joaquim Colaço Dourado – o Padre Dourado. E, ainda, o aniversário natalício de nosso querido amigo Prof. Dr. Antônio Colaço Martins. 

     Prof. Colaço é um exemplo de retidão, de intelectual e nome expressivo na educação cearense, com estudos de mestrado e doutorado na Cidade Eterna, Mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana e Doutor em Filosofia (Summa Cum Laude – Com a maior das honras) pela Pontifícia Universidade Lateranense. Exerceu a direção da Faculdade de Filosofia de Fortaleza, foi Professor e Diretor do Mestrado em Filosofia da Universidade Federal do Ceará (UFC). Professor e Reitor da Universidade de Fortaleza (UNIFOR). Presidente do Conselho de Reitores das Universidades Cearenses, por dois mandatos. Reitor da Universidade Vale do Acaraú (UVA). Também membro efetivo do Conselho de Educação do Ceará (CEC), do Grupo de Avaliadores do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras (CRUB) e, atualmente, Presidente da Academia Fortalezense de Letras, Acadêmico da Academia Brasileira de Hagiologia e Acadêmico Honorário da Academia Sobralense de Estudos e Letras. É casado com a Profa. Maria da Graça Holanda Martins, com quem constituiu uma bela família. É ele aquele amigo nas definições bíblicas: um tesouro!

     Portanto, mesmo nestes tempos estranhos, eu, particularmente, manifesto estes agradecimentos e parabéns. E Você?

      (*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.


27 novembro 2020

Aceitar as contingências - Por: Emerson Monteiro

 


Duro é para ti recalcitrar contra o aguilhão. - Jesus (Atos, 9:5)

Situações que se apresentem no decorrer dos dias exigem por demais atenção e paciência, trazendo à tona ensinos religiosos e filosóficos guardados atentamente nos livros. Quase sempre é preciso que adotemos medidas estratégicas de concentração mental e positividade, a fim de cruzar barreiras quase a dizer intransponíveis. Isso, aquilo, pede paz ao coração das pessoas, persistência e ânimo firme. Determina atitudes adequadas a viver, ainda que diante das adversidades. Bem porque carregamos no íntimo a força suficiente de vencer todos os desafios que por ventura assim tenhamos de encontrar.

São ensinos pertinentes, úteis e necessários, e que deles carecemos, invés de naufragar no mar das frustrações e deixar que o desespero atinja o direito sagrado de sobreviver a tudo, porquanto viemos no intuito de avistar a terra da promissão. Só em pensar nas quantas gerações de seres iguais a nós vieram e regressaram, todas a braços com os mesmos transes os quais batem às portas de muitos, isso determina que utilizemos de práticas de pensamento elevado, otimismo, paciência, e levemos em conta a oportunidade dos aprendizados e das determinações que compõem o quadro das ocasiões.

Tal dizem os pensadores existencialistas, somos nós e as nossas escolhas. Apenas confrontar, por isso, nada representa, visto serem os instrumentos de construções da vitória o que logo à frente sorrirá aos que desenvolvam habilidade em administrar situações, conquanto viver e lutar trazem o mesmo significado neste tabuleiro das existências.

Usar, deste modo, o condão das palavras a título de alimento sadio aos leitores, impõe a quem escreve o dever fundamental de oferecer meios práticos e elementos exatos de atravessar as tempestades deste mundo em mudança. Queiramos, pois, desvendar os mistérios das jornadas no sentido favorável à esperança, caminho da paz e da tão desejada felicidade.

O que significa "agir republicanamente"? -- por Armando Lopes Rafael

 

     Risível – para dizer o mínimo – é nosso sentimento quando vemos alguém dizer (ou escrever): “fulano não agiu “republicanamente” (SIC)... Ora “república” ou seu derivado “republicanamente” – pelo menos no Brasil – nunca serviu de bom exemplo para nada, nem para ninguém...

    Muito pelo contrário. Quando querem mostrar uma casa bagunçada, ou transformada numa “Casa de Mãe Joana” (esta, outra expressão usada para dizer que a “casa não tem dono”) o povo usa este conceito: “Parece mais com uma “república de estudantes”.

      O povo é sempre sábio nos seus conceitos e expressões!

      Ademais, no Brasil, o advento da república nunca significou um avanço em termos de bem administrar a “res publica” (coisa pública). A república, entre nós, fez exatamente o contrário: implantada por um golpe, rasgou nossa Constituição Imperial, a que mais durou até hoje (e a melhor que o Brasil teve, segundo o constitucionalista Afonso Arinos), facilitando a corrupção na máquina pública, institucionalizando a  impunidade, a incompetência,  trazendo a falência aos serviços públicos (com destaque para a segurança, saúde e educação) , fazendo rotineiras as crises políticas, os estados de sítios, ditaduras, clientelismo, fisiologismo e todas as mazelas que vemos e sofremos no dia-a-dia...

        “Agir republicanamente”??? Como piada é válida! Conta outra...

26 novembro 2020

Jamais se esqueça de si - Por: Emerson Monteiro


De tudo quanto importa, na verdade, eis o que durante todo tempo ouviremos na voz da Consciência em nosso interior. Pouco importa fatores e circunstâncias, venceremos o espaço estreito aonde viemos, porquanto contamos com toda a força do Universo. Alimentemos a vontade de encontrar os lugares do Amor em nossos sentimentos. Busquemos, intensos, a libertação dos limites desse chão em movimento constante. 

O de que melhor já existe face aos mistérios vibra em nossas almas. Acreditar nisto vale por todas as riquezas deste mundo. A fonte da vida que nos permitirá abrir as portas do tesouro que já o somos e que mora dentro de cada ser, conquanto necessidade maior persiste nos instrumentos naturais a que pertencemos desde sempre. 

Nisso a vontade viva rumo da felicidade completa e inextinguível que cabe aos passos de cada um nas estradas pelas quais ora desenvolvemos os dias da nossa própria história, criaturas perfeitas que precisam apenas se reconhecer. Ao nível de nossas mãos, o tempo oferece o condão da esperança; daí querer significa a base das lições que aqui viemos buscar. Ainda que nalgumas vezes dificuldades ofereçam desafios imensos, nessas ocasiões resta sacudir os fardos desnecessários e vencer o território estreito da matéria, pois somos espíritos imortais, senhores de todos os tesouros que transportamos em nossas almas. 

Quantas oportunidades habitam em todo momento ao dispor das criaturas humanas. Recolhamos, assim, as raízes de nossa salvação da essência do que possuímos em nosso interior. Há uma fonte viva de luz, paz e transformação no íntimo dos nossos corações. O testemunho dessa conquista virá de nós, mensageiros da revelação superior. Acreditemos, sobremodo, na imensa possibilidade que permeia fulgurante os segredos da criação. Vivamos, por isso, a construção dos mundos infinitos de que também somos seus autores e viventes.

(Ilustração: Vladimir Kush).

Intercessão valiosa - Por: Emerson Monteiro


Das inúmeras ocorrências verificadas no decurso da Confederação do Equador, no Ceará, idos de 1824, episódio impressionante narrou Esperidião de Queiroz Lima, no livro Tempos heroicos, o que transmitimos aos que ainda não leram a publicação.

Trata-se da execução de um dos sentenciados pelo tribunal militar conhecido por Comissão Matuta, no mês de outubro daquele ano, instalado para punir as hostes rebeldes. Julgados e condenados, cinco líderes republicanos seriam fuzilados no pátio da Cadeia Pública de Icó. Um desses, Antônio de Oliveira Pluma, autodenominado Pau Brasil, conforme sua assinatura no manifesto do movimento, insatisfeito com o resultado a que se via submetido, reagiu em altos brados, protestando misericórdia de quem ali se achava.

Recusara mesmo permanecer de pé, mas, sendo assim, forçaram-no em cordas a se sentar numa cadeira, onde, com olhos vendados, ainda pedia que o deixassem viver.

De nada lhe valeram as rogativas, pois logo em seguida o pelotão recebeu a ordem de preparação:

- Apontar!

E, ante os disparos iminentes, o pânico pareceu querer tomar a alma do condenado em face da morte inevitável, sob o monto de todo o idealismo que até ali dominara os atos de sua razão da existência. Outra vez, um gesto cresceu de sua voz, explodindo mais alto em reclamações de amparo, lançadas aos planos superiores:

- Valei-me, Senhor do Bonfim!

Nisto foi secundado pelo toque de comando: - Fogo!

Cessada a fumaceira, as balas achavam-se cravadas no muro onde o revolucionário permanecera incólume, sacudindo de espanto os presentes. Seguiu-se nova carga de munição. Restabeleceu-se a ordem preparatória, e se fez no ar outro grito de socorro:

- Valei-me, Senhor do Bonfim!

- Fogo! - comandou a ordem marcial.

Resultado: o alvo manteve-se intacto. Os tiros voltaram a ferir tão só e apenas o muro, para desânimo da escolta. Em meio do inesperado, tonto, pálido, o comandante reclamava prática melhor de tiro a seus homens, visando manter os praças no cumprimento do dever, tratando de retomar as determinações da próxima tentativa, que foi precedida pelo mesmo grito do condenado, tão pungente quando sincero:

- Valei-me, Senhor do Bonfim!

Os disparos se deram, de acordo com a obediência. Desta vez Pluma fora atingido por algumas balas, mas continuava vivo, segundo narra em seu livro Queiroz Lima.

Soldados de pronto se movimentavam para um quarto fogo. Nesse instante, a população presente, tocada de simpatia pelo confederado, se ergueu coesa e exigiu o direito do réu ser libertado, qual merecesse o valimento dos céus. Em seguida, essas pessoas levaram-no consigo, alheado e preso à cadeira do martírio, até à Igreja do Senhor do Bonfim, distante cerca de 200m do ponto onde a cena ocorrera, entre preces e benditos fervorosos.

Há registros do ano de 184l que dão conta de que o sobrevivente veio a ser titular da Promotoria Pública da comarca de Baturité, no Ceará, o que bem comprova sua resistência aos ferimentos naquele dia recebidos, na tentativa de execução de que fora objeto e sobrevivera, no município de Icó, dezessete anos depois.           

(Ilustração: Os fuzilamentos de 03 de maio, de Goya).

Padre Frederico - Por: Emerson Monteiro


Quem viveu em Crato nos anos 50 e 60 com certeza conheceu o padre Frederico Nierhoff, sacerdote responsável durante décadas pela paróquia de São Vicente Ferrer, na zona central da cidade. Dotado de espírito empreendedor, fez a reforma da igreja e ampliou o salão paroquial, além de instalar projeto comunitário rural no distrito de Ponta da Serra, na localidade denominada Mata, iniciativa de larga envergadura, deixando marcas profundas de sua liderança religiosa em todo o município.

Pois bem, sobre a personalidade forte do Padre Frederico algumas vivências ficaram registradas na memória do povo cratense. A sinceridade e o senso de humor lhe caracterizavam as atitudes. Homenzarrão de quase dois metros de altura, vozeirão, sotaque a lhe denunciar a origem; natural da Alemanha, viera ao Brasil na época da Segunda Guerra para atuar junto de outros compatriotas que fundaram o Seminário Sagrada Família, situado no sítio Recreio, imediações da zona urbana, prédio depois destinado às instalações do Hospital Manoel de Abreu e agora adquirido pelo governo do Estado para instalar um Centro Cultural. 

Dentre as suas histórias mais pitorescas se pode anotar o caso de um matrimônio da gente dos matos que veio de celebrar. No instante das partes aceitarem o definitivo do compromisso conjugal, a noiva saiu-se com inesperada recusa. Desfizeram com isso o cerimonial que só voltaria a acontecer passado algum tempo.

Da segunda vez, as peças se inverteram. Nessa ocasião quem negou a dizer sim foi o noivo, motivando outro constrangimento às famílias, aos convidados e celebrante. 

Até a terceira data, as coisas demoraram um tanto mais de tempo, porém mesmo assim verificando-se dentro da menos provável expectativa.

Todos a postos, silêncio apreensivo no ápice do ritual. Feitas as clássicas perguntas, suspiro de alívio percorreu o ambiente quando os dois responderem favoravelmente à pergunta do sacerdote. No entanto algo ainda faltava de suceder.

- Pois hoje quem não aceita sou eu - contra-atacou o vigário. - Vão embora que eu não celebro mais esse casamento encruado.   


25 novembro 2020

O ferreiro de Barcelona - Por: Emerson Monteiro


As trevas da Inquisição cobriam a Europa de mártires e de terror. A Idade Média anulava os anseios religiosos da grande população, através de cruel intolerância solapando liberdades civis qual fosse uma peste sulfurosa. Durante o século XIII, cometeram-se ignomínias e atrocidades, aplicando penas que iam do confisco dos bens a execuções sumárias, torturas e outros castigos inimagináveis.

No auge de tudo isso, existia na cidade espanhola de Barcelona um ferreiro afamado que ganhara a preferência dos executores das penas no mister de confeccionar requintados instrumentos adotados pela repressão impiedosa. Suas algemas mereciam respeito face ao primoroso zelo com que as manufaturava, sem existir quem lhe pudesse superar na qualidade. Cumpria de sobra com as encomendas apresentadas. De suas produções jamais alguém conseguia escapar. Um profissional e tanto o ferreiro daquelas peças de trancar perseguidos da oligarquia que avassalava as consciências desse período trágico, no combate das idéias renovadoras e escarmento de tantas vítimas.

Pois bem, esse homem se orgulhava de que ninguém era capaz de se livrar das suas tenazes; ninguém, que fosse, chegava a fugir quando preso com os ferozes mecanismos.

O tempo, justo e sobranceiro, porém, guarda surpresas na aparente monotonia dos gestos humanos. 

Dias e noites passavam céleres, até que durante uma festa de insistentes brindes, perante vasta multidão, o ferreiro, animado além do tanto nos assuntos do vinho, excedeu-se nas palavras, deixando transpirar segredos inconfessáveis, aos quais chegara por via do prestígio adquirido junto às cúpulas do Santo Ofício. Na carraspana, inconfidenciara notícias que determinariam o seu próximo destino.

Coisa pior não lhe poderia acontecer. Caía desse jeito nas garras do mesmo tribunal a quem servira. A 

equipe dos doentes espirituais, por meio de julgamento improvisado, cuidou da sua condenação, ficando desfeita a velha aliança.

Após o pesadelo das primeiras horas, ele despertava desnudo em solo úmido de masmorra infecta. Colado a pedras ásperas, sentiu nos pulsos crivos frios de metais enegrecidos. Entre dormido e acordado, buscou esperanças no manuseio do mecanismo que o retinha de encontro à tosca parede da prisão.  

Recobrara os sentidos para perceber, qual não foi a surpresa, que se via atravancado nos pulsos e tornozelos por dois pares de grilhões que produzira na véspera da comemoração onde fora se meter, perdendo o domínio e sentenciando o merecimento da justiça torpe dos que antes auxiliara. 


23 novembro 2020

A balança do Tempo - Por: Emerson Monteiro


É infinita a distância entre a liberdade e o agir. Itinerário por demais admitido, no entanto o querer determina os passos a serem dados. Uns aceitam duvidar; olham, mas veem só a direção contrária dos místicos. Acham sempre um motivo de pender ao lado contrário na balança da sorte. Só querem o imediato, invés de aceitar o preço do trabalho, da dedicação, da renúncia, por vezes até do sacrifício. Nada que supere o peso do prazer, das iscas que avistam no vento. Existem, pois, as duas teses bem estudadas, o Estoicismo e o Hedonismo.

Estoicismo: doutrina fundada por Zenão de Cício (335-264 a.C.), e desenvolvida por várias gerações de filósofos, que se caracteriza por uma ética em que a imperturbabilidade, a extirpação das paixões e a aceitação resignada do destino são as marcas fundamentais do homem sábio, o único apto a experimentar a verdadeira felicidade. (Oxford Languages and Google)

Hedonismo: cada uma das doutrinas que concordam na determinação do prazer como o bem supremo, finalidade e fundamento da vida moral, embora se afastem no momento de explicitar o conteúdo e as características da plena fruição, assim como os meios para obtê-la. (Ibdem)

Nesse universo ético, portanto, acontecem as providências humanas. Uns apostam a existência na casa da resignação. Outros na pura fruição dos bens materiais. Enquanto isso, escolas espiritualistas voltam suas baterias pela aceitação de meios extrafísicos, aonde semeiam esperança nos dias porvindouros. O que faz diferença no sentido dessas atitudes são os sistemas de crenças individuais. 

As escolas religiosas, sobretudo, exercitam a norma da definição dos planos além das percepções apenas do corpo e avançam nos valores ditos eternos.

Desde os primeiros registros da humanidade persiste essa busca pelo que virá após a perda do corpo, conquanto a exatidão da Natureza indica essa compreensão dos níveis maiores da consciência, expectativa da ciência oficial e dos habitantes deste chão de provar em laboratório a continuação da vida depois da morte.

Destarte, caminhamos no caminho que melhor atende às possibilidades de nossos valores e tratamos de escolher o que irá determinar nossos dias no futuro nem tão distante. 


20 novembro 2020

Santa Cecília e o Dia do Músico -- por José Luís Lira (*)

 

    Neste domingo, a Igreja celebra a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo. Com essa solenidade, têm início a última semana do Tempo Comum, com a qual se encerra o Ano Litúrgico. A oração do dia nos aponta o sentido da celebração: “Deus eterno e todo-poderoso, que dispusestes restaurar todas as coisas no vosso amado Filho, Rei do universo, fazei que todas as criaturas, libertas da escravidão e servindo à vossa majestade, vos glorifiquem eternamente”. A celebração é móvel, ou seja, ocorre sempre no quarto domingo de novembro. E de um modo fixo, neste 22 de novembro, temos a celebração da memória de Santa Cecília. 

   O Martirológio Romano, originado a partir das “Atas dos Martírios”, formado no remoto pontificado do Papa Melquíades (270-314), ainda hoje utilizado na Santa Madre Igreja para a rememoração dos santos mártires e confessores, registra em ano incerto, mas, no dia 22 de novembro, a “Memória de Santa Cecília, virgem e mártir, que, segundo a tradição, alcançou a dupla palma da virgindade e do martírio por amor de Cristo, em Roma, no cemitério de Calisto, junto à Via Ápia. Desde a antiguidade, tem o seu nome o título de uma basílica no Transtêvere”. 

    Reza a crônica que Santa Cecília ao morrer teria cantado a Deus, era musicista. Por isso, Santa Cecília é a padroeira dos músicos e da música sacra. No local em que seu corpo foi encontrado, nas catacumbas de São Calisto, foi edificada uma estátua de seu corpo caído, obra do artista Stefano Maderno (1566-1636). A iconografia da Santa a apresenta junto a instrumentos musicais. Lembro-me que de São Calisto eu trouxe medalhinhas com terra do local de sua sepultura. Doei para alguns colegas e guardo uma com todo o carinho e devoção.

    Na data da Santa musicista, se celebra, internacionalmente, o dia do Músico. A celebração começou em 22 de novembro com um evento realizado na Normandia (França), no ano de 1570, com um torneio de compositores da época. Em 1695, em Edimburgo (Escócia), a celebração ao músico começou a acontecer com certa regularidade. Países como a França, Espanha e Alemanha seguiram homenageando aos músicos, na celebração de Santa Cecília. Na América Latina, consta que a tradição desse dia foi mantida entre 1919 e 1920 no Rio de Janeiro até se espalhar para o resto da América, com alguma exceção. Hoje, praticamente em todo o mundo se celebra o músico junto com sua santa padroeira.

    Dos músicos e compositores católicos, não posso deixar de lembrar daquele que embalou minha infância, adolescência e juventude até a maturidade: Pe. Zezinho, sacerdote dehoniano, escritor e músico. Suas músicas surgiram na década de 1960 e hoje são mais de 3 mil músicas, algumas inesquecíveis, como Um Certo Galileu, Maria de Nazaré, Maria da Minha Infância, Alô Meu Deus, Utopia, Mãe do Céu Morena, Um Coração para Amar... e tantas outras que ouço sempre. Ao Padre Zezinho, nossa sincera homenagem.

     São tantos músicos populares. Meu gosto musical inclui clássicos, como Chopin, Sebastian Bach; a nossa MPB com Roberto Carlos, Simone, Betânia; os roqueiros dos anos 1980, Raul Seixas, Cazuza e Legião Urbana, sem esquecer do compositor Catulo da Paixão Cearense e do popularíssimo Luiz Gonzaga, rei do baião. E que Cristo Rei do Universo, pela intercessão de Santa Cecília, nos abençoe sempre!

  (*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.

A Princesa Redentora

  

    Devido à doutrinação republicana nas escolas e universidades – hoje eivada pelo ainda mais nocivo marxismo cultural –, os brasileiros, em sua quase totalidade, imaginam que a Princesa Imperial Regente do Brasil, Dona Isabel de Bragança, tão-somente assinou a Lei Áurea, e que teria apenas consentido em assiná-la. É esse o mérito único que lhe atribuem.

    No entanto, não foi somente isso o que a Princesa Imperial Regente fez. Hoje podemos afirmar que se não fosse o seu empenho em levar adiante aquela questão, não teríamos chegado, da maneira pacífica como chegamos, ao termo de tão formosa campanha como foi a da Abolição no Brasil.

    Por colocar a paz doméstica, a satisfação íntima do lar, à altura das mais legítimas aspirações humanas, foi que incentivou os defensores da Lei do Ventre Livre, seguindo as pegadas do Visconde do Rio Branco. Preparou o ambiente para a Lei dos Sexagenários, e terminou apressando a vitória da liberação total dos cativos, embora sabendo que teria de dar, em troca de tão maravilhosa atitude, o Trono que de direito lhe pertencia.

(Baseado em trecho do livro “Revivendo o Brasil-Império”, escrito pelo Senhor Leopoldo Bibiano Xavier)



 

19 novembro 2020

A solidão dos corações enamorados - Por: Emerson Monteiro


Nos imensos desertos da alma que abrem de par em par suas portas ao eterno, encobertos pela poeira de sonhos vagos em noites estreladas, litanias desesperadas rompem os céus das histórias de princesas presas ao leito do desespero ao furor de lhes rasgar o peito apegos a um amor imortal; só então vêm à tona os tetos em brasa dos desejos ardentes de paz que revolvem por dentro o turbilhão de paixões desenfreadas, desfeitas em mil pedaços ao frio calor das madrugadas, e bem ali a se instalar no fervor dos vendavais do Infinito quando o coração em guarda trabalha a voragem de todos os sentimentos à cata de referências e salvação.

Bem assim somos nós, testemunhas e autores das angústias que nascem da beleza e dos amores incontidos a fervilhar o abismo da alma. Senhores de tantas tradições, porém presos às maravilhas em volta, circulamos tontos nas fibras intocadas do coração. Quantos sonhos guardados nas cavernas do sentimento, onde vive perene o Amor. Ânsias das mais perfeitas melodias, inspiração do Universo em forma de luz, súditas da força mais poderosa, multidões avançam pelas colunas do Tempo e aceitam essa presença do Autor Desconhecido que as domina, feitos meros instrumentos que o somos da afetividade. Nisso construiremos mundos e oferecemos os meios às novas existências, que nascerão de nós mesmos. 

Na certeza, pois, de sentir a magnitude do mistério, no entanto apenas aguardamos a verdade que sustenta os astros lá nas alturas e mantém o instinto da sobrevivência, oxigênio e motivo dos acontecimentos. Encapuçados na própria solidão, deixamos que brilhem formas que presenciam os refolhos íntimos, fantasmas na escuridão que prepara a imortalidade, indivíduos silenciosos; alimentamos a possibilidade de algum dia despertar nos braços de quem se ama e jamais sumir pelas esquinas sórdidas da ausência. Aceitar a alegria qual fator de essência e certeza absoluta da Consciência de tudo quanto há.

Ilustração: Moça na janela, de Salvador Dali.



16 novembro 2020

Reflexos do 15 de novembro, que foi ontem

    Decepções eleitorais (ou eleitoreiras?) à parte, o que me dói muito mais é o futuro do Brasil.  Mais do que a vitória municipal da mesmice, da mediocridade, dos anões políticos  com seus maus costumes...  O povo teve ontem o seu “Circo” (sem pão com mortadela). Ontem já é passado, pois passado é tudo que passa...

    O que deveria nos preocupar é o presente e o futuro!

   Com essas palavras abaixo, escritas em 1918, decorridos apenas  29 anos da instauração da República, Monteiro Lobato definiu de forma profética, o que viria a ser o “Brasil republicano”: 

"De norte a sul o povo lamuria a sua desgraça e chora envergonhado o que perdeu."
"Tinha um rei. Tem sátrapas."
"Tinha dinheiro. Tem dívidas."
"Tinha justiça. Tem cambalachos de toga."
"Tinha parlamento. Tem antessalas de fâmulos."
"Tinha o respeito do estrangeiro. Tem irrisão e desprezo."
"Tinha moralidade. Tem o impudor deslavado."
"Tinha soberania. Tem cônsules estrangeiros assessorando ministros."
"Tinha estadistas. Tem pegas."
"Tinha vontade. Tem medo."
"Tinha leis. Tem estado de sítio."
"Tinha liberdade de impressa. Tem censura."
"Tinha brio. Tem fome."
"Tinha Pedro II. Tem… Não tem!"
"Era. Não é.”
(Monteiro Lobato, 1918)


(Postado por Armando Lopes Rafael)

15 novembro 2020

Luto

 (por Luiz Philippe de Orleans e Bragança, deputado federal por São Paulo)

     Até dia 14 de novembro de 1889 havia liberdade de imprensa, respeito as liberdades individuais, habeas corpus, separação dos três poderes, eleições, respeito a constituição, equilíbrio fiscal, prosperidade e paz. No dia seguinte ocorreu um golpe de estado. A partir de então, surgiram dois ditadores, estados de sítio, fechamento do parlamento, censura, perseguição política, conspirações, desequilíbrio fiscal, dívida externa, inflação, violações da constituição, guerra civil e mortes.

     Isso tudo, logo nos primeiros 5 anos da República. De alguma maneira somos levados a crer que o golpe de estado foi legítimo e que ele foi para termos avanços na democracia. Mas, mudança de sistema político à parte, é pedir demais reconhecer o fracasso do sistema presidencialista republicano e contar a verdade a sociedade brasileira? Só com um debate honesto teremos o avanço que merecemos.

     Quando a data de hoje pesar na consciência nacional será o dia em que teremos o que comemorar.



14 novembro 2020

Lembranças da Bahia - Por: Emerson Monteiro


Era a década de 70 e eu vivia em Salvador. Trabalhava na Agência Centro do Banco do Brasil, situada no Comércio, à Avenida Estados Unidos, sendo um dos funcionários da Secretaria da Gerência, ao lado de Artur da Silva Leandro, o Gerente Geral da agência. Atendia no Cheque Ouro, o carro-chefe do banco à época. Quando recebera a carteira de Carlos Barreto Filho, ele me passaria em projeto em andamento, a divulgação do produto junto aos artistas e autoridades baianas, a fim de expandi-lo através dos nomes da cultura e dos principais órgãos administrativos. Daí saía a visitar essas pessoas, quando, então, abria contas e fornecia talionários de cheques, além de explicar os detalhes dessa modalidade bancária em fase de plena expansão.

Face ao ofício, estive com Jorge e James Amado, Emanoel Araújo, Sante Scaldaferri, Jenner Augusto, Almirante Henning (comandante da Base Naval de Aratu e depois Ministro da Marinha), Joalbo Carvalho (Presidente da TeleBahia), Carybé, Kennedy Bahia, Calasans Neto e Floriano Teixeira. Primeiro, ligava marcando as visitas e, em seguida, comparecia., para, depois, sempre que precisassem de algo no banco, me procurarem na agência. Nisto fiz bons amigos.

Trabalhara antes na agência de Brejo Santo, e ao escolher Salvador, visando uma transferência, já levara comigo o gosto pela cultura baiana, música e literatura, principalmente por Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro, autores de minha predileção naquela fase, e por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Gal Costa, bem nos moldes do Tropicalismo, movimento cultural que galvanizaria uma geração inteira dos anos 60.

Foi época de ricas experiências, sobretudo no campo das artes e da cultura, de que guardo ricas lembranças e profundas saudades de um povo alegre, amigo, dotado de inteligência e criatividade. Dos meus filhos, dois nasceriam em Salvador, Ceci e Ciro, e quando me vêm oportunidade, regresso com satisfação à Boa Terra, a minha segunda pátria.

O Exército Brasileiro não era republicano

 

                 Anos depois, pintaram um quadro da "proclamação".  Observe  a ausência do povo.

    Em relação à quartelada de 15 de novembro de 1889, nem mesmo se pode dizer, com veracidade, que o Exército era então maciçamente republicano. As Forças Armadas do Império – que se haviam coberto de glória nos campos de batalha da Guerra do Paraguai – eram majoritariamente monarquistas. O próprio Marechal Deodoro da Fonseca escrevera ao sobrinho, Clodoaldo da Fonseca, em carta de 30 de setembro de 1888, pouco mais de um ano antes de proclamar a República:

      “República no Brasil é coisa impossível porque será verdadeira desgraça. Os brasileiros estão e estarão muito mal-educados para republicanos. O único sustentáculo do nosso Brasil é a Monarquia; se mal com ela, pior sem ela [...] Não te metas em questões republicanas, porquanto República no Brasil e desgraça completa é a mesma coisa.”

     Deodoro não pretendia derrubar a Monarquia ao se colocar à frente das tropas amotinadas no Campo de Santana. Sua intenção era apenas forçar a substituição do Ministério Liberal, chefiado pelo Visconde de Ouro Preto, contra o qual o Exército alegava sérios agravos. Tanto isto é verdade que, ao adentrar o Quartel-General, em que estavam instalados Ouro Preto e seus Ministros, o velho Marechal não gritou “Viva a República!” – como consta na historiografia oficial –, mas sim bradou “Viva Sua Majestade o Imperador!”.

     Foi somente na tarde daquele fatídico dia 15 que Deodoro, então praticamente moribundo, acabou aceitando a deposição do Imperador Dom Pedro II, e o fez a muito contragosto, instado pelas mentiras dos líderes republicanos, seus aliados no golpe de Estado. Seu irmão, o Marechal Hermes da Fonseca, que comandava as tropas na Província da Bahia, relutou muito em aceitar o fim da Monarquia, e apenas reconheceu o novo regime no dia 18 de novembro, depois de ser informado de que a Família Imperial Brasileira havia partido para o seu injusto e penoso exílio na Europa.

(Baseado em trecho do livro “Parlamentarismo, sim! Mas à brasileira: com Monarca e Poder Moderador eficaz e paternal”, escrito pelo Professor Doutor Armando Alexandre dos Santos).

Publicado originalmente no Face Book Pró Monarquia

13 novembro 2020

Vicente Ludgero - Por: Emerson Monteiro


Quem viveu em Crato nas décadas de 60 e 70 do século passado recordará com certeza essa figura exponencial da época, Vicente Ludgero, professor e exímio dançarino das matinais e tertúlias que marcaram profundamente a memória daquele tempo. Ao reviver momentos do passado, nada melhor que lembrar os personagens que preencheram seus acontecimentos. Vicente transitava fácil entre os jovens de então, dotado de linguagem característica, cheia das gírias das capitais, e chegava imperando nos grupos. Nas festas, era destaque absoluto pelo estilo aprimorado de dominar os salões, sempre na companhia dos pares equivalentes no jeito fluente de conduzir passos e ritmos da dança.

...

Era tempos intensos e movimentados na cidade, com a Praça Siqueira Campos apresentando, aos domingos, noitadas inesquecíveis, lotadas ao máximo, um verdadeiro festival de cores e sons, donde saíram muitos casais de namorados, raízes de tantos matrimônios. Logo em frente ficavam o Café Líder e o Cine Cassino. Lá adiante, num quarteirão a mais, o Cine Moderno, na Rua José de Alencar, início da Rua Santos Dumont. 

Às vezes me pego a rever tudo aquilo que as lembranças preservam de modo tão caprichoso. Ao término das noites de domingo, parecia que a saudade ocupava o lugar daquilo tudo, à espera de outra semana até editar novamente aquela marcante festa social do nosso interior charmoso.

Daí, a força dos ícones que assinalaram tais ocasiões, que tendiam brilhar nos clubes, Associação Atlética Banco do Brasil e Crato Tênis Clube, que ofereciam matinais aos domingos e tertúlias nas sextas à noite. Os conjuntos musicais, Hildegardo Benício e Ases do Ritmo, depois The Tops. Enquanto isso, haveria a atividade semanal dos colégios, Diocesano, Santa Teresa e Estadual, nos dias úteis da semana.

Qual dizem os poetas, éramos felizes e não sabíamos. Os meios de comunicação que predominavam eram rádio, jornais, discos e revistas. Ficar em casa aos domingos à noite nem de longe pensar nisso. Primeiros anos da década de 70, a televisão, que chegaria aos poucos já aos finais dos anos 60, ganhava torres eficientes de retransmissão e as cores, isolando quase que de tudo essa fase inolvidável daquela mocidade.


Alegrias e efemérides de novembro – José Luís Lira (*)

 

    Escrevi estas linhas enquanto me deslocava de Sobral a Fortaleza para de lá me deslocar a Baturité, onde participei de atividade relacionada à Causa de Beatificação e de Canonização da Serva de Deus Clemência Oliveira, a Irmã Clemência, filha da Caridade de São Vicente de Paulo, grande exemplo a ser seguido. Há algum tempo não fazia o percurso. Era quarta-feira, dia 11, primeiro ano de minha sobrinha-afilhada Anne Eloísa, filha de meus compadres Robério e Elisiane, que cresce linda e encantadora. 

    Observando a vegetação, pude contemplar as maravilhas que as primeiras chuvas desta estação que banharam nosso Estado do Ceará nos últimos dias nos trouxeram. A nós, cearenses, a estação mais esperada é a das chuvas. Independente de estarmos na serra, na praia ou sertão, na cidade ou no campo, o inverno é sempre bem-vindo. 

    E depois dessas primeiras chuvas se vê que a vegetação começa a mudar. Em meio ao seco da caatinga, além dos juazeiros, começamos a ver que as árvores estão florindo. Vez por outra, vemos um pau d'arco, um flamboyant e o escuro predominante vai se rompendo. 

    Contemplando o trabalho realizado pela Mãe Natureza, a mim é quase impossível observá-la, sem lembrar-me de minha saudosa madrinha Rachel de Queiroz. Ela amava esse tempo e mais ainda o inverno quando deixava o Rio de Janeiro e ia para a Fazenda Não Me Deixes, no Quixadá. Ali a escritora afamada e imortal da Academia Brasileira de Letras dava lugar à "fazendeira" Rachel de Queiroz. Um "personagem" não saía do outro, mas, era interessante observar. 

    E a lembrança dela se faz mais nítida porque no dia 17 de novembro, dia por Lei Estadual designado como o dia da Literatura Cearense em homenagem a ela, há 110 anos nascia a menina Rachel que mudou para sempre nossa Literatura, na antiga Rua da Amélia, atual Rua Senador Pompeu nº 86, no centro de Fortaleza, na casa de sua avó, dona Maria Luiza Saboia de Lima. Rachel de Queiroz é a prova da verdadeira imortalidade literária, pois, mais de 17 anos depois de seu falecimento, seus livros despertam o interesse e, continuamente, são indicados para vestibulares e concursos. À Rachel, nossa imorredoura homenagem. 

    Ainda nos próximos dias, dia 20 de novembro, celebraremos 82 anos de ordenação sacerdotal do Servo de Deus Joaquim Arnóbio de Andrade sobre quem tanto falamos, mas que nunca é suficiente para demonstrar sua grandeza e seu amor ao Coração de Jesus. Que ele, junto de Deus, interceda por nossas necessidades e pelo fim da pandemia. 

     Novembro se esvai e vai deixando a natureza preparada para as festas de fim de ano que estão chegando. Quando criança eu achava que a natureza se harmonizava para celebrar o nascimento de Deus-Menino. Não conseguia compreender a grandeza de Deus se humanizar e vir ao mundo em uma criança, com toda a ternura e a fragilidade que são características a um recém-nascido. Mas, sabia que o Natal do Senhor era tão importante que a própria natureza se unia à celebração.  O Natal deste ano penso que será mais família do que nunca em face da pandemia. Que a grande novidade do próximo ano seja a esperada libertação promovida com a descoberta de uma vacina que nos imunize contra a covid-19 que tantas vidas ceifou.    

      Oremos e esperemos! Deus nunca nos desampara.

  (*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.


Mais um aniversário do golpe de 15 de novembro

 

A república brasileira, em 131 anos de sua existência, ainda não conseguiu produzir um estadista com o mesmo nível de Dom Pedro II. Por isso, 129 anos passados da morte do nosso último Imperador, este ainda sobrevive   – no imaginário popular - como “O maior dos brasileiros”.

    Dom Pedro II gostava de escrever sobre suas atividades. Ao todo ele escreveu 43 cadernetas com anotações pessoais. Atualmente, esses diários fazem parte do Museu Imperial, em Petrópolis, e estão disponíveis ao público, até pela Internet. Em 2010, os diários escritos por Dom Pedro II foram considerados Memórias do Mundo pela Unesco.

    Poucos dias antes da sua morte, ocorrida em 5 de dezembro de 1891, durante o seu banimento e exílio forçado, na França, Dom Pedro II escreveu numa dessas cadernetas:

          “No alto de uma folha de papel escrevam a data do meu nascimento e o dia que subi ao trono; no fim, quando faleci. Deixem todo o intervalo em branco, para o que ditar o futuro; ele que conte o que fiz, as intenções que sempre me dominaram e as cruéis injustiças que tive de suportar em silencio, sem poder jamais defender-me”.

(Texto e postagem: Armando Lopes Rafael)
 

11 novembro 2020

O sonho e a vida - Por: Emerson Monteiro


Sou um homem que sonhou que era uma borboleta? Ou sou uma borboleta sonhando agora ser um homem?
 Chuang Tzu

Dos dilemas desta vida, estamos sonhando ou vivemos as consequências dos sonhos? Face a face com nós mesmos em meio da realidade que aparece aos nossos olhos tangemos o rebanho dos dias e noites. Perante as lajes que pisamos e somem aos nossos pés, trituramos em pedaços os momentos feitos almas vivas de sonhos de quem, talvez, nem sabemos quem sonha. Se alegres os sonhos, a realidade fica feliz; no entanto passos novos trazem outros instantes aos quais acendemos outras velas de esperanças.

Nisso, o dilema do monge que sonhou ser uma borboleta, acordando na dúvida de ser o quê, se homem ou borboleta, e também que se desfaz em substância nas malhas entre o tempo e o espaço, tecido infinito do manto que cobre as horas. Assim, entre duas realidades, fincamos marcos da nossa luz na estrada intermitente dos destinos. Alguns quais pássaros em voos imaginários sobrevoam o firmamento, plantam sementes de outros sonhos no coração das criaturas e vivem os sonhos que outros em nós também plantaram.

Pelas janelas desses sonhos, veloz transcorre a paisagem da nossa consciência, observadores privilegiados de tantos compassos e melodias. Agarrados, pois, às muralhas dessa nave que o somos, nalgum lugar firmaremos os mastros das jornadas definitivas. Espécies de cativos e senhores de si mesmos, louvamos os deuses e o Deus que a tudo conduz, desde lugar daqui ou distante, a equilibrar masmorras e tronos ao sabor dos invisíveis propósitos.

Há nisto, portanto, a fronteira do sonho com a realidade, trilho da existência nas existências, caminho único de todos ao sabor de planos que nem a nós cabem ainda saber, só viver com toda a gana de nossa vontade, até chegar aos tetos da mais absoluta perfeição.

Além do Brasil e seu povo, a outra grande vítima da “proclamação da república” foi Dom Pedro II

     A data 15 de novembro, que transcorrerá domingo, assinala os 131 anos do golpe militar que implantou a forma republicana na nossa pátria, a qual nunca foi comemorada pela população brasileira. Todos os anos, repórteres dos noticiários televisivos saem às ruas para perguntar ao povo a razão do feriado de “15 de novembro”. A grande maioria dos consultados responde simplesmente que não sabe. 

    Voltando ao Imperador Dom Pedro II. No imaginário popular ele continua sendo “O maior dos brasileiros”. Abaixo, um soneto, atribuído a Dom Pedro II, que tem por título: “Terra do Brasil”, escrito quase ao fim da existência terrena do velho imperador, e que ainda comove a muitos. 

“Espavorida agita-se a criança,
De noturnos fantasmas com receio,
Mas se abrigo lhe dá materno seio,
Fecha os doridos olhos e descansa.


Perdida é para mim toda a esperança
De volver ao Brasil; de lá me veio
Um pugilo de terra; e neste creio
Brando será meu sono e sem tardança...

Qual o infante a dormir em peito amigo,
Tristes sombras varrendo da memória,
ó doce Pátria, sonharei contigo!

E entre visões de paz, de luz, de glória,
Sereno aguardarei no meu jazigo
A justiça de Deus na voz da história!”

    Descanse em paz, Magnânimo Imperador! A Justiça de Deus na voz da História já se cumpriu.
 

Texto e postagem: Armando Lopes Rafael

10 novembro 2020

Dona Matilde, a inimiga que protegeu Bárbara de Alencar – por Armando Lopes Rafael

 

 Casa de Dona Bárbara de Alencar, localizada na Praça da Sé, em Crato. Num atentado ao pouco que resta do patrimônio arquitetônico e histórico de Crato, o imóvel foi destruído para dar lugar ao atual prédio da Coletoria de Rendas da Secretaria da Fazenda do Ceará

   O episódio que, de forma resumida, relato abaixo consta – com mais detalhes – nas páginas 70 e 71 do livro “As Quatro Sergipanas”, escrito pelo sacerdote e historiador Mons. Francisco Holanda Montenegro*.

    Dona Bárbara de Alencar tinha com Dona Matilde Telles, mãe do Juiz Ordinário de Crato, Manoel Joaquim Teles, uma intriga e rivalidade antigas por causa de política. Não se entendiam, não se cumprimentavam e nem se falavam. Aliás, uma das primeiras providências do subdiácono José Martiniano de Alencar – filho de Dona Bárbara – quando “proclamou” a Revolução Pernambucana de 1817 em Crato, foi destituir do cargo esse Juiz.

       Rechaçada a Revolução, pelo Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro, os filhos de Dona Bárbara foram presos e ela se escondeu dos inimigos pensando escapar da prisão.  Na madrugada de 21 de maio de 1817, Dona Bárbara encontrava-se oculta nas imediações do Sítio Pau Seco, propriedade sua, onde passou o dia num canavial. À noite, saiu do esconderijo e tendo perdido a esperança de ver voltar seu fiel escravo – o negro Barnabé – seguiu vagando sem destino pelas matas que existiam, à época, em torno da Vila Real do Crato. Nessa andança veio parar no Sítio Miranda, mais precisamente nos fundos da casa de sua inimiga, Dona Matilde. Dona Bárbara soube que estava ali porque viu uma escrava da casa apanhando água. A escrava reconheceu Dona Bárbara e foi avisar a sua patroa.

           Segundo Mons. Montenegro, Dona Bárbara apresentou-se, então, a Dona Matilde. Esta última, com o coração aberto a tantos sofrimentos porque passava a família Alencar, abraçou a sua inimiga com lágrimas de ternura e num gesto magnânimo de generosidade, respeito e fidalguia levou-a para abrigá-la na sua casa. Fez mais. Dona Matilde mandou chamar seu filho, o Juiz Ordinário do Crato, que tinha sido readmitido no cargo, e disse a ele:

– Mande queimar todos os papéis e atas arquivados pelos contrarrevolucionários que comprometam Dona Bárbara e seus filhos

     Tempos depois, o futuro Senador e Presidente da Província do Ceará, José Martiniano de Alencar, filho de Dona Bárbara, preso nos cárceres do litoral teria reconhecido o gesto magnânimo de Dona Matilde: “Sem provas nós não poderíamos ser licitamente condenados à morte”.

* Monsenhor Francisco Holanda Montenegro, no livro "As Quatro Sergipanas". Edição da Universidade Federal do Ceará, Coleção Alagadiço Novo. Fortaleza (CE), 1996.


“Não há o que comemorar” no Dia da Proclamação da República. 'Foi um golpe', diz deputado Luiz Philippe


Em entrevista ao programa Resenha Política, da TV JC, o deputado federal Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PSL-SP), um membro destacado da Família Imperial Brasileira, afirmou que não há o que comemorar neste 15 de novembro e sugeriu a revogação do feriado da Proclamação da República.

“Não há o que comemorar (no dia 15 de novembro). Quem sabe, quando tivermos a consciência ampla de que isso foi um golpe de estado prejudicial à estabilidade política do Brasil, a gente revogue esse feriado”, falou.

“Movimentação de consciência” 

 “(Parar de comemorar a Proclamação da República) não quer dizer que você é monarquista ou não, mas que reconhece o que houve naquele momento: um golpe”, declarou o deputado federal por são Paulo. Chamado de "príncipe" por aliados, Luiz Philippe reiterou que os brasileiros não deveriam comemorar o feriado de 15 de novembro como uma “movimentação de consciência”. 

“A sociedade tem que parar de celebrar o 15 de novembro. Isso seria a primeira movimentação de consciência. Quando você para de celebrar o 15 de novembro, no mínimo, já demonstra que você sabe o que é celebrado, um golpe de estado”, disse o deputado.



O lobo-rei que morreu de amor - Por: Emerson Monteiro


Li certa vez na revista Seleções a história de um lobo-rei (espécie rara existente na América do Norte), tipo graúdo, muito esquivo e feroz, que principiou a dizimar os rebanhos de determinada região dos Estados Unidos. Dada a sagacidade do animal, o esforço de vencê-lo se tornara obsessivo, porém inútil. 

Nesse clima de repetidas ameaças e destruição, assustados, os rancheiros da redondeza cuidaram de montar plano intenso de mobilização a fim de liquidá-lo a qualquer custo.

Muitas armadilhas foram espalhadas em pontos estratégicos; todo tipo de mecanismo, possível e imaginável, artimanhas diversas, utilizaram, sem, no entanto, produzir resultados efetivos. 

Juntos os esquemas, perseguidores seguiam à risca cada passo da fera, enquanto seus estragos prosseguiam pelas fazendas, gerando prejuízos sérios à atividade pastoril daquela área. Em muitos momentos, chegaram perto de alcançá-lo. Dias a fio, e ainda sem obter nada de concreto.

Após meses de investidas, os caçadores descobriram numa montanha distante a furna que servia de covil ao lobo e a sua companheira, local que sempre lhes defendia na implacável perseguição dos vaqueiros.

Em noite escura, diante da saída do parceiro à cata do alimento, a fêmea ali permaneceu, aguardando o seu retorno. Vieram, então, os vaqueiros, que agiram com rapidez, aprisionando-a. 

Com isso, o lobo enfurecido acrescentou ainda mais os ataques ao gado das fazendas, aumentando o terror que imperava. Mas quando aprisionada a fêmea, o parceiro terminou vindo à mercê das armadilhas, em busca daquela que lhe dava o sentido de viver. Debalde, porém, os caçadores esperam sua presença.      

Como passar do tempo, face à prisão da companheira, o lobo alterou os modos de agir, reduzindo pouco a pouco as cautelas antes infalíveis, rotinas e cuidados que lhe haviam permitido sobreviver. E numa noite de lua, quando chegou demasiado junto da jaula onde puseram a fêmea, para servir de isca, terminou por se entregar de frente aos perseguidores, que o abateram com relativa facilidade. 

Guardei durante um tempo essa história, pois me despertou na busca das razões de tantos comportamentos em que animais manifestam espécie de senso moral, emoções raras, isso que seres humanos ditos racionais, calejados de sentimentos torpes, por vezes, no cotidiano, agem a níveis tão baixos, destituídos da menor civilidade, o que, decerto, envergonharia até bicho bruto que pudesse nos avaliar em iguais circunstâncias.

 

09 novembro 2020

Portas do coração - Por: Emerson Monteiro


Eis a descoberta que responderá a todas as perguntas na revelação de si através da compreensão dos universos em formação dentro das pessoas, habitação dos deuses e morada feliz da mais perene Eternidade. Isto virá no momento quando acessar o conhecimento de Si por meio das reservas interiores com as quais chegamos aqui e as transportamos conosco ao seguir adiante, porquanto somos o começo e o fim de tudo quanto há, durante todo tempo. Se ainda resvalamos no desfiladeiro das dúvidas e das impossibilidades, isso fica por conta das aparentes limitações nas quais insistimos existir no todo perfeito de nós próprios.

Deem o nome que quiserem, no entanto em nada persiste acreditar em fracasso face à exatidão das existências, conquanto fossem criados desde sempre sob o crivo do equilíbrio e da perfeição. Resta a todos percorrer os trilhos da consciência e desvendar o sacrário do poder que já carregam no seio da alma humana. Cada um é o todo, enquanto as portas lhes cabem abrir no decorrer das tantas histórias a viver. Ciência pura da conquista da Salvação.

Salvação das fragilidades do Chão, dos apegos ao nada, prazeres fátuos que desfazem o tempo e o espaço no escorrer das gerações. Nisso, porém, perdura um senso de absoluto que fervilha nas mãos de todos, à medida que desfazem as ilusões de um chão em queda livre, fagulhas ao vento incessante das vidas em formação.

E por que o coração significar o sagrado em constante descoberta? Porque em seu território está localizada a saída deste mundo, sendo ele o portal da imortalidade, o mistério no qual viemos aqui buscar a chave da Felicidade. Coração que simboliza os sentimentos, e o sentimento mais alto será o Amor maior. Tudo tão claro a quem possa enxergar, entretanto invisível aos que fixam as vistas nos valores frágeis das fantasias do caminho, pedras e poeira de um passado persistente. Deixam, por vezes, de ver o essencial e esquecem a que vieram em definitivo.


08 novembro 2020

Domingo próximo, 15 de novembro, será feriado. De que?


   Para piorar o 15 de novembro, em 2020, vai cair num domingo, dia das eleições municipais. Quem vai lembrar que é feriado? Mas, oficialmente, é mais um feriado nacional. Por que?

   7 de setembro, Independência do Brasil; 21 de abril, dia de Tiradentes; 21 de junho, dia do município de Crato; 9 de março (São José); 1º de setembro (Nossa Senhora da Penha); 12 de outubro (Nossa Senhora Aparecida) mas, 15 de novembro é o quê mesmo?

   Estas datas cívicas são facilmente lembradas pela população. Mas, e o 15 de novembro? Pouca gente se recorda que se trata de outra data importante na história brasileira. É o aniversário do golpe militar que implantou a República na nossa pátria. Esse golpe completa 132 anos neste domingo. O povo, entretanto, tem razão para perguntar. 

    Não temos em Crato nenhuma Rua 15 de Novembro, nem Rua Marechal Deodoro; nem Rua Marechal Floriano; nem Praça da República... Aliás,  bom informar a maioria da população  que o Marechal Deodoro da Fonseca foi o primeiro presidente da República. E o Marechal Floriano Peixoto, o segundo. E veja que depois da implantação, na marra, da República, muitas ruas que tinham nomes poéticos ou populares, na nossa cidade, tiveram suas denominações alteradas para lembrar personagens republicanos, como João Pessoa, Bárbara de Alencar, Tristão Gonçalves, Getúlio Vargas, dentre outros.

   A bem dizer, não existe em Crato nenhum memorial, nenhum busto ou monumento, que recorde a República. Sequer houve mobilização, por menor que fosse, para festejar a data da “proclamação” da República, alguma vez na Cidade de Frei Carlos....


Um exemplo da honradez dos homens públicos no Império do Brasil

      O romancista Joaquim Manuel de Macedo, célebre autor de “A Moreninha”, Deputado Geral (o que equivaleria hoje a Deputado Federal) pela Província do Rio de Janeiro e membro do Partido Liberal, era um dos muitos professores a cargo da educação das filhas do Imperador Dom Pedro II, as Princesas Dona Isabel de Bragança, Princesa Imperial do Brasil, e Dona Leopoldina de Bragança.

     Em agosto de 1864, quando o Conselheiro Francisco José Furtado, igualmente membro do Partido Liberal, foi nomeado Presidente do Conselho de Ministros (isto é, Primeiro-Ministro) pelo Soberano, e se ocupou então de organizar o seu Gabinete, ele convidou Macedo a ocupar a prestigiosa posição de Ministro de Estado dos Negócios Estrangeiros.

     Informado de que o convite fora recusado, o Imperador mandou chamar Macedo a sua presença, indagando-lhe qual fora o motivo da recusa, levando-se em consideração que o escritor possuía muitas qualidades para ser um bom Ministro, ao que Macedo respondeu o seguinte:
– Admita-se que tenha as qualidades que Vossa Majestade me atribui. Mas eu não sou rico, e a riqueza é um requisito indispensável a um Ministro que queira ser independente. E eu não quero sair do Ministério endividado ou ladrão!

(Baseado em trecho do livro “Revivendo o Brasil-Império”, escrito por Leopoldo Bibiano Xavier) 



07 novembro 2020

Vem aí mais um 15 de novembro

 As monarquias são mais baratas do que as repúblicas – por Paulo Napoleão Nogueira da Silva (*)

(Este artigo é velho, mas os gastos com a Presidência da República do Brasil só fizeram aumentar de 2004 para cá) 

   

A Monarquia Britânica custa anualmente a quantia de U$ 1,20 a cada um dos seus súditos. Em sequência vêm as Monarquias Sueca e Belga – US $0,77 –, a Monarquia Espanhola – US $0,74 –, a Monarquia Japonesa – US $0,41 – e a Monarquia Holandesa – US $0,32. A título de comparação, a Presidência dos Estados Unidos custa ao contribuinte americano quase cinco dólares por ano. Por outro lado, o custo da Presidência da República do Brasil para o Tesouro Nacional foi avaliado, em 2004, em R$ 2,6 bilhões. 

Nas Repúblicas, ao contrário das Monarquias, não há o respeito pela coisa pública. Suas autoridades “agem segundo a concepção de que, se o erário é do público, e eles são formalmente os representantes do público, podem dispor desse erário como se fosse seu, enquanto forem representantes desse público. Disso resulta, paradoxalmente, que na república a coisa pública não é pública, não é do público, mas de quem o representa”.

    A comparação dos custos do regime republicano e do regime monárquico adquire contornos claros quando é observada a situação brasileira. Entre 1840 e 1889 a Família Imperial Brasileira recebia a quantia de 67 contos de réis mensais, muito embora a arrecadação, nesse período, tenha crescido 15 vezes. No entanto, já em 16 de novembro de 1889, o Marechal Deodoro da Fonseca assinava decreto aumentando a renda destinada ao Chefe de Estado para 120 contos de réis mensais porque, argumentou ele, a renda destinada à Casa Imperial era “muito pouca”.

    Com essa renda, Dom Pedro II conseguia manter palácios, servidores e a Família Imperial, além de destinar 30% de todos os seus rendimentos para as vítimas da Guerra do Paraguai e, como mostra o Decreto n.º 5, da República, “pensionar, do seu bolso, a necessitados e enfermos, viúvas e órfãos.” Eram no total 409 pessoas. Pouco depois de deposto, o Imperador Dom Pedro II recusou uma indenização oferecida pelo “Governo Provisório” republicano da ordem de cinco mil contos de réis, o equivalente, à época,  a quatro toneladas e meia de ouro, com as seguintes palavras: “Que autoridade têm esses homens, que se dizem governo, para dispor assim do dinheiro da nação?”.


(*) Paulo Napoleão Nogueira da Silva, autor do livro “Monarquia: verdades e mentiras”. São Paulo: Edições GRD, 1994.

Eu vi Deus num ser humano – José Luís Lira (*)

    Quantas vezes não pensamos no título, eu vi Deus num ser humano quando nos deparamos com pessoas "humanas demais?". Na primeira viagem interestadual que realizei desde o início da pandemia tive a graça de conhecer o Pe. Júlio Lancellotti. Paulista, de 71 anos, simples, atencioso, discípulo do Servo de Deus Luciano Mendes de Almeida (Dom Luciano), apóstolo de Jesus Cristo na pessoa do irmão sofrido, do irmão em situação de rua. É o vigário episcopal da Arquidiocese de São Paulo para esta população e outros filhos de Deus menos favorecidos.

    Logo no início de sua formação, o Pe. Júlio quis ser sacerdote, operário da Messe do Senhor Jesus. Por razões diversas não concluiu os estudos de seminário. Fez curso de auxiliar de enfermagem, na Santa Casa de Bragança Paulista, a mesma onde viveu a amada Santa Paulina do Coração Agonizante de Jesus e formou-se em pedagogia. Foi professor, continua seu magistério, com ensinamentos de vida, de vida eterna, de santidade.  Um dia, em 1980, conheceu Dom Luciano Mendes, então bispo auxiliar de São Paulo e o desejo de seguir o Mestre de Nazaré reacendeu e assim ele o fez. Depois dos estudos de Seminário, foi ordenado sacerdote por Dom Luciano e decidiu, nos fazendo lembrar o apostolado de Santa Teresa de Calcutá e Santa Dulce dos Pobres, acolher Deus nos irmãos mais sofridos. Pe. Júlio faz um trabalho belíssimo nas casas Vida que fundou e tem a missão de ser pároco, capelão e vigário episcopal de uma população que tanto necessita de atenção e ele tal um bom pai a todos acolhe, ouve, orienta, santifica. Onde houver um irmão necessitado, aí está a Paróquia do Pe. Júlio.

    Antes mesmo de vir a São Paulo, fui perguntado pela jornalista Fabiana Kelly se eu o conhecia e não hesitei em manifestar meu desejo de conhecê-lo. As lágrimas não se comportam enquanto escrevo este texto. Quem escreve sabe que o texto surge, antes de tudo, na mente. Enquanto eu vinha para São Paulo, a expectativa de encontrar o Padre era tão grande que o texto foi tomando conta da mente. Agora, por conta do prazo do jornal, colocando-o no papel, ainda no calor da emoção do encontro, o ideal de tentar traçar um rápido perfil de um homem santo que percorre as ruas de São Paulo levando a Trindade Santa a todo filho de Deus, dizendo que ele é amado e importante para Deus, tenta se concretizar.

     Apaixonado que sou pelas figuras iluminadas dos santos, senti-me maravilhado em perceber que o Pe. Júlio é, realmente, devoto destes seres iluminados que irradiam a Luz de Deus por onde passaram. Ele conserva cartões com santinhos, medalhas, relíquias, algo tão raro nos dias de hoje. E quão feliz fiquei em saber que ele também é devoto do meu amado onomástico, São José Sánchez del Río, o Joselito, José Luis, mexicano dos tempos cristeros.

      Pe. Júlio confidenciou que perguntado uma vez o que Jesus dirá a ele quando se encontrarem, ele disse que Jesus perguntaria se algum dia ele O reconhecera entre os irmãos menos favorecidos. O que dizer? Faltam palavras...
 
      Há alguns dias o Pe. Júlio recebeu uma ligação do Papa Francisco, o que penso tenha sido o maior dos inúmeros prêmios que lhe foram entregues, entre os quais a titulação de Doutor Honoris Causa da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Saio de São Paulo com a sensação de que vi Deus num homem!

  (*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.


06 novembro 2020

Há um ser vivo bem dentro do coração - Por: Emerson Monteiro


No que pesem as guerras históricas sucessivas desses povos guerreiros, mexe vivo lá dentro das feras uma engrenagem que os agita todo instante. Mesmo não fossem as grandes competições pelo território enfumaçado e pelos mercados indomáveis, haveria de aparecer no vasto horizonte novas vontades extremas de alimentar o outro animal, diferente daquele sedento de sangue e sádico de miséria, bicho sombrio das noites escuras e dos filmes de agora. Os mecanismos da fama insistem nisso, na suposição profética de que virão homens azuis, que, inclusive, já foram avistados no Egito Antigo e ficaram gravados nos desenhos das catacumbas, nas pirâmides empoeiradas, e certo dia, em pleno calor das onze horas, exemplar deles saiu às pressas de um restaurante no centro de Buenos Aires levando consigo mantimentos que iriam abastecer os companheiros à espera que ficaram em nave estacionada ali próximo. Depois, nunca mais outras notícias vieram à tona, a não ser através dos relatórios de pilotos comerciais, e só.

No entanto insisto dizer que sinto tal ser vivo que remexe querendo sair de dentro do imenso coração que pulsa e domina as circunstâncias das horas e dos dias. Possível seja, haja chance, ele até tomará de vez por todas de conta o Universo inteiro, porém as reservas do tempo ainda permitem que permaneçam acantonados, eles, invés de abafar os outros armados que persistam criar problemas nas fronteiras e aliciar profissionais da morte através das páginas de guerra que circulam pelo mundo, os tais mercenários. Esses, a troco de eliminar adversários dos regimes, saem destruindo a paz e espalhando fome, órfãs e viúvas, enquanto o ser vivo aguarda sua hora de entrar em cena.

Nesse meio de época, pulula nos corações multiplicando possibilidades e esperança, pois carrega poder estonteante em forma de luz, que vem dele na direção das consciências. Mantém os arquivos em ordem e recuperam programas antigos de saudade, lembranças dos amores que existiram entre os seres humanos fiéis, sabores doces dos apaixonados lenços acenando e das promessas de quem retornará com ânimo definitivo na intenção de permanecer para sempre nas almas santificadas. 


05 novembro 2020

O valor das nossas conquistas - Por: Emerson Monteiro


Naquelas horas de aflição que, de comum, sujeitam aparecer, eis um bom momento de rever o que já aconteceu antes na história. Quantos laços desfeitos, quantas lutas vencidas. Momento ideal de tecer algumas avaliações e fazer o balanço dos tempos idos. Examinar com zelo as firmes razões de ter esperança em dias melhores, isto, sobretudo, quando buscamos plantar boas sementes no chão da realidade. Alimentar a força da certeza de existir um poder superior que a tudo conduz, dentro quanto fora da gente. 

Adotar hábitos desse tipo; estudar o itinerário percorrido até então e aproveitar o melhor em termos de resultados, ainda que diante das ocasiões difíceis. Considerar o tanto que significa o otimismo, a compreensão dos meios de que dispomos no manuseio das nossas existências.
 
Querer um mar em repouso representaria apenas ausência dos desafios necessários ao aproveitamento das experiências vividas. Aprender a coordenar os pensamentos e sentimentos, e aguardar tempos bons, sempre e sempre. Nisso a jornada ganhará os meios de tranquilidade e sustentação de uma vontade firme, isto que os livros religiosos transmitem, na estrutura da Fé, dispositivo por de mais importante nas dificuldades que se apresentem.
 
Mais dia, menos dia, tudo esvairá no silêncio de um passado sem tamanho que deixamos atrás, espécie de poeira que repousa no vazio das imaginações qual jamais tendo existido não fosse a lembrança dele. Alinhadas vaidades, mágoas, alegrias, seremos desertos de nós mesmos a observar o que restou por dentro da gente, testemunhas que somos das longas epopeias. Fieis servidores da sorte, guardamos em nossas cicatrizes os dilemas e agruras de antes, feitos atores de cenas ora inexistentes que o passado transportou ao anonimato da distância.

Conquanto, pois, sejamos rigorosos, exigentes e indócis nas práticas atuais, carecemos de mínima compreensão desse mecanismo que nos transporta vidas adiante feitos meros instrumentos de nossa própria evolução, nas malhas do aperfeiçoamento individual. 

Ilustração: Cristo em meio a uma tempestade no Mar da Galileia, de Rembrandt.

Ainda sobre o 15 de novembro - 2

 Crato republicano? algumas considerações
(Excertos de um artigo publicado há 17 anos na revista A Província – nº 18, ano 2000)

Bandeira do Império do Brasil

   O “ôba-ôba” tão característico destes tempos medíocres em que vivemos, quando a maioria das pessoas não tem mais profundidade em nenhum assunto, nos obriga a ouvir, vez por outra, alguém falar sobre a “tradição republicana” de Crato. A verdade é que não existe essa “tradição republicana em Crato”, que não passa de uma falácia!

   Começo por lembrar que o aniversário do golpe militar que implantou a República – em 15 de novembro de 1889 – nunca foi comemorado em Crato. Nesta cidade o povo comemora muitas datas: 7 de setembro, 21 de junho, 1º de setembro (Nossa Senhora da Penha), 19 de março (São José), dentre outras.  Agora a “Comemoração” no dia 15 de novembro nunca se viu nesta Mui Nobre e Heráldica Cidade de Frei Carlos Maria de Ferrara....

     E por que isso acontece? Crato, durante 149 anos (de 1740 quando foi fundado, a 1889, quando houve o golpe militar que empurrou goela abaixo da população a forma de governo republicana) viveu sob a Monarquia. Não se apaga facilmente um século e meio na vida de um povo. Por isso, no “imaginário popular cratense”, persiste a ideia de que a Monarquia é algo de elevado nível, respeitoso, honesto e bom.

     Tanto isso é verdade que, ainda hoje, quando o nosso povo reconhece certos méritos ou qualidades numa pessoa costuma dar-lhe o título de “Rei/Rainha”. Por isso muito se fala em Crato (e no Brasil) no “Rei Pelé”, no “Rei Roberto Carlos”, no “Rei do Baião”...E o que dizer dos concursos que se realizam para escolha da “Rainha do Colégio”, “Rainha da ExpoCrato”? e de nomes de lojas que aqui existiram ou existem: “O Rei da Feijoada”, “O Império das Tintas”?, "O Rei dos Filhós"... Ou nomes como “Rádio Princesa FM”, “Colégio Pequeno Príncipe”?  

      Portanto, é um mito sem consistência essa alardeada “tradição republicana” de Crato. Precisamos ter coragem para proclamar isto, pois ela não reflete a realidade. 

Texto e postagem: Armando Lopes Rafael


04 novembro 2020

Aprender a viver nos tempos rudes - Por: Emerson Monteiro


Invólucros de matéria presos a mundo solto no espaço, bem isto que o somos, aventureiros do destino de olhos fixos nas visões imediatas. Durante o movimento dos objetos e das horas, vagamos pelas estradas e ruas, atores dos dramas/comédias em que nunca cessaremos de perguntar pelo autor, em que mundo, em que estrelas Tu te escondes, embuçado nos céus. Claro que há mérito inigualável de ser assim; lógico que existe razão principal de tudo isto acontecer, porquanto a Verdade independe das nossas opiniões e somos quase um nada a querer compreender tudo toda hora. 

Bem que se sabe o quanto de mistérios e segredos compõe os quadros deste mundo rústico e as sociedades humanas. Valores indefinidos pela busca constante de liberdade, em meio às licenciosidades do egoísmo que, até agora, caracteriza as ações da espécie. No pretexto de sobreviver aos desafios, fulanos e sicranos rompem as fronteiras da fraternidade e viram só feras em conflito nas florestas da riqueza. 

E o que observar se não a sede do poder a qualquer custo, bem característica dos turnos eleitorais. Disputas acirradas em meio a promessas vãs, absurdas, e tendência à divisão de grupos e à fome descabida nos bolsões da população marginalizada. Quem líder de quem? Mesmo porque ainda somos pequenos de nossas grandezas. Romper a barreira da mediocridade nem interessa a quem quer que seja; apenas gana e fastio, pretensão e submissão forçada aos falsos mitos dos turnos eleitorais.

Quer-se que seja doutro jeito, e eu também. Alimentar o sonho de outro universo em que valha mais o ser do que o ter; a divisão ser submetida ao direito das coletividades. Porém o anseio das revoluções justas baila distante nos livros, nas doutrinas sagradas, nos véus da natureza Mãe. Enquanto os grupos montam seus esquemas nos escuros da madrugada, outros resistem heroicos a mais um tempo de crer na certeza de quando, afinal, viveremos dias de Paz e Trabalho, nas luzes da promissão.